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Homilia de S.S Bento XVI – Missa da Meia-Noite

dezembro 26th, 2009 | Comente | Postado em Igreja

 

 

SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR

Basílica Vaticana
24 de Dezembro de 2009

 Amados irmãos e irmãs,

«Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido» (Is 9, 5). Aquilo que Isaías, olhando de longe para o futuro, diz a Israel como consolação nas suas angústias e obscuridade, o Anjo, de quem emana uma nuvem de luz, anuncia-o aos pastores como presente: «Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2, 11). O Senhor está presente. Desde então, Deus é verdadeiramente um «Deus connosco». Já não é o Deus distante, que, através da criação e por meio da consciência, se pode de algum modo intuir de longe. Ele entrou no mundo. É o Vizinho. Disse-o Cristo ressuscitado aos Seus, a nós: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Nasceu para vós o Salvador: aquilo que o Anjo anunciou aos pastores, Deus no-lo recorda agora por meio do Evangelho e dos seus mensageiros. Trata-se de uma notícia que não nos pode deixar indiferentes. Se é verdadeira, mudou tudo. Se é verdadeira, diz respeito a mim também. Então, como os pastores, devo dizer também eu: Levantemo-nos, quero ir a Belém e ver a Palavra que aconteceu lá. Não é sem intuito que o Evangelho nos narra a história dos pastores. Estes mostram-nos o modo justo como responder àquela mensagem que nos é dirigida também a nós. Que nos dizem então estas primeiras testemunhas da encarnação de Deus?

A respeito dos pastores, diz-se em primeiro lugar que eram pessoas vigilantes e que a mensagem pôde chegar até eles precisamente porque estavam acordados. Nós temos de despertar, para que a mensagem chegue até nós. Devemos tornar-nos pessoas verdadeiramente vigilantes. Que significa isto? A diferença entre um que sonha e outro que está acordado consiste, antes de mais nada, no facto de aquele que sonha se encontrar num mundo particular. Ele está, com o seu eu, fechado neste mundo do sonho que é apenas dele e não o relaciona com os outros. Acordar significa sair desse mundo particular do eu e entrar na realidade comum, na única verdade que a todos une. O conflito no mondo, a recíproca inconciliabilidade derivam do facto de estarmos fechados nos nossos próprios interesses e opiniões pessoais, no nosso próprio e minúsculo mundo privado. O egoísmo, tanto do grupo como do indivíduo, mantém-nos prisioneiros dos nossos interesses e desejos, que contrastam com a verdade e dividem-nos uns dos outros. Acordai: diz-nos o Evangelho. Vinde para fora, a fim de entrar na grande verdade comum, na comunhão do único Deus. Acordar significa, portanto, desenvolver a sensibilidade para com Deus, para com os sinais silenciosos pelos quais Ele quer guiar-nos, para com os múltiplos indícios da sua presença. Há pessoas que se dizem «religiosamente desprovidas de ouvido musical». A capacidade de perceber Deus parece quase uma qualidade que é recusada a alguns. E, realmente, a nossa maneira de pensar e agir, a mentalidade do mundo actual, a gama das nossas diversas experiências parecem talhadas para reduzir a nossa sensibilidade a Deus, para nos tornar «desprovidos de ouvido musical» a respeito d’Ele. E todavia em cada alma está presente de maneira velada ou patente a expectativa de Deus, a capacidade de O encontrar. A fim de obter esta vigilância, este despertar para o essencial, queremos rezar, por nós mesmos e pelos outros, por quantos parecem ser «desprovidos deste ouvido musical» e contudo neles está vivo o desejo de que Deus Se manifeste. O grande teólogo Orígenes disse: Se eu tivesse a graça de ver como viu Paulo, poderia agora (durante a Liturgia) contemplar um falange imensa de Anjos (cf. In Lc 23, 9). De facto, na Liturgia sagrada, rodeiam-nos os Anjos de Deus e os Santos. O próprio Senhor está presente no meio de nós. Senhor, abri os olhos dos nossos corações, para nos tornarmos vigilantes e videntes e assim podermos estender a vossa proximidade também aos outros!

Voltemos ao Evangelho de Natal. Aí se narra que os pastores, depois de ter ouvido a mensagem do Anjo, disseram uns para os outros: «“Vamos até Belém” (…). Partiram então a toda a pressa» (Lc 2, 15s). «Apressaram-se»: diz, literalmente, o texto grego. O que lhes fora anunciado era tão importante que deviam ir imediatamente. Com efeito, o que lhes fora dito ultrapassava totalmente aquilo a que estavam habituados. Mudava o mundo. Nasceu o Salvador. O esperado Filho de David veio ao mundo na sua cidade. Que podia haver de mais importante? Impelia-os certamente a curiosidade, mas sobretudo o alvoroço pela realidade imensa que fora comunicada precisamente a eles, os pequenos e homens aparentemente irrelevantes. Apressaram-se… sem demora. Na nossa vida ordinária, as coisas não acontecem assim. A maioria dos homens não considera prioritárias as coisas de Deus. Estas não nos premem de forma imediata. E assim nós, na grande maioria, estamos prontos a adiá-las. Antes de tudo faz-se aquilo que se apresenta como urgente aqui e agora. No elenco das prioridades, Deus encontra-Se frequentemente quase no último lugar. Isto – pensa-se – poder-se-á realizar sempre. O Evangelho diz-nos: Deus tem a máxima prioridade. Se alguma coisa na nossa vida merece a nossa pressa sem demora, isso só pode ser a causa de Deus. Diz uma máxima da Regra de São Bento: «Nada antepor à obra de Deus (isto é, ao ofício divino)». Para os monges, a Liturgia é a primeira prioridade; tudo o mais vem depois. Mas, no seu núcleo, esta frase vale para todo o homem. Deus é importante, a realidade absolutamente mais importante da nossa vida. É precisamente esta prioridade que nos ensinam os pastores. Deles queremos aprender a não deixar-nos esmagar por todas as coisas urgentes da vida de cada dia. Deles queremos aprender a liberdade interior de colocar em segundo plano outras ocupações – por mais importantes que sejam – a fim de nos encaminharmos para Deus, a fim de O deixarmos entrar na nossa vida e no nosso tempo. O tempo empregue para Deus e, a partir d’Ele, para o próximo nunca é tempo perdido. É o tempo em que vivemos de verdade, em que vivemos o ser próprio de pessoas humanas.

Alguns comentadores observam como os primeiros que vieram ao pé de Jesus na manjedoura e puderam encontrar o Redentor do mundo foram os pastores, as almas simples. Os sábios vindos do Oriente, os representantes daqueles que possuem nível e nome chegaram muito mais tarde. E os comentadores acrescentam: O motivo é totalmente óbvio. De facto, os pastores habitavam perto. Não tinham de fazer mais nada senão «atravessar» (cf. Lc 2, 15), como se atravessa um breve espaço para ir ter com os vizinhos. Ao contrário, os sábios habitavam longe. Tinham de percorrer um caminho longo e difícil para chegar a Belém. E precisavam de guia e de orientação. Pois bem, hoje também existem almas simples e humildes que habitam muito perto do Senhor. São, por assim dizer, os seus vizinhos e podem facilmente ir ter com Ele. Mas a maior parte de nós, homens modernos, vive longe de Jesus Cristo, d’Aquele que Se fez homem, de Deus que veio para o nosso meio. Vivemos em filosofias, em negócios e ocupações que nos enchem totalmente e a partir dos quais o caminho para a manjedoura é muito longo. De variados modos e repetidamente, Deus tem de nos impelir e dar uma mão para podermos sair da enrodilhada dos nossos pensamentos e ocupações e encontrar o caminho para Ele. Mas há um caminho para todos. Para todos, o Senhor estabelece sinais adequados a cada um. Chama-nos a todos, para que nos seja possível também dizer: Levantemo-nos, «atravessemos», vamos a Belém, até junto d’Aquele Deus que veio ao nosso encontro. Sim, Deus encaminhou-Se para nós. Sozinhos, não poderíamos chegar até Ele. O caminho supera as nossas forças. Mas Deus desceu. Vem ao nosso encontro. Percorreu a parte mais longa do caminho. Agora pede-nos: Vinde e vede quanto vos amo. Vinde e vede que Eu estou aqui. Transeamus usque Bethleem: diz a Bíblia latina. Atravessemos para o outro lado! Ultrapassemo-nos a nós mesmos! Façamo-nos viandantes rumo a Deus dos mais variados modos: sentindo-nos interiormente a caminho para Ele; mas também em caminhos muito concretos, como na Liturgia da Igreja, no serviço do próximo onde Cristo me espera.

