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Luiz Felipe Pondé – Abel

August 16th, 2010 | Comente | Postado em Filosofia, Imprensa

 

CARO LEITOR, sou um pobre de espírito. Não daquele tipo que herdará o reino dos céus, como afirma Jesus no "Sermão da Montanha". Não há lugar pra gente como eu no reino dos céus. Por uma razão simples: não amo ninguém mais do que a mim mesmo. E isso é mortal. Sempre foi. Os mentirosos é que tentam dizer o contrário. Não partilho da nova "ciência do egoísmo", essa que se traduz em livros e revistas que buscam "novas formas de espiritualidade" centrada no amor próprio. Ou nessa coisa horrorosa chamada "autoestima".

Tampouco fiz de mim um budista light, desse tipo que parasita as religiões orientais com a intenção de inventar uma espiritualidade que sirva ao clássico egoísmo moderno, numa salada mista de energias hindus com Jung barato. Antes de tudo, recuso o budismo light por um mero senso do ridículo que habita essas formas mesquinhas de espiritualidade.
Com isso quero dizer que não trocaria o reino dos céus por alguma forma quântica de paraíso egoísta, ao sabor da espiritualidade de livrarias de aeroporto do tipo "O Efeito Sombra", cujo subtítulo é "Encontre o Poder Escondido na sua Verdade", dos "guias espirituais" Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson, perfeito para almas superficiais amantes de toda forma de espiritualidade mesquinha.

O que é uma espiritualidade mesquinha? Fácil responder essa. Espiritualidade mesquinha é, antes de tudo, uma forma de crença que deforma a face do crente, iluminando seus caninos ocultos. Aquela que sempre medita com o objetivo de nos tornar mais poderosos e bem-sucedidos. Essa praga espiritual está em toda parte porque, simplesmente, não conseguimos entender que, para salvarmos nossa vida, temos que perdê-la. Jesus tinha razão.
O principal obstáculo para se libertar do mal é o "eu". Essa peste que contamina todo ato humano. Como vampiros de Deus, queremos fazer até da "sombra" (do mal em nós) um serviçal de nosso sucesso.

Sou um pobre de espírito. Passo horas temendo o abandono, o desprezo e a indiferença. Comparando meus pequenos sucessos com os mais infelizes do que eu. Ainda bem que eles existem. Rezo para que o mundo me ame. Em meus pesadelos sempre sou o último dos amados do mundo. Quando encontro alguém melhor do que eu, perco o sono, quero destruí-lo. Sua respiração me sufoca. Sua generosidade me humilha. Seu sorriso é uma prova de que fracassei em amar o mundo.

Que o leitor apressado não pense que estou numa crise de autoestima. Que o leitor crente nessas formas de espiritualidade mesquinha não aplique psicologia barata ao que digo, tentando justificar tudo que lê com alguma hipótese acerca do cotidiano de quem escreve. Você não me conhece. Mas seguramente conhece a miséria que vos falo: quem ama alguém mais do que a si mesmo?

Não vale jogar na cara dos outros amores maternos e paternos ou filiais. Na era do "direito à felicidade do indivíduo", até a ciência já está provando (vide o diagnóstico apresentado pelo caderno Equilíbrio desta Folha no último dia 3/8) que ter filhos é um mau negócio.

Pais e mães são mais estressados do que adultos sem filhos. E é a mesma ciência que agora "descobre" a miséria dos pais, que a cria, em grande parte, com suas demandas "cientificas" de aperfeiçoamento da função parental. Ninguém mais sabe ser pai e mãe sem a palavra de uma especialista. Como sempre digo, a mania de criar um "homem" melhor vai nos destruir a todos.
Como idiota digital que sou, busco rapidamente na internet alguma nova teoria científica ou política que prove que ninguém é melhor do que ninguém. Que nos reúna num ato de mediocridade comum. Alguma nova técnica de treinamento em recursos humanos que devolva a mim minha falsa glória. Meu objetivo é fazer inveja a Deus.

Entendo Caim em seu ódio por Abel. Ao contrário das bobagens que afirma Saramago em seu livro "Caim" -críticas típicas de quem nada entende acerca da tradição bíblica porque permaneceu infantil espiritualmente-, Caim não suportou o fato de que Abel era melhor do que ele e por isso o matou. Existe algum Abel aí ao seu lado?







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Luiz Felipe Pondé – Os olhos do macaco

May 24th, 2010 | 1 Comentário | Postado em Filosofia, Imprensa

 

VOCÊ JÁ OLHOU nos olhos de um chimpanzé? Da próxima que for a um zoológico, faça isso. Você perceberá que ali existe uma alma presa como a sua. Seus olhos carregam um misto de espanto e tristeza que só humanos conhecem, que parece brotar de excesso de sensibilidade.

Sim, simpatizo com o darwinismo. Mas nem por isso sou ateu. Tampouco tem razão o grande filósofo Daniel Dennett, cujos livros devoro e a quem admiro na sua luta para combater a velha covardia humana travestida de fé, quando supõe que qualquer relação entre darwinismo e tradição monoteísta ocidental implica medo do ateísmo.

Não tento "casar" o darwinismo com qualquer "prova" da existência de Deus. Provar a existência de Deus me dá sono, nem acho possível prová- la. Como não levo a razão tão a sério, não temo suas incoerências.

Pelo contrário, minha simpatia está sempre contra as certezas da razão. Penso, sim, que não há nenhuma grande coerência na vida, nem uma narrativa única. Uma vida dilacerada entre narrativas contrárias me parece sempre mais sólida.

O conforto da certeza me entedia. Sou da velha escola: o sofrimento é que molda o caráter.

O darwinismo me comove, assim como Shakespeare. Quando ouço Macbeth dizer "a vida é um conto narrado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada", eu penso na luta cega de nossos ancestrais cuja humanidade foi cozida em sangue. E isso me comove.

Converti-me ao darwinismo desde criança, ao ver aqueles desenhos nos quais imagens de hominídeos vão paulatinamente virando imagens de homens.

Mais tarde, quando não era não mais criança, convenci-me da verdade do darwinismo quando me vi diante das análises do comportamento humano produzidas pela psicologia evolucionista.

Não creio nas teorias que afirmam a construção social dos comportamentos, apesar de que algum grau de influência social em nosso comportamento obviamente existe.

Prefiro a ideia de comportamento comodestino, maldição. Mas minha relação com o darwinismo sempre foi mais estética do que um mero convencimento racional.

O que primeiro me cativou no darwinismo foi a descrição da origem do ser humano como uma saga contra um meio ambiente terrível e contra os horrores de nossa própria "alma" pré-humana.
A solidão dos nossos ancestrais combatendo os elementos externos e internos me parece uma ode à beleza humana, arrancada da indiferença das pedras.

A escuridão e a solidão do universo me encantam. Pensar que homens e mulheres são areia que um dia tomou consciência de si mesma e de sua solidão me parece um épico que canta nossa dignidade visceral.

A dignidade que só cabe aos desgraçados. Reconheço essa dignidade nos olhos do macaco: a dignidade da testemunha assombrada.

O horror de nosso passado, para mim, sempre foi motivo de orgulho. Sim, vejo o darwinismo como um drama cósmico do qual temos o privilégio de ser testemunhas assombradas. Sim, repito, a humanidadedos humanos foi cozida em sangue, uma pérola numa imensa massa cega de matéria.

Os ateus não deixam de ter razão quando apontam o pânico que muitas pessoas têm diante de descrições da vida como a darwinista. O filósofo Nietzsche (século 19) chama esse pânico de ressentimento. Daí nasceriam as bobagens platônicas e cristãs acerca de um outro mundo onde não haveria sofrimento.

Mas o ressentimento de gente como Platão ou cristãos não é nada se comparado ao ridículo de algumas crenças atuais,mas que respondem ao mesmo pânico.

Por exemplo, pensemos na crença em "energias". Que os deuses me protejam de cair um dia no ridículo de "acreditar em energias". Odeio a palavra "energia". Energia isso, energia aquilo, hoje em dia qualquer um usa a palavra "energia" para seus delírios religiosos de consumo.

