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Alguns elementos para o debate Fé e Razão – I

fevereiro 1st, 2010 | 1 Comentário | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião

 

O status questionae da questão central do debate sobre Fé e Razão parece poder ser bem resumido pelo parágrafo abaixo, do professor Luiz López-Farjeat, de Princeton:

Contemporary discussions on epistemology have raised a relevant problematic in the field of what might be called the epistemology of religion. The problem lies in the field of doxology and it may have arisen in the following way: We have an epistemological responsibility to justify our beliefs; religious beliefs are inherently unjustifiable; therefore, it seems to be irresponsible to hold religious beliefs.

De certo modo, e com certas modificações, tanto o juízo de A. J. Ayer sobre o fato de asserções religiosas (e éticas) serem “senseless” quanto a crítica da epistemologia reformada, de A. Plantinga, ao que chamam de evidencialismo, se desenvolvem a partir deste mesmo núcleo. Desejo então simplesmente propor alguns pontos que penso serem fundamentais – ou ao menos relevantes -  para tal discussão:

- Uma das condições necessárias atualmente para o debate é uma concordância, em maior ou menor grau, sobre o pressuposto de que há dois campos de significação (ou ao menos de pretensão de significação, para os críticos da validade epistemológica da fé) absolutamente heterogêneos. A tentativa de encontrar um ponto de tangência entre os dois domínios deve partir de sua distância.

- Para além da diferenciação, há hoje em dia uma implícita hierarquização referente aos dois termos, Razão e Crença. O primeiro tem uma precedência tal, que o ponto desejável de contato é a justificação segunda ante a primeira.

- Parece haver historicamente uma certa conformação quanto ao conceito de Razão que, por definição, baniu a possibilidade de conjunção. A Razão é tida como, a priori, impermeável pela Crença a não ser no caso de ser induzida a erro.

Assim:

- Não parece ser relevante que ambos os registros ou domínios ocorrem de fato num mesmo sujeito. Com isso quero apontar que, ao menos de fato, ambos os registros encontram-se unidos por um mesmo sujeito que os opera. É possível pensar na hipótese de uma resposta num discurso antropológico, em sentido filosófico.

- Para filósofos como Santo Tomás, a hierarquia das faculdades é invertida, por exemplo. Com isso quero dizer que a aparente obviedade da precedência da Razão se construiu sobre um fundo histórico bem determinado, com elementos como o êxito social das ciências naturais e justamente a crítica à religião a partir do Iluminismo.

- Tal processo de conformação histórica do conceito atual de Razão, influenciada maciçamente pelos cânones das ciências naturais, moldou uma concepção que se afastou do conceito clássico de lógos ou ratio. Uma reabertura do conceito é então fundamental para retomar a possibilidade de contato entre Razão e Crença religiosa. Talvez no sentido de diversas racionalidades para diversos objetos nos moldes aristotélicos: o objeto da razão teorética não é o mesmo da razão prática, o que implica numa modificação de método de investigação mas não em abandono da razão.







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Sobre a Cognoscibilidade natural de Deus

janeiro 26th, 2010 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja

Prezados.

Pretendo fazer uma pequena série de posts sobre as relações entre Fé e Razão. Como Deus e sua existência são os primeiros objetos aos quais a teologia deve se voltar, começo por postar uma síntese dogmática católica sobre a possibilidade de se conhecer a existência de Deus.

A síntese abaixo, traduzida por mim a partir da edição americana da famosa obra de Ludwig Ott, Grundriss der katholtschen Dogmatik (que pode ser encontrada na Amazon.com pelo banner ao lado) tem como objetivo afirmar as verdades básicas enunciadas pela Igreja acerca do tema. Como uma síntese que é, não pretende senão apresentar as teses e os argumentos e provas existentes tais como a Igreja professa, sem a pretensão de desenvolvê-los tampouco esgotá-los.

Contudo, creio ser fundamental, como pedra angular da posição afirmativa da cognoscibilidade de Deus para a razão natural, explicitá-la com a maior clareza possível a fim de dirimir possíveis erros e rebater possíveis falsas acusações quanto às posições adotadas.

Devo notar também que, a partir da enunciação dos pontos abaixo, voltaremos a alguns destes pontos a fim de tentar explicitá-los ainda mais.

 

*  *  *

 

A EXISTÊNCIA DE DEUS

A Cognoscibilidade natural de Deus

 

§ I. Possibilidade de conhecer a Deus apenas com a luz da razão natural.

1. Dogma: Deus, nosso Criador e Senhor pode ser conhecido com certeza à luz da razão natural através das coisas criadas (de fé).

O Concílio Vaticano definiu: "Si quis Dixerit, Deum unum et al creatorem verum Dominum nostrum, per ea quae facta sunt Naturali rationis humanae lumine certo cognosci non posse ", a. s.; Dz 1806, cf. 1391, 1785.

A definição do Concílio Vaticano tem os seguintes elementos:

a) o objeto de nosso conhecimento é um, verdadeiro Deus, Criador Nosso Senhor e é, portanto, um Deus diferente do mundo e pessoal;

b) o princípio subjetivo do conhecimento está em um estado natural da razão coisas da natureza decaída;

c) os meios de conhecimento são as coisas criadas;

d) este conhecimento é, por si, um conhecimento certo;

e) é possível, embora não seja a única maneira de conhecer a Deus.

2. Provas pela Escritura

Segundo o testemunho da Escritura é possível saber a existência de Deus:

a) através da natureza. Sb 13, 1-9; ver. 15 diz: “Pela grandeza e beleza das coisas criadas, pelo raciocínio (analogós) se chega a conhecer o Criador destas”. Romanos 1, 20: "Pois desde a criação do mundo, o Deus invisível, seu eterno poder e divindade são conhecidas pelas criaturas, assim que são indesculpáveis. O conhecimento de Deus, testemunhado em ambos os lugares, é um conhecimento natural, verdadeiro, mediato e facilmente apreensível.

b) através da consciência. Rm 2, 14s: "Quando os gentios, guiados pela razão natural cumprem os preceitos da lei, eles mesmos, ser ter a lei [mosaica], são para si mesmos a lei. E com isso mostram que os preceitos da lei estão escritos em seus corações. " Os gentios conhecem naturalmente e, portanto, sem revelação sobrenatural, o essencial da lei do Antigo Testamento. Em seu coração há gravada uma lei cuja força obrigatória os faz conhecer o Supremo Legislador.

c) por meio da história. At 14, 14-16, 17, 26-29. São Paulo nos seus discursos de Listra e no Areópago de Atenas, declara que o próprio Deus havia dado testemunho de si aos povos gentios com incessantes benefícios e que é fácil encontrá-Lo, pois está muito perto de cada um de nós "porque nele vivemos movemos e existimos "(17, 28).

3. Prova pela Tradição

Os Santos Padres, de acordo com os ensinamentos da Sagrada Escritura, sempre insistiram que era possível e fácil de adquirir um conhecimento natural de Deus. Cf. Tertuliano, Apol. 17: "Oh testemunho da alma, que é naturalmente cristã ". Os padres gregos preferiram os argumentos da existência de Deus chamados cosmológicos, que partem da experiência externa; os padres latinos preferiram argumentos psicológicos, que partem da experiência interior. Cf. Teófilo de Antioquia, Ad Autolycum 1 4-5: "Deus fez todas as coisas do nada, dando-lhes a existência, de modo que através de suas obras conheceríamos e entenderíamos sua grandeza. Pois assim como na alma do homem não se vê a alma, porque é invisível aos olhos humanos, mas através dos movimentos corporais temos conhecimento da mesma, de forma semelhante Deus é também invisível para os olhos do homem, mas chegamos a vê-Lo e conhecê-Lo graças a sua providência e suas obras. Pois assim como a visão de um barco que desliza habilmente sobre as ondas dirigindo-se ao porto inferimos com toda evidência que haja em seu interior um piloto que o governa, da mesma maneira temos que pensar que Deus é o diretor do universo inteiro, ainda que não O vejamos com os olhos corporais, porque é invisível para eles.”Veja também Santo Irineu, Adv.. Haer. n 9, 1; São João Crisóstomo, In ep. ad Rom., hom. 3, 2 (mais de 1, 19).

4. A idéia “inata” de Deus?

Invocando a autoridade dos Santos Padres, muitos teólogos católicos, como Ludovico Thomassin, H. Klee, A. Staudenmaier, J. von Kuhn, ensinaram que a idéia de Deus não é adquirida raciocinando sobre o mundo da experiência, mas que é inata ao homem. É verdade que muitos pais da Igreja, como São Justino (Apol. 11 6) e Clemente de Alexandria (Strom. V 14, 133, 7), designaram a idéia de Deus como "conatural" (emfytos), “não aprendida" (adídakhtos), “aprendida por si mesma” (autodídakhtos, automathés) ou "dom da alma” (animae dos, Tertuliano, Adv. Marc. I 10). São João Damasceno diz, "O conhecimento da existência de Deus foi plantada por ele mesmo na natureza de todos” (De fide orth. I, 1). No entanto, esses mesmos pais ensinam que adquirimos o conhecimento de Deus através da contemplação da natureza, e, portanto, não significa que é inata em nós a idéia de Deus como tal, mas a capacidade de conhecê-Lo com facilidade e, de certo modo, espontaneamente, através de suas obras. Cf. S. Tomás, In Boethium De Trinitate, q. 1, a. 3 “eius cognitio nobis innata dicitur esse, in quantum per principia nobis innata de facili pericpere possumus Deus esse".

§ 2. Possibilidade de demonstrar a existência de Deus

Pode-se demonstrar a existência de Deus através do princípio do nexo de causalidade (sentença próxima à fé).