Ouçamos uma vez mais directamente o Evangelho. Os pastores dizem uns aos outros o motivo por que se põem a caminho: «Vamos ver o que dizem ter sucedido». Literalmente o texto grego diz: «Vejamos esta Palavra, que lá aconteceu». Sim, aqui está a novidade desta noite: a Palavra pode ser vista, porque Se fez carne. Aquele Deus de quem não se deve fazer qualquer imagem, porque toda a imagem poderia apenas reduzi-Lo, antes desvirtuá-Lo, aquele Deus tornou-Se, Ele mesmo, visível n’Aquele que é a sua verdadeira imagem, como diz Paulo (cf. 2 Cor 4, 4; Col 1, 15). Na figura de Jesus Cristo, em todo o seu viver e operar, no seu morrer e ressuscitar, podemos ver a Palavra de Deus e, consequentemente, o próprio mistério do Deus vivo. Deus é assim. O Anjo dissera aos pastores: «Isto vos servirá de sinal: achareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12; cf. 16). O sinal de Deus, o sinal que é dado aos pastores e a nós não é um milagre impressionante. O sinal de Deus é a sua humildade. O sinal de Deus é que Ele Se faz pequeno; torna-Se menino; deixa-Se tocar e pede o nosso amor. Quanto desejaríamos nós, homens, um sinal diverso, imponente, irrefutável do poder de Deus e da sua grandeza! Mas o seu sinal convida-nos à fé e ao amor e assim nos dá esperança: assim é Deus. Ele possui o poder e é a Bondade. Convida a tornarmo-nos semelhantes a Ele. Sim, tornamo-nos semelhantes a Deus, se nos deixarmos plasmar por este sinal; se aprendermos, nós mesmos, a humildade e deste modo a verdadeira grandeza; se renunciarmos à violência e usarmos apenas as armas da verdade e do amor. Orígenes, na linha de uma palavra de João Baptista, viu expressa a essência do paganismo no símbolo das pedras: paganismo é falta de sensibilidade, significa um coração de pedra, que é incapaz de amar e de perceber o amor de Deus. Orígenes diz a respeito dos pagãos: «Desprovidos de sentimento e de razão, transformam-se em pedras e madeira» (In Lc 22, 9). Mas Cristo quer dar-nos um coração de carne. Quando O vemos a Ele, ao Deus que Se tornou um menino, abre-se-nos o coração. Na Liturgia da Noite Santa, Deus vem até nós como homem, para nos tornarmos verdadeiramente humanos. Escutemos uma vez mais Orígenes: «Com efeito, de que te aproveitaria Cristo ter vindo uma vez na carne, se Ele não chegasse até à tua alma? Oremos para que venha diariamente a nós e possamos dizer: vivo, contundo já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (Gal 2, 20)» (In Lc 22, 3).

Sim, por isto queremos rezar nesta Noite Santa. Senhor Jesus Cristo, Vós que nascestes em Belém, vinde a nós! Entrai em mim, na minha alma. Transformai-me. Renovai-me. Fazei que eu e todos nós, de pedra e madeira que somos, nos tornemos pessoas vivas, nas quais se torna presente o vosso amor e o mundo é transformado.







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Acerbo Nimis – sobre o ensino do catecismo

outubro 13th, 2009 | Comente | Postado em Educação, Igreja

Abaixo, um dos mais preciosos documentos do Magistério sobre a necessidade e a importância da catequese.

 

 

CARTA ENCÍCLICA ACERBO NIMIS

 

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Sobre o Ensino do Catecismo.

aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos
e Mais Ordinários em Paz e Comunhão com a Santa Sé Apostólica:
Sobre o Ensino do Catecismo.

PAPA PIO X

 

 

Veneráveis Irmãos:

Saúde e Bênção Apostólica.

1.  Pelos inescrutáveis desígnios de Deus fomos elevados de nossa pequenez ao cargo de Supremo Pastor do Rebanho de Cristo, em dias bem críticos e amargos, pois o antigo inimigo anda em redor deste Rebanho e lhe arma laços em tão pérfida astúcia, que hoje, principalmente, parece haver-se cumprido aquela profecia do Apóstolo aos anciãos da Igreja de Éfeso: Sei que vos hão de assaltar lobos vorazes, que não pouparão o Rebanho (At 20,29). Dos males que afligem a Religião não há quem, animado de zelo pela Glória divina, deixe de investigar as causas e razões, acontecendo que, como as encontra cada qual diversas, proponha diferentes meios, de acordo com a sua opinião pessoal, para defender e restaurar o Reino de Deus na Terra. Não proscrevemos, Veneráveis Irmãos, os pareceres alheios, mas estamos com os que pensam que esta depressão e debilidade das almas, de que derivam os maiores males, provêm, principalmente, da ignorância das Coisas Divinas. Esta opinião concorda inteiramente com o que o Deus mesmo declarou pelo Profeta Oséias: Não há conhecimento de Deus na Terra. A maldição e a mentira, e o homicídio e o roubo e o adultério tudo inundaram; o sangue junta-se ao sangue e por causa disto a Terra se cobrirá de luto e todos os seus moradores desfalecerão” (Os 4,1-3).

Necessidade da Instrução

2.  Quão fundadas são, desgraçadamente, estas lamentações, hoje, que existe tão crescido número de pessoas, entre o Povo Cristão, que ignoram totalmente as coisas que é mister conhecer para conseguir a Salvação Eterna! Ao dizer Povo Cristão não nos referimos somente à plebe, ou às classes inferiores às quais servem de escusa o acharem-se com freqüência submetidas a homens tão duros que lhes não deixam tempo nem para cuidar de si mesmas, nem das coisas que se referem à sua alma mas e principalmente falamos daqueles aos quais não falta entendimento nem cultura e até se mostram dotados de profana erudição, apesar de que em coisas de Religião vivem da maneira mais temerária e imprudente que imaginar se possa. Dificílimo seria ponderar a espessura das trevas que os envolvem e o que mais triste é a tranqüilidade com que nelas permanecem! De Deus, Soberano Autor e Moderador de todas as coisas, e da Sabedoria da Fé Cristã não se preocupam, de forma que verdadeiramente nada sabem da Encarnação do Verbo de Deus, nem da Perfeita Restauração do Gênero Humano, por Ele consumada; nada sabem acerca da Graça, principal auxílio para alcançar os Bens Eternos; nada, acerca do Augusto Sacrifício nem dos Sacramentos, mediante os quais conseguimos e conservamos a Graça. Quanto ao pecado, não conhecem sua malícia nem o opróbrio que consigo traz, de sorte que não põem o menor cuidado em evitá-lo ou expiá-lo, e chegam ao Dia Extremo em disposição tal que, para não os deixar sem qualquer Esperança de Salvação, o Sacerdote se vê constrangido a aproveitar os derradeiros instantes de vida para sumariamente lhes ensinar Religião, ao invés de empregá-los principalmente, conforme conviria, em movê-los a afetos de Caridade; isto quando não sucede que o moribundo sofra de tão culpável ignorância que tenha por inútil o auxílio do Sacerdote e resolva tranqüilamente franquear os Umbrais da Eternidade sem haver prestado a Deus conta dos seus pecados. Por isso, o Nosso Predecessor Bento XIV justamente escreveu: Afirmamos que a maior parte dos condenados às penas eternas padece sua perpétua desgraça por ignorar os Mistérios da Fé, que necessariamente se devem conhecer e crer, para ser contado no número dos eleitos (Instit.  XXVII, 18).