Digo sempre: quer uma religião? Procure uma de, no mínimo mil anos de existência, e preferivelmente que não tenha passado pela Califórnia ou pela física quântica.

Seu sofá está sobre um cano de água? Humm, más energias. Você tem um câncer? Precisa "limpar" as más energias. O tratamento energético não te curou? Ahhh, você não estava preparado, precisa abrir sua mente. Ovos têm energia, alfaces têm energia, o azul da parede tem energia. As energias vão resolver o conflito israelo-palestino. As energias vão parar teu envelhecimento.







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Islã radical e o lento genocídio dos cristãos

March 1st, 2010 | 4 Comentários | Postado em Igreja, Imprensa

Abaixo, matéria do Der Spiegel, traduzida pelo portal UOL, sobre a situação calamistosa dos cristãos em algumas terras onde predomina o islamismo radical. Leitura obrigatória:

 

Vítimas do Islã radical – Os mártires modernos do cristianismo

 

Juliane Von Mittelstaedt, Christoph Schult, Daniel Steinvorth, Thilo Thielke, Volkhard Windfuhr

A ascensão do extremismo islâmico coloca uma pressão cada vez maior sobre os cristãos que vivem em países muçulmanos, que são vítimas de assassinatos, violência e discriminação. Os cristãos agora são considerados o grupo religioso mais perseguido em todo o mundo. Paradoxalmente, sua maior esperança vem do Islã politicamente moderado.

Kevin Ang é mais cauteloso hoje em dia. Ele espia ao redor, dá uma olhada para a esquerda para a longa fileira de lojas, e depois para a direita em direção à praça, para checar se não há ninguém por perto. Só então o zelador da igreja tira sua chave, destranca o portão, e entra na Igreja Metro Tabernacle num subúrbio de Kuala Lumpur.

Charles Dharapak/AP - 
06.abril.2000

A corrente de ar vira páginas queimadas da Bíblia. As paredes estão cobertas de fuligem e a igreja cheira a plástico queimado. A Igreja Metro Tabernacle foi a primeira de onze igrejas a serem incendiadas por muçulmanos revoltados – tudo por causa de uma palavra: “Alá”, sussurra Kevin Ang.

 

Tudo começou com uma questão – se os cristãos daqui, assim como os muçulmanos, poderiam chamar seu deus de “Alá”, uma vez que eles não têm nenhuma outra palavra ou língua à sua disposição. Os muçulmanos alegam que Alá é deles, tanto a palavra quanto o deus, e temem que se os cristãos puderem usar a mesma palavra para seu próprio deus, isso poderia desencaminhar os fiéis muçulmanos.

Durante três anos isto era proibido e o governo confiscou Bíblias que mencionavam “Alá”. Então, em 31 de dezembro do ano passado, o mais alto tribunal da Malásia chegou a uma decisão: o deus cristão também poderia ser chamado de Alá.

Os imãs protestaram e cidadãos enfurecidos jogaram coquetéis Molotov nas igrejas. Então, como se isso não bastasse, o primeiro-ministro Najib Razak declarou que não podia impedir as pessoas de protestarem contra determinados assuntos no país – e alguns interpretaram isso como um convite para a ação violenta. Primeiro as igrejas foram incendiadas, depois o outro lado revidou colocando cabeças de porcos na frente de duas mesquitas. Entre os habitantes da Malásia, 60% são muçulmanos e 9% são cristãos, com o restante composto por hindus, budistas e sikhs. Eles conseguiram viver bem juntos, até agora.

É um batalha por causa de uma única palavra, mas há muito mais envolvido. O conflito tem a ver com a questão de quais direitos a minoria cristã da Malásia deve ter. Mais que isso, é uma questão política. A Organização Nacional dos Malaios Unidos, no poder, está perdendo sua base de apoio para os islamitas linha dura – e quer reconquistá-la por meio de políticas religiosas.

Bullit Marquez/AP

Essas políticas estão sendo bem recebidas. Alguns dos Estados da Malásia interpretam a Sharia, o sistema islâmico de lei e ordem, de forma particularmente rígida. O país, que já foi liberal, está a caminho de abrir mão da liberdade religiosa – e o conceito de ordem está sendo definido de forma cada vez mais rígida. Se uma mulher muçulmana beber cerveja, ela pode ser punida com seis chibatadas. Algumas regiões também proíbem coisas como batons chamativos, maquiagem pesada, ou sapatos de salto alto.

Expulsos, sequestrados e mortos
Não só na Malásia, mas em muitos países em todo o mundo muçulmano, a religião ganhou influência sobre a política governamental nas últimas duas décadas. O grupo militante islâmico Hamas controla a Faixa de Gaza, enquanto milícias islamitas lutam contra os governos da Nigéria e Filipinas. Somália, Afeganistão, Paquistão e Iêmen caíram, em grande extensão, nas mãos dos islamitas. E onde os islamitas não estão no poder hoje, os partidos seculares no governo tentam ultrapassar os grupos mais religiosos assumindo uma tendência de direita.

Isso pode ser visto de certa forma no Egito, Argélia, Sudão, Indonésia, e também na Malásia. Embora a islamização frequentemente tenha mais a ver com política do que com religião, e embora não leve necessariamente à perseguição de cristãos, pode-se dizer ainda assim que, onde quer que o Islã ganhe importância, a liberdade para membros de outras crenças diminui.

Há 2,2 bilhões de cristãos em todo o mundo. A organização não-governamental Open Doors calcula que 100 milhões de cristãos são ameaçados ou perseguidos. Eles não têm permissão para construir igrejas, comprar Bíblias ou conseguir empregos. Esta é a forma menos ofensiva de discriminação e afeta a maioria desses 100 mil cristãos. A versão mais bruta inclui extorsão, roubo, expulsão, sequestro e até assassinato.

Margot Kässmann, que é bispo e foi chefe da Igreja Protestante na Alemanha antes de deixar o cargo em 24 de fevereiro, acredita que os cristãos são “o grupo religioso mais perseguido globalmente”. As 22 igrejas regionais alemãs proclamaram este domingo como o primeiro dia de homenagem aos cristãos perseguidos. Kässmann disse que queria mostrar solidariedade para com outros cristãos que “têm grande dificuldade de viver de acordo com sua crença em países como a Indonésia, Índia, Iraque ou Turquia”.

Há exemplos contrários, é claro. No Líbano e na Síria, os cristãos não são discriminados, e, na verdade, desempenham um papel importante na política e na sociedade. Além disso, a perseguição contra os cristãos não é de forma alguma um domínio exclusivo dos fanáticos muçulmanos – os cristãos também são presos, agredidos e assassinados em países como o Laos, Vietnã, China e Eritreia.

“Lento genocídio” contra os cristãos
A Open Doors edita um “índice de perseguição” global. A Coreia do Norte, onde dezenas de milhares de cristãos estão presos em campos de trabalho forçado, esteve no topo da lista por muitos anos. Ela é seguida pelo Irã, Arábia Saudita, Somália, Maldivas e Afeganistão. Entre os dez primeiros países da lista, oito são islâmicos, e quase todos têm o Islã como sua religião oficial.

Beawiharta/Reuters

A perseguição sistemática de cristãos no século 20 – por comunistas na União Soviética e na China, mas também pelos nazistas – custou muito mais vidas do que qualquer outra coisa que tenha acontecido até o momento no século 21. Agora, entretanto, não são apenas os regimes totalitários que perseguem os cristãos, mas também moradores de Estados islâmicos, fundamentalistas fanáticos, e seitas religiosas – e com frequência simples cidadãos considerados fiéis.

Foi-se a era da tolerância, em que os cristãos, chamados de “Povo do Livro”, desfrutavam de um alto grau de liberdade religiosa sob a proteção de sultões muçulmanos, enquanto a Europa medieval bania judeus e muçulmanos do continente ou até mesmo os queimava vivos. Também se foi o apogeu do secularismo árabe pós 2ª Guerra Mundial, quando árabes cristãos avançaram nas hierarquias políticas.