Os tradicionalistas L. E. Bautain (+1867) e A. Bonnetty (+1879), por requerimento eclesiástico, tiveram de concordar com a seguinte proposição: “A razão humana pode provar com certeza a existência de Deus” ( ‘ratiocinatio potest cum prova certitudine existentiam Dei "), DZ 1622, 1650. Sua Santidade o papa Pio X, no juramento prescrito (1910) contra os erros do modernismo, completou a definição que o Concílio Vaticano, havia dado sobre a possibilidade natural de conhecer a Deus, e precisa que a razão humana pode provar formalmente a existência de Deus através do princípio da causalidade: "Deum, rerum omnium principium et finem, naturali lumine rationis per ea quae facta sunt, hoc est per visibilia creationis opera, tanquam causam per effectus certo cognosci, adeoque demonstrari etiam posse” Dz. 2145.

 

A possibilidade de provar a existência de Deus se deduz:

a) Do dogma da cognoscibilidade natural de Deus; pois a prova da existência de Deus se distingue do conhecimento elementar que temos de Deus em que a base epistemológica daquele se apresenta de forma científica.

b) Do fato de que os teólogos, desde a época patrística, apresentaram argumentos para demonstrar a existência de Deus, cf. Aristides, Apol. 1, 1-3; Teófilo de Antioquia, Ad Autolycum 1 5; Minucio Félix, Octavius 17, 4 ss, 18, 4, Santo Agostinho, De vera religione 30-32; Conf X 6, XI, 4; São João Damasceno, De fide orth. 1 3.

A Escolástica foi capaz de mostrar em seus representantes mais notórios uma adesão fiel a esta verdade da demonstrabilidade da existência de Deus. S. Tomás de Aquino deu a forma clássica à argumentação escolástica para esta tese (S. Th 1 2, 3; SCG 1 13). Somente na escolástica tardia, alguns representantes influentes do nominalismo (Guilherme de Ockham, Nicolas de Autrecourt, Pierre d’Ailly), movido por seu ceticismo, começaram a por em dúvida a segurança desses argumentos.

Os argumentos para a existência de Deus se apóiam na validez absoluta do princípio de causalidade, formulado assim por S. Tomás: "Omne quod movetur, ab alio movetur” (moveri = mover-se = passar da potência ao ato). Enquanto Kant, influenciado por David Hume, restringe a validade deste princípio ao mundo da experiência, S. Tomás funda sua validade para o que está além do mundo da experiência,para o transcendente, na redução ao princípio da contradição, evidente por si mesmo; S.Th. 1 2, 3.







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Um resumo do meu pensamento, por H. U. von Balthasar

dezembro 16th, 2009 | 2 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja

Hans Urs von Balthasar é, certamente, um dos grandes nomes da Teologia do século XX. Com  uma obra monumental, neste artigo de 1988 o teólogo suíço faz uma síntese de seu percurso reflexivo que nos parece fundamental percorrer em absoluto.

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balthasar

Quando um homem publica muitos livros grandes, as pessoas se perguntam: o que, fundamentalmente, ele quis dizer? Se ele é um romancista prolífico, por exemplo, um Dickens ou um Dostoiévski, escolhe-se um ou outro de seus trabalhos sem se preocupar muito com sua obra como um todo. Mas com um filósofo ou um teólogo, o caso é totalmente diferente. Deseja-se tocar o coração de seu pensamento, porque se pressupõe que tal coração deva existir.

A questão tem sido frequentemente dirigida a mim por alguns, desconcertados pelo grande número dos meus livros: Por onde alguém deve começar a fim de entendê-lo? Eu tentarei condensar meus vários fragmentos, “in a nutshell” (em poucas palavras), como dizem os ingleses, tanto quanto for possível de ser feito sem me trair muito. O perigo de tal compressão consiste em ser muito abstrato. É necessário amplificar o que se segue com minhas obras biográficas, por um lado (sobre os Padres da Igreja, sobre Karl Barth, Buber, Bernanos, Guardini, Reinhold Schneider, e todos os autores tratados na trilogia) e, por outro, com as obras sobre espiritualidade (tais como as sobre a oração contemplativa, sobre Cristo, Maria e a Igreja) e, finalmente, com as numerosas traduções dos Padres da Igreja, de teólogos da Idade Média e dos tempos modernos. Mas aqui é necessário limitarmo-nos a apresentar o esquema da Trilogia: Estética, Dramática e Lógica.

Comecemos com uma reflexão sobre a situação do homem. Ele existe como um ser limitado em um mundo limitado, mas sua razão está aberta ao ilimitado, para a totalidade do ser. A prova consiste no reconhecimento de sua finitude, de sua contingência: eu existo, mas poderia não existir. Muitas coisas que não existem poderiam existir. Essências são limitadas, mas o ser (l’être) não. Esta divisão, a “distinção real” de São Tomás, é a fonte de todo pensamento religioso e filosófico da humanidade. Não é necessário lembrar que toda a filosofia humana (se nós abstrairmos o domínio bíblico e sua influência) é essencialmente religiosa e teológica, porque coloca o problema do Ser Absoluto, seja atribuindo a este um caráter pessoal ou não.

Quais são as principais soluções que a humanidade apresenta para este enigma? Pode-se tentar deixar para trás a divisão entre Ser (Être) e essência, entre o infinito e o finito; poder-se-ia então dizer que todo o ser é infinito e imutável (Parmênides) ou que tudo é movimento, ritmo entre contrários, devir (Heráclito).

No primeiro caso, o finito e limitado será, como tal, o não-ser, como uma ilusão que se deve detectar: esta é a solução do misticismo budista com suas milhares de nuances no oriente. É também a solução plotiniana: a verdade é apenas apreendida no êxtase onde se toca o Uno, que é ao mesmo tempo, Tudo e Nada (relativo ao todo o resto que só parece existir). O segundo caso se contradiz a si próprio: puro devir em pura finitude só pode se conceber em identificando os contrários: vida e morte, boa fortuna e adversidade, sabedoria e insensatez (como Heráclito o fez).

Assim, é necessário começar por uma inescapável dualidade: o finito não é o infinito. Em Platão o mundo sensível, terrestre não é o mundo divino, ideal. A questão é, então, inevitável: De onde vem a divisão? Por que não somos Deus?

A primeira tentativa de uma resposta: deve ter havido uma queda, um declínio, e o caminho para a salvação só pode ser o retorno do finito sensível para o infinito inteligível. Este é o caminho de todas as místicas não-bíblicas. A segunda tentativa de uma resposta: o Deus infinito tinha necessidade do mundo finito. Por quê? Para se aperfeiçoar a si mesmo, para atualizar todas as suas possibilidades? Ou mesmo para ter um objeto para amar? As duas soluções levam ao panteísmo. Em ambos os casos, o Absoluto, Deus em si mesmo, torna-se indigente, finito. Mas se Deus não tem necessidade do mundo então: Por que o mundo existe?

Nenhuma filosofia pode dar uma resposta satisfatória para esta questão. São Paulo diria para os filósofos que Deus criou o homem de tal modo para que este procurasse o Divino, tentasse atingir o Divino. É por isso que toda a filosofia pré-cristã é, em suma, teológica. Mas, de fato, a verdadeira resposta à filosofia só pode ser dada pelo Ser ele mesmo, revelando a si mesmo por si mesmo. Seria o homem capaz de entender essa revelação? A resposta afirmativa seria dada apenas pelo Deus da Bíblia. Por um lado, este Deus, Criador do mundo e do homem, conhece sua criatura: “Eu que criei o olho, não vejo? Eu que criei o ouvido, não ouço?” e nós adicionamos “Eu que criei a linguagem, não poderia falar e me fazer ouvir?” E isto coloca a contrapartida: para ser capaz de ouvir e entender a auto-revelação de Deus, o homem precisa em si mesmo estar à procura de Deus, ser esta uma questão que se coloca a ele. Assim, não há teologia bíblica sem uma filosofia religiosa. A razão humana deve ser aberta ao infinito.

É aqui que a substância do meu pensamento se insere. Deixe-me dizer antes de tudo que o termo tradicional “metafísico” significa o ato de transcender a física, que para os gregos significava a totalidade do cosmos, do qual o homem fazia parte. Para nós, física é outra coisa: a ciência do mundo material. Para nós o cosmos atinge sua perfeição no homem que, ao mesmo tempo, sintetiza o mundo e o ultrapassa. Assim nossa filosofia será essencialmente uma meta-antropologia, pressupondo não somente as ciências cosmológicas, mas também as ciências antropológicas e ultrapassando-as através da questão do ser e da essência do homem.

O homem existe apenas em diálogo com seu vizinho. A criança é trazida à consciência de si mesma apenas pelo amor, pelo sorriso de sua mãe. Neste encontro um horizonte ilimitado se abre para ela, revelando-lhe quatro coisas: (1) que ele é um no amor com sua mãe, mesmo em sendo outro que sua mãe, entretanto, seu ser é uno; (2) que o amor é bom, então o ser é bom; (3) que o amor é verdadeiro, então todo ser é verdade; e (4) que o amor evoca prazer, gozo, então todo ser é belo.

Somemos aqui que a epifania do ser só tem sentido se em aparência (Erscheinung) nós apreendemos a essência que se manifesta em si mesma (Ding an sich). A criança chega ao conhecimento não de uma pura aparência, mas de sua mãe ela mesma. Isto não exclui que nossa apreensão da essência se dê apenas através da manifestação e não diretamente em si mesma (São Tomás).

O Uno, o Bem, a Verdade, e o Belo, estes são o que nós chamamos os atributos transcendentais do Ser, porque eles ultrapassam todos os limites das essências e são coextensivos com o Ser. Se há uma distância insuperável entre Deus e sua criatura, mas se há também uma analogia entre eles que não pode ser resolvida em nenhuma forma de identidade, então deve também existir uma analogia entre os transcendentais – entre aquelas da criatura e daquelas em Deus.

Há duas conclusões a se tirar disso: uma positiva, outra negativa. A positiva: o homem existe apenas pelo diálogo interpessoal, portanto, pela linguagem, fala (em gestos, mímica ou em palavras). Porque então negar-se a fala com o Ser Ele mesmo? “No início era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a palavra era Deus” (Jo 1,1).