3.  Sendo assim, Veneráveis Irmãos, que há de surpreendente, pergunto, em que a corrupção dos costumes e sua depravação sejam tão grandes e cresçam diariamente, não digo nas nações bárbaras, mas até nos próprios Povos que ostentam o nome de Cristãos? Com razão dizia o Apóstolo São Paulo, escrevendo aos Efésios:A fornicação e toda espécie de impureza ou avareza nem sequer se nomeie entre vós, como convém a Santos; nem palavras torpes, nem chocarrices (Ef 5,3-4). Como fundamento deste Pudor e Santidade, com os quais se moderam as paixões, determinou a Ciência das Coisas Divinas: E assim, cuidai, irmãos, em andar com Prudência; não como insensatos, mas como circunspectos Portanto, não sejais imprudentes, mas considerai qual é a Vontade de Deus (Ef 5, 15.17).
Sentença justa; porque a vontade humana apenas conserva algum resto daquele amor à honestidade e à retidão, inspirados ao homem por Deus, seu Criador, amor que o impelia para um bem, não velado por sombras, mas claramente visto. Mas, depravada pela corrupção do pecado original e esquecida de Deus, seu Gerador, a vontade humana inclina-se a amar a vaidade e a procurar a mentira. Extraviada e cega pelas más paixões, necessita de um guia que lhe mostre o caminho para que retome as Veredas da Justiça, que desgraçadamente abandonou. Este guia, que não é preciso buscar fora do homem, e de que a natureza o proveu, é a própria razão; mas se à razão falta aquela luz, irmã sua, que é a Ciência das Coisas Divinas, sucederá que um cego guiará outro cego e ambos cairão no abismo. O Santo Rei Davi, glorificando a Deus por esta Luz da Verdade que havia infundido na razão humana, dizia: A luz do Vosso rosto, Senhor, está impressa em nós”. E indicava o efeito desta comunicação da Luz, acrescentando: Infundistes a alegria em meu coração (Sl 4, 6-7).

Efeitos das Doutrina Cristã

4.  Descobre-se facilmente que assim é, porque, de fato, a Doutrina Cristã nos faz conhecer a Deus e o que chamamos suas Infinitas Perfeições, quiçá mais fundamente que as forças naturais. E de que forma? Mandando-nos ao mesmo tempo reverenciar a Deus por obrigação de ”, que se refere à razão; por dever de Esperança”, que se refere à vontade, e por dever de Caridade”, que se refere ao coração, com o qual torna o homem inteiramente submetido a Deus, seu Criador e Moderador. De igual forma só a Doutrina Cristã estabelece o homem na posse de sua eminente dignidade natural como filho do Pai Celestial, que está nos Céus, e que o fez à Sua imagem e semelhança para viver eternamente feliz com Ele. Mas desta mesma dignidade e do conhecimento que dela se deve ter, deduz Cristo que os homens devem amar-se como irmãos e viver na Terra como convém aos Filhos da Luz, não em glutonerias e embriaguez, não em desonestidades e dissoluções, não em contendas e emulações (Rm 13,13). Manda-nos, outrossim, que nos entreguemos às Mãos de Deus, que é quem cuida de nós; que socorramos os pobres, façamos o bem a nossos inimigos e prefiramos os Bens Eternos da alma aos perecedores bens temporais. E, mesmo sem esmiuçar tudo, não é, porventura, a Doutrina de Cristo que recomenda e prescreve ao homem soberbo aquela humildade que é o verdadeiro manancial de Sua Glória? Todo aquele, pois, que se humilhar, esse será o maior no Reino dos Céus (Mt 18,4). Nesta Celestial Doutrina nos é ensinada igualmente a Prudência de Espírito, que serve para nos proteger da prudência da carne; a Justiça, por meio da qual damos a cada um o que lhe pertence; a Fortaleza, que nos torna capaz de sofrer e padecer tudo generosamente por Deus e pela Bem-aventurança Eterna; enfim, a Temperança, que nos torna amável a Pobreza por Amor de Deus, e que em meio de nossas humilhações faz com que nos gloriemos na Cruz. De maneira que pela Sabedoria Cristã não somente recebe nossa inteligência a Luz que nos permite alcançar a Verdade, mas até a vontade fica empolgada daquele Amor que nos conduz a Deus e a Ele nos une mediante o exercício da Virtude.

5.  Longe estamos de afirmar que a malícia da alma e a corrupção dos costumes não possam co-existir com a consciência da Religião. Prouvera a Deus que os fatos demonstrassem o contrário. Mas compreendemos que quando e espírito está envolto pelas espessas trevas da ignorância, não se pode capacitar nem da retidão da vontade nem dos bons costumes, porque se, caminhando com olhos abertos, pode o homem apartar-se do bom caminho, o que sofre de cegueira está em perigo iminente de desviar-se. Acrescente-se que em quem não está de todo apagado o archote da Fé, resta ainda uma Esperança de que se emende e se cure da corrupção dos costumes; mas quando a ignorância se junta à depravação, já não resta possibilidade de remédio, mas está aberto o caminho da ruína.

O Primeiro Ministério.

6.  Posto que da ignorância da Religião procedem tão graves danos, e, de outro lado, são tão grandes a necessidade e a utilidade da Doutrina Religiosa, desde que, desconhecendo-a,  em vão se esperaria que alguém cumprisse as obrigações de Cristão, convém saber agora a quem compete preservar as almas desta perniciosa ignorância e instruí-las em tão indispensável Ciência. O que, Veneráveis Irmãos, não oferece dificuldade alguma, porque essa transcendente missão recai sobre os Pastores de Almas. Estes, efetivamente, acham-se obrigados por preceito do próprio Cristo a conhecer e apascentar as ovelhas que lhes foram confiadas. Apascentar é, antes do mais, doutrinar. Eu vos darei Pastores segundo o Meu Coração, que vos apascentarão com a Ciência e com a Doutrina (Jr 3,15).
Assim falava Jeremias, inspirado por Deus; pelo que dizia o Apóstolo São Paulo: Cristo não me enviou para Batizar, mas para pregar (1Cor 1,17). Advertindo assim que o principal Ministério de quantos exercem, em certo sentido, o governo da Igreja, consiste em ensinar aos fiéis a Doutrina Sagrada.

7.  Inútil se nos afigura aduzir novas provas da excelência deste Ministério e da estima que merece de Deus. Certo é que Deus exalta grandemente a Piedade que nos move a procurar o alívio das humanas misérias; mas, quem negará que muito acima dela devem ser colocados o zelo e o trabalho mediante os quais o entendimento recebe o ensino e os conselhos referentes, não às necessidades terrenas, mas aos Bens Celestiais? Nada pode ser mais grato a Jesus Cristo, Salvador das almas, que pelo Profeta Isaías disse de Si Mesmo: Fui enviado para Evangelizar os pobres (Lc 4,18).
Importa muito, Veneráveis Irmãos, insistir para que todos os Sacerdotes compreendam bem que ninguém tem maior obrigação e dever mais imperioso. Porque, quem negará que no Sacerdote hão de unir-se a Ciência e a Santidade de Vida? Nos lábios do Sacerdote deve estar o depósito da Ciência (Ml 2,7). E, com efeito, a Igreja o exige rigorosamente de quantos aspiram a ingressar no Sacerdócio. E por que isto? Porque o Povo Cristão espera receber do sacerdote o ensinamento da Divina Lei e porque Deus o destina para propagá-la. De sua boca se há de aprender a Lei, pois que ele é o Anjo do Senhor dos Exércitos (Ml 2,7). Por isso, nas Ordens Sacras, o Bispo diz, dirigindo-se aos que vão ser elevados ao Sacerdócio: Que vossa Doutrina seja remédio espiritual para o Povo de Deus, e os cooperadores de nossa Ordem sejam prudentes, para que, meditando dia e noite acerca da Lei, creiam no que leram e ensinem aquilo em que acreditam (Pontif. Romano).
Se não há Sacerdote algum a quem não correspondam estas obrigações, quais não serão as daqueles que pelo nome e autoridade que ostentam e por sua mesma dignidade têm a seu cargo e como que por compromisso a Cura das Almas? Estes devem ser colocados de algum modo nas fileiras dos Pastores e Doutores que Jesus Cristo deu aos fiéis para que não sejam como meninos flutuantes, e levados, ao sabor de todo vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia dos que induzem ao erro, mas, praticando a Verdade na Caridade, cresçamos em todas as coisas naquele que é a Cabeça, o Cristo (Ef 4, 14-15).

Disposições da Igreja.

8.  Por isso, o Sacrossanto Concílio de Trento, falando dos Pastores de Almas, julgou que a primeira e a maior de suas obrigações era a de ensinar o Povo Cristão (Sess.V, c. 2 de Refor.; XXII, c. 8; sess. XXIV. c. 4 e 7 de Refor.). Dispôs, em conseqüência, que ao menos nos Domingos e Festas Solenes dessem ao Povo Instrução Religiosa, e durante os Santos Tempos de Avento e Quaresma diariamente ou ao menos três vezes por semana. Mas não só isto, porque acrescenta o Concílio que os Párocos estão obrigados, ao menos nos Domingos e Dias de Festa, a ensinar, por si ou por outros, aos meninos as Verdades da Fé e a Obediência que devem a Deus e a seus pais; e lhes manda, outrossim, que, quando tenham de administrar algum Sacramento, instruam em sua virtude os que o vão receber, explicando-o por meio de Pregações em língua vulgar.

9.  Em sua Constituição Etsi Minime”, Nosso Predecessor Bento XIV resumiu estas prescrições e as determinou claramente, dizendo: Duas obrigações impõe principalmente o Concílio de Trento aos Pastores de almas: uma, que todos os Dias de Festa falem ao Povo acerca das Coisas Divinas; outra, que ensinem aos meninos e aos ignorantes os Elementos da Lei Divina e da Fé”. Este Sapientíssimo Pontífice distingue justamente o duplo Ministério, a saber, a Pregação, que habitualmente se chama Explicação do Evangelho, e o Ensino da Doutrina Cristã. Não faltarão, porventura, Sacerdotes que, movidos do desejo de poupar-se trabalho, crêem que com as Homilias satisfazem a obrigação de ensinar o Catecismo. Quem quer que reflita descobrirá a erronia desta opinião; porque a Pregação do Evangelho está destinada aos que já possuem os Elementos da Fé e vem a ser como o pão que se deve dar aos adultos; mas, pelo contrário, o Ensino do Catecismo é aquele alimento de que São Pedro queria que todos o desejassem avidamente com simplicidade, como meninos recém-nascidos. Este Ofício de Catequista consiste em[1] escolher algumas Verdades relativas à Fé e aos Bons Costumes Cristãos e expô-las e explicá-las em todos os seus aspectos. E como o fim do ensino é a Perfeição da Vida, o Catequista há de comparar o que Deus manda obrar e o que os homens realmente fazem, depois do que, e havendo extraído oportunamente algum exemplo da Sagrada Escritura, da História da Igreja ou das Vidas dos Santos, há de aconselhar o seu auditório e como que indicar-lhe a dedo a norma a que se deve ajustar a vida, e terminará exortando os presentes a fugir dos vícios e a praticar a Virtude.

Instrução Popular.

10.  Não ignoramos, em verdade, que o Ofício de Ensinar a Doutrina Cristã não é grato a muitos, que o estimam em pouco e acaso impróprio para conseguir o elogio popular; isto posto, entendemos que semelhante juízo pertence aos que se deixam levar pela leviandade mais do que pela Verdade. Não negamos certamente a aprovação devida aos Oradores Sacros que, movidos do sincero desejo da Glória Divina, se empregam na defesa e reivindicação da Fé ou em fazer o Panegírico dos Santos; mas seu labor requer outra preliminar, a dos Catequistas, pois, faltando esta, não há fundamento e em vão se fadigam os que edificam a casa. Assaz freqüente é que floridos discursos, recebidos com aplauso por nutridas assembléias, somente sirvam para agradar ao ouvido e não comovam as almas. Em troca, o Ensino Catequético, ainda que simples e humilde, merecem que se lhe apliquem estas palavras que Deus inspirou a Isaías: Do mesmo modo que a chuva e a neve descem do Céu e a ele não retornam, mas empapam a terra e a penetram e fecundam, a fim de que produzam semente para semear e pão para comer, assim será a Palavra que sai da minha boca: não tornará a mim vazia, mas obrará tudo aquilo que Eu quero e executará felizmente aquelas coisas para que Eu a enviei (Is 55,10-11). O mesmo juízo se há de formular daqueles Sacerdotes que, para melhor exporem as Verdades da Religião, publicam eruditos volumes, motivo pelo qual são dignos, certamente, de copiosos elogios; mas, sem embargo, quão reduzido é o número dos que consultam as obras deste gênero e destas tiram os frutos que corresponderiam aos desejos do autor! Mas o Ensino da Doutrina Cristã, se feito como se deve fazê-lo, nunca é inútil para os que o escutam.

11.  Convém repeti-lo, para inflamar o zelo dos Ministros do Senhor; já é crescidíssimo, e aumenta cada dia mais, o número dos que tudo ignoram em matéria de Religião, ou têm de Deus e da Fé Cristã conceito tal, que, em plena Luz da Verdade Católica, lhes permite viver como pagãos. Ai! Quão grande é o número, não diremos de meninos, mas de adultos e até de anciãos, encurvados pela idade, que ignoram absolutamente os principais Mistérios da Fé, e, ouvindo falar de cristo, respondem: Quem é Ele para que eu creia nEle?” (Jo 9,36). Daí o terem por lícito forjar e manter ódio contra o próximo, fazer contratos iníquos, explorar negócios infames, fazer empréstimos usurários e constituir-se réus de outras prevaricações semelhantes. Daí que, ignorantes da Lei de Cristo que não somente proíbe toda ação torpe, mas também todo pensamento voluntário e o desejo de cometê-la muitos que, seja lá pelo que for, quase se abstêm dos prazeres vergonhosos, alimentam em suas almas, que carecem de Princípios Religiosos, os pensamentos mais perversos, e tornam o número de suas iniqüidades maior que o dos cabelos de sua cabeça. E deve-se repetir que estes vícios não se encontram somente entre a gente do Campo e o Povo Baixo das Cidades, mas também, e acaso com maior freqüência, entre homens de outra categoria, inclusive entre os que se invaidecem de seu saber e, apoiados em uma vã erudição, pretendem ridicularizar a Religião e blasfemar de tudo quanto não conhecem (Jd 10).

12. Se é coisa vã esperar colheita de terra que não foi semeada, como se pode esperar gerações adornadas de boas obras, se oportunamente não foram instruídas na Doutrina Cristã? Donde justamente inferimos que, se a Fé enlanguesce em nossos dias a ponto de que em muitos sujeitos parece morta, é que se tem cumprido descuidadamente, ou se omitiu de todo, a obrigação de ensinar as Verdades contidas no Catecismo. Inútil será dizer, para encontrar escusa, que a Fé nos foi dada gratuitamente e conferida a cada um no Batismo. Porque, certamente, quando fomos batizados em Jesus Cristo , fomos enriquecidos com a posse da Fé; mas esta divina semente não chega a crescer e lançar grandes ramos (Mc 4,32) se fica abandonada a si mesma e à sua nativa Virtude. Tem o homem, desde que vem a este mundo, a faculdade de entender; mas esta faculdade necessita da excitação da palavra materna para converter-se em ato, como se costuma dizer nas escolas. Isto, precisamente, acontece ao homem Cristão, que, ao renascer pela água e pelo Espírito Santo, traz como que em germe a Fé; necessita, porém, do ensinamento da Igreja para que esta Fé possa nutrir-se, desenvolver-se e dar fruto. Pelo que escrevia o Apóstolo: A Fé provém do ouvir e o ouvir depende da Pregação da Palavra de Cristo (Rm 10,17). E, para mostrar a necessidade do ensino, acrescentou: Como ouvirão falar, se não há quem lhes pregue?” (Rm 10,14).

Normas.

13.  Se, pelo que até aqui foi exposto, já se pode ver qual a importância da Instrução Religiosa do Povo, devemos fazer quanto nos seja possível a fim de que o Ensino da Sagrada Doutrina, que, servindo-nos das palavras do Nosso Predecessor Bento XIV, é a instituição mais útil para a Glória de Deus e a Salvação das Almas (Const. Etsi Minime, 13), se mantenha sempre florescente ou, onde tenha sido descuidada, se restaure. Assim, pois, Veneráveis Irmãos, querendo cumprir esta grave obrigação do Apostolado Supremo e fazer que em toda parte se observem em matéria tão importante as mesmas práticas, em virtude de Nossa Suprema Autoridade, estabelecemos para todas as Dioceses as seguintes disposições, que deverão ser rigorosamente observadas e cumpridas:

14. I.  Todos os Párocos, e em geral quantos Sacerdotes exercem a Cura de Almas, hão de instruir com respeito ao Catecismo, durante uma hora inteira, todos os Domingos e Dias de Festa do ano, sem exceptuar nenhum, a todos os meninos e meninas naquilo que devem crer e praticar para alcançar a Salvação Eterna.

15. II.  Os mesmos hão de preparar as meninas e meninos, em época fixa do ano, e mediante Instrução que há de durar vários dias, a receber dignamente os Sacramentos da Penitência e Confirmação.

16. III.  Além disso, hão de preparar com especial cuidado aos jovenzinhos e jovenzinhas, para que, santamente, se aproximem pela primeira vez da Sagrada Mesa, valendo-se para este fim de oportunas Instruções e Exortações, durante todos os dias da Quaresma, e, se for necessário, durante vários outros depois da Páscoa.

17. IV.  Em todas as Paróquias se erigirá canonicamente a Associação que vulgarmente se denomina Congregação da Doutrina Cristã [Cf. CD, 30], com a qual, principalmente onde aconteça ser escasso o número de Sacerdotes, terão os Párocos auxiliares do Estado Secular para o Ensino do Catecismo, os quais se ocuparão neste Ministério, tanto por zelo da Glória de Deus, como para lucrar as Santas Indulgências que os romanos Pontífices têm enriquecido essa Associação.

18. V.  Nas grandes cidades, principalmente onde haja Faculdades maiores, Liceus e Colégios, fundem-se Escolas de Religião, para instruir nas Verdades da Fé e nas práticas da Vida Cristã a Juventude que freqüenta as Escolas Públicas em que se não menciona as Coisas de Religião.

19. VI.  Porque nestes tempos de desordem a Idade Madura não está menos que a Infância necessitada de Instrução Religiosa, os Párocos e quantos Sacerdotes tenham Cura de Almas, além da costumada Homilia sobre o Santo Evangelho, que hão de fazer todos os Dias de Festa, na Missa Paroquial, escolham a hora mais oportuna para o comparecimento dos fiéis exceptuando a destinada à Doutrina dos meninos e façam Instruções Catequísticas aos adultos, em forma simples e acomodadas às suas inteligências, devendo para isso acomodar-se ao Catecismo do Concílio de Trento; de tal modo que no espaço de quatro ou cinco anos expliquem quanto se refere ao Símbolo, aos Sacramentos, ao Decálogo, à Oração e aos Mandamentos da Igreja.

20. VII. Todas as coisas, Veneráveis Irmãos, mandamos e estabelecemos em virtude de Nossa Autoridade Apostólica. Agora, obrigação vossa é procurar, cada qual em sua própria Diocese, que estas prescrições se cumpram inteiramente e sem tardança. Velai, pois, e, com a autoridade que vos é peculiar, procurai que nossos mandamentos não caiam em olvido ou o que seria igual se cumpram com negligência e frouxidão. Para evitar esta falta, haveis de empregar as recomendações mais assíduas e imperativas aos Párocos, a fim de que não expliquem o Catecismo sem preparação, mas preparando-se antes com esmero, de modo que não falem a linguagem da sabedoria humana, senão que com simplicidade de coração e sinceridade diante de Deus (2Cor 1,12) sigam o exemplo de Cristo, que, embora expusesse coisas que estavam ocultas desde a criação do mundo (Mt 12,34), sem embargo as dizia todas ao povo por meio de Parábolas ou exemplos, e sem Parábolas não lhes pregava (Mt 12,34). Sabemos também que o mesmo fizeram os Apóstolos, ensinados por Jesus Cristo, e deles dizia São Gregório Magno: Puseram todo cuidado em pregar aos povos ignorantes coisas simples e acessíveis, e não coisas altas e árduas (Moral. lib. 17, c. 26). E, em Coisas de Religião, uma grande parte de homens de nosso tempo deve ser considerada ignorante.


O Trabalho do Ensino.

21. Não quiséramos que alguém, em razão desta mesma simplicidade que convém observar, imaginasse que o Ensino Catequístico não requeira trabalho nem meditação; pelo contrário, são de maior necessidade que em qualquer outra. É mais fácil achar um Orador que fale com abundância e brilho, que um Catequista cujas explicações mereçam elogios em tudo. Todos , portanto, hão de ter em conta que, por grande que seja a facilidade de conceitos e de expressão de que sejam naturalmente dotados, nenhum falará da Doutrina Cristã com proveito espiritual dos adultos e dos meninos, se antes não se preparou com estudos e séria meditação. Enganam-se os que, fiando-se na inexperiência e aviltamento intelectual do Povo, julgam-se poderem proceder negligentemente nesta matéria. O contrário é que é a verdade; quanto mais seja a incultura do auditório, maior zelo e cuidado se requerem para lograr que as Verdades mais sublimes, tão elevadas sobre o entendimento da generalidade dos homens, penetrem na inteligência dos ignorantes, os quais, não menos que os sábios, necessitam conhecê-las para alcançar a Eterna Bem-Aventurança.

22.  Seja-nos permitido, Veneráveis Irmãos, dizer-vos ao terminar esta Carta, o que disse Moisés: Aquele que seja do Senhor, reúna-se comigo (Ex 32,26). Rogamo-vos e suplicamos que observeis quão grandes são os estragos que produz nas almas a só ignorância das Coisas Divinas. Talvez muitas outras obras úteis e dignas de elogio se encontrem estabelecidas por vós nas vossas Dioceses, para bem de vossos respectivos rebanhos; mas, com preferência a todas elas, e com todo o empenho, todo o zelo e toda a constância que vos sejam possíveis, haveis de cuidar esmeradamente de que o conhecimento da Doutrina Cristã chegue a penetrar na mente e no coração de todos. Comunique cada qual ao próximo repetimos com o Apóstolo São Pedro a graça segundo a recebeu, como bons dispensadores dos dons de Deus, os quais são multiformes (1Pe 4,10).

Que, mediante a intercessão da Imaculada e Bem-Aventurada Virgem, vosso zelo e piedosa indústria se excitem com a Bênção Apostólica, que amorosamente vos concedemos, a vós, a vosso Clero e ao Povo que vos está confiado, e seja testemunha de Nosso afeto e primícias dos Divinos Dons.

         

  Dado em Roma,

            junto de São Pedro,

            no dia 15 de Abril do ano de 1905,

            segundo de Nosso Pontificado.

      PIO, PAPA X







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Obama visita Bento XVI – releitura oportuna

julho 10th, 2009 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja, Links

 

hopepope

Hoje, dia 10 de julho, Obama encontra-se com o papa Bento XVI. Por ocasião de tal encontro, seria extremamente oportuno reler um post que fiz em novembro de 2008: Obama sobre religião e política ou Sobre Ser e Parecer

 

Acompanhe bons comentários e atualizações sobre o encontro no American Papist.







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Carta Encíclica Caritas In Veritate

julho 7th, 2009 | Comente | Postado em Igreja

 

CARTA ENCÍCLICA
CARITAS IN VERITATE
DO SUMO PONTÍFICE
BENTO XVI
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
AOS FIÉIS LEIGOS
E A TODOS OS HOMENS
DE BOA VONTADE
SOBRE O DESENVOLVIMENTO
HUMANO INTEGRAL
NA CARIDADE E NA VERDADE

 

Leia a nova Carta Encíclica Caritas in Veritate







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Para que sejam um

maio 28th, 2009 | Comente | Postado em Igreja, Vídeos

 

Em 28 de junho de 2008, Solenidade de São Pedro e São Paulo, o Papa Bento XVI celebrou a Santa Missa tendo ao lado o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I.

 

O vídeo apresenta os instantes finais da celebração e dispensa maiores comentários.

 







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Carlos MInc, AIDS, Homofobia, Papa e burrice

maio 21st, 2009 | 5 Comentários | Postado em Igreja, Imprensa

 

Dá até desânimo, mas vamos lá. Notícia do dia 18 de maio: Minc critica a Igreja ao lançar conselho LGBT. Há muito tempo em que não leio tanta besteira em tão poucas linhas. Diz o gênio:

"Tem alguns momentos em que a Igreja erra feio. Um deles é a questão da camisinha. Se a gente fosse atrás da Igreja, quantas pessoas não estariam doentes?", discursou o ministro, em meio a aplausos da plateia.

A platéia aplaude porque é só o que sabe fazer. Se a platéia e o ministro soubessem também pensar, iriam se dar conta da estupidez sem tamanho que incensam. Sabe o que diz “a Igreja”?:

§2337 A vocação à castidade A castidade significa a integração correta da sexualidade na pessoa e, com isso, a unidade interior do homem em seu ser corporal e espiritual. A sexualidade, na qual se exprime a pertença do homem ao mundo corporal e biológico, torna-se pessoal e verdadeiramente humana quando é integrada na relação de pessoa a pessoa, na doação mútua integral e temporalmente ilimitada do homem e da mulher.

§2362 "Os atos com os quais os cônjuges se unem íntima e castamente são honestos e dignos. Quando realizados de maneira verdadeiramente humana, significam e favorecem a mútua doação pela qual os esposos se enriquecem com o coração alegre e agradecido." A sexualidade é fonte de alegria e de prazer:

O próprio Criador… estabeleceu que nesta função (i.é, de geração) os esposos sentissem prazer e satisfação do corpo e do espírito. Portanto, os esposos não fazem nada de mal em procurar este prazer e em gozá-lo. Eles aceitam o que o Criador lhes destinou. Contudo, os esposos devem saber manter-se nos limites de uma moderação justa.  (Catecismo da Igreja Católica)

Mais do que jamais poderiam conceber o ministro e seus ouvintes, a Igreja trata o sexo como ato extremamente digno, prazeroso e muito profundo. Justamente por isso deve estar cercado de cuidado e respeito. Portanto, senhor ministo falastrão, se “a gente fosse atrás da Igreja”, problemas derivados da sexualidade simplesmente não existiriam. É um ato de extremada ignorância e falta de honestidade intelectual proferir tais estultices perante uma platéia absolutamente condicionada e ignorante e, esta sim, preconceituosa em relação ao que diz a Igreja.

Mas o ministro populista continua:

"Outra questão é a da homofobia. Como é que uma religião pode dizer que é fraterna e solidária com todos se pressiona os parlamentares a não aprovarem a lei que criminaliza a homofobia?", indagou, em seguida, o ministro. Para ele, quem cria obstáculos à aprovação do projeto de lei "é corresponsável pela multiplicação dos crimes que nada têm de fraternos e solidários". Segundo Minc, 3 mil pessoas morreram no País em dez anos por causa de crimes homofóbicos.

Obviamente a questão é dupla (mas só quem sabe pensar é que acompanha. Caso diferente daquele do ministro):

1. Sobre a lei: Quando se refere à lei, o ministro está se referindo ao Projeto de Lei 122/2006, que tem por objetivo “coibir a discriminação de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”.

Ora, eu desafio qualquer crítco da Igreja a apontar algum comentário ou posicionamento oficial da mesma, que propugne a violência ou a descriminação por conta de homossexualidade. Ao contrário, como vou apontar no segundo item, a Igreja professa em documentos públicos e oficiais, vertidos para inúmeros idiomas, que homossexuais devem ser respeitados e acolhidos pois são seres humanos e filhos de Deus como toda criatura humana.

Aquilo a que a Igreja se opõe firmemente são as derivações de tal lei, a partir de artigos redigidos por alguém que simplesmente não sabe escrever. Há lá coisas do tipo:

Art. 20. § 5º O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica.”

Se você é um pouquinho esperto, perceberá que a Igreja estará incorrendo em crime ao reprovar ética, filosófica e teologicamente a prática homossexual como pecado. Assim como qualquer um que se manifeste ainda que teoricamente sua discordância. Fala-se ainda em punição por recusa de fornecimento de bens etc. (alguém pensou aí na Eucaristia?). O que ocorre é que  lei é problemática. E pelo amor de Deus vamos parar de utilizar a palavra “homofobia”. Não se trata de medo ou aversão, mas de um posicionamento contrário. Daqui a pouco os direitistas vão ser acusados de “sinistrofobia” ou coisa que o valha. Criminalizar posicionamento teórico é absurdo em sua própria natureza.

2. Sobre o que diz a Igreja: Vamos direto ao que diz a Igreja:

§2357 CASTIDADE E HOMOSSEXUALIDADE A homossexualidade designa as relações entre homens e mulheres que sentem atração sexual, exclusiva ou predominante, por pessoas do mesmo sexo. A homossexualidade se reveste de formas muito variáveis ao longo dos séculos e das culturas. Sua gênese psíquica continua amplamente inexplicada. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a tradição sempre declarou que "os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados". São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados.

§2358 Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição.

§2359 As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.

Renovo o desafio de que se encontre algum posicionamento oficial da Igreja que vá em sentido contrário ao explícito acima. O que ocorre é que os críticos da Igreja têm um discurso antropológico absolutamente acrítico e inconsistente que nem sequer consegue estabeler bases minimamente sólidas para a construção da idéia de sexualidade como em processo. Chamar a Igreja de “homofóbica” é, como costumo dizer, ou ignorância ou má-fé.







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A política como ciência primeira – II

maio 14th, 2009 | Comente | Postado em Igreja, Opinião

 

O texto abaixo começou como uma resposta ao comentário do meu amigo Carlo sobre o post anterior (leia na caixa de comentários correspondente), mas tomou proporções maiores. Enfim, está aí para que continuemos a conversa:

* * *

De fato, suas considerações são importantes e mesmo sua dúvida ao final realmente eleva a discussão a um nível superior – que diga-se de passagem, já está acima daqueles que tem na política a causa primeira do real.

Visto a partir do ponto de vista do duplo plano de ação no qual o Papa e a Igreja se inserem, realmente não há nenhum problema em se predicar "política" de "Igreja". Mas o perigoso é quando "Política" faz o papel de primeiro motor ou explicação última das ações da Igreja. Ora, ela se define justamente por ter sua preocupação última para além da esfera das ações humanas. É "para fazer Ó Deus, a tua vontade" (Hb. 10,9) que ela existe.

Assim, repito: dizer que as ações do papa e da Igreja têm sua dimensão política é, sobretudo na acepção grega e mais forte dessa palavra, óbvio. O problema surge quando se propõe que toda a explicação para suas ações estão submissas à dimensão política, o que é, também obviamente, falso. É esse o sentido do título do post: para Aristóteles a “filosofia ou sabedoria primeira” é a metafísica; dito de outro modo, o conhecimento das causas primeiras. Substituir a causa primeira da Igreja por uma de viés essencialmente político: é aí que começa o problema.

Tal afirmação não condiz nem com os fatos recentes: a tão aclamada impopularidade de Bento XVI (sobretudo em vista da comparação sempre infeliz com João Paulo II). Se os objetivos últimos fossem políticos no sentido que você mesmo aponta de "Habilidade no agir e no tratar, tendo em vista a obtenção de algo; Diplomacia”, o Papa e a Igreja estaria falhando catastroficamente. Mas como o papa se vê na função de um mensageiro cuja excelência no serviço é entregar a intacta a mensagem de quem o enviou, não pode se render ao sentido comum de simples "diplomacia". A Igreja desagrada na medida mesma em que não se rende a fazer, essencialmente, política.

Novamente, colocar em relevo a dimensão política de sua prática como paradigma último de ação, como em geral fizeram alguns blogueiros por esses dias é, no mínimo, desconhecer a Igreja e, inclusive, estar fora do universo das últimas notícias. Apenas como mote para outras conversas, tal erro pode ser encontrado também no seio da Teologia da Libertação, fonte de erro crasso.

 

Abraços.







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A Política como Ciência Primeira

maio 11th, 2009 | 4 Comentários | Postado em Blogs, Igreja, Imprensa

Definitivamente, a política é a metafísica dos papajordaniaincapazes de contemplação, no sentido grego da palavra. Para alguns a última esfera de explicação do real ou, dito de outro modo, a ciência das causas primeiras de tudo aquilo que é, para certas pessoas, a política.

As reações ao discurso do papa numa mesquita na Jordânia se deram, em alguns blogs, com adjetivos como “palhaço” e “cara-de-pau”. É no mínimo curioso acusar o alguém que professa publicamente que a realidade última das coisas não é a humana e, portanto, não pode ser política, de ser, justamente, estritamente político. Há aí algo de uma projeção da limitação cognitiva e contemplativa dos que fazem esse discurso, sobre os ombros do papa. Exatamente o papa que opta por discursos que causam pavores e reações exacerbadas, algo totalmente contrário a qualquer tentativa de manipulação política (ou seria uma nova tática de angariar apoios, concessões e pactos políticos através do despertar do ódio?).

O que ocorre é que o papa e seus críticos partem de pressupostos diferentes e, obviamente, chegam em respostas e conclusões irreconciliáveis. Mas só o papa sabe disso.







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O papa pode estar certo

abril 3rd, 2009 | 4 Comentários | Postado em Igreja, Imprensa

 

In theory, condom promotions ought to work everywhere. And intuitively, some condom use ought to be better than no use. But that’s not what the research in Africa shows.

Why not?

One reason is "risk compensation." That is, when people think they’re made safe by using condoms at least some of the time, they actually engage in riskier sex.

 

Faça um favor a sua honestidade intelectual e leia o artigo de Edward C. Green no Washington Post, sobre as declarações do papa Bento XVI acerca do uso de preservativos, quando de sua viagem à África.

Ahn, é claro. Deverão aparecer aqueles gênios da última hora para questionar sobre a idoneidade desse tal articulista. Pois bem, clique aqui para acessar a página do Harvard Aids Prevention Research Project, capitaneado pelo Dr. Edward C. Green, cuja experiência de anos na pesquisa da AIDS no continente africano pode ser conferida em seu Curriculum.







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Carta do Papa aos Bispos

março 12th, 2009 | Comente | Postado em Igreja

 

brasaobentoXVI

CARTA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
AOS BISPOS DA IGREJA CAT?LICA
A PROP?SITO DA REMISS?O DA EXCOMUNH?O
AOS QUATRO BISPO CONSAGRADOS
PELO ARCEBISPO LEFEBVRE

Amados Irm?os no minist?rio episcopal!

A remiss?o da excomunh?o aos quatro Bispos, consagrados no ano de 1988 pelo Arcebispo Lefebvre sem mandato da Santa S?, por variadas raz?es suscitou, dentro e fora da Igreja Cat?lica, uma discuss?o de tal veem?ncia como desde h? muito tempo n?o se tinha experi?ncia. Muitos Bispos sentiram-se perplexos perante um facto que se verificou inesperadamente e era dif?cil de enquadrar positivamente nas quest?es e nas tarefas actuais da Igreja. Embora muitos Bispos e fi?is estivessem, em linha de princ?pio, dispostos a considerar positivamente a decis?o do Papa pela reconcilia??o, contra isso levantava-se a quest?o acerca da conveni?ncia de semelhante gesto quando comparado com as verdadeiras urg?ncias duma vida de f? no nosso tempo. Ao contr?rio, alguns grupos acusavam abertamente o Papa de querer voltar atr?s, para antes do Conc?lio: desencadeou-se assim um avalanche de protestos, cujo azedume revelava feridas que remontavam mais al?m do momento. Por isso senti-me impelido a dirigir-vos, amados Irm?os, uma palavra esclarecedora, que pretende ajudar a compreender as inten??es que me guiaram a mim e aos ?rg?os competentes da Santa S? ao dar este passo. Espero deste modo contribuir para a paz na Igreja.

Uma contrariedade que eu n?o podia prever foi o facto de o caso Williamson se ter sobreposto ? remiss?o da excomunh?o. O gesto discreto de miseric?rdia para com quatro Bispos, ordenados v?lida mas n?o legitimamente, de improviso apareceu como algo completamente diverso: como um desmentido da reconcilia??o entre crist?os e judeus e, consequentemente, como a revoga??o de quanto, nesta mat?ria, o Conc?lio tinha deixado claro para o caminho da Igreja. E assim o convite ? reconcilia??o com um grupo eclesial implicado num processo de separa??o transformou-se no seu contr?rio: uma aparente invers?o de marcha relativamente a todos os passos de reconcilia??o entre crist?os e judeus feitos a partir do Conc?lio ? passos esses cuja adop??o e promo??o tinham sido, desde o in?cio, um objectivo do meu trabalho teol?gico pessoal. O facto de que esta sobreposi??o de dois processos contrapostos se tenha verificado e que durante algum tempo tenha perturbado a paz entre crist?os e judeus e mesmo a paz no seio da Igreja, posso apenas deplor?-lo profundamente. Disseram-me que o acompanhar com aten??o as not?cias ao nosso alcance na internet teria permitido chegar tempestivamente ao conhecimento do problema. Fica-me a li??o de que, para o futuro, na Santa S? deveremos prestar mais aten??o a esta fonte de not?cias. Fiquei triste pelo facto de inclusive cat?licos, que no fundo poderiam saber melhor como tudo se desenrola, se sentirem no dever de atacar-me e com uma virul?ncia de lan?a em riste. Por isso mesmo sinto-me ainda mais agradecido aos amigos judeus que ajudaram a eliminar prontamente o equ?voco e a restabelecer aquela atmosfera de amizade e confian?a que, durante todo o per?odo do meu pontificado ? tal como no tempo do Papa Jo?o Paulo II ?, existiu e, gra?as a Deus, continua a existir.

Outro erro, que lamento sinceramente, consiste no facto de n?o terem sido ilustrados de modo suficientemente claro, no momento da publica??o, o alcance e os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. A excomunh?o atinge pessoas, n?o institui??es. Um ordena??o episcopal sem o mandato pontif?cio significa o perigo de um cisma, porque p?e em quest?o a unidade do col?gio episcopal com o Papa. Por isso a Igreja tem de reagir com a puni??o mais severa, a excomunh?o, a fim de chamar as pessoas assim punidas ao arrependimento e ao regresso ? unidade. Passados vinte anos daquelas ordena??es, tal objectivo infelizmente ainda n?o foi alcan?ado. A remiss?o da excomunh?o tem em vista a mesma finalidade que pretende a puni??o: convidar uma vez mais os quatro Bispos ao regresso. Este gesto tornara-se poss?vel depois que os interessados exprimiram o seu reconhecimento, em linha de princ?pio, do Papa e da sua potestade de Pastor, embora com reservas em mat?ria de obedi?ncia ? sua autoridade doutrinal e ? do Conc?lio. E isto traz-me de volta ? distin??o entre pessoa e institui??o. A remiss?o da excomunh?o era um provimento no ?mbito da disciplina eclesi?stica: as pessoas ficavam libertas do peso de consci?ncia constitu?do pela puni??o eclesi?stica mais grave. ? preciso distinguir este n?vel disciplinar do ?mbito doutrinal. O facto de a Fraternidade S?o Pio X n?o possuir uma posi??o can?nica na Igreja n?o se baseia, ao fim e ao cabo, em raz?es disciplinares mas doutrinais. Enquanto a Fraternidade n?o tiver uma posi??o can?nica na Igreja, tamb?m os seus ministros n?o exercem minist?rios leg?timos na Igreja. Por conseguinte, ? necess?rio distinguir o n?vel disciplinar, que diz respeito ?s pessoas enquanto tais, do n?vel doutrinal em que est?o em quest?o o minist?rio e a institui??o. Especificando uma vez mais: enquanto as quest?es relativas ? doutrina n?o forem esclarecidas, a Fraternidade n?o possui qualquer estado can?nico na Igreja, e os seus ministros ? embora tenham sido libertos da puni??o eclesi?stica ? n?o exercem de modo leg?timo qualquer minist?rio na Igreja.

? luz desta situa??o, ? minha inten??o unir, futuramente, a Comiss?o Pontif?cia ?Ecclesia Dei? ? institui??o competente desde 1988 para as comunidades e pessoas que, sa?das da Fraternidade S?o Pio X ou de id?nticas agrega??es, queiram voltar ? plena comunh?o com o Papa ? ? Congrega??o para a Doutrina da F?. Deste modo torna-se claro que os problemas, que agora se devem tratar, s?o de natureza essencialmente doutrinal e dizem respeito sobretudo ? aceita??o do Conc?lio Vaticano II e do magist?rio p?s-conciliar dos Papas. Os organismos colegiais pelos quais a Congrega??o estuda as quest?es que se lhe apresentam (especialmente a habitual reuni?o dos Cardeais ?s quartas-feiras e a Plen?ria anual ou bienal) garantem o envolvimento dos Prefeitos de v?rias Congrega??es romanas e dos representantes do episcopado mundial nas decis?es a tomar. N?o se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962: isto deve ser bem claro para a Fraternidade. Mas, a alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Conc?lio, deve tamb?m ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a hist?ria doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Conc?lio, deve aceitar a f? professada no decurso dos s?culos e n?o pode cortar as ra?zes de que vive a ?rvore.

Dito isto, espero, amados Irm?os, que tenham ficado claros tanto o significado positivo como os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. Mas resta a quest?o: Tal provimento era necess?rio? Constitu?a verdadeiramente uma prioridade? N?o h? porventura coisas muito mais importantes? Certamente existem coisas mais importantes e mais urgentes. Penso ter evidenciado as prioridades do meu Pontificado nos discursos que pronunciei nos seus prim?rdios. Aquilo que disse ent?o permanece inalteradamente a minha linha orientadora. A primeira prioridade para o Sucessor de Pedro foi fixada pelo Senhor, no Cen?culo, de maneira inequivoc?vel: ?Tu (?) confirma os teus irm?os? (Lc 22, 32). O pr?prio Pedro formulou, de um modo novo, esta prioridade na sua primeira Carta: ?Estai sempre prontos a responder (?) a todo aquele que vos perguntar a raz?o da esperan?a que est? em v?s? (1 Ped 3, 15). No nosso tempo em que a f?, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que j? n?o recebe alimento, a prioridade que est? acima de todas ? tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. N?o a um deus qualquer, mas ?quele Deus que falou no Sinai; ?quele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado at? ao extremo (cf. Jo 13, 1) em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. O verdadeiro problema neste momento da nossa hist?ria ? que Deus possa desaparecer do horizonte dos homens e que, com o apagar-se da luz vinda de Deus, a humanidade seja surpreendida pela falta de orienta??o, cujos efeitos destrutivos se manifestam cada vez mais.

Conduzir os homens para Deus, para o Deus que fala na B?blia: tal ? a prioridade suprema e fundamental da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo. Segue-se daqui, como consequ?ncia l?gica, que devemos ter a peito a unidade dos crentes. De facto, a sua desuni?o, a sua contraposi??o interna p?e em d?vida a credibilidade do seu falar de Deus. Por isso, o esfor?o em prol do testemunho comum de f? dos crist?os ? em prol do ecumenismo ? est? inclu?do na prioridade suprema. A isto vem juntar-se a necessidade de que todos aqueles que cr?em em Deus procurem juntos a paz, tentem aproximar-se uns dos outros a fim de caminharem juntos ? embora na diversidade das suas imagens de Deus ? para a fonte da Luz: ? isto o di?logo inter-religioso. Quem anuncia Deus como Amor levado ?at? ao extremo? deve dar testemunho do amor: dedicar-se com amor aos doentes, afastar o ?dio e a inimizade, tal ? a dimens?o social da f? crist?, de que falei na Enc?clica Deus caritas est.

Em conclus?o, se o ?rduo empenho em prol da f?, da esperan?a e do amor no mundo constitui neste momento (e, de formas diversas, sempre) a verdadeira prioridade para a Igreja, ent?o fazem parte dele tamb?m as pequenas e m?dias reconcilia??es. O facto que o gesto submisso duma m?o estendida tenha dado origem a um grande rumor, transformando-se precisamente assim no contr?rio duma reconcilia??o ? um dado que devemos registar. Mas eu pergunto agora: Verdadeiramente era e ? errado ir, mesmo neste caso, ao encontro do irm?o que ?tem alguma coisa contra ti? (cf. Mt 5, 23s) e procurar a reconcilia??o? N?o deve porventura a pr?pria sociedade civil tentar prevenir as radicaliza??es e reintegrar os seus eventuais aderentes ? na medida do poss?vel ? nas grandes for?as que plasmam a vida social, para evitar a segrega??o deles com todas as suas consequ?ncias? Poder? ser totalmente errado o facto de se empenhar na dissolu??o de endurecimentos e de restri??es, de modo a dar espa?o a quanto nisso haja de positivo e de recuper?vel para o conjunto? Eu mesmo constatei, nos anos posteriores a 1988, como, gra?as ao seu regresso, se modificara o clima interno de comunidades antes separadas de Roma; como o regresso na grande e ampla Igreja comum fizera de tal modo superar posi??es unilaterais e abrandar inflexibilidades que depois resultaram for?as positivas para o conjunto. Poder? deixar-nos totalmente indiferentes uma comunidade onde se encontram 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 semin?rios, 88 escolas, 2 institutos universit?rios, 117 irm?os, 164 irm?s e milhares de fi?is? Verdadeiramente devemos com toda a tranquilidade deix?-los andar ? deriva longe da Igreja? Penso, por exemplo, nos 491 sacerdotes: n?o podemos conhecer toda a trama das suas motiva??es; mas penso que n?o se teriam decidido pelo sacerd?cio, se, a par de diversos elementos vesgos e combalidos, n?o tivesse havido o amor por Cristo e a vontade de anunci?-Lo e, com Ele, o Deus vivo. Poderemos n?s simplesmente exclu?-los, enquanto representantes de um grupo marginal radical, da busca da reconcilia??o e da unidade? E depois que ser? deles?

? certo que, desde h? muito tempo e novamente nesta ocasi?o concreta, ouvimos da boca de representantes daquela comunidade muitas coisas dissonantes: sobranceria e presun??o, fixa??o em pontos unilaterais, etc. Em abono da verdade, devo acrescentar que tamb?m recebi uma s?rie de comoventes testemunhos de gratid?o, nos quais se vislumbrava uma abertura dos cora??es. Mas n?o deveria a grande Igreja permitir-se tamb?m de ser generosa, ciente da concep??o ampla e fecunda que possui, ciente da promessa que lhe foi feita? N?o deveremos n?s, como bons educadores, ser capazes tamb?m de n?o reparar em diversas coisas n?o boas e diligenciar por arrastar para fora de mesquinhices? E n?o deveremos porventura admitir que, em ambientes da Igreja, tamb?m surgiu qualