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Dez Princípios Conservadores – Russell Kirk

September 23rd, 2009 | 1 Comentário | Postado em Filosofia, Opinião

 

Não sendo nem uma religião nem uma ideologia, o conjunto de opiniões designado por conservadorismo, não possui nenhuma “escritura sagrada” e nenhum “O Capital” para fornecer um dogma. Por mais que se possa estabelecer em que os conservadores acreditam, os princípios primordiais do convencimento conservador foram derivados a partir do que escritores renomados e homens públicos conservadores professaram durante os dois séculos passados. Após algumas observações introdutórias neste tema geral, eu listarei dez destes princípios conservadores.

Talvez seja mais apropriado, na maior parte das vezes, usarmos a palavra “conservador” como um adjetivo. Isto porque não existe nenhum “Modelo Conservador”, e o conservadorismo é a negação da ideologia: é um estado da mente, um tipo de caráter, uma maneira de olhar a ordem social civil.

A atitude que nós chamamos de “conservadorismo” é mantida por um conjunto de sentimentos ao invés de um sistema de dogmas ideológico. É quase completamente verdadeiro que um conservador pode ser definido como uma pessoa que se pensa como tal. O movimento ou o conjunto de opiniões conservadoras pode acomodar uma diversidade considerável de pontos de vista em muitos temas, não havendo nenhum “Test Act” ou “Thirty-Nine Articles” do credo conservador.

Em essência, o conservador é simplesmente alguém que considera as coisas permanentes mais agradáveis do que o “Chaos” e a “Old Night”. (Contudo os conservadores sabem, com Burke, que saudáveis “mudanças são os meios de nossa preservação.”) Uma experiência de continuidade histórica das pessoas, diz o conservador, oferece uma guia para a política muito melhor do que os projetos abstratos de filósofos de botequim. Mas naturalmente há mais a motivar o conservador do que esta atitude geral.

Não é possível redigir um catálogo completo das convicções conservadoras; não obstante, eu ofereço-lhe, resumidamente, dez princípios gerais. Parece seguro dizer que a maioria dos conservadores subscreveria a maior parte destas máximas. Em várias edições de meu livro The Conservative Mind, eu listei determinados cânones do pensamento conservador — a lista difere um tanto de edição em edição; na minha antologia The Portable Conservative Reader eu ofereço variações sobre este tema. Agora eu lhes apresento um sumário das suposições conservadoras que diferem um tanto de meus cânones destes dois livros. Específicamente, a diversidade de maneiras em que as visões conservadoras podem encontrar expressão é por si só uma prova de que o conservadorismo não é nenhuma ideologia fixa. Que princípios particulares os conservadores enfatizam em uma época específica, variarão com as circunstâncias e as necessidades dessa era. Os seguintes dez artigos de crença refletem as ênfases dos conservadores na América de hoje em dia.

 

Primeiramente, o conservador acredita que existe uma ordem moral duradoura. Que a ordem está feita para o homem, e o homem é feito para ela: a natureza humana é uma constante, e as verdades morais são permanentes.

A palavra ordem significa harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interna da alma, e a ordem exterior da comunidade. Há vinte e cinco séculos, Platão ensinou esta doutrina, mas mesmo os letrados de hoje em dia encontram dificuldades em compreender. O problema da ordem tem sido uma preocupação central dos conservadores desde que o termo conservador passou a fazer parte da política.

Nosso mundo do século vinte experimentou as conseqüências hediondas do colapso da crença em uma ordem moral. Como as atrocidades e os desastres da Grécia no quinto século antes de Cristo, a ruína de grandes nações em nosso século mostra-nos o poço em que caem as sociedades que se enredam em ardilosos interesses próprios, ou engenhosos controles sociais, como alternativas mais palatáveis a uma antiquada ordem moral.

Foi dito pelos intelectuais de esquerda (“liberals”) que o conservador acredita, com o coração, que todas as questões sociais são questões da moralidade privada. Compreendida corretamente, esta indicação é bastante verdadeira. Uma sociedade em que os homens e as mulheres são governados pela opinião em uma ordem moral perene, por um sentido forte de certo e errado, por convicções pessoais sobre a justiça e a honra, será uma boa sociedade — não importa a maquinaria política que utilize; quando uma sociedade em que os homens e as mulheres estão moralmente a deriva, ignorantes das normas, e movidos primariamente pela satisfação dos apetites, será uma má sociedade — não importando quantas pessoas votem ou quão liberal seja sua constituição.

 

Segundo, o conservador adere ao costume, à convenção, e à continuidade. São os princípios antigos que permitem que as pessoas vivam juntas pacificamente. Os demolidores dos costumes destroem mais do que sabem ou desejam. É através da convenção, palavra tão abusada nos nossos tempos, que conseguimos evitar disputas perpétuas sobre direitos e deveres: as leis, em sua essência, são um conjunto de convenções. Continuidade é o agregado dos meios de se ligar uma geração à outra, e ela importa tanto para a sociedade quanto para o indivíduo. Sem ela, a vida é sem sentido. Quando revolucionários bem sucedidos apagaram velhos costumes, ridicularizaram antigas convenções e quebraram a continuidade das instituições sociais, neste mesmo instante descobriram a necessidade de repô-los por novos, mas este processo é lento e penoso, e a nova ordem social que eventualmente emerge nestas circunstâncias pode ser muito inferior à velha ordem que os radicais superaram em sua ardorosa busca pelo “Paraíso Terreno”.

Conservadores são campeões dos costumes, convenção e continuidade, porque eles preferem o diabo que conhecem do que áquele que não. Ordem, justiça e liberdade, eles acreditam, são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício. Desta forma, o corpo social é um tipo de corporação espiritual, comparável à Igreja, podendo mesmo ser chamada de comunidade de almas. A sociedade humana não é nenhuma máquina para ser tratada mecanicamente. A continuidade, o sangue da vida de uma sociedade, não pode ser interrompida. O lembrete de Burke sobre a necessidade de mudanças prudentes está nas mentes dos conservadores. Mas a mudança necessária, argumentam os conservadores, deve ser gradual e discriminatória, nunca removendo antigos interesses de uma vez.