A negativa: supondo que Deus é verdadeiramente Deus (o que significa que ele é a totalidade do Ser que não necessita de criatura), então Deus seria a plenitude da Unidade, do Bem, da Verdade e da Beleza e, por consequência, as criaturas limitadas participam nos transcendentais apenas de uma forma parcial, fragmentária. Tomemos um exemplo: o que é a unidade em um mundo finito? É a da espécie (cada homem é totalmente homem, que é sua unidade), ou é o indivíduo (cada homem é indivisivelmente ele mesmo)? Unidade é então polarizada no domínio da finitude. Pode-se demonstrar a mesma polaridade para o Bem, a Verdade e a Beleza.

Eu construí então uma filosofia e uma teologia iniciando de uma analogia e não do Ser abstrato, mas do Ser como ele é encontrado concretamente em seus atributos (não categoriais, mas transcendentais). E como os transcendentais perpassam todo o Ser, eles devem ser internos a cada um dos outros; o que é verdadeiramente verdadeiro é verdadeiramente bom e belo e uno. Um ser aparece, ele tem uma epifania; nela há a beleza e nos faz maravilhar. Em aparecendo ele se dá a si mesmo, entrega a si próprio para nós: e isto é bom. E em se dando a si mesmo, ele fala de si, se desvela: é verdadeiro (em si mesmo, mas em outro para quem se revela).

Desse modo, pode-se construir, sobretudo uma teologia aesthetique (Gloria): Deus aparece. Ele aparece para Abraão, para Moisés, para Isaías e, finalmente, em Jesus Cristo. Uma questão teológica: como nós distinguimos sua aparição, sua epifania dentre centenas de outros fenômenos no mundo? Como nós distinguimos o verdadeiro e único Deus vivo de Israel dos ídolos que o cercam e de todas as tentativas filosóficas e teológicas de alcançá-lo? Como nós percebemos a incomparável gloria de Deus na vida, na Cruz, na Ressurreição de Cristo, a glória diferente de toda a glória deste mundo?

Pode-se então continuar com uma dramatique uma vez que Deus trava uma aliança conosco: como a absoluta liberdade de Deus em Jesus Cristo confronta a relativa, mas verdadeira, liberdade do homem? Haverá, talvez, uma luta mortal entre os dois, em que cada um vai defender contra o outro o que concebe e escolhe como o bem? Qual será o desenrolar da batalha, a vitória final?

Pode-se terminar com uma logique (uma teo-lógica). Como Deus pode fazer a si mesmo compreensível ao homem, como pode a Palavra infinita expressar a si mesma em um mundo finito sem perder seu sentido? Este é o problema das duas naturezas de Jesus Cristo. E como o espírito limitado do homem pode apreender o sentido ilimitado da Palavra de Deus? Este é o problema do Espírito Santo.

Esta é, portanto, a articulação da minha trilogia. Eu quis mencionar apenas as questões colocadas pelo método, sem chegar até as respostas porque isto iria muito além dos limites de um sumário introdutório como este.

Em conclusão, todavia, é necessário abordar brevemente a resposta cristã à questão colocada no início em relação às filosofias religiosas da humanidade. Eu disse que a resposta cristã, porque as respostas do Antigo Testamento e, a fortiori do Islã (que permanece essencialmente no invólucro da religião de Israel) são incapazes de fornecer uma resposta satisfatória à questão de por que Yahweh, por que Allah criou um mundo do qual ele não tinha necessidade para ser Deus. Apenas o fato é afirmado nas duas religiões, e não o porquê.

A resposta cristã está contida nestes dois dogmas fundamentais: no da Trindade e no da Encarnação. No dogma trinitário Deus é uno, bom, verdadeiro e belo porque é essencialmente Amor, e Amor supõe o “um”, o “outro” e sua unidade. E se é necessário supor o Outro, a Palavra, o Filho, em Deus, então a alteridade da criação não é uma queda, uma desgraça, mas uma imagem de Deus, mesmo não sendo ela mesma, Deus.

E como o Filho em Deus é o eterno ícone do Pai, Ele pode sem contradição assumir em si mesmo a imagem da criação, purificá-la, e fazê-la entrar em comunhão com a vida divina sem dissolvê-la (em um falso misticismo). É aqui que é necessário distinguir natureza e graça.

Todas as verdadeiras soluções oferecidas pela fé cristã residem, então, nestes dois mistérios, categoricamente recusadas pela razão humana que se faz a si mesma absoluta. É por causa disso que a verdadeira batalha entre religiões começa apenas depois da vinda de Cristo. A humanidade ira preferir renunciar a todas as questões filosóficas – no marxismo ou positivismo de todas as estirpes, a aceitar uma filosofia que encontre sua resposta final apenas na revelação do Cristo.

Prevendo isto, o Cristo mandou seus discípulos para todo o mundo como ovelhas entre lobos. Antes de fazer um pacto com o mundo é necessário meditar sobre esta comparação.

Originalmente publicado em Communio 15 (inverno de 1988). © 1988 Communio: International Catholic Review. Tradução minha, a partir do inglês.







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Algumas considerações sobre as perspectivas atuais da Teologia e da Filosofia da Religião

dezembro 7th, 2009 | 7 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião

 

É sabido que sempre corremos o risco de nos identificarmos às posições que frequentemente criticamos. As visitações frequentes ao que podemos chamar de terreno inimigo podem fazer com que passemos mais tempo do lado de lá do que em nossa própria casa. De certo modo, é essa a atmosfera na qual escrevo algumas poucas considerações sobre que o estou denominando perspectivas da teologia e da filosofia da religião atuais.

De início, devo dizer que parto de uma decisão certamente arbitrária: estou considerando Teologia e Filosofia da Religião aquela teologia e aquela filosofia da religião que julgo minimamente séria. Estou pondo de lado Teologias da Libertação, Feministas e Regionalistas, bem como Sociologias ou Antropologias meramente descritivas da Religião ou do “fenômeno” religioso. Também coloco de lado as teologias e filosofias da religião não-cristãs. É importante notar que as minhas justificativas possíveis para a adoção de tais critérios na separação do que julgo ou não sério, são exatamente os problemas que aponto a seguir.

Quero, antes, dizer que o que afirmo aqui são idéias em curso e devem ser debatidas. Afirmo também que cada um dos pontos abaixo pode e deverá ser ampliado a fim de dar conta de toda a complexidade dos problemas colocados. Dito isso:

 

1. O debate religioso é quase que exclusivamente negativo e elaborado a partir de pautas colocadas pela crítica à religião (fé X razão, refutação de argumentos científicos ou crítica dos pressupostos epistemológicos científicos etc.). Nos termos que S. Pio X já apontava na magnífica Pascendi Dominici Gregis, a teologia se faz hoje quase como se “o fim a alcançar é a conciliação da fé com a ciência, ficando porém sempre incólume a primazia da ciência sobre a fé”. Há também uma quase ausência de colocações positivas acerca da ética, epistemologia ou metafísica cristãs. Podemos dizer que abateu-se sobre o lado religioso do debate, uma certa timidez cognitiva que raramente ousa propor a colocação efetiva de posições cristãs no lugar dos princípios adversários. Na prática, pouco nos movemos fora do domínio que queremos dissolver. O debate sério atual é estritamente apologético e pouco ou nada catequético. Por catequese entendo a apresentação e o ensino sistemático das verdades de fé. Isso traz um consequente abandono do que podemos chamar de dimensão evangelizadora sob o nome de proselitismo (novamente, definição a partir do léxico que queremos combater). Se a Igreja nasce, como dito na Dominus Iesus, do mandado de Cristo de avançar e anunciar o Evangelho a toda criatura, de acordo com as perspectivas que se apresentam, ela está fadada a minguar até a morte, caso isso fosse possível (mesmo esta tese que acabo de enunciar, a da impossibilidade de que a Igreja venha a acabar, parece atualmente sem valor cognitivo nenhum para a maioria dos teólogos), Atualmente assumimos o discurso de que devemos nos abster de toda tentativa de conversão já que a “escolha” religiosa se passa no domínio do sujeito emotivista. Por emotivismo entendo a corrente que pretende reduzir todo o âmbito da ação e da escolha humana a pontos de vista sobre os quais se assente ou não, acarretando o consequente banimento da autoridade da razão e da argumentação racional em tais assuntos. O que nos leva ao próximo ponto.

2. Outra das características nefastas, derivada da concepção de religião como habitando no domínio da escolha a partir da vontade, mas que também alimenta o ponto anterior naquilo que chamo de timidez cognitiva é a abstenção de um dos princípios mais fundamentais de todo e qualquer discurso religioso, sobretudo do cristão, que é a pretensão de Verdade em sentido lato. Com Verdade em seu sentido mais amplo, quero significar uma verdade objetiva, em toda sua extensão de explicação sobre o real e independente do sujeito que a enuncia bem como de seu assentimento. Os pensadores e polemistas cristãos parecem empregar seus esforços – sem dúvida alguma, valiosíssimos – em simplesmente preservar ou abrigar as teses religiosas das investidas de seus críticos. Podemos ilustrar o que apontamos com um tipo de debate bastante em voga, a saber, entre a visão cristã de mundo e aquela do darwinismo. Pululam ensaios que demolem fisiológica e arqueologicamente a posição dos evolucionistas, mas pouco se vê uma explicação positiva e convincente da posição cristã sobre o Gênesis (isto é, sobre o registro das origens) ou ainda de como as Escrituras são, ainda para nós homens do século XXI, uma reserva semântica preciosa mesmo no que diz respeito ao que hoje fica absolutamente restrito às ciências naturais; que se note bem, não no sentido de rivalizar com a metodologia científica mas apontando, por exemplo, dimensões que aquela metodologia não consegue alcançar. Devemos notar que, mesmo o fato de o discurso sobre a estrutura do real ser hoje devido apenas às ciências é, em parte, culpa e responsabilidade do pavor e da ignorância cognitiva dos teólogos e dos filósofos da religião que, desde a crítica iluminista, só se defendem (lembre-se de Schleiermacher que afirma que a religião não deve pretender rivalizar com a ciência ou com a metafísica na interpretação do mundo). Desse modo, é visível que a questão da Verdade foi apartada do seu peso existencial e das possíveis consequências para um ser humano existente que deveria se relacionar com ela (e aí sim deveria aderir à Verdade também por sua vontade, mas nunca ao largo dela) e passou a habitar apenas no terreno da atividade judicativa sobre questões factuais (se é “verdadeiro” ou “falso” que o homem evoluiu de outras espécies, por exemplo) e não mais sobre princípios e causas. Se “todo aquele que é da Verdade escuta a minha voz”, como diz o Cristo (cf. Jo 18,37), Ele talvez hoje não seja mais ouvido porque a Verdade não parece ter mais nada a ver com o Senhor..