À medida que o Islã político ficou mais forte, a agressão por parte de devotos deixou de se concentrar apenas nos regimes políticos corruptos locais, mas também e cada vez mais contra a influência ostensivamente corrupta dos cristãos ocidentais, motivo pelo qual as minorias cristãs foram consideradas responsáveis. Uma nova tendência começou, desta vez com os cristãos como vítimas.

No Iraque, por exemplo, grupos terroristas sunitas perseguem especialmente pessoas de outras religiões. O último censo do Iraque em 1987 mostrou que havia 1,4 milhão de cristãos vivendo no país. No começo da invasão norte-americana em 2003, eles eram 550 mil, e atualmente o número está está pouco abaixo dos 400 mil. Os especialistas falam num “lento genocídio”.

“As pessoas estão morrendo de medo”
A situação na região da cidade de Mosul, no norte do Iraque, é especialmente dramática. A cidade de Alqosh fica no alto das montanhas sobre Mosul, a segunda maior cidade iraquiana. Bassam Bashir, 41, pode ver sua antiga cidade natal quando olha pela janela. Mosul fica a apenas 40 quilômetros dali, mas é inacessível. A cidade é mais perigosa que Bagdá, especialmente para homens como Bassam Bashir, um católico caldeu, professor e fugitivo dentro de seu próprio país.

Desde o dia em que a milícia sequestrou seu pai de sua loja, em agosto de 2008, Bashir passou a temer por sua vida e pela vida de sua família. A polícia encontrou o corpo de seu pai dois dias depois no bairro de Sinaa, no rio Tigre, perfurado por balas. Não houve nenhum pedido de resgate. O pai de Bashir morreu pelo simples motivo de ser cristão.

E ninguém afirma ter visto nada. “É claro que alguém viu alguma coisa”, diz Bashir. “Mas as pessoas em Mosul estão morrendo de medo.”

Uma semana depois, integrantes da milícia cortaram a garganta do irmão de Bashir, Tarik, como num sacrifício de ovelhas. “Eu mesmo enterrei meu irmão”, explica Bashir. Junto com sua mulher Nafa e suas duas filhas, ele fugiu para Alqosh no mesmo dia. A cidade está está cercada por vinhedos e uma milícia cristã armada vigia a entrada.

Aprovação tácita do Estado
Os familiares de Bashir não foram os únicos a se mudar para Alqosh à medida que a série de assassinatos continuou em Mosul. Dezesseis cristãos foram mortos na semana seguinte, e bombas explodiram em frente às igrejas. Homens que passavam de carro gritaram para os cristãos que eles podiam escolher – ou saíam de Mosul ou se convertiam ao Islã. Das 1.500 famílias cristãs da cidade, apenas 50 ficaram. Bassam Bashir diz que não voltará antes de lamentar a morte de seu pai e seu irmão em paz. Outros que perderam totalmente a esperança fugiram para países vizinhos como a Jordânia e muitos mais foram para a Síria.

Em muitos países islâmicos, os cristãos são perseguidos menos brutalmente do que no Iraque, mas não menos efetivamente. Em muitos casos, a perseguição têm a aprovação tácita do governo. Na Argélia, por exemplo, ela tomou a forma de notícias de jornal sobre um padre que tentou converter muçulmanos ou insultou o profeta Maomé – e que divulgaram o endereço do padre, numa clara convocação para a população fazer justiça com as próprias mãos. Ou um canal de televisão pública pode veicular programas com títulos como “Nas Garras da Ignorância”, que descreve os cristãos como satanistas que convertem muçulmanos com o auxílio de drogas. Isso aconteceu no Uzbequistão, que está no décimo lugar do “índice de perseguição” da Open Doors.

A blasfêmia também é outra justificativa frequentemente usada. Insultar os valores fundamentais do Islã é uma ofensa passível de punição em muitos países islâmicos. A justificativa é com frequência usada contra a oposição, quer sejam jornalistas, dissidentes ou cristãos. Imran Masih, por exemplo, cristão dono de uma loja em Faisalabad, no Paquistão, foi condenado à prisão perpétua em 11 de janeiro, de acordo com as seções 195A e B do código penal do Paquistão, que tratam do crime de ofender sentimentos religiosos ao dessacralizar o Alcorão. Um outro dono de loja o acusou de queimar páginas do Alcorão. Masih diz que ele queimou apenas documentos antigos da loja.

 

É um caso típico para o Paquistão, onde a lei contra a blasfêmia parece convidar ao abuso – é uma forma fácil para qualquer um se livrar de um inimigo. No ano passado, 125 cristãos foram acusados de blasfêmia no Paquistão. Dezenas dos que já foram sentenciados estão agora esperando sua execução.

“Não nos sentimos seguros aqui”
A perseguição tolerada pelo governo acontece até mesmo na Turquia, o país mais secular e moderno do mundo muçulmano, onde cerca de 110 mil cristãos representam menos de um quarto de 1% da população – mas são discriminados assim mesmo. A perseguição não é tão aberta ou brutal quanto no vizinho Iraque, mas as consequências são semelhantes. Os cristãos na Turquia, que estavam bem acima dos 2 milhões no século 19, estão lutando para continuar a existir.

É o que acontece no sudeste do país, por exemplo, em Tur Abdin, cujo nome significa “montanha dos servos de Deus”. É uma região montanhosa cheia de campos, picos e vários mosteiros de séculos de existência. O local abriga os assírios sírios ortodoxos, ou arameus, como denominam a si mesmos, membros de um dos grupos cristãos mais antigos do mundo. De acordo com a lenda, foram os três reis magos que levaram o sistema de crenças cristão de Belém para lá. Os habitantes de Tur Abdin ainda falam aramaico, a língua usada por Jesus de Nazaré.

O mundo sabe bem mais sobre o genocídio cometido contra os armênios pelas tropas otomanas em 1915 e 1916, mas dezenas de milhares de assírios também foram assassinados durante a 1ª Guerra Mundial. Estima-se que cerca de 500 mil assírios viviam em Tur Abdin no começo do século 20. Hoje há apenas 3 mil. Um tribunal distrital turco ameaçou, no ano passado, tomar posse do centro espiritual assírio, o mosteiro Mor Gabriel de 1.600 anos de idade, porque acreditava-se que os monges haviam adquirido terras de forma ilegal. Três vilarejos muçulmanos vizinhos reclamaram que sentiam-se discriminados por causa do mosteiro, que abriga quatro monges, 14 freiras e 40 estudantes atrás de seus muros.

“Mesmo que não queira admitir, a Turquia tem um problema com pessoas de outras religiões”, diz Ishok Demir, um jovem suíço de ascendência aramaica, que vive com seus pais perto de Mor Gabriel. “Nós não nos sentimos seguros aqui.”

Mais que qualquer coisa, isso tem a ver com o lugar permanente que os armênios, assírios, gregos, católicos e protestantes têm nas teorias de conspiração nacionalistas do país. Esses grupos sempre foram vistos como traidores, descrentes, espiões e pessoas que insultam a nação turca. De acordo com uma pesquisa feita pelo Centro de Pesquisa Pew, sediado nos EUA, 46% dos turcos veem o cristianismo como uma religião violenta. Num estudo turco mais recente, 42% dos entrevistados disseram que não aceitariam cristãos como vizinhos.

Os repetidos assassinatos de cristãos, portanto, não são uma surpresa. Em 2006, por exemplo, um padre católico foi assassinado em Trabzon, na costa do Mar Negro. Em 2007, três missionários cristãos foram assassinados em Malatya, uma cidade no leste da Turquia. Os responsáveis pelo crime eram nacionalistas radicais, cuja ideologia era uma mistura de patriotismo exagerado, racismo e Islã.

Convertidos correm grande risco
Os muçulmanos que se converteram ao cristianismo, entretanto, enfrentam um perigo ainda maior do que os próprios cristãos tradicionais. A apostasia, ou a renúncia ao Islã, é castigada com a morte de acordo com a lei islâmica – e a pena de morte ainda se aplica no Irã, Iêmen, Afeganistão, Somália, Mauritânia, Paquistão, Qatar e Arábia Saudita.

Até no Egito, um país secular, os convertidos atraem a cólera do governo. O ministro da religião defendeu a legalidade da pena de morte para os convertidos – embora o Egito não tenha uma lei como esta – com o argumento de que a renúncia ao Islã é alta traição. Esses sentimentos fizeram com que Mohammed Hegazy, 27, convertido para a Igreja Cóptica Ortodoxa, passasse a se esconder há dois anos. Ele foi o primeiro convertido no Egito a tentar fazer com que sua religião nova aparecesse oficialmente em sua carteira de identidade expedida pelo governo. Quando seu pedido foi recusado, ele tornou o caso público. Inúmeros clérigos pediram a sua morte em resposta.

Os cópticos são a maior comunidade cristã do mundo árabe, e cerca de 8 milhões de egípcios pertencem à Igreja Cóptica. Eles são proibidos de ocupar altas posições no governo, no serviço diplomático e militar, assim como de desfrutar de vários benefícios estatais. As universidades têm cotas para alunos cópticos consideradas menores do que a porcentagem que eles representam na população.

Não é permitido construir novas igrejas, e as antigas estão caindo aos pedaços por causa da falta de dinheiro e de permissão para reforma. Quando as meninas são sequestradas e convertidas à força, a polícia não intervém. Milhares de porcos também foram mortos sob o pretexto de combater a gripe suína. Naturalmente, todos os porcos pertenciam a cristãos.

O vírus cristão
Seis cópticos foram massacrados em 6 de janeiro – quando os cópticos celebram a noite de Natal – em Nag Hammadi, uma pequena cidade 80 quilômetros ao norte do Vale dos Reis. Previsivelmente, o porta-voz da Assembleia do Povo, a câmara baixa do parlamento egípcio, chamou isso de “um ato criminoso isolado”. Quando acrescentou que os responsáveis queriam se vingar do estupro de uma jovem muçulmana por parte um cóptico, isso quase pareceu uma desculpa. O governo parece pronto a reconhecer o crime no Egito, mas não por tensão religiosa. Sempre que conflitos entre grupos religiosos acontecem, o governo encontra causas seculares por trás deles, como disputas por terras, vingança por algum crime ou disputas pessoais.

Nag Hammadi, com 30 mil moradores, é uma poeirenta cidade comercial no Nilo. Mesmo antes dos assassinatos, era um lugar onde os cristãos e os muçulmanos desconfiavam uns dos outros. Os dois grupos trabalham juntos e moram próximos, mas vivem, casam-se e morrem separadamente. A superstição é generalizada e os muçulmanos, por exemplo, temem pegar o “vírus cristão” ao comer junto com um cóptico. Não surpreende que esses assassinatos tenham acontecido em Nag Hammadi, nem que depois deles tenham se seguido os piores atos de violência religiosa em anos. Lojas cristãs e casas muçulmanas foram incendiadas, e 28 cristãos e 14 muçulmanos foram presos.

Nag Hammadi agora está cercada, com seguranças armados em uniformes negros guardando as estradas para entrar e sair da cidade. Eles certificam-se de que nenhum morador deixe a cidade e nenhum jornalista entre nela.

Três suspeitos foram presos desde então. Todos eles têm fichas criminais. Um admitiu o crime, mas depois negou, dizendo que havia sido coagido pelo serviço de inteligência. O governo parece querer que o assunto desapareça o mais rápido possível. Os supostos assassinos provavelmente serão libertados assim que o furor passar.

Mais direitos para os cristãos?
Mas também há pequenos indícios de que a situação de cristãos acuados em países islâmicos possa melhorar – dependendo do tanto que recuarem o nacionalismo e a radicalização do Islã político.

Uma das contradições do mundo islâmico é que a maior esperança para os cristãos parece surgir exatamente do campo do Islã político. Na Turquia, foi Recep Tayyip Erdogan, um ex-islamita e agora primeiro-ministro do país, que prometeu mais direitos aos poucos cristãos remanescentes no país. Ele aponta para a história do Império Otomano, no qual os cristãos e judeus tiveram de pagar um imposto especial por muito tempo, mas em troca, tinham a garantia de liberdade de religião e viviam como cidadãos respeitados.

Uma atitude mais relaxada em relação as minorias certamente representaria um progresso para a Turquia.

Tradução: Eloise De Vylder







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Sobre Livros e Bibliografias… duvidosas

November 10th, 2009 | 3 Comentários | Postado em Educação, Filosofia, Livros, Opinião

 

lostsymbol No caderno “mais!”, do jornal Folha de São Paulo da semana passada, o professor e jornalista Marcelo Gleiser cita e incensa os livros do escritor americano Dan Brown (aquele do Código Da Vinci e outros da mesma lavra). A princípio, nada contra a referência (ruim), mas ela me remete a um problema que julgo mais grave.

De tempos pra cá, pode-se notar um crescimento no interesse (que catapulta Dan Brown e seus asseclas) por livros que tentam mesclar ficção e realidade em assuntos como filosofia, religião, teologia, história medieval etc.  Não há como não lembrar também de outro que, embora seja Prêmio Nobel (ahn, bons tempos em que só grandes sujeitos eram laureados…), não faz lá coisas muito diferentes: José Saramago e seu Caim. Novamente, nada conta a ficção. O problema está na meta básis eis allo génos, ou passagem para outro gênero, como diz Aristóteles. De fato, consumidores deste tipo de livro têm uma curiosidade que se pode dizer sincera sobre tais assuntos. Contudo, fazem uma passagem de nível absurdamente nociva e, por que não dizer, irritante. caimsaramago

Jamais, em tempo algum, Dan Brown seria citado entre scholars como bibliografia para estudos   medievais ou sobre história da Igreja. Saramago nunca seria lembrado como biblista pelos devaneios que comete em seu Caim ou, ainda, em seu O Evangelho segundo Jesus Cristo, por exegetas que se dedicam durante uma vida a estudar tais temas a sério; ainda, Quando Nietzsche chorou não deve ser bibliografia obrigatória para se entender o pensador alemão. O que ocorre é a materialização atual da intuição platônica de que poetas (e aqui, romancistas) iludem e conduzem ao erro sob o verniz da bela forma, do entretenimento ou da falsa erudição. É cada vez mais frequente nas discussões, repudiar estudiosos em favor de diletantes vomitadores de best-sellers. Agora são estes as autoridades últimas.

nietzschechorou Para além da queda de qualidade cada vez mais sensível nestes debates, é notável que começa a se desenvolver um processo medonho de regressão da reflexão (como Adorno previra em relação à audição por conta da música popular). E note-se que este movimento não ocorre apenas entre os que se abrigam sob aquele tipo de bibliografia: os detratores também rebaixam o nível do debate, seja tomando esse tipo de literatura como índice da posição religiosa, por exemplo (e ignorando tudo o que há de sério neste campo) ou fazendo uso, como “contra-argumento” de livros de mesmo calibre (penso aqui em Dawkins, por exemplo), Hoje em dia, “””refuta-se””” Santo Anseimo com Richard Dawkins; o Proslógion com God’s delusion*.

 

E voltamos a um tipo de incômodo que sinto há anos. Ninguém aceitaria morar numa casa construída por mim caso eu apresentasse como credenciais, anos e anos brincando de Lego quando pequeno. Ou ainda, alguém aceitaria que eu abrisse sua cabeça em caso de um tumor, já que coleciono leituras sobre as maravilhas do cérebro?

 

* Apenas para explicitação, que se note que o argumento anselmiano é bastante diferente daquele que Descartes apresenta em suas Meditações, que ganha o predicado “ontológico”.







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Luiz Felipe Pondé – No Sinai

September 28th, 2009 | 1 Comentário | Postado em Filosofia, Igreja, Imprensa

Gottlieb-Jews_Praying_in_the_Synagogue_on_Yom_KippurQUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna no dia 28 de setembro, caro leitor, eu estarei de jejum,  na sinagoga. Hoje é o Dia do Perdão, data máxima do calendário judaico. O que significa o Dia do Perdão? Um bom ponto de partida para pensar em seu significado é a passagem da Bíblia hebraica quando os hebreus, ao pé do monte Sinai, aguardam o retorno de seu líder Moisés com as tábuas da Lei.

Mas nem tudo saiu como se esperava: Moisés atrasa seu retorno (fica 40 dias na montanha) e o povo perde a paciência. Quando volta, encontra os recém libertos da escravidão no Egito adorando um bezerro de ouro. Deus, irritado, mata a metade ali mesmo. A outra metade será condenada a vagar perdida pelo deserto do Sinai até que morram todos e seus filhos possam, enfim, entrar na terra prometida. E aí está o perdão.

Dirá o leitor irritado: "Mas onde?". Antes de tudo, caro leitor, tenha em mente que perdão e justiça não são a mesma coisa. O perdão é maior do que a justiça, ele cabe ali onde a justiça não seria suficiente. Você pode ser justo com alguma pessoa, sem perdoá-la.

Claro que muitos de nós, pessoas educadas, não acreditam que esta seja uma narrativa histórica, mas sim mítica. O que é um mito? Muita gente boa estudou isso: os psicólogos S. Freud e C.G. Jung, os historiadores das religiões M. Eliade, J. Campbell e K. Armstrong, e o filósofo E. Cassirer. Um modo minimamente correto de entender é pensar que o mito não descreve necessariamente um fato histórico, mas sim vivências humanas ancestrais que falam do significado da vida.

Pessoalmente prefiro ler textos bíblicos como narrativas literárias, além, é claro, de lê-los como livros sagrados, caso a leitura seja confessional, que não é meu caso aqui. Minha restrição a leitura psicologizante ou marxista de textos bíblicos é porque estas leituras pecam por ferir a própria "trama", a fim de reafirmar a teoria que usamos para lê-lo. Explico-me.
O crítico Anatol Rosenfeld escreveu um ensaio em sua coletânea "Texto e Contexto" (ed. Perspectiva) chamado "Psicologia Profunda e Crítica", no qual ele dá boas dicas do por que não abordar um texto literário reduzindo-o a excessos psicologizantes. Sua crítica cai sobre a tentativa de ler, por exemplo, Hamlet como mais um rapazinho que queria transar com a mãe e matar o próprio pai. Ou ler Santa Tereza d’Ávila em chave junguiana e ver em seus escritos místicos mais um processo de individuação.
Acho que no caso freudiano a redução é ainda pior porque o conceito de inconsciente coletivo em Jung preserva um drama maior nos personagens do que uma mera "historinha de uma menina esquisita e sua mania neurótica por Deus". E, por isso, ele sustenta a dramaticidade para além da "mera" sexualidade neurótica da menina.

Para Rosenfeld, não devemos psicologizar personagens porque, ao fazer isso, vamos a "Hamlet" apenas para reencontramos a teoria de Freud e assim perdemos "Hamlet" e ficamos apenas com seu "mesquinho" complexo de Édipo. O mesmo, digo eu, acontece quando lemos a Bíblia à cata de interpretações marxistas ou políticas: lemos a Bíblia para rever a luta de classes e a disputa política, e o drama específico narrado se perde, junto com a força de seus personagens.
Neste sentido, se não entendermos a relação entre o "personagem" Deus de Israel e os heróis bíblicos para além de reduções psicológicas ou políticas, perdemos a força do perdão dado no Sinai.

Deus não precisa perdoar ninguém porque Ele não precisa de ninguém. Este é o personagem. Quando o povo trai a aliança depois de tudo que Ele fez, Ele poderia simplesmente destruir tudo. Fosse Ele apenas justo, o sol pararia de brilhar. A ideia que Deus seja misericordioso nasce do fato que Ele nos criou e é paciente conosco sem precisar sê-lo. Daí a afirmação comum na Bíblia hebraica de que Ele carrega o mundo na palma de Sua mão enquanto nós somos uma sombra que passa.

O filósofo judeu A.I. Heschel (século 20) diz, num texto dedicado ao Dia do Perdão, que neste dia estamos de pé diante de Deus. O sentimento é de "pahad" (medo em hebraico). Devemos abaixar a cabeça e tremer, desnudando um coração que diante de Deus é sempre nu. Evidente que, além do temor, está em questão as grandes virtudes hebraicas, a gratidão, a coragem e a humildade. O pó em nós estremece diante da imensidão infinita que é Deus. Ao ouvir o coração disparado de medo, devemos escutar nele a alegria que é existir.

 

Que os judeus tenham uma ótima







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Luis Felipe Pondé – Uivando para a lua

June 8th, 2009 | 16 Comentários | Postado em Filosofia, Imprensa

Coluna de 01/06 de Pondé, na Folha. Um dos melhores textos do professor em sua coluna. Leitura obrigatória.

LUIZ FELIPE PONDÉ
Uivando para a Lua


Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm menos de mil anos

 

NÃO SOU contra a religião. Ser religioso não implica ser menos inteligente, informado ou ético. Tem muita gente "inteligente" que comete erros ridículos como esse. Nem todo religioso uiva para a Lua. Tampouco os religiosos detêm o monopólio do apetite por matar seus semelhantes. Religiosos ou não, gostamos de matar e odiar. O século 20 destruiu qualquer ilusão quanto à doçura ou autocrítica dos ateus ou dos que creem na "história" ou na ciência.

Mas de fato há riscos específicos na crença religiosa, ainda mais em tempos de indústria cultural. Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm menos de mil anos. Em matéria de religião, quanto mais velha, melhor. Outra coisa: se passou pela Califórnia, a chance de a religião ficar boba aumenta muito.

Mas existem umas "novas" religiões por aí, que Deus me perdoe. Pegue o exemplo do tal neopaganismo da deusa-mãe. Pessoas de boa-fé simpáticas aos paganismos antigos devem tomar cuidado com a literatura barata que é comum nessa área. Procurem trabalhos de historiadores da Antiguidade e da Idade Média reconhecidos, e não livros de auto-ajuda espiritual escritos por picaretas quânticos. Infelizmente, muitos dos neopagãos soam como adolescentes mal-informados e de idade um pouco passadinha.

O termo "paganismo" aqui normalmente quer dizer religião celta, mas às vezes pode ser uma salada mista com a Isis egípcia e o Odin escandinavo. Percebe-se que a atitude é basicamente a mesma de quem escolhe uma calça jeans, um CD ou uma praia "cabeça". Na falta de informação arqueológica significativa sobre essas religiões "celtas" (fato que os neopagãos desconhecem), filmes ruins e literatura barata entram no lugar, compondo o imaginário "histórico" acerca do passado celta, que é sempre visto como harmonioso e sábio como se houvesse algum passado harmonioso e sábio em nossa história.

Um dos exemplos da visão adolescente nesse caso é achar que o cristianismo destruiu uma religião (das bruxas celtas) que vivia em paz com o mundo. Não existe religião na história que não tenha tido seu quinhão de sordidez, mas "crianças" não entendem isso. Segundo algumas fontes romanas (não cristãs), há suspeita de que alguns dos cultos "celtas" praticavam sacrifícios humanos, o que para os romanos era um pouco fora dos limites. Os romanos eram conhecidos por sua tolerância religiosa (Roma não foi um desfile de Neros), se eles destruíram alguns desses cultos, é porque coisa boa não era.

O imaginário adolescente é claro: o cristianismo, este perverso, patriarcal, destruiu uma sociedade onde homens e mulheres viviam em comunhão sem opressão. Para eles, queimaram-se milhares de mulheres e homens inteligentíssimos na Idade Média. A verdade é que provavelmente a maior parte dessas infelizes vítimas era gente boba mesmo. Pergunta: como seria o mundo se o paganismo tivesse vencido?
Responderiam os "adoradores da deusa": viveríamos num mundo sem classes, sem machismo, sem ódio, sem guerras, mas, ainda assim, rico, com antibióticos, internet, sexo aos montes, aviões e baladas.

As bobagens também aparecem no uso absurdo de referências advindas de sistemas religiosos que ainda existem. Por exemplo, alguns neopagãos afirmam que a cabala (mística judaica medieval) foi uma criação egípcia pré-era cristã! A tal "árvore da cabala", onde aparecem os atributos de Deus, é uma das coisas que mais sofrem com o besteirol neopagão. A culpa do mau uso da cabala é, em parte, infelizmente, de alguns "cabalistas" judeus atuais que a vendem como receita barata de conseguir dinheiro, amor e sexo. Jung também vira bobagem nas mãos dos neopagãos: tudo é "arquétipo" a serviço de qualquer ideia besta que você tenha.

O neopaganismo é em grande parte invenção de caras ingleses esquisitos e suas namoradas mal-amadas do século 20 mesmo. Junte-se a isso um pouco de física quântica (aquela que, segundo alguns "entendidos", faz acontecer tudo o que você quiser contanto que se diga a palavra mágica "energia!"), a mania incontrolável de falar sobre si mesma, uma pitada de feminismo místico, e você será uma neobruxa.

Tenho um critério para levar religiosos a sério: se usar a palavra "energia" e disser que posso fazer tudo o que eu quiser porque tudo o que preciso saber está em meu inconsciente, pulo fora. O próximo passo dele será uivar para a Lua.







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Ecce homo

February 16th, 2009 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião

Texto do nosso amigo, Francisco Razzo.

 

tomecaravaggioSe existe hoje uma tend?ncia entre as pessoas ditas esclarecidas, intelectual e moralmente,  essa tend?ncia ? o de meter o bedelho em assuntos em que elas n?o possuem a m?nima compet?ncia, e a religi?o sem d?vida ? a bola da vez, sobretudo, quando se trata da Igreja Cat?lica, ? claro! H? sempre um ?mente aberta? distintamente em qualquer conversinha de boteco soltando um ?ah, mas a Igreja Cat?lica…?, ?Ah, A Idade M?dia e a Inquisi??o…?. Entre os mais cultos, aqueles mesmos que acham que livros de auto-ajuda s?o pra alienados, mas que se ap?iam em livros de divulga??o cient?fica e j? se acham os g?nios indom?veis dos mais elevados estudos, a briga definitivamente se tornou entre ?F?? e ?Ci?ncia?. Outro dia, um professor de hist?ria ficou horrorizado ao descobrir que eu era cat?lico, disse na minha cara, sem pudor: ?como uma pessoa esclarecida, um professor de filosofia, pode ser cat?lico??. Em outras palavras, o que ele estava querendo dizer era: ?A intelig?ncia deve excluir necessariamente a F?, ser? que voc? n?o percebeu ainda, que o mundo agora ? moderno??. Coisas do tipo n?o s?o raras, chove por a? o dia todo na minha orelha! Evidente que as raz?es dessas coisas t?m ra?zes profundas na hist?ria. E elas se alastram pela falta de boas raz?es dos nossos amados intelectuais panflet?rios que resolveram salvar a humanidade da sua cegueira.

Mas vamos ficar s? com o b?sico, por enquanto, nada de fazer arqueologia das id?ias: ? not?vel hoje em dia, que toda vez em que se discute ?teoria da evolu??o de Darwin? a coisa toma o caminho da intermin?vel disputa entre F? e Raz?o. Como se essa fosse a conseq??ncia mais ?bvia! ?Afinal, como ainda ? poss?vel que esses ignorantes acreditem em Ad?o e Eva??. A verdade ? que Darwin ? visto como o patrono de um tipo de postura paradigm?tica para os amantes da ci?ncia, enquanto os mais inclinados ? F? ? quero dizer os mais c?ticos em rela??o ?s verdades da ci?ncia ? s?o tachados como meros idiotas que negam a realidade e se trancam no submundo da fantasias e dos del?rios est?pidos. Resumindo: Darwin e sua Teoria da Evolu??o, sin?nimo de Ci?ncia. Religi?o (sobretudo a crist?) e sua concep??o de cria??o (bom, em sete dias, a? voc? j? est? querendo demais, n?o?) sin?nimo de burrice, estupidez, fuga do real, terrorismo etc.

Primeiramente, devemos concordar que as coisas realmente n?o s?o bem assim, vamos ser historicamente sinceros: Darwin n?o est? com essa bola toda! E depois, que a teologia crist?, sobretudo no que diz respeito ? quest?o da Cria??o e da sua antropologia (i.e. como ela define o Homem), est? longe de ser um amontoado de lorotas tolas ou historinhas da carochinha. Basta ler Santo Agostinho, Santo Anselmo e Tomas de Aquino, se ainda sobrar f?lego! Eu duvidei no come?o, fui at? esses autores, como dizem, quase que "furei os z?io", mas definitivamente mordi a l?ngua… Meu problema, revendo meu entusiasmado ate?smo, ? que a coisa toda era uma grave falta de repert?rio cultural e falta de chinelada. Chegamos a um n?vel hoje t?o lament?vel de cultura e repert?rio que se voc? n?o tiver uma opini?o sobre algum assunto, qualquer que seja, ? capaz de entrar em colapso por ressentimento. Eu confesso, quando eu era jovem e inteligente eu n?o podia admitir que algu?m acreditasse em Deus e ao mesmo tempo ser meu professor de qu?mica. Agora que estou quase com um p? na meia idade e sou tamb?m quase um tapado, eu percebo que os professores de ci?ncia que ainda hoje acreditam em Deus s?o corrosivamente mais c?ticos do que aquelas que acham que Deus ? ?pio do pov?o. Isso n?o ? regra, ? uma leviana constata??o de um leviano cotidiano escolar.

Mas, ? isso, grandes professores hoje se ap?iam n?o mais em ci?ncia s?ria, mas na maldita m?dia pseudocient?fica ou nos militantes panflet?rios que insistem na absurda exist?ncia da guerra entre ci?ncia e f?, que sinceramente chega ser escandaloso! Reproduzo aqui, para dar um ?nico exemplo, o que diz um desses divulgadores descaradamente mal-informados sobre especialidades que n?o lhe dizem respeito: No cap?tulo ?Religi?o ? O espectro que assombra?, de O espectro de Darwin, Michael Rose diz:

Todas as civiliza??es pr?-modernas tiveram teologias em que seres ou for?as de grande poder davam origem a toda a ordem aparente na Terra. Tais for?as ou seres costumavam ser racionalmente concebidos, a fim de dar sentido ?s esta??es, ? sorte na guerra e assim por diante. Antes da ci?ncia, o saber era dominado pela religi?o e os doutos, quase que invariavelmente, eram sacerdotes. Tal como as ideologias, as religi?es s?o singularmente imunes ? experimenta??o e a comprova??o. Quem insiste em apresentar provas ou argumentos que contradigam um artigo de f? ? perseguido como herege, em vez de enaltecido por sua descoberta. A religi?o interessa-se, em ?ltima inst?ncia, pela autoridade e pela f?, e n?o pela d?vida e pelo conhecimento. (p. 234).

S?o essas e outras fantasias ditas cient?ficas ? uma vez que saiu do teclado de um cientista ? que povoam a mente dos que por uma raz?o puramente ret?rica acreditam que isso seja realmente ci?ncia e aquilo religi?o. O que acontece ? que esses caras descaradamente n?o sabem o que significa religi?o, desconfio at? se sabem o que realmente significa ci?ncia, e menos ainda sabem o que significa uma religi?o como o Cristianismo. A verdade ? que esses caras, com diploma de PhD, n?o fazem a m?nima id?ia do que est?o falando, e por uma quest?o muito, mas muito delicada, n?o estudaram sobre o assunto, s?o especialistas, diga se de passagem, do mais alto gabarito em amebas, besouros, mol?culas, querendo falar, vejam s?, nada mais nada menos, do que… de Deus. Alguma vez na vida ser? que esses caras abriram uma linha de um S?o Jo?o da Cruz e notou ? com certo constrangimento, se forem sinceros ? o alto grau de d?vida, e n?o autoridade, que movia os seus passos ao Monte Carmelo? Resposta simples, n?o! Alguma vez esses caras leram excertos de um texto como o de J? e notaram que era movido por uma d?vida muito mais ardente e corrosiva do que a de qualquer um desses cientistas ditos movidos pelo conhecimento e n?o pela autoridade? ?bvio, n?o! Ou leram um o relato sobre Tom?, desesperado com o seu ceticismo em ter de enfiar o dedo na ferida do Cristo para ver se aquilo realmente era uma chaga? N?o, n?o leram! N?o sabem do que falam, mas querem manter a notoriedade, afinal, s?o cientistas em busca do conhecimento e n?o da gl?ria! Se h? uma semelhan?a e um ?elo perdido? entre a ameba e o homem, pronto: ecce homo!

Francisco Razzo

 

Leia tamb?m
Apontamentos sobre o Ate?smo ? Ate?smo e Raz?o
Sobre Dawkins e del?rios
C?lulas-tronco e as perguntas certas
O erro grosseiro dos daimistas







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Apontamentos sobre o Ateísmo – Ateísmo e Razão

February 2nd, 2009 | 5 Comentários | Postado em Filosofia, Opinião

 

Vez ou outra acabo parando em sites e blog de ateus convictos. Em todas essas oportunidades, leio com atenção o que eles têm a dizer. E na imensa maioria das vezes o que encontro são sempre os mesmos clichês pseudo-intelectuais. Hábito este (o de desfilar clichês falaciosos), que os ateus adoram reprovar nos crentes. Dentre eles, um dos que mais me incomoda, pelo tamanho da falácia, é aquele que prega que responder afirmativamente a questão da existência de Deus é um ato necessariamente advindo de alguém irracional ou, no mínimo, alguém em quem a Razão já deixou de operar. Em suma, a posição atéia é a única legitimamente racional. Vai daí que os ateus seriam também o último abrigo da racionalidade.

De início, é realmente triste notar que se está pouco disposto a entabular discussões realmente sérias sobre aquela questão. Em parte porque a maioria do que vejo por aí se contenta na retaliaçã desvairada de interlocutores cheios de boa-fé mas, de fato, despreparados. Pode se coletar pelos sites e blogs ateus uma multidão de xingamentos e falácias que têm como objetivo único ganhar a discussão e, não necessariamente, explicitar ou refutar. Isso se deve também ao fato de que a imensa maioria dos ateus que leio por aí têm, eles mesmos, uma formação e um preparo duvidoso para lidar com tais questões. A bibliografia utilizada em geral, não deixa dúvidas: Dawkins, Hitchens e similares. Jamais chegaram perto nem de algo como The Cambridge Companion to Atheism, que tem seríssimos contribuidores (e que “magicamente” não conta com Dawkins e Hitchens) ou mesmo de ivros básicos sobre filosofia da religião. Estudar a fundo os argumentos filosóficos históricos então é pedir quase um milagre (ops!). No máximo replicam os comentários estúpidos feitos por gente que também nunca os estudou a fundo. Nietzsche, Feuerbach e Marx se tornam, na mão deles, um infinito depósito de citações virulentas. Prefiro nem comentar sobre Darwin.

Junte-se a isso que os blogueiros ateus em sua imensa maioria não conhece absolutamente nada sobre teologia(s). Aqui reaparece o fascínio pelos clichês históricos (a Igreja vendia lugar no céu), teológicos (Se Deus é onipotente, por que ele não….) e sociológicos (a maioria dos crentes é proveniente de camadas com pouco estudo etc…) que nem de longe acomete os pensadores sérios sobre o assunto: mesmo o problema da teodicéia é ignorado em suas linhas mais fundas. Vê-se que o quadro geral não é bom para elevar a discussão sobre o tema.

Falta retomar a questão da relaçã entre ateísmo e razão. A questão é muito longa e não quero desenrolá-la toda. Só quero tocar num ponto que julgo principal. Dizer que falta racionalidade à posição que afirma Deus é, tão simplesmente, uma tolice:

1. Filosófica. Seja qual for a definição de Razão a ser adotada, não se pode furtar àquela grega de lógos que, diferentemente do que dizem professores de primário, não quer dizer simplesmente estudo. Lógos é discurso racionalmente encadeado, compreensível racionalmente e obviamente se relaciona com “argumento”. Com isso, dizer que qualquer discurso gramaticalmente encadeado, que se pode entender por qualquer ente racional é privado de razão, é idiota. Existem discursos racionais que são falaciosos, errados, tendenciosos etc. Mas nem Aristóteles concordaria que os argumentos sofísticos falaciosos, por exemplo, carecem da presença de ação do lógos. Pode ser um lógos ruim, mas ainda assim é um lógos. Dizer que falta razão à argumentos como as cinco vias de S. Tomás ou ao argumento anselmiano ou ontológico é, no mínimo, ignorância. A própria grafia de razão com “R” maiúsculo já denota uma opção por uma tal concepção de racionalidade que não é unívoca tampouco incriticável.

2. Histórica. Alguém em sã consciência pode defender a tese de que gente como São Tomás, Descartes, Hegel e tantos outros são irracionais ou não fazem uso da razão? Chega a ser maldade desconhecer, ainda que historicamente, a presença de um esforço racional e válido para provar a existência de Deus. Dizer que a priori aqueles que defendem a existência de Deus não pensam ou são irracionais tão somente pelo fato de defenderem tal tese é de uma estupidez violenta.







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Obama sobre religião e política ou Sobre Ser e Parecer

November 18th, 2008 | 5 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião, Vídeos

Por favor, sigam o pequeno roteiro abaixo:

1. Veja o vídeo. É um trecho do discurso de Barack Obama proferido em 28/06/2006 no qual o semi-deus Obama fala sobre religião e secularismo:

2. Leia dois discursos: este e este.

Caso você ainda não veja alguns problemas básicos, continue lendo.

2.1. Em linhas gerais, o vídeo mostra o então senador Obama como apologeta de um certo tipo de secularismo. Este certo tipo de "secularismo" pode ser subsumido àquele apresentado por Charles Taylor em seu colossal A secular age, como o banimento de Deus ou de valores que se referem à religiões da esfera pública por causa de tal referência.

Para defendê-lo, o novo presidente desenha o seguinte "argumento":

a) Seu país não é (se já foi algum dia) mais exclusivamente cristão. Possui uma multiplicidade incontável de crenças religiosas (inclusive a des-crença);

b) contudo, caso pudéssemos restringir a população a cristãos, ainda assim o recurso ao universo epistêmico da religião (se é que ele existe), nos seria vedado, para dele derivar quaisquer elementos para políticas e discussões públicas. Dito de outro modo, não poderíamos fazer referência à religião (no caso, cristã) para nos pautarmos publicamente (leia-se fazer política) já que

c) há uma multiplicidade de "cristianismos" ou denominações;

c’) há uma diversidade de ensinamentos bíblicos patentemente conflitantes e anti-éticos.

c”) Seguem-se exemplos:
- do Levítico, que aceita a escravidão e proíbe o consumo de frutos do mar;
- do Deuteronômio, que exorta o apedrejamento do filho infiel;
- dos Evangelhos, que têm no Sermão da Montanha seu ápice, cuja radicalidade é inatingível.

- o que leva a

d) a democracia exige que os que crêem "traduzam suas preocupações em valores universais, ao invés de valores específicos de cada religião";

e) o que os submete à discussão "e sejam influenciáveis pela razão";

f) caminho vedado aos que têm fé porque:

f’) política é "persuasão" e "negociação"; é "a arte do possível";

f”) "a religião não permite negociar"; é "a arte do impossível".

Assim conclui Obama pela exclusão do discurso cujo fundamento é religioso da dimensão dita pública.

***

Vamos pontualmente:

1. O centro do argumento, que se erige a partir de "c", está sobre um pressuposto escondido mas de fácil veiculação e aceitação entre nossos contemporâneos. Talvez por isso ele passe tão despercebido e goza de tamanha inquestionabilidade, a saber, os cânones da teologia liberal, tanto em suas vertentes mais originárias quanto em sua degringolação moderna.

O caminho é simples: o Iluminismo – e com ele toda a modernidade e seus derivados – coloca em cheque a validade epistêmica dos dizeres da religião. Isso equivale a dizer que mesmo a possível objetividade das verdades de fé é absolutamente excluída. Some-se a isso o sucesso tecnicista da ciência a partir do século XIX (cf. Adorno e Horkheimer). Resta à teologia e ao pensamento sobre a religião que não quer encampar uma disputa racionalmente séria, recuar e postular, como Schleiermacher, que a fonte da religião não é de fato, objetiva – como um conjunto de teses às quais se deve aderir – mas um sentimento interior, subjetivo, uma intuição interna que é, neste caso, o da extrema dependência para com uma alteridade. É sintomático que o subtítulo do principal livro de Schleiermacher sobre o assunto – Sobre a Religião – seja "para seus cultos desprezadores". Está então consumado que o domínio da religião é o da interioridade e da subjetividade oposta ao domínio do que é culto.

A religião é então o espaço do sentimento e da anti-racionalidade, registro cujo posse é de exclusividade da ciência (natural, mais especificamente). Mesmo a filosofia virou uma coleção de citações e opiniões sem real pretensão objetiva. Pretensão obviamente proibida também à teologia.

É só a partir desse ponto de vista que Obama pode dizer o que diz. Entretanto, o que acontece é que nada disso é óbvio e ao abrigo de críticas graves.

2. A "exegese" bíblica de Obama chega a ofender. Lê as Escrituras como quem lê o jornal matutino, sem se atentar para a hermenêutica. Homens como Spinoza, o próprio Schleiermacher, Paul Ricoeur ou H-G. Gadamer ficariam corados ao ver um presidente de tamanho porte lendo as Escrituras – com textos que datam de muitos milênios atrás – com tamanha ignorância exegética. É extremamente curioso como ninguém pensa poder prescindir de conhecimentos circundantes para uma correta leitura da Odisséia, mas acha óbvio ler a Bíblia ipsis literis.

3. As citações de Obama em "d" e "e" são pérolas. O pressuposto da teologia liberal fica explícito aqui. As opiniões do domínio da religião só dizem respeito ao foro íntimo e, assim, carecem necessariamente de objetividade e universalidade, sobretudo porque não se submetem à razão.

O senhor Obama está convidado a explicitar o que entender por "razão". É o que as ciências pós-iluministas praticam hoje, na quals a razão se identifica e se reduz completamente ao seu caráter matematizante do mundo (sem se dar conta que desde Kant a própria matemática já não é mais parâmetro de rigor, clareza e distinção)? É simplesmente aquela razão instrumental que se reduz à técnica e expulsa a contemplação e a reflexão em si (= theorêin, em grego), já provada por Aristóteles como, essa sim, a dimensão mais fina e aguçada da razão, para além da qual nos é realmente impossível chegar? Ou então negar que Agostinho, Tomás de Aquino, Duns Scotus, Suárez, Pascal, Descartes, Kant e tantos outros são racionais?

Obama também fala de "valores universais" sem perceber que o faz no mais religioso dos sentidos. Só quem é absolutamente crente consegue crer em "valores universais" por pensar que eles estão para além do desenvolvimento histórico, alojados numa instância superior e transcendente, como em Deus. Os Dez Mandamentos são para o crente "valores universais". A compaixão e a ética para o não-crente "estritamente racional" (em sentido estrito) são construtos que muito bem podem ser vistos como estando a serviço de determinadas classes ou interesses (uma breve espiada na Genealogia da moral, de Nietzsche, já bastaria).

Sobre o banimento da religião da esfera publica, só posso citar um trecho de um dos discursos linkados acima:

Aqui gostaria, brevemente apenas, de relevar que John Rawls, embora negando às doutrinas religiosas compreensivas o carácter da razão "pública", todavia vê na sua razão "não pública" pelo menos uma razão que não poderia, em nome de uma racionalidade secularizadamente insensível, ser simplesmente desconhecida por aqueles que a defendem. Para além do mais, ele vê um critério desta razoabilidade no facto de tais doutrinas derivarem de uma tradição responsável e motivada, tendo sido durante um longo período desenvolvidas argumentações suficientemente boas em defesa da respectiva doutrina. Nesta afirmação, parece-me importante o reconhecimento de que a experiência e a demonstração ao longo das gerações a base histórica da sabedoria humana constituem também um sinal da sua razoabilidade e do seu significado duradouro. Diante duma razão não histórica que procura autoconstruir-se somente numa racionalidade não histórica, a sabedoria da humanidade como tal a sabedoria das grandes tradições religiosas deve ser valorizada como realidade que não se pode impunemente lançar para o cesto da história das ideias.

Voltemos à pergunta inicial. O Papa fala como representante de uma comunidade crente, na qual, durante os séculos da sua existência, amadureceu uma determinada sabedoria da vida; fala como representante de uma comunidade que guarda em si um tesouro de conhecimento e de experiência ética, que se revela importante para toda a humanidade: neste sentido, fala como representante de uma razão ética.

A religiosidade participa da vida pública muito antes de coisas como a "democracia". Nem mesmo Rawls, crítico da ingerência religiosa na esfera pública, consegue fugir ao paradoxo de querer excluir uma razão não-pública que é uma das maiores expressões dos paradigmas da razão pública. Quem, de fato, é "não influenciável pela razão"?

4. Por fim, o senhor presidente fala do que realmente conhece, a política. Segundo ele, seu cerne é a persuasão, o convencimento e a negociação…

Ahn.. vamos deixar falar quem conhece:

 

Sócrates – Então, prossigamos, e consideremos o seguinte: não dizes por vezes que alguém aprendeu alguma coisa?

Górgias – Sim.

Sócrates – E também que acreditou em algo?

Górgias – Perfeitamente.

Sócrates – E és de parecer que ter aprendido e ter crido sejam a mesma coisa que conhecimento e crença? Ou são diferentes?

Górgias – A meu ver, Sócrates, são diferentes.

Sócrates – É certo o que dizes. Tens a prova no seguinte: Se alguém te perguntasse: Górgias, há crença falsa e crença verdadeira? responderias afirmativamente, segundo penso.

Górgias – Sim.

Sócrates -E conhecimento, há também falso e verdadeiro?

Górgias – De forma alguma.

Sócrates – O que prova que saber e crer são diferentes.

Górgias – É certo.

Sócrates – Apesar disso, tanto os que aprendem como os que crêem ficam igualmente persuadidos.

Górgias – Exato.

Sócrates – Podemos, então, admitir duas espécies de persuasão: uma, que é a fonte da crença, sem conhecimento, e a outra só do conhecimento?

Górgias – Perfeitamente.

Sócrates – De qual dessas persuasões se vale a retórica nos tribunais e nas demais assembléias, relativamente ao justo e ao injusto? Da que é fonte de crença sem conhecimento, ou da que é fonte só de conhecimento?

Górgias – Evidentemente, Sócrates, da que dá origem à crença.

Sócrates – Então, ao que parece, a retórica é obreira da persuasão que promove a crença, não o conhecimento, relativo ao justo e ao injusto?

Górgias – Exato.

Sócrates – Sendo assim, o orador não instrui os tribunais e as demais assembléias a respeito do justo e do injusto, mas apenas lhes desperta a crença nisso. Em tão curto prazo não lhe fora possível instruir tamanha multidão sobre assunto dessa magnitude.

Górgias – Não, de fato.

 

E ainda acusaram Sócrates de impiedade…







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A ciência torna a crença em Deus obsoleta?

October 29th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião


A John Templeton Foundation está promovendo uma coletânea de artigos sobre a questão acima. Ela conta com nomes eloquentes nessa discussão, como o Cardeal Schönborn e Christopher Hitchens.

 

 

Os artigos estão aqui. E podem ser baixados todos em pdf clicando aqui.

 

Há também bons debates entre os articulistas, que estão disponíveis aqui.

 

 

Alguém para engrossar o debate?







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