 

Terceiro, os conservadores acreditam no que pode ser chamado o princípio da prescrição. Conservadores percebem que as pessoas modernas são anãs sobre os ombros de gigantes, capazes de ver mais longe que seus ancestrais apenas por conta da grande estatura daqueles que os precederam no tempo. Portanto, os conservadores freqüentemente enfatizam a importância da prescrição, isto é, das coisas estabelecidas pelo uso desde tempos imemoriais, de modo que a mente humana não busca os seus contrários. Existem direitos cuja principal sanção é sua antigüidade, estando os direitos de propriedade, freqüentemente, aí incluídos. Da mesma forma, nossa moralidade é em grande parte prescritiva. Os conservadores argumentam ser bastante improvável que nós, os modernos, façamos alguma brava descoberta nos campos da moralidade, política ou gosto. É perigoso ter de ponderar cada problema com base no julgamento e na racionalidade pessoal. O indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia, nos ensina Burke. Em política fazemos bem em seguir por precedência, preceito e mesmo pré-julgamento, pois a humanidade adquiriu uma sabedoria muito maior do que qualquer racionalidadezinha de um único homem.

 

Quarto, os conservadores são guiados por seu princípio da prudência. Burke concorda com Platão que para o estadista, a prudência é a maior dentre as virtudes. Qualquer medida pública deve ser avaliada por suas prováveis conseqüências de longo prazo, e não meramente por alguma vantagem ou popularidade temporárias. Os liberais e os radicais, diz o conservador, são imprudentes: perseguem seus objetivos sem dar muita atenção ao risco de que novos abusos sejam piores do que os males que esperam eliminar. Como John Randolph de Roanoke bem colocou, a providência move-se lentamente, mas o diabo sempre se apressa. Sendo complexa a sociedade humana, os remédios não podem ser simples se devem ser eficazes. O conservador afirma que age somente após suficiente reflexão, pesando as conseqüências. Reformas, assim como as cirurgias, são perigosas quando repentinas e profundas.

 

Quinto, os conservadores prestam atenção ao princípio da diversidade. Eles sentem afeição pela intrincada proliferação de instituições sociais e de modos de vida estabelecidos de longa data, a distingüi-las da uniformidade reducionista e do igualitarismo dos sistemas radicais. Para a preservação de uma saudável diversidade em qualquer civilização, nela devem sobrevir ordens e classes, diferenças em condições materiais e diversos modos de desigualdade. As únicas formas verdadeiras de igualdade são aquelas do Julgamento Final e aquelas perante um justo tribunal da lei; todas as demais tentativas de nivelamento irão conduzir, na melhor das hipóteses, à estagnação social. A sociedade requer liderança honesta e capaz; e se as diferenças naturais e institutionais forem destruídas, nesta mesma hora algum tirano ou um desprezível representante de oligarcas criará novas formas de desigualdade.

 

Sexto, os conservadores se purificam por seu princípio da imperfeição (“imperfectability”). A natureza humana sofre irremediavelmente de determinadas falhas graves, o sabem os conservadores. Em sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser criada. Por conta de seu desassossego, a humanidade se rebelaria sob qualquer dominação utópica, e iria, mais uma vez, eclodir em violento descontentamento — ou então iria exaurir-se em tédio. Perseguir uma utopia é terminar em desastre, diz o conservador: nós não fomos feitos para coisas perfeitas. Tudo que podemos razoavelmente esperar é uma sociedade toleravelmente ordenada, justa, e livre, na qual alguns males, desajustamentos e sofrimentos estarão sempre presentes. Por intermédio de reformas prudentes podemos preservar e melhorar esta ordem tolerável. Mas se as antigas salvaguardas institutionais e morais de uma nação forem negligenciadas, então o impulso anárquico da humanidade será liberado de suas amarras: “a cerimônia da inocência estará perdida.” As ideologias que prometem a perfeição do homem e da sociedade converteram uma grande parte do mundo do século vinte em um inferno terrestre.

 

Sétimo, conservadores estão convencidos de que a liberdade e a propriedade são intimamente relacionadas. Separe a propriedade da possessão privada e o Leviatã se transformará no mestre de todos. Por sobre as fundações da propriedade privada são erigidas grandes civilizações. Quanto mais difundida for a posse da propriedade privada, mais estável e produtiva será uma comunidade. Nivelamento econômico, crêem os conservadores, não é sinônimo de progresso econômico. Acumular e gastar não são os principais objetivos da existência humana; mas uma base econômica sadia para o indivíduo, a família e a comunidade deve ser almejada.

Henry Maine, em sua “Village Communities”, expõe eloqüentemente a causa da propriedade privada em distinção à propriedade comunal: “Ninguém tem a liberdade de atacar as diversas formas de propriedade privada e, ao mesmo tempo, dizer que valoriza a civilização. A história de ambas não pode ser desentrelaçada.” A instituição da propriedade privada tem sido um instrumento poderoso para ensinar responsabilidade a homens e mulheres, para prover motivos para a integridade, para suportar a cultura geral, para levantar a humanidade acima do nível do mero penoso laborar, por permitir o ócio para o pensar e a liberdade para agir. Para poder reter os frutos do trabalho do indivíduo e torná-los permanentes; para poder legar a propriedade de alguém à sua posteridade; para poder erguer-se da condição natural de opressiva pobreza à segurança da realização duradoura; para ter algo que realmente pertença a si mesmo — estas são vantagens difíceis de negar. O conservador reconhece que a posse da propriedade impõe certos deveres ao proprietário e aceita estas obrigações morais e legais alegremente.

 

Oitavo, conservadores suportam ações comunitárias voluntárias, tanto quanto se opõem ao coletivismo involuntário. Embora os americanos têm sido fortemente atrelados à privacidade e aos direitos privados, também são um povo notável pelo espírito bem sucedido de comunidade. Em uma comunidade genuína, as decisões que afetam mais diretamente à vida dos cidadãos são feitas localmente e voluntáriamente. Algumas destas funções são realizadas por instituições políticas locais, outras por associações privadas: desde que permaneçam locais e sejam acordadas por aqueles afetados, elas constituirão uma comunidade saudável. Mas quando estas funções passam, “naturalmente” ou por usurpação, à autoridade central, a comunidade estará em sério perigo. O que quer que seja benéfico e prudente na democracia moderna é feito a partir da vontade cooperativa. Se, então, em nome de uma Democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas a uma direção política distante — por que o governo real exercido pelo consentimento dos governados dá vez a um processo uniformizante que é hostil à liberdade e à dignidade humana.

Pois nenhuma nação é mais forte do que as pequenas e numerosas comunidades de que é composta. Uma administração central, ou um conjunto de seletos administradores e servidores civis, embora bem intencionados, não podem conceder justiça, prosperidade e tranquilidade a uma massa de homens e mulheres desprovidos de suas antigas responsabilidades. Essa experiência foi feita antes; e foi desastrosa. É o exercício de nossos deveres na comunidade que nos ensina a prudência, a eficiência e a caridade.

 

Nono, o conservador percebe a necessidade de prudentes restrições ao poder e às paixões humanas. Politicamente falando, o poder é a habilidade de realizar a vontade de um não obstante a vontade dos demais. Um estado onde um indivíduo ou pequeno grupo seja capaz de dominar a vontade de seus concidadãos sem qualquer supervisão, será despótico, seja denominado monárquico, aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa reivindica ser um poder para si mesmo, então a sociedade cai em anarquia. A anarquia nunca dura por muito tempo, sendo intolerável para todos, e contrário ao inelutável fato de que algumas pessoas são mais fortes e mais inteligentes do que seus vizinhos. À anarquia sucede a tirania ou a oligarquia, em que o poder é monopolizado por uns poucos.

O conservador esforça-se para de tal forma limitar e balancear o poder político que a anarquia ou a tirania não possam surgir. Em cada era, não obstante, homens e mulheres são tentados a superar as limitações sobre o poder, por conta de alguma vantagem provisória almejada. É característico do radical pensar o poder como uma força para o bem — tão logo o poder caia em suas mãos. Em nome da liberdade, os revolucionários franceses e russos aboliram as antigas restriçõess ao poder; mas o poder não pode ser abolido; encontra sempre seu caminho para as mãos de alguém. Esse poder que os revolucionários tinham pensado ser opressivo nas mãos do antigo regime transformou-se, muitas vezes, tão tirânico quanto o anterior nas mãos dos novos mestres radicais do estado.

Sabendo ser a natureza humana uma mistura de bem e de mal, o conservador não deposita sua confiança na mera benevolência. Limitações constitutionais, verificações e contrapesos políticos, o cumprimento adequado das leis, a antiga e intricada teia das restrições por sobre a vontade e os apetites — isto é o que o conservador aprova como instrumentos da liberdade e da ordem. Um governo justo mantém uma tensão saudável entre as reivindicações da autoridade e as reivindicações da liberdade.

 

Décimo, o pensador conservador compreende que essas permanências e mudanças devam ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade vigorosa. O conservador não é oposto à melhoria social, embora duvide que haja algo como uma força geradora de algum Progresso místico, com “P” maiúsculo, operando no mundo. Quando uma sociedade está progredindo em alguns aspectos, geralmente está declinando em outros. O conservador sabe que toda sociedade saudável é influenciada por duas forças, que Samuel Taylor Coleridge chamou de sua Permanência e sua Progressão. A Permanência de uma sociedade é formada por aqueles interesses e convicções perenes que nos dão a estabilidade e a continuidade; sem essa Permanência, as origens profundas da sociedade são desfeitas, que cai em anarquia. A Progressão em uma sociedade é esse espírito e esse conjunto de talentos que nos incitam à reforma e à melhoria prudentes; sem essa Progressão, um povo irá estagnar.

Conseqüentemente o conservador inteligente esforça-se para reconciliar as demandas da Permanência e as da Progressão. Pensa que o liberal e o radical, cégos às justas reivindicações da Permanência, poriam em perigo a herança nos legada, em um esforço para apressar-nos em algum duvidoso Paraíso Terrestre. O conservador, resumidamente, favorece o progresso racionalizado e moderado; é oposto ao culto do progresso, cujos adeptos acreditam que tudo que é novo é necessariamente superior a tudo que é velho.

A mudança é essencial ao corpo social, raciocina o conservador, apenas porque é essencial ao corpo humano. Um corpo que cessasse de se renovar começaria a morrer. Mas se esse corpo deve ser vigoroso, a mudança deve ocorrer de forma regular, harmonizando-se com a forma e a natureza desse corpo; se não a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer, que devora seu anfitrião. O conservador crê que nada em uma sociedade deva ser sempre completamente antigo, e que nada deva ser sempre completamente novo. Estes são os meios de conservação de uma nação, pois que são os meios da conservação de um organismo vivo. Apenas o quanto de mudança uma sociedade requer, e que sorte de mudança, depende das circunstâncias de uma era e de cada nação.

Tais são então os dez princípios que têm aparecido freqüentemente ao longo destes dois séculos do pensamento conservador moderno. Outros princípios de igual importância poderiam ter sido discutidos aqui: a compreensão conservadora da justiça, ou a visão conservadora da educação. Mas tais assuntos, com o tempo a se esgotar, eu devo deixar a sua própria investigação.