3. Por fim, isto se manifesta também no terreno das Ciências da Religião. Qualquer tentativa de entrar no debate com tal pretensão (de Verdade) é, a priori, fadada ao fracasso. Alguém que pretendesse empreender um estudo sobre a plausibilidade bíblica da primazia petrina, por exemplo, contra a crítica luterana, seria condenado, dentro da Filosofia da Religião, ao âmbito da Teologia (como se isso fosse um rebaixamento). Já na Teologia, ouviria-se que tal questão é irrelevante para uma teologia contemporânea em suas vertentes mais vanguardistas e seria banido do debate como um radical ou reacionário (como se fosse mais um degrau de rebaixamento). Houve então um recrudescimento tanto quantitativo quanto qualitativo nas questões e nos problemas da reflexão religiosa. Elas diminuíram em número, já que algumas foram excluídas e tornaram-se diluídas em seu caráter mais essencial. Isto não é difícil de notar a partir do fato de que as questões e problemas da Teologia e da Filosofia da Religião, tal como estas disciplinas têm se dado atualmente, podem quase serem reduzidas às questões da Sociologia, Filosofia da Ciência ou Antropologia. Com isso quero apontar que também entre aqueles que deveriam buscar a Verdade pelo estudo e pesquisa séria também têm os ouvidos tapados à voz do Cristo. Onde ele será ouvido então?

 

*  *  *

 

ATUALIZAÇÃO: Segue abaixo meus comentários aos valiosos comentários do Marcelo Viana, que podem ser vistos na caixa de comentários deste mesmo post.

Caro Marcelo.

Quero começar agradecendo firmemente seu comentário. Ele não só traz boas contribuições, mas serve de ocasião para continuar a reflexão.

Você inicia seu comentário dizendo da dificuldade de interpretar para além dos domínios da cosmovisão modernista. De fato, para isso, há justamente a necessidade de romper com o acordo irrestrito e inconsciente com o domínio cognitivo e semântico da modernidade, como já previra São Pio X (por favor, passe a Pascendi Dominici Gregis na frente em sua fila de leituras).

Creio que você acerta em dizer que grande parte da dificuldade se dá por nossa própria culpa. Entretanto, penso que erra ao tomar como modelo próximo o padre da paróquia mais próxima e seu ideário. Os modelos próximos são justamente as grandes matrizes do nosso pensamento que mantêm sua proximidade justamente por sua urgência atual: a filosofia séria, a teologia séria e o Magistério da Igreja.

Penso que o ponto fundamental no qual que você se afasta do que estou dizendo é no que vem a seguir. Julgo ser possível sintetizar aquilo que você diz em uma de suas sentenças:

Quanto à Verdade de Cristo, uma vez tirada a venda, não é difícil de enxergá-la. A Teologia se desenvolveria muito fácil e naturalmente num mundo que estivesse disposto, pelo menos, a ver a religião como um fundamento da própria existência.

Os dois aspectos estão aí expressos: “tirar a venda” e a quase “naturalidade da veracidade existencial do Cristo. De início, você mesmo expressa a complexa tensão entre a necessidade de uma ação positiva e uma quase “auto-evidência” da Verdade, o que dificulta que as coisas sejam assim como você diz.

Por “tirar a venda” você entende a desconstrução e a propaganda ativa de tal desconstrução, inclusive nas escolas etc. Aqui deveríamos apelar para os modelos corretos, como você bem lembrou. São Paulo, Santo Agostinho, São Justino e outros, jamais julgaram que seu afazer se limitava a desconstruir a tese adversária e que, depois, naturalmente viria à tona a Verdade evidente de Cristo. Primeiro porque desconstruir é, ainda, manter-se no domínio adversário: da desconstrução só salta à vista a fragilidade do objeto e, logicamente, jamais o valor de verdade de outra tese (que não a da possibilidade de desconstrução daquele objeto, sob pena de ofensa ao princípio do terceiro excluído). Deve haver, então, necessariamente, a colocação efetiva da tese que se quer afirmar. Quero amparar o que digo com dois pontos, um filosófico e um exemplo tirado de um dos modelos realmente exemplares:

a. As considerações sobre o conceito de evidência de São Tomás (ST, I, q.2, art. 1) podem nos auxiliar. Uma coisa pode ser dita evidente de duas maneiras: evidente em si, mas não para nós, e evidente em si e para nós. Evidente em si, é a proposição cujo predicado está contido essencialmente no sujeito (por exemplo, ”O homem é animal”, pois “animal” está contido essencialmente em “homem”). Entretanto, se alguém desconhece que se dê tal relação entre o predicado e o sujeito, a proposição pode ser evidente em si mesma e não para nós. É de suma importância para o que estou querendo dizer, o contexto em que ocorrem tais considerações de S. Tomás. É no domínio da prova da existência de Deus que o Aquinate fala de evidência. A proposição “Deus existe” é evidente em si, mas não para nós, por isso é necessária demonstração e ensino. A proposição “O cristianismo é verdadeiro” até pode ser considerada evidente em si, mas certamente não o é para nós. O maior sinal disso é justamente a existência do debate. E também não se pode dizer que ela se torna praticamente evidente pela desconstrução do projeto moderno, bem como da propaganda de tal destruição.

b. São Paulo em Atenas (At. 17, 15-34) é talvez o modelo exato para nosso problema. São Paulo irrita-se e angustia-se pelos erros dos atenienses. Seus debatedores julgavam estranhas suas teses (v. 20). O Apóstolo então começa pregando a partir do registro e do ambiente semântico de seus adversários, fazendo mesmo um elogio à religiosidade ateniense, muito embora a reconhecesse como idolatria: introduz a tese de que o Deus que prega é o que cria tudo o que existe, que não é feito por mãos humanas e, inclusive, usa o léxico da filosofia grega (ser, movimento) e faz referência à sua cultura (“Porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser, como até alguns dos vossos poetas disseram: Nós somos também de sua raça… “, v. 28).

É fundamental notar que, até aqui, embora seus ouvintes já soubessem que ele anuncia algo novo e diferente (v. 18), seguem-no em sua exposição e não há contenda. Embora haja uma discordância, ela está implícita e não causa maiores estragos. Mas perceba o que acontece quando, efetivamente, São Paulo enuncia sua tese fundamental:

Quando o ouviram falar de ressurreição dos mortos, uns zombavam e outros diziam: A respeito disso te ouviremos outra vez. (v. 32)

O que quero dizer, usando o exemplo de São Paulo, é que, embora seja necessário partir do registro da modernidade, no qual nós também nos movemos, não basta simplesmente que o desconstruamos e o destruamos, já que nosso objetivo não pode ser a mera aniquilação do projeto modernista. Como São Paulo, deve-se enunciar de maneira efetiva a tese que se julga verdadeira, com seus argumentos e reflexões, enfrentando inclusive a zombaria e o descrédito com a firmeza na fé e na razão. Creio ser aí o ponto fundamental da relação entre “fides et ratio”.

Por fim, o que você diz é um tanto complicado pois parece achar justo e correto um movimento ativo tendo em vista desconstruir e fazer propaganda da falsidade do projeto moderno, mas acha no mínimo estranho uma atitude semelhante na tarefa de positivamente afirmar como Verdade (ou “fazer propaganda”) o projeto cristão; “isso é algo que cabe a Deus controlar”. Abstem-se inclusive da pretensão de “imposição” de tal projeto às pessoas, ao mesmo tempo em que pensa ser estritamente necessária a “imposição” da crítica e da desconstrução através de uma propaganda sistemática, até no conteúdo programático das escolas. Por que esta diferença? Não estaria aí a manutenção da tese emotivista – claramente modernista – da escolha pessoal sobre a qual não pode ingerir o discurso racional? Ao assumirmos isto não estaríamos permanecendo no terreno adversário sem nos movermos um só centímetro para além dele? Não se está assumindo que isso é “proselitismo” e seu decorrente tom pejorativo?

Em uma palavra, sua resposta exibe um tanto daquela esquizofrenia que acomete a todos nós, inclusive eu. Entendemos o problema, percebemos uma ou duas atitudes coerentes, mas duvidamos um tanto da validade epistemológica e, porque não dizer, metafísica, da outra alternativa. É a isso que chamei de “pavor cognitivo”.

É razoável pensar que talvez encontrássemos hoje, com mais facilidade, mártires pela falsidade da tese moderna do que mártires pela veracidade do Cristianismo.







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Cardeal Ratzinger sobre a Teologia da Libertação

outubro 14th, 2009 | 1 Comentário | Postado em Igreja

 

cardinaleratzingerEm 1984, o então Cardeal Joseph Ratzinger escreveu um artigo denominado “Algumas  observações preliminares sobre a teologia da libertação”. Abaixo, transcrevemos o artigo tal como publicado em RATZINGER-MESSORI, A fé em crise: o Cardeal Ratzinger se interroga, EPU, 1985, p. 135-145.

A análise, como era de se esperar, é absolutamente brilhante e espero que seja de grande importância para a reflexão dos que a leiam. Aqueles que se dispuserem podem iniciar uma discussão e deixar comentários neste post.

PS: Ainda sobre o tema, creio ser de fundamental importância ler também a análise e crítica da Congregação para a Doutrina da Fé sobre umas das principais obras do Pe. Jon Sobrino, SJ, um dos articuladores principais da TL

*  *  *

Para esclarecer a minha tarefa e a alinha intenção, com relação ao tema, parecem-me necessárias algumas observações preliminares:

A teologia da libertação é fenômeno extraordinariamente Complexo. É possível formar-se um conceito da teologia da libertação segundo o qual ela vai das posições mais radicalmente marxistas até aquelas que propõem o lugar apropriado da necessária responsabilidade do cristão para com os pobres e os oprimidos no contexto de uma carreta teologia eclesial, como fizeram os documentos do CELAM, de Medellin a Puebla.
_________________

1) O presente número já estava impresso quando foi publicado o documento da Santa Sé sabre a Teologia da Libertação. Será objeto de estudos no próximo número.
Neste nosso texto, usaremos o conceito “teologia da libertação” em sentido mais restrito: sentido que compreende apenas aqueles teólogos que, de algum modo, fizeram própria a opção fundamental marxista. Mesmo aqui existem, nos particulares, muitas diferenças que é impossível aprofundar nesta reflexão geral. Neste contexto posso apenas tentar pôr em evidência algumas linhas fundamentais que, sem desconhecer as diversas matrizes, são muito difundidas e exercem certa influência mesmo onde não existe teologia da libertação em sentido estrito.

2) Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna-se manifesto um perigo fundamental paro a fé da Igreja. Sem dúvida, é preciso ter presente que um erro não pode existir se não contém um núcleo de verdade. De fato, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núcleo de verdade assumida. Além disso, o erro não se poderia apropriar daquela parte de verdade, se essa verdade fosse suficientemente vivida e testemunhada ali onde é o seu lugar, isto é, na fé da Igreja. Por isso, ao lado da demonstração do erro e do perigo da teologia da libertação, é preciso sempre acrescentar a pergunta: que verdade se esconde no erro e como recupera-la plenamente?

3) A teologia da libertação é um fenômeno universal sob três pontos de vista:

a) Essa teologia não pretende constituir-se como um novo tratado teológico ao lado dos outros já existentes; não pretende, por exemplo, elaborar novos aspectos da ética social da Igreja. Ela se concebe, antes, como uma nova hermenêutica da fé cristã, quer dizer, como nova forma de compreensão e de realização do cristianismo na sua totalidade. Por isto mesmo muda todas as formas da vida eclesial: a constituição eclesiástica, a liturgia, a catequese, as opções morais;

b) A teologia da libertação tem certamente o seu centro de gravidade na América Latina, mas não é, de modo algum, fenômeno exclusivamente latino-americano. Não se pode pensá-la sem a influência determinante de teólogos europeus e também norte-americanos. Além do mais, existe também na Índia, no Sri Lanka, nas Filipinas, em Taiwan, na África – embora nesta última esteja em primeiro plano a busca de uma “teologia africana”. A união dos teólogos do Terceiro Mundo é fortemente caracterizada pela atenção prestada aos temas da teologia da libertação;

c) A teologia da libertação supera os limites confessionais. Um dos mais conhecidos representantes da teologia da libertação, Hugo Assman, era sacerdote católico e ensina hoje como professor em uma Faculdade protestante, mas continua a se apresentar com o pretensão de estar acima das fronteiras confessionais. A teologia da libertação procura criar, já desde as suas premissas, uma nova universalidade em virtude da qual as separações clássicas da Igreja devem perder a sua Importância,

I. O Conceito de Teologia da Libertação e os Pressupostos de sua Gênese

Essas observações preliminares, entretanto, já nos introduziram no núcleo do tema. Deixam aberta, porém, a questão principal: o que é propriamente o teologia da libertação? Em uma primeira tentativa de resposta, podemos dizer: a teologia da libertação pretende dar nova interpretação global do Cristianismo; explica o Cristianismo como uma práxis de libertação e pretende constituir-se, ela mesma, um guia para tal práxis. Mas assim como, segundo essa teologia, toda realidade é política, também a libertação é um conceito político e o guia rumo à libertação deve ser um guia para a ação política.

“Nada resta fora do empenho político. Tudo existe com uma colocação política” (Gutierrez). Uma teologia que não seja “prática (o que significa dizer “essencialmente política”) é considerada “idealista” e condenada como irreal ou como veículo de conservação dos opressores no poder, Para um teólogo que tenha aprendido a sua teologia na tradição clássica e que tenha aceitado a sua vocação espiritual, é difícil imaginar que seriamente se possa esvaziar a realidade global do Cristianismo em um esquema de práxis sócio-político de libertação. A coisa é, entretanto, mais difícil, já que os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da linguagem ascética e dogmática da Igreja em clave nova, de tal modo que aqueles que lêem e que escutam partindo de outra visão, podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas mas que, unidos a tanta religiosidade, não poderiam ser tão perigosas. Exatamente a radicalidade da teologia da libertação faz com que a sua gravidade não seja avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente, A sua colocação, já de partida, situa-se fora daquilo que pode ser colhido pelos tradicionais sistemas de discussão. Por isto tentarei abordar a orientação fundamental da teologia da libertação em duas etapas: primeiramente é necessário dizer algo acerca dos pressupostos que a tornaram possível; a seguir, desejo aprofundar alguns dos conceitos base que permitem conhecer algo da estrutura da teologia da libertação. Como se chegou a esta orientação completamente nova do pensamento teológico, que se exprime na leolog1a da libertação? Vejo principalmente três: fatores que a tornaram possível.

1) Após o Concílio, produziu-se uma situação teológica nova:

a) Surgiu a opinião de que a tradição teológica existente até então não era mais aceitável e, por conseguinte, se deviam procurar, o partir da Escritura e dos sinais dos tempos, orientações teológicas e espirituais totalmente novas;

b) A idéia de abertura ao mundo e de compromisso no mundo transformou-se freqüentemente em uma fé ingênua nas ciências; uma fé que acolheu as ciências humanas como um novo evangelho, sem querer ,reconhecer os seus limites e problemas próprios. A psicologia, a sociologia e a interpretação marxista da história foram considerados como cientificamente seguras e, a seguir, como instâncias não mais contestáveis do pensamento cristão;

c) A critica da tradição por parte da exegese evangélica moderna, especialmente o de Bultmann e da sua escola, tornou-se uma, instância teológica inamovível que barrou a estrada às formas até então válidas da teologia, encorajando assim também novas construções.

2) A situação teológica assim transformada coincidiu com uma situação da historia espiritual também ela modificada. Ao final da fase de reconstrução após a segunda guerra mundial, fase que coincidiu pouco mais ou menos com o término do Concilio, produziu-se no mundo ocidental um sensível vazio de significado, ao qual a filosofia existencialista ainda em voga não estava em condições de dar alguma resposta. Nesta situação, as diferentes formas do neo-marxismo transformaram-se em um impulso moral e, ao mesmo tempo, em uma promessa de significado que parecia quase irresistível à juventude universal. O marxismo, com as acentuações religiosas de Bloch e as filosofias dotadas de rigor científico de Adorno, Harkheimer, Habernas e Marcuse, ofereceram modelos de ação com os quais alguns pensadores acreditavam poder responder ao desafio da miséria no mundo e, ao mesmo tempo, poder atualizar o sentido correto da mensagem bíblica.

3) O desafio moral da pobreza e da opressão não se podia mais ignorar, no momento em que a Europa e a América do Norte atingiam uma opulência até então desconhecida. Este desafio exigia evidentemente nova respostas, que não se podiam encontrar na tradição existente até aquele momento. A situação teológica e filosófica mudada convidava expressamente a buscar o resposta em um cristianismo que se deixasse regular pelos modelos da esperança, aparentemente fundados cientificamente, das filosofias marxistas,

II. A Estrutura Gnoseológica Fundamental do Teologia do Libertação

Esta resposta se apresenta totalmente diversa nas formas particulares de teologia da libertação, teologia da evolução, teologia política, etc. Não pode, pois, ser apresentada globalmente, Existem, no entanto, alguns conceitos fundamentais que se repetem continuamente nas diferentes variações e exprimem comuns intenções de fundo. Antes de passar aos conceitos fundamentais do conteúdo, é necessário fazer uma observação a cerca dos elementos estruturais do teologia da libertação. Paro tal, podemos retomar o que já afirmamos acerca da situação teológica mudada após o Concilio. Como já disse, leu-se a exegese de Bultmann e da sua escola como um enunciado da “ciência” sobre Jesus, ciência que devia obviamente ser considerado como válida. O “Jesus histórico” de Bultmann, entretanto, apresentava-se separado por um abismo (o próprio Bultmann fala de Graben, fosso) do Cristo da fé. Segundo Bultmann, Jesus pertence aos pressupostos do Novo Testamento, permanecendo. porém, encerrado no mundo do judaísmo. O resultado final dessa exegese consistiu em abalar a credibilidade histórica dos Evangelhos: o Cristo da tradição eclesial e o Jesus histórico apresentado pela ciência pertencem evidentemente a dois mundos diferentes. A figura de Jesus foi erradicada da sua colocação na tradição por ação da ciência, considerada como instância suprema; deste modo, por um lado, a tradição pairava como algo de irreal no vazio, e, por outro, devia-se procurar para a figura de Jesus uma nova interpretação e um novo significado. Bultmann, portanto, adquiriu importância não tanto pelas suas afirmações positivas quanto pelo resultado negativo da sua crítica: o núcleo da fé, a cristologia, permaneceu aberto a novas interpretações porque os seus enunciados originais tinham desaparecido, na medida em que eram considerados historicamente insustentáveis. Ao mesmo tempo desautorizava-se o magistério da Igreja, na medida em que o consideravam preso a uma teoria cientificamente insustentável e, portanto, sem valor como instância cognoscitiva sobre Jesus. Os seus anunciados podiam ser considerados somente como definições frustadas de uma posição cientificamente superada.

Além disso, Bultmann foi importante para o desenvolvimento posterior de uma segunda palavra-chave. Ele trouxe à moda o antigo conceito de hermenêutica, conferindo-lhe uma dinâmica nova. Na palavra “hermenêutica” encontra expressão a idéia de que uma compreensão real dos textos históricos não acontece através de uma mera interpretação histórica; mas toda interpretação histórica inclui certas decisões preliminares. A hermenêutica tem a função de “atualizar”, em conexão com a determinação de dado histórico. Nela, segundo o terminologia clássica, se trata de um “fusão dos horizontes” entre “então” [“naquele tempo”] e o “hoje”. Por conseguinte, ela suscita a pergunta: o que significa o então (“naquele tempo”), nos dias de hoje? O próprio Bultmann respondeu a esta pergunta servindo-se da filosofia de Heidegger e interpretou, deste modo, a Bíblia em sentido existencialista. Tal resposta, hoje, não apresenta mais algum interesse; neste sentido Bultmann foi superado pela exegese atual. Mas permaneceu a separação entre a figura de Jesus da tradição clássica e a idéia de que se pode e se deve transferir essa figura ao presente, através de uma nova hermenêutica.

A este ponto, surge o segundo elemento, já mencionado, da nossa situação: o novo clima filosófico dos anos sessenta. A análise marxista do história e da sociedade foi considerada, nesse ínterim, conto a única dotada de caráter “cientifico”, isto significa que o mundo é interpretado à luz do esquema da luta de classes e que a única escolha possível é entre capitalismo e marxismo. Significa, além disso, que toda a realidade é política e que deve ser justificada politicamente. O conceito bíblico do “pobre” oferece o ponto de partida para a confusão entre a imagem bíblica da história e a dialética marxista; esse conceito é interpretado com a idéia de proletariado em sentido marxista e justifica também o marxismo como hermenêutica legitima para a compreensão da Bíblia. Ora, Segundo essa compreensão, existem, e só podem existir, duas opções; pai isso, contradizer essa interpretação da Bíblia não é senão expressão do esforço da classe dominante para conservar o próprio poder, Gutierrez afirma: “A luta de classes é um dado de fato e a neutralidade acerca desse ponto é absolutamente impossível”. A partir dai, torna-se impossível até a intervenção do magistério eclesiástico: no caso em que este se opusesse a tal interpretação do Cristianismo demonstraria apenas estar ao lado dos ricos e dos dominadores e contra os pobres e os sofredores, isto é, contra o próprio Jesus, e, na dialético da história, aliar-se-ia à parte negativo.

Essa decisão, aparentemente “científica” e “hermeneuticamente” indiscutível, determina por si o rumo da ulterior interpretação do Cristianismo, seja quatro às instancias interpretativas, seja quatro aos conteúdos interpretados. No que diz respeito as instâncias interpretativas, os conceitos decisivos são: povo, comunidade, experiência, história. Se até então a Igreja, isto é, a Igreja Católica na Sua totalidade, que, transcendendo tempo e espaço, abrange os leigos (sensus fidei) e a hierarquia (magistério), fora a instância hermenêutica fundamental, hoje tornou-se a “comunidade” tal instância. A vivência e as experiências da comunidade determinam agora a compreensão e a interpretação da Escritura. De novo pode-se dizer, aparentemente de maneira muito científica, que a figura de Jesus, apresentada nos Evangelhos, constitui uma síntese de acontecimentos e interpretações da experiência de comunidades particulares, onde no entanto a interpretação é muito mais importante do que o acontecimento, que, em si, não é mais determinável. Essa síntese original de acontecimento e interpretação pode ser dissolvida e reconstruída sempre de novo: a comunidade “interpreta” com a sua “experiência” os acontecimentos e encontra assim sua “práxis”. Esta idéia, podemos encontra-la em modo um tanto diverso do conceito de povo, com o qual se transformou a acentuação conciliar da idéia de “povo de Deus” em mito marxista. As experiências do “povo” explicam a Escritura. “Povo” torna-se assim um conceito aposto ao de “hierarquia” e em antítese a todas as instituições indicadas como forças da opressão.

Afinal, é “povo” quem participa da “lula de classes”; a “igreja popular” acontece em oposição à Igreja hierárquica. Por fim, o conceito de “história” torna-se instância hermenêutica decisiva. A opinião, considerada cientificamente segura e irrefutável, de que a Bíblia raciocine em termos exclusivamente de história da salvação, e portanto de maneira anti-metafísica. permite a fusão do horizonte bíblico com a idéia marxista da história que procede dialeticamente como autêntica portadora de salvação; a história é o autêntica revelação e portanto a verdadeira instância hermenêutica da interpretação bíblica. Tal dialético é apoiado, algumas vezes, pela pneumatologia. Em todo caso, também esta última, no magistério que insiste em verdades permanentes, vê uma instância inimiga do progresso, dado que pensa “metafisicamente” e assim contradiz a “história”. Pode-se dizer que o conceito de história absorve o conceito de Deus e de revelação. A “historicidade” da Bíblia deve justificar o seu papel absolutamente predominante e, portanto, deve legitimar, ao mesmo tempo, a passagem para a filosofia materialista-marxista, na qual a história assumiu a função de Deus.

III. Conceitos Fundamentais da Teologia da Libertação

Com isto, chegamos aos conceitos fundamentais do conteúdo da nova interpretação do Cristianismo. Uma vez que os contextos nos quais aparecem os diversos conceitos são diferentes, gostaria de citar alguns deles, sem a pretensão de esquematiza-los. Comecemos pela nova interpretação da fé, da esperança e da caridade. Com relação a fé, por exemplo, J. Sobrinho afirma: a experiência que Jesus tem de Deus é radicalmente histórica. “A sua fé converte-se em fidelidade”. Por isso Sobrinho substitui fundamentalmente o fé pela “fidelidade à história” (fidelidad a la historia, 143-144). Jesus é fiel à profunda convicção de que o mistério da vida do homem … é realmente o último … (144). Aqui produz-se aquela fusão entre Deus e história que dá a Sobrinho a possibilidade de conservar para Jesus a fórmula de Calcedônia, ainda que com um sentido completamente mudado; pode-se ver como os critérios clássicos da ortodoxia não são aplicáveis à análise dessa teologia, Ignacio Ellacuria, na capa do livro sobre este assunto, afirma: Sobrinho “diz de novo … que Jesus é Deus, acrescentando, porém, imediatamente, que o Deus verdadeiro é somente aquele que se revela historicamente em Jesus e nos pobres, que continuam a sua presença. Somente quem mantém unidas essas duas afirmações, é ortodoxo …“.

A esperança é interpretada como “confiança no futuro” e como trabalho pelo futuro; com isso elo é subordinado novamente ao predomínio da história das classes.

“Amor” consiste na “opção pelos pobres”, isto é, coincide com a opção pela luta de classes. Os teólogos da libertação sublinham com força, diante do “falso universalismo”, a parcialidade e o carater partidário da opção cristã; tomar partido é, segundo eles, requisito fundamental de uma correta hermenêutica dos testemunhos bíblicos. Na minha opinião, aqui se pode reconhecer muito claramente a mistura entre uma verdade fundamental do Cristianismo e uma opção fundamental não cristã, que torna o conjunto tão sedutor: o sermão da montanha é, na verdade, a escolha por parte de Deus a favor dos pobres. Mas a interpretação dos pobres no sentido da dialética marxista da histórla e a interpretação da escolha partidária no sentido da lula de classes é um salto “eis allo genos” (grego: para outro gênero), no qual as coisas contrarias se apresentam como idênticas.

O conceito fundamental da pregação de Jesus é o de “reino de Deus”. Este conceito encontra-se também no centro das teologia da libertação, lido porém no contexto da hermenêutica marxista. Segundo J. Sobrinho, o reino não deve ser compreendido espiritualmente, nem universalmente, no sentido de uma reserva escatogicamente abstrata. Deve ser compreendido em forma partidária e voltado para a práxis. Somente a partir da práxis de Jesus, e não teoricamente, é possível definir o que seria o reino: trabalhar na realidade histórica que nos circunda para transformá-la no reino (166). Aqui ocorre mencionar também uma idéia fundamental de certa teologia pós-conciliar que impulsionou nessa direção. Muitos apregoaram que, segundo o Concílio, se deveriam superar todas as formas de dualismo: o dualismo de corpo e alma, de natural e sobrenatural, de imanência e transcendência, de presente e futuro. Após o desmantelamento desses duolismos, resta apenas a possibilidade de trabalhar por um reino que se realize nesta história e em sua realidade político-econômica.

Mas justamente dessa forma deixou-se de trabalhar pelo homem de hoje e se começou a destruir o presente, a favor de um futuro hipotético: assim produziu-se imediatamente o verdadeiro dualismo.

Neste contexto gostaria de mencionar também a interpretação, impressionante e definitivamente espantosa, que Sobrinho dá da morte e da ressurreição. Antes do mais, ele estabelece, contra as concepções universalistas, que a ressurreição é, em primeiro lugar, uma esperança para aqueles que são crucificados; estes constituem a maioria dos homens: todos aqueles milhões aos quais a injustiça estrutural se impõe como uma lenta crucifixão (176 e seguintes). O crente, no entanto, participa também do senhorio de Jesus sobre a história, através da edificação do reino, isto é, na luta pela justiça e pela libertação integral, na transformação das estruturas injustas em estruturas mais humanas. Esse senhorio sobre o história é exercitado ao se repetir o gesto dê Deus que ressuscita Jesus, isto é, dando novamente vida aos crucificados da história (181). O homem assumiu o gesto de Deus e aqui a transformação total da mensagem bíblica se manifesta de maneiro quase trágica, se se pensa em como essa tentativa de imitação de Deus se desenvolveu e se desenvolve ainda.

Gostaria de citar apenas alguns outros conceitos: o êxodo se transforma em uma imagem central da história da salvação; o mistério pascal é entendido como um símbolo revolucionário e, portanto, a Eucaristia é interpretada como uma festa de libertação no sentido de uma esperança político-messiânica e da sua práxis. A palavra redenção é substituída geralmente por libertação, a qual, por sua vez, é compreendida, no contexto da história e da luta de Classes, como processo de libertação que avança, por fim, é fundamental também a acentuação da práxis: a verdade não deve ser compreendido em sentido metafísico; trata-se de “idealismo”. A verdade realiza-se na história e na práxis, A ação é a verdade. Por conseguinte, também as idéias que se usam para ação, em última instância são intercambiáveis. A única coisa decisiva é a práxis. A práxis torna-se, assim, o única .e verdadeira ortodoxia. Desta forma justifica-se um enorme afastamento dos textos bíblicos: a crítica histórica liberta da interpretação tradicional, que aparece como não-científica. Com relação ó tradição, atribui-se importância ao máximo rigor cientifico na linha de Buftmann. Mas os conteúdos da Bíblia, determinados historicamente, não podem, por sua vez, ser vinculantes de modo absoluto. O instrumento para a interpretação não é, em última análise, a pesquisa histórica, mas, sim, a hermenêutica da história, experimentada na comunidade, isto é, nos grupos políticos, sobretudo dado que a maior parte dos próprios conteúdos bíblicos deve ser considerada como produto de tal hermenêutica comunitária.

Quando se tenta fazer um julgamento geral, deve-se dizer que, quando alguém procura compreender as opções fundamentais da teologia da libertação não pode negar que o conjunto contém uma lógica quase incontestável. Comi as premissas da critica bíblica e da hermenêutica fundada na experiência, de um lado, e da análise marxista da história, de outro, conseguiu-se criar uma visão de conjunto do cristianismo que parece responder plenamente tanto às exigências da ciência, quanto aos desafios morais dos nossos tempos. E, portanto, impõe-se aos homens de modo imediato o tarefa de fazer do Cristianismo um instrumento da transformação concreta do mundo, o que pareceria uni-lo a todas as forças progressistas da nossa época. Pode-se, pois, compreender como esta nova interpretação do Cristianismo atraia sempre mais teólogos, sacerdotes e religiosos, especialmente no contexto dos problemas do terceiro mundo. Subtrair-se a ela deve necessariamente aparecer aos olhos deles como uma evasão da realidade, como uma renúncia à razão e à moral. Porém, de outra parte, quando se pensa o quanto seja radical a interpretação do Cristianismo que dela deriva, torna-se ainda mais urgente o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela.







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Artigo Pastoreando – 7

outubro 5th, 2009 | 2 Comentários | Postado em Educação, Igreja

Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria

El_Greco_-_Anunciação O terceiro artigo do Símbolo dos Apóstolos traz a matéria de fé referente ao advento da Encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo. É importante notar que, assim como chama atenção São Tomás de Aquino, o cristão não crê simplesmente em Deus ou em Seu Filho, mas deve crer que o próprio Verbo de Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se fez homem e armou sua tenda entre nós (Jo 1, 14) para nossa Salvação.

O Filho de Deus fez-se então, verdadeiro homem sem que fosse perdida sua natureza divina. Cremos então que Jesus Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. Contra os erros que apareceram sobre esta verdade de fé, a Igreja sempre afirmou que em Cristo co-existem sem confusão nem mistura as duas naturezas, ou seja, em tal admirável união permanecem resguardadas as ações e propriedades de ambas as naturezas.

O artigo afirma também que a Encarnação é fruto da ação da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo. Contudo, sabemos que em toda obra de Deus – desde a Criação até o fim dos tempos – está presente a Trindade toda inteira. Como devemos compreender esta afirmação, então? A Escritura sempre põe em relevo certas propriedades de Deus atribuindo-as ora a uma das Pessoas, ora a Outra. Ao Pai é atribuído o poder supremo sobre todas as coisas, ao Filho a Sabedoria e ao Santo Espírito, o Amor. Como a Encarnação é a expressão máxima do Amor de Deus pelo mundo, a Encarnação é apontada como ação do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35).

Neste artigo também afirmamos a virgindade de Maria Santíssima. Devemos sempre ter em mente que os atributos e graças de Maria são sempre por conta de sua Santíssima maternidade. Ao professarmos a virgindade de Maria cremos que Deus, assim como criou do nada tudo o que existe, fecundou sobrenaturalmente a Santíssima Virgem sem o auxílio ou concorrência de nada para além de Sua Vontade. O Cristo é, assim, verdadeiramente o novo Adão, que inaugura de novo a humanidade unida com Deus agora em Aliança indissolúvel. Jesus Cristo é, portanto, verdadeiramente Deus que assume em tudo a condição humana, exceto o pecado para a Ele tudo reconduzir (Ef. 1, 10) nEle fazer novas todas as coisas (Ap. 21, 5).

Contemplemos o Mistério da Encarnação pedindo a Deus que possamos nos aproximar cada vez mais de seu Amor.

 

Um abraço.

Gabriel Ferreira







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Religiões evoluídas???

setembro 29th, 2009 | 3 Comentários | Postado em Igreja, Opinião

 

Há alguns padres que deveriam simplesmente se calar. Não querer ensinar nem oralmente nem por escrito. Alguns padres são um mau exemplo, sobretudo no Ano Sacerdotal.

Embora eu esteja preparando um post maior sobre outro assunto, não pude deixar de escrever algumas coisas sobre um texto que, embora seja do dia 1º de setembro, só li hoje. Refiro-me ao artigo Religiões evoluídas, do Padre José Fernandes de Oliveira, o Pe. Zezinho, scj. O texto do presbítero está naquela categoria de escritos com tantos erros que fica difícil escolher por onde começar a crítica.

A tese central – simplesmente medonha – do padre é que, analogamente ao que aconteceu com os avanços tecnológicos e científicos, há nas religiões um movimento em direção ao progresso. Assim, se houve um progresso em relação aos meios de transporte (bigas, carroças e carros)

Acontece o mesmo com as religiões. Primeiro vieram as religiões politeístas, depois as monoteístas, embora haja quem prove o contrário. Segundo eles , primeiro viveu-se o monoteísmo que acabou em politeísmo. Seja como for, vieram as novas versões.

E ainda:

E apareceram as que achavam as certas, as melhores, as eleitas, as únicas. Depois veio o ecumenismo que é uma forma inteligente de crer e discordar sem ofender. Nenhuma se achou igual à outra. Todas aprenderam a conviver e, finalmente, descobriram que a melhor religião é aquela que ensina os fiéis a dialogarem.

 

Segundo o padre, tal evolução chegará, enfim ao estado em que

Entre as melhores está aquela que mais defende a vida, mais cuida dos sofredores, mais ensina a compreender, mais dialoga e mais aberta está para com o mundo e com todos. Nenhuma delas é moderna o suficiente, mas as que mais dialogarem serão evidentemente as mais avançadas e modernas. As religiões ditatoriais, impositivas, mágicas, cheias de garantias, curas, promessas e milagres ainda existirão, mas serão como as máquinas antigas sem peças de reposição, porque terá acontecido uma forma moderna de crer: o diálogo com Deus e com todas as vidas que nos cercam.

Se a insanidade do sacerdote não ficou evidente, vamos aos comentários:

 

1. Evolução? Tanto a comparação com os avanços tecnológicos quanto a própria idéia de progresso das crenças são extremamente infelizes. Basta perguntar, como diz Chesterton, em direção a que estamos evoluindo. Caso não haja um paradigma fixo em relação ao qual o progresso possa ser medido, simplesmente isso não pode ser dito progresso. Deste ponto de vista, o próprio processo de industrialização pode ser altamente questionável como progresso do ponto de vista ético, por exemplo. Quando a questão é em relação ao Cristianismo, sobretudo dito por um padre, fica bizarro.

A não ser que São Paulo seja um tolo, Jesus Cristo é a plenitude dos tempos (Gal. 4,4). A importação de um positivismo comteano para o domínio da religião conduz, se não necessariamente ao menos principalmente, a que “the statue of Humanity will have as its pedestal the altar of God” (Comte citado por Henri de Lubac, The drama of atheism humanism, p. 172). É portanto em Cristo que se dá a Nova e Eterna Aliança em relação à qual nenhuma evolução se faz necessária. Contudo, note que, a aceitar o argumento chestertoniano, o padre só pode continuar dizendo que um dia chegaremos a uma religião evoluída se ele tem em mente outro télos (finalidade) ao qual devemos nos aproximar o que, obviamente, deve abandonar o “antigo” paradigma.

2. Qual evolução? Em resumo, a religião mais evoluída será aquela mais moderna, segundo o padre. Por modernidade religiosa o sacerdote parece entender a profusão de diálogo, uma compreensão mais aberta do mundo (???) e que, ponto crucial que é o pressuposto de todos os outros, que abandone a pretensão de ser a certa, a eleita, a melhor e a única.

Devemos começar dizendo que, em ao menos um ponto ele acerta, a saber, a denominação daquilo que prega como “modernismo”. É exatamente a tese (herética) de fundo que já em 1907, em sua monumental Pascendi Dominici Gregis, São Pio X chamava “modernismo”. Para tal postura, no que diz respeito às fórmulas religiosas

(…) Não é portanto de nenhum modo lícito afirmar que elas exprimem uma verdade absoluta; portanto, como símbolos, são meras imagens de verdade, e portanto devem adaptar-se ao sentimento religioso. (…) Assim, pois temos o caminho aberto à íntima evolução do dogma.

Eis aí um acervo de sofismas, que subvertem e destroem toda a religião!

Aquilo que, em resumo, afirma o Pe. Zezinho é que uma religião é tanto melhor quanto abre mão de ser a correta. Dito de outro modo, a religião mais evoluída é aquela que abriu mão da Verdade e se abre para o mundo, o que dá na mesma, o que para nós equivale a abrir mão do Cristo que se apresenta como a própria Verdade (Jo 14, 6).

Dessa forma, o padre só faz confirmar a leitura cada vez mais secularizada que o próprio clero faz da Igreja. Ela deve se adequar ao invés de se opor posto que ela já não veicula mais um discurso objetivo e verdadeiro sobre o real. Cabe então a ela, se quiser sobreviver “no mundo”, conformar-se ao “espírito do tempo” mesmo que isto lhe custe a Verdade. No fundo, o que ocorre é uma migração semântica da Verdade, que se traslada do Cristo para a dóxa do tempo (o que, ao longo da flutuação cada vez mais rápida do que a história toma por verdadeiro e correto, assemelha-se mais a uma promiscuidade semântica).

Em suma, o alerta de São Pio X ecoa ainda hoje carregado de sentido:

E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os fautores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.

 

São Pio X, ora pro nobis!







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Luiz Felipe Pondé – No Sinai

setembro 28th, 2009 | 1 Comentário | Postado em Filosofia, Igreja, Imprensa

Gottlieb-Jews_Praying_in_the_Synagogue_on_Yom_KippurQUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna no dia 28 de setembro, caro leitor, eu estarei de jejum,  na sinagoga. Hoje é o Dia do Perdão, data máxima do calendário judaico. O que significa o Dia do Perdão? Um bom ponto de partida para pensar em seu significado é a passagem da Bíblia hebraica quando os hebreus, ao pé do monte Sinai, aguardam o retorno de seu líder Moisés com as tábuas da Lei.

Mas nem tudo saiu como se esperava: Moisés atrasa seu retorno (fica 40 dias na montanha) e o povo perde a paciência. Quando volta, encontra os recém libertos da escravidão no Egito adorando um bezerro de ouro. Deus, irritado, mata a metade ali mesmo. A outra metade será condenada a vagar perdida pelo deserto do Sinai até que morram todos e seus filhos possam, enfim, entrar na terra prometida. E aí está o perdão.

Dirá o leitor irritado: "Mas onde?". Antes de tudo, caro leitor, tenha em mente que perdão e justiça não são a mesma coisa. O perdão é maior do que a justiça, ele cabe ali onde a justiça não seria suficiente. Você pode ser justo com alguma pessoa, sem perdoá-la.

Claro que muitos de nós, pessoas educadas, não acreditam que esta seja uma narrativa histórica, mas sim mítica. O que é um mito? Muita gente boa estudou isso: os psicólogos S. Freud e C.G. Jung, os historiadores das religiões M. Eliade, J. Campbell e K. Armstrong, e o filósofo E. Cassirer. Um modo minimamente correto de entender é pensar que o mito não descreve necessariamente um fato histórico, mas sim vivências humanas ancestrais que falam do significado da vida.

Pessoalmente prefiro ler textos bíblicos como narrativas literárias, além, é claro, de lê-los como livros sagrados, caso a leitura seja confessional, que não é meu caso aqui. Minha restrição a leitura psicologizante ou marxista de textos bíblicos é porque estas leituras pecam por ferir a própria "trama", a fim de reafirmar a teoria que usamos para lê-lo. Explico-me.
O crítico Anatol Rosenfeld escreveu um ensaio em sua coletânea "Texto e Contexto" (ed. Perspectiva) chamado "Psicologia Profunda e Crítica", no qual ele dá boas dicas do por que não abordar um texto literário reduzindo-o a excessos psicologizantes. Sua crítica cai sobre a tentativa de ler, por exemplo, Hamlet como mais um rapazinho que queria transar com a mãe e matar o próprio pai. Ou ler Santa Tereza d’Ávila em chave junguiana e ver em seus escritos místicos mais um processo de individuação.
Acho que no caso freudiano a redução é ainda pior porque o conceito de inconsciente coletivo em Jung preserva um drama maior nos personagens do que uma mera "historinha de uma menina esquisita e sua mania neurótica por Deus". E, por isso, ele sustenta a dramaticidade para além da "mera" sexualidade neurótica da menina.

Para Rosenfeld, não devemos psicologizar personagens porque, ao fazer isso, vamos a "Hamlet" apenas para reencontramos a teoria de Freud e assim perdemos "Hamlet" e ficamos apenas com seu "mesquinho" complexo de Édipo. O mesmo, digo eu, acontece quando lemos a Bíblia à cata de interpretações marxistas ou políticas: lemos a Bíblia para rever a luta de classes e a disputa política, e o drama específico narrado se perde, junto com a força de seus personagens.
Neste sentido, se não entendermos a relação entre o "personagem" Deus de Israel e os heróis bíblicos para além de reduções psicológicas ou políticas, perdemos a força do perdão dado no Sinai.

Deus não precisa perdoar ninguém porque Ele não precisa de ninguém. Este é o personagem. Quando o povo trai a aliança depois de tudo que Ele fez, Ele poderia simplesmente destruir tudo. Fosse Ele apenas justo, o sol pararia de brilhar. A ideia que Deus seja misericordioso nasce do fato que Ele nos criou e é paciente conosco sem precisar sê-lo. Daí a afirmação comum na Bíblia hebraica de que Ele carrega o mundo na palma de Sua mão enquanto nós somos uma sombra que passa.

O filósofo judeu A.I. Heschel (século 20) diz, num texto dedicado ao Dia do Perdão, que neste dia estamos de pé diante de Deus. O sentimento é de "pahad" (medo em hebraico). Devemos abaixar a cabeça e tremer, desnudando um coração que diante de Deus é sempre nu. Evidente que, além do temor, está em questão as grandes virtudes hebraicas, a gratidão, a coragem e a humildade. O pó em nós estremece diante da imensidão infinita que é Deus. Ao ouvir o coração disparado de medo, devemos escutar nele a alegria que é existir.

 

Que os judeus tenham uma ótima







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Artigo Pastoreando – 6

agosto 28th, 2009 | Comente | Postado em Igreja

E em Jesus Cristo, Seu único Filho, nosso Senhor

 

Cristo Pastro

Se no primeiro dos artigos de nossa profissão de fé afirmamos nossa crença em Deus Pai, pelo   segundo artigo damos nosso assentimento às primeiras verdades referentes a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, verdades estas que se estenderão até o sétimo artigo. Este artigo ainda pode ser subdividido em três momentos aos quais devemos nos atentar ao proferi-lo.

Normalmente nos referimos a Nosso Senhor Jesus Cristo como se a palavra “Cristo” fosse parte componente de Seu santíssimo Nome cujo significado, em hebraico, é Salvador. Contudo, isso não é correto. Ao dizermos que Jesus é o Cristo, já veiculamos uma verdade de fé muito profunda, a saber, que aquele Homem verdadeiro é Messias que havia de vir, o Ungido. O termo “Cristo”, em grego, significa justamente aquele que é ungido com óleo (Crisma, em grego). No Antigo Testamento, os reis, sacerdotes e profetas eram ungidos como sinal de sua eleição e precedência. Jesus, como o Rei dos Reis, Sumo Sacerdote e o próprio Deus falando a nós, é dito o Ungido por excelência, o Cristo.

Cremos também que a Segunda Pessoa da Trindade, Jesus Cristo, é o Filho único de Deus. Só ele é “nascido do Pai antes de todos os séculos”, ou seja, antes mesmo que existisse o tempo, pois é “gerado, não criado”, como professamos com o Símbolo Niceno-Constantinopolitano. Jesus é o Filho Único de Deus porque só Ele é da mesma substância do Pai, tem Seu Ser, Sua eternidade e Sua glória. Todavia, o Filho, seguindo o projeto de Amor do Pai, estende também a nós a possibilidade de nos inserirmos nesta relação única ao nos associarmos a ele pelo Batismo a ponto de podermos chamá-Lo de irmão e a Deus de Pai.

Assim, consequentemente, se Jesus Cristo é “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro”, a Ele pertencem não só a glória, a sabedoria e a eternidade, mas também o poder e o domínio sobre toda a Criação. Tudo o que há é obra também da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, bem como, especialmente, a Salvação dos homens. Por isso, é justo e necessário reconhecer e proclamar com fé que Jesus Cristo é o Senhor.

Um abraço.

Gabriel Ferreira







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Artigo Pastoreando – 5

agosto 3rd, 2009 | Comente | Postado em Igreja

Dando continuidade às minhas pequenas reflexões sobre o Credo, aqui vai a minha coluna deste mês.

* * *

Creio em Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra

pai-capelasistina

O primeiro dos doze artigos do Credo, reúne em uma só asserção os principais atributos de  Deus e da primeira Pessoa, o Pai. Devemos lembrar, antes de tudo, que a onipotência e a co-laboração na criação também pertencem às demais Pessoas da Santíssima Trindade. Contudo, o Pai aparece em primeiro lugar pois, como nos diz São Pio X, Ele não procede de nenhuma das outras Pessoas mas é, justamente, Aquele de quem o Filho e o Espírito Santo procedem. Há quatro pontos fundamentais nesta primeira afirmação das verdades de fé.

O primeiro deles é que cremos em Deus. No dia-a-dia dizemos “Deus” sem nos atentarmos para o que a palavra aponta. Primeiro, ao professarmos a crença em Deus, escrito inclusive com letra maiúscula, queremos dizer que temos fé em um Deus único (e não um deus entre outros deuses). Cremos que Ele é Deus e, portanto sumamente perfeito e sumamente bom e em Quem todas as qualidades superam muitíssimo nosso entendimento.

Em seguida, que Ele é também Pai. Em um primeiro sentido, que Ele é Pai da segunda pessoa da Trindade, Seu Filho. Assim também, é o Pai de toda a humanidade, já que a cria e a sustenta e, por último, é Pai de modo especial daqueles que se tornaram seus filhos adotivos por estarem associados a seu Filho por excelência, Cristo Jesus.

Ele também é Todo-Poderoso ou Onipotente. Por ser Deus, fonte e origem de tudo o que existe e sumamente perfeitíssimo, nEle não há distinção entre sua vontade, seu pensamento e a realidade. Só Deus é o Senhor de tudo o que há porque sua santíssima vontade é absolutamente soberana. Com isso também queremos professar que em Deus não há pecado nem erro, já que estes não são “poderes” ou possibilidades, mas justamente falta deles. Ou seja, sendo Todo-Poderoso, não há em Deus nenhuma imperfeição.

Por fim, o Deus único e nosso Pai é fonte e origem de toda a criação. Criar, neste sentido, só pode ser atributo de Deus pois significa criar a partir do nada. Aqui, céu e terra querem significar a totalidade de tudo o que há. É Deus Ele mesmo quem cria e sustenta todo o universo e todas as demais criaturas que nele existem. É então porque em Deus todas as suas qualidades são inseparáveis, que elas aparecem reunidas em um único artigo. Devemos então perceber que não é possível separar em nossa fé, nenhum dos pontos do primeiro artigo sem prejuízo de nosso entendimento de Deus e de nossa relação com Ele.

Um abraço.

Gabriel Ferreira







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