O grande divisor de águas na política moderna, Eric Voegelin costumava apontar, não é a divisão entre liberais de um lado e totalitários do outro. Não, em um lado dessa linha estão todos aqueles homens e mulheres que acreditam que a ordem temporal é a única ordem, e que as necessidades materiais são suas únicas necessidades, e que podem fazer o que quiserem com o patrimônio humano. No outro lado dessa linha estão todos aqueles povos que reconhecem uma ordem moral perene no universo, em uma natureza humana constante, e em elevados deveres para a ordem espiritual e a ordem temporal.

 

A partir daqui. Visto também aqui. Leia o original em inglês no site do Kirk Center.







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A política como ciência primeira – II

May 14th, 2009 | Comente | Postado em Igreja, Opinião

 

O texto abaixo começou como uma resposta ao comentário do meu amigo Carlo sobre o post anterior (leia na caixa de comentários correspondente), mas tomou proporções maiores. Enfim, está aí para que continuemos a conversa:

* * *

De fato, suas considerações são importantes e mesmo sua dúvida ao final realmente eleva a discussão a um nível superior – que diga-se de passagem, já está acima daqueles que tem na política a causa primeira do real.

Visto a partir do ponto de vista do duplo plano de ação no qual o Papa e a Igreja se inserem, realmente não há nenhum problema em se predicar "política" de "Igreja". Mas o perigoso é quando "Política" faz o papel de primeiro motor ou explicação última das ações da Igreja. Ora, ela se define justamente por ter sua preocupação última para além da esfera das ações humanas. É "para fazer Ó Deus, a tua vontade" (Hb. 10,9) que ela existe.

Assim, repito: dizer que as ações do papa e da Igreja têm sua dimensão política é, sobretudo na acepção grega e mais forte dessa palavra, óbvio. O problema surge quando se propõe que toda a explicação para suas ações estão submissas à dimensão política, o que é, também obviamente, falso. É esse o sentido do título do post: para Aristóteles a “filosofia ou sabedoria primeira” é a metafísica; dito de outro modo, o conhecimento das causas primeiras. Substituir a causa primeira da Igreja por uma de viés essencialmente político: é aí que começa o problema.

Tal afirmação não condiz nem com os fatos recentes: a tão aclamada impopularidade de Bento XVI (sobretudo em vista da comparação sempre infeliz com João Paulo II). Se os objetivos últimos fossem políticos no sentido que você mesmo aponta de "Habilidade no agir e no tratar, tendo em vista a obtenção de algo; Diplomacia”, o Papa e a Igreja estaria falhando catastroficamente. Mas como o papa se vê na função de um mensageiro cuja excelência no serviço é entregar a intacta a mensagem de quem o enviou, não pode se render ao sentido comum de simples "diplomacia". A Igreja desagrada na medida mesma em que não se rende a fazer, essencialmente, política.

Novamente, colocar em relevo a dimensão política de sua prática como paradigma último de ação, como em geral fizeram alguns blogueiros por esses dias é, no mínimo, desconhecer a Igreja e, inclusive, estar fora do universo das últimas notícias. Apenas como mote para outras conversas, tal erro pode ser encontrado também no seio da Teologia da Libertação, fonte de erro crasso.

 

Abraços.







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A Política como Ciência Primeira

May 11th, 2009 | 4 Comentários | Postado em Blogs, Igreja, Imprensa

Definitivamente, a política é a metafísica dos papajordaniaincapazes de contemplação, no sentido grego da palavra. Para alguns a última esfera de explicação do real ou, dito de outro modo, a ciência das causas primeiras de tudo aquilo que é, para certas pessoas, a política.

As reações ao discurso do papa numa mesquita na Jordânia se deram, em alguns blogs, com adjetivos como “palhaço” e “cara-de-pau”. É no mínimo curioso acusar o alguém que professa publicamente que a realidade última das coisas não é a humana e, portanto, não pode ser política, de ser, justamente, estritamente político. Há aí algo de uma projeção da limitação cognitiva e contemplativa dos que fazem esse discurso, sobre os ombros do papa. Exatamente o papa que opta por discursos que causam pavores e reações exacerbadas, algo totalmente contrário a qualquer tentativa de manipulação política (ou seria uma nova tática de angariar apoios, concessões e pactos políticos através do despertar do ódio?).

O que ocorre é que o papa e seus críticos partem de pressupostos diferentes e, obviamente, chegam em respostas e conclusões irreconciliáveis. Mas só o papa sabe disso.







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Acordo Brasil-Vaticano

November 27th, 2008 | Comente | Postado em Educação, Igreja, Imprensa, Opinião

Em breve vamos ter alguns textos por aqui comentando o j? famigerado Acordo entre o Brasil e o Vaticano. Por enquanto, o que se tem ? uma imprensa que vocifera por pura eclesioclastia e certas pessoas que replicam a (falta de) informa??o.

A princ?pio, leia o texto do Acordo entre a Rep?blica Federativa do Brasil e a Santa S?, relativo ao estatuto jur?dico da Igreja Cat?lica no Brasil.

Em breve, mais.


Leia tamb?m
Obama sobre religi?o e pol?tica ou Sobre Ser e Parecer
Pecados Capitais da imprensa
Ahn, os jornalistas

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Obama sobre religião e política ou Sobre Ser e Parecer

November 18th, 2008 | 5 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião, Vídeos

Por favor, sigam o pequeno roteiro abaixo:

1. Veja o vídeo. É um trecho do discurso de Barack Obama proferido em 28/06/2006 no qual o semi-deus Obama fala sobre religião e secularismo:

2. Leia dois discursos: este e este.

Caso você ainda não veja alguns problemas básicos, continue lendo.

2.1. Em linhas gerais, o vídeo mostra o então senador Obama como apologeta de um certo tipo de secularismo. Este certo tipo de "secularismo" pode ser subsumido àquele apresentado por Charles Taylor em seu colossal A secular age, como o banimento de Deus ou de valores que se referem à religiões da esfera pública por causa de tal referência.

Para defendê-lo, o novo presidente desenha o seguinte "argumento":

a) Seu país não é (se já foi algum dia) mais exclusivamente cristão. Possui uma multiplicidade incontável de crenças religiosas (inclusive a des-crença);

b) contudo, caso pudéssemos restringir a população a cristãos, ainda assim o recurso ao universo epistêmico da religião (se é que ele existe), nos seria vedado, para dele derivar quaisquer elementos para políticas e discussões públicas. Dito de outro modo, não poderíamos fazer referência à religião (no caso, cristã) para nos pautarmos publicamente (leia-se fazer política) já que

c) há uma multiplicidade de "cristianismos" ou denominações;

c’) há uma diversidade de ensinamentos bíblicos patentemente conflitantes e anti-éticos.

c”) Seguem-se exemplos:
- do Levítico, que aceita a escravidão e proíbe o consumo de frutos do mar;
- do Deuteronômio, que exorta o apedrejamento do filho infiel;
- dos Evangelhos, que têm no Sermão da Montanha seu ápice, cuja radicalidade é inatingível.

- o que leva a

d) a democracia exige que os que crêem "traduzam suas preocupações em valores universais, ao invés de valores específicos de cada religião";

e) o que os submete à discussão "e sejam influenciáveis pela razão";

f) caminho vedado aos que têm fé porque:

f’) política é "persuasão" e "negociação"; é "a arte do possível";

f”) "a religião não permite negociar"; é "a arte do impossível".

Assim conclui Obama pela exclusão do discurso cujo fundamento é religioso da dimensão dita pública.

***

Vamos pontualmente:

1. O centro do argumento, que se erige a partir de "c", está sobre um pressuposto escondido mas de fácil veiculação e aceitação entre nossos contemporâneos. Talvez por isso ele passe tão despercebido e goza de tamanha inquestionabilidade, a saber, os cânones da teologia liberal, tanto em suas vertentes mais originárias quanto em sua degringolação moderna.

O caminho é simples: o Iluminismo – e com ele toda a modernidade e seus derivados – coloca em cheque a validade epistêmica dos dizeres da religião. Isso equivale a dizer que mesmo a possível objetividade das verdades de fé é absolutamente excluída. Some-se a isso o sucesso tecnicista da ciência a partir do século XIX (cf. Adorno e Horkheimer). Resta à teologia e ao pensamento sobre a religião que não quer encampar uma disputa racionalmente séria, recuar e postular, como Schleiermacher, que a fonte da religião não é de fato, objetiva – como um conjunto de teses às quais se deve aderir – mas um sentimento interior, subjetivo, uma intuição interna que é, neste caso, o da extrema dependência para com uma alteridade. É sintomático que o subtítulo do principal livro de Schleiermacher sobre o assunto – Sobre a Religião – seja "para seus cultos desprezadores". Está então consumado que o domínio da religião é o da interioridade e da subjetividade oposta ao domínio do que é culto.

A religião é então o espaço do sentimento e da anti-racionalidade, registro cujo posse é de exclusividade da ciência (natural, mais especificamente). Mesmo a filosofia virou uma coleção de citações e opiniões sem real pretensão objetiva. Pretensão obviamente proibida também à teologia.

É só a partir desse ponto de vista que Obama pode dizer o que diz. Entretanto, o que acontece é que nada disso é óbvio e ao abrigo de críticas graves.

2. A "exegese" bíblica de Obama chega a ofender. Lê as Escrituras como quem lê o jornal matutino, sem se atentar para a hermenêutica. Homens como Spinoza, o próprio Schleiermacher, Paul Ricoeur ou H-G. Gadamer ficariam corados ao ver um presidente de tamanho porte lendo as Escrituras – com textos que datam de muitos milênios atrás – com tamanha ignorância exegética. É extremamente curioso como ninguém pensa poder prescindir de conhecimentos circundantes para uma correta leitura da Odisséia, mas acha óbvio ler a Bíblia ipsis literis.

3. As citações de Obama em "d" e "e" são pérolas. O pressuposto da teologia liberal fica explícito aqui. As opiniões do domínio da religião só dizem respeito ao foro íntimo e, assim, carecem necessariamente de objetividade e universalidade, sobretudo porque não se submetem à razão.

O senhor Obama está convidado a explicitar o que entender por "razão". É o que as ciências pós-iluministas praticam hoje, na quals a razão se identifica e se reduz completamente ao seu caráter matematizante do mundo (sem se dar conta que desde Kant a própria matemática já não é mais parâmetro de rigor, clareza e distinção)? É simplesmente aquela razão instrumental que se reduz à técnica e expulsa a contemplação e a reflexão em si (= theorêin, em grego), já provada por Aristóteles como, essa sim, a dimensão mais fina e aguçada da razão, para além da qual nos é realmente impossível chegar? Ou então negar que Agostinho, Tomás de Aquino, Duns Scotus, Suárez, Pascal, Descartes, Kant e tantos outros são racionais?

Obama também fala de "valores universais" sem perceber que o faz no mais religioso dos sentidos. Só quem é absolutamente crente consegue crer em "valores universais" por pensar que eles estão para além do desenvolvimento histórico, alojados numa instância superior e transcendente, como em Deus. Os Dez Mandamentos são para o crente "valores universais". A compaixão e a ética para o não-crente "estritamente racional" (em sentido estrito) são construtos que muito bem podem ser vistos como estando a serviço de determinadas classes ou interesses (uma breve espiada na Genealogia da moral, de Nietzsche, já bastaria).

Sobre o banimento da religião da esfera publica, só posso citar um trecho de um dos discursos linkados acima:

Aqui gostaria, brevemente apenas, de relevar que John Rawls, embora negando às doutrinas religiosas compreensivas o carácter da razão "pública", todavia vê na sua razão "não pública" pelo menos uma razão que não poderia, em nome de uma racionalidade secularizadamente insensível, ser simplesmente desconhecida por aqueles que a defendem. Para além do mais, ele vê um critério desta razoabilidade no facto de tais doutrinas derivarem de uma tradição responsável e motivada, tendo sido durante um longo período desenvolvidas argumentações suficientemente boas em defesa da respectiva doutrina. Nesta afirmação, parece-me importante o reconhecimento de que a experiência e a demonstração ao longo das gerações a base histórica da sabedoria humana constituem também um sinal da sua razoabilidade e do seu significado duradouro. Diante duma razão não histórica que procura autoconstruir-se somente numa racionalidade não histórica, a sabedoria da humanidade como tal a sabedoria das grandes tradições religiosas deve ser valorizada como realidade que não se pode impunemente lançar para o cesto da história das ideias.

Voltemos à pergunta inicial. O Papa fala como representante de uma comunidade crente, na qual, durante os séculos da sua existência, amadureceu uma determinada sabedoria da vida; fala como representante de uma comunidade que guarda em si um tesouro de conhecimento e de experiência ética, que se revela importante para toda a humanidade: neste sentido, fala como representante de uma razão ética.

A religiosidade participa da vida pública muito antes de coisas como a "democracia". Nem mesmo Rawls, crítico da ingerência religiosa na esfera pública, consegue fugir ao paradoxo de querer excluir uma razão não-pública que é uma das maiores expressões dos paradigmas da razão pública. Quem, de fato, é "não influenciável pela razão"?

4. Por fim, o senhor presidente fala do que realmente conhece, a política. Segundo ele, seu cerne é a persuasão, o convencimento e a negociação…

Ahn.. vamos deixar falar quem conhece:

 

Sócrates – Então, prossigamos, e consideremos o seguinte: não dizes por vezes que alguém aprendeu alguma coisa?

Górgias – Sim.

Sócrates – E também que acreditou em algo?

Górgias – Perfeitamente.

Sócrates – E és de parecer que ter aprendido e ter crido sejam a mesma coisa que conhecimento e crença? Ou são diferentes?

Górgias – A meu ver, Sócrates, são diferentes.

Sócrates – É certo o que dizes. Tens a prova no seguinte: Se alguém te perguntasse: Górgias, há crença falsa e crença verdadeira? responderias afirmativamente, segundo penso.

Górgias – Sim.

Sócrates -E conhecimento, há também falso e verdadeiro?

Górgias – De forma alguma.

Sócrates – O que prova que saber e crer são diferentes.

Górgias – É certo.

Sócrates – Apesar disso, tanto os que aprendem como os que crêem ficam igualmente persuadidos.

Górgias – Exato.

Sócrates – Podemos, então, admitir duas espécies de persuasão: uma, que é a fonte da crença, sem conhecimento, e a outra só do conhecimento?

Górgias – Perfeitamente.

Sócrates – De qual dessas persuasões se vale a retórica nos tribunais e nas demais assembléias, relativamente ao justo e ao injusto? Da que é fonte de crença sem conhecimento, ou da que é fonte só de conhecimento?

Górgias – Evidentemente, Sócrates, da que dá origem à crença.

Sócrates – Então, ao que parece, a retórica é obreira da persuasão que promove a crença, não o conhecimento, relativo ao justo e ao injusto?

Górgias – Exato.

Sócrates – Sendo assim, o orador não instrui os tribunais e as demais assembléias a respeito do justo e do injusto, mas apenas lhes desperta a crença nisso. Em tão curto prazo não lhe fora possível instruir tamanha multidão sobre assunto dessa magnitude.

Górgias – Não, de fato.

 

E ainda acusaram Sócrates de impiedade…







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Migalhas eleitorais

October 14th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Opinião

Postei sobre a “pol?mica” suscitada pela estrat?gia da campanha de Marta. Veja l?.


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Alguns fragmentos sobre educação

September 30th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Educação, Links, Opinião, Vídeos

The one thing that is never taught by any chance in the atmosphere of public schools is this: that there is a whole truth of things, and that in knowing it and speaking it we are happy.

G.K. Chesterton

1. ? sintom?tico em nossa sociedade que um dos principais problemas no processo de aprendizado de nossos jovens seja uma apatia desmedida. N?o se trata da apatia que querem resolver os apologetas da aula-show ou da ?ltima baboseira pedag?gica do momento. ? a completa falta de p?thos em rela??o ao saber. Se o desejo de saber ? express?o do reconhecimento da car?ncia, da afirma??o do n?o-saber inicial que se quer superar, sua falta s? pode ser sinal da ignor?ncia crucial e irremedi?vel que tem como seu signo mais pr?prio o desprezo por obter aquilo que pensa que j? possui (n?o ? isso, Diotima?).

2. Entretanto, h? outros degraus abaixo. Se antigamente a ignor?ncia poderia ser arrolada como algo ruim, indesej?vel e, por isso, por uma quest?o quase de honra, servir como motor para o saber, h? muito nos afastamos de patamares muito inferiores. Nas d?cadas de 80 e 90, os pobres professores ainda podiam tentar motivar os seus alunos ? se n?o mais pelo rep?dio ao n?o-saber ?, pela quest?o financeira. Ent?o n?o se trata mais de uma forma??o em vista do saber mas de, ao menos, em vista da forma??o profissional que serviria de condi??o de possibilidade para uma melhora da qualidade (financeira) de vida. E os alunos ent?o se esfor?avam para obter ao menos a forma??o necess?ria para se passar na faculdade e conseguir um emprego razo?vel.

Se isso j? era um decr?scimo do motivo principal que deveria causar ?nimo nos alunos, hoje estamos beirando o caos. O argumento financeiro simplesmente j? n?o tem mais efeito algum. O aluno sabe que para ingressar numa faculdade o empenho no estudo n?o ? mais t?o necess?rio. Sabe tamb?m que o sustento financeiro pode depender, em ?ltima an?lise, de coisas absolutamente exteriores ? sua forma??o intelectual, como sua beleza ou um talento bizarro. E por que n?o de atividades il?citas, j? que a legalidade tamb?m ? fruto da mesma ?tolice? que gera a escola.

3. O aluno hoje, por essas e por outras, vegeta em sala. As grandes conquistas, o detalhe hist?rico, as constru??es matem?ticas, as belas letras, as quest?es filos?ficas j? n?o agem sobre uma alma inerte (geralmente num corpo muito bem ativo). E vai-se perdendo outra gera??o.

Duvida? Assista:







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Veja se seu candidato responde a processo

September 5th, 2008 | Comente | Postado em Links

A AMB – Associa??o dos Magistrados Brasileiros disponibiliza um servi?o que permite a consulta dos candidatos a prefeito e vice em todos os estados do pa?s. Servi?o absolutamente necess?rio a fim de refinar seu voto.

Consulte clicando aqui.

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Migalhas de reflex?o ou O que n?s da filosofia devemos fazer

July 16th, 2008 | 3 Comentários | Postado em Sem categoria

Como ? de costume, li o Avelar. E topei com um post no qual ele embute um v?deo de Paulo Ghiraldelli Jr. falando, entre outras coisas, sobre o projeto bisonho do senador Eduardo Azeredo, do PSDB de MG. Para al?m da tosquice do cidad?o que se auto-epiteta “o fil?sofo da cidade de S?o Paulo”, vamos a alguns trechos que me incomodaram os ouvidos:

1) O “fil?sofo” come?a por dizer qu?o absurda ? a censura para o que ? culturalmente aceito. E da? saca os pobres Adorno e Horkheimer que estavam l? quietos no Olimpo para deduzir, da censura do que ? culturalmente aceito, a sociedade da total administra??o. N?o vou comentar que o processo de burocratiza??o da vida e a redu??o ?quilo que Marcuse denominou unidimensionalidade do homem retiram sua for?a de uma reflex?o muito mais fina que enxerga em elementos muito mais sutis este processo, e n?o na simples e declarada censura.

O que simplesmente n?o consigo entender ? o paradigma eleito pelo pensador da paulic?ia: basta que seja socialmente aceito – e daqui ele exclui, por exemplo, a dimens?o da legisla??o, fundamental em uma sociedade, j? que op?em a priva??o pela lei ?quilo que ? aceito pela sociedade – que tal coisa n?o pode mais ser objeto de reflex?o ?tica nem de ju?zos?

2) Mais adiante Ghiraldelli elabora mais uma oposi??o infundada: ao criminalizar a pedofilia incorre-se necessariamente na impossibilidade de tratamento do doente. Algumas coisas b?sicas: um homicida que mata compelido por uma doen?a mental pode ter seus atenuantes, mas o fato que ele provoca, o homic?dio, n?o pode ser simplesmente negado. Ele gera, inclusive legalmente, um evento incontorn?vel independente de sua motiva??o. A distin??o entre culposo e doloso j? ? ?ndice de tal distin??o. O ped?filo pode ser movido por uma patologia, o que pode atenuar sua puni??o mas em nada altera a efetividade do crime. Logo, a puni??o e o tratamento n?o s?o de modo algum excludentes e o professor deveria ver com bons olhos, como fil?sofo, o quanto de abstra??o h? em tal procedimento que consegue separar, ainda que formalmente, o crime e o que se passa com o criminoso.

3) Por duas ou mais vezes o professor fala no malef?cio que ? refrear o progresso da tecnologia. Como se buscar atividades de ped?filos na rede fosse uma esp?cie de neo-ludismo. O argumento positivista ing?nuo que arroga o progresso tecnol?gico como paradigma ?tico chega a ser acintoso. Como se quest?es ?ticas n?o estivessem necessariamente implicadas na atividade cient?fica ou como se esta estivesse para al?m de quaisquer reflex?es acerca da pr?xis humana. Isto ?, ali?s, problema da modernidade que s? excita a dimens?o instrumental da raz?o como se, por seus resultados, fosse autoridade ?ltima da humanidade. Ora, mas isso ? justamente aquilo contra o que falam Adorno e Horkheimer…

4) Ghiraldelli identifica a postura da censura com o conservadorismo. Eu simplesmente n?o sei o que siginifica conservadorismo. N?o sou de maneira alguma favor?vel ao que prop?e o senador mineiro. Mas, se conservadorismo se refere ? conserva??o de algo, talvez ben?fico, n?o vejo onde o professor enxerga problema. De fato, em estreita rela??o com o positivismo do “argumento” anterior, conservadorismo est? pari passu com retrocesso e ina??o. Ent?o, n?o consigo encontrar melhor resposta do que uma cita??o de G. K. Chesterton:

We have remarked that one reason offered for being a progressive is that things naturally tend to grow better. But the only real reason for being a progressive is that things naturally tend to grow worse. The corruption in things is not only the best argument for being progressive; it is also the only argument against being conservative. The conservative theory would really be quite sweeping and unanswerable if it were not for this one fact. But all conservatism is based upon the idea that if you leave things alone you leave them as they are. But you do not. If you leave a thing alone you leave it to a torrent of change. If you leave a white post alone it will soon be a black post. If you particularly want it to be white you must be always painting it again; that is, you must be always having a revolution.

A ina??o e o retrocesso s?o pr?prios daqueles que pensam que o passar do tempo ? progresso por si s? e n?o o simples passar do tempo.

5) Por fim, ele conclama seus pares, fil?sofos, ao dever de lutar pela liberdade individual. Ok, eu n?o sou fil?sofo e talvez seja este o meu problema. Mas, novamente, n?o entendi. A tarefa da filosofia ? conclamar ? luta ou pensar nas condi??es de possibilidade ou validade de tal luta? Creio que a maior contribui??o que a filosofia poderia dar ao assunto seria fazer justamente aquilo que o senador parece n?o ter feito, ou seja, refletir sobre todas as quest?es que sua canetada pode tangenciar. N?o me parece horrenda a proposta de se pensar em puni??es a crimes graves, como os de pedofilia por exemplo, que encontram sim na internet ambiente fecundo e aparentemente impune. Isso nada tem a ver com cerceamento de liberdade de express?o e outras baboseiras que pululam no projeto. Concedo que os limites entre o que constitui crime e o que n?o constitui n?o s?o sempre claros, sobretudo em terras virtuais. Mas pensar nesses limites deve ser censurado?

P.S. Ahn.. e antes que eu me esque?a, a Ave-Maria de Gounod enquanto a mo?a geme foi o fino do bom-senso… Como disse Descartes, o bom-senso ? a coisa do mundo melhor partillhada porque ningu?m acha que deveria ter mais do que acha que tem… Ahn, mas a quem eu lembro isso?! O homem ? “o fil?sofo”…

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Ainda sobre Filosofia e Sociologia

June 7th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Educação, Música, Opinião

Lendo o Avelar, como fa?o diariamente, topei com este seu coment?rio sobre a nova medida e, ainda, com a declara??o de Giannotti. Como o assunto me interessa, tanto que postei a aprova??o no dia, quero fazer mais alguns adendos:

1) De fato, Avelar tem raz?o ao dizer qu?o il?gica ? a posi??o que pressup?e que n?o se deve mudar nada at? que se possa mudar tudo. “Mudar tudo” demanda tempo – leia-se gera??es -, o que privaria sem real motivo os atuais discentes de ao menos tomarem contato com algo que se chama filosofia. Pr?ticas educacionais n?o podem esperar o fim da hist?ria ou a sociedade sem classes, ainda que se configurem como ajustes m?nimos (sendo altamente discut?vel a quest?o sobre qu?o m?nima ? re-inclus?o das disciplinas acima citadas). A acreditar em Arist?teles – e no livro alfa de sua Metaf?sica -, o to thaum?zein, o espanto, ainda ? o primeiro motor da atividade filos?fica e se imp?e frente a toda discuss?o pol?tica (esta sim impregnada, por vezes, da vacuidade que imputam ? filosofia). Assim, simplesmente n?o encontro sentido na pergunta que Giannotti se faz acerca de como ensinar filosofia para quem n?o aprendeu a raciocinar. N?o seria esta uma das nobres tarefas da filosofia? Despertar o amor pelas di?iresis e synagog?s (Fedro, 266B)? Ou a filosofia contempor?nea, isto ?, feita atualmente n?o deve mais ser semelhante a Eros e, portanto, desejante? Deveria ser reduzida a um “fazer discursos bem articulados” que talvez falem do Amor (ou de quaisquer outros temas) sem estar ele mesmo enamorado. O germe inicial da reflex?o ? aquele mesmo da filosofia. Ent?o, como pedir uma multitude de pressupostos?

2) Mas lendo a declara??o do professor Giannotti n?o posso deixar de concordar com algumas coisas. Diz o professor:

A meu ver, h? coisas mais importantes, que s?o prioridades, do que ensinar filosofia. Em particular ensinar portugu?s, como todos sabem, al?m de f?sica, biologia, matem?tica, hist?ria, geografia… Isto ?, se situar no plano da linguagem, da ci?ncia e da temporalidade. Coisa que a maioria dos professores de ensino m?dio n?o ? capaz de fazer. N?s vamos gastar tempo e esfor?o em coisas subsidiadas ao inv?s de focar no fundamental.

Desbastado o elemento apontado no t?pico acima, que n?o admite um pequeno ganho se n?o for acompanhado do resultado total, resta ainda algo a ser focalizado no que diz o professor (e n?o creio que isto seja sinal de um ju?zo sobre a indignidade ou incapacidade dos jovens para a filosofia, como aponta Avelar).

A quest?o ? que n?o temos bons professores de portugu?s, matem?tica ou f?sica. H? sim muitos bons professores de gram?tica, c?lculo e f?rmulas. Com isso quero dizer que n?o se ensina nos col?gios o pensamento sobre a linguagem ou a literatura, a reflex?o sobre os n?meros e suas rela??es nem tampouco a entender a physis. H? poucos dias fiquei surpreso com a rea??o de um colega, professor de matem?tica que ria largamente da investiga??o de Frege tendo em vista responder a pergunta “o que s?o n?meros?”. O colega soltou uma defini??o rid?cula (desmontada por Frege com muito senso de humor, diga-se de passagem, em um par?grafo de seu Fundamentos da Aritm?tica) e ca?oou da inutilidade de tal esfor?o.

Dessa forma, a filosofia ensinada por professores de filosofia med?ocres, estaria reduzida a um mero contar de sua hist?ria ou, ainda, a um procedimento mec?nico de associa??es de no??es jamais verdadeiramente entendidas. O que, visivelmente, nos faria recair na concep??o de filosofia como simulacro de qualquer coisa s?ria.

Diz ainda o professor:

As pessoas v?o come?ar a estudar os pr?-socr?ticos, falando de Tales, depois Parm?nides, Plat?o, Arist?teles e se chegar aos est?icos vai ser muito. Teremos um curso de filosofia que vai se resolver numa “decoreba” danada.

Como j? apontei aqui, mesmo o curr?culo “oficial” ? um piada. Vai de Tales a Wittgenstein em um ano. Isto serve bem ao prop?sito de escamotear a falta de n?vel dos professores, bem como ?quele de fazer da filosofia um ap?ndice de (falsa) erudi??o e n?o um espa?o de interven??o reflexiva em todos os dom?nios das ci?ncias (e portanto nas outras disciplinas) assim como na vida do pr?prio aluno. ? esse ?lan que cega profissionais de educa??o que falam tanto de “interdisciplinariedade” sem ver que ? a filosofia, como scientia rerum per causam ou como verdadeira epist?me ? a base para a concreta rela??o entre as disciplinas e, destas, com a vida.

Voltaremos a isso.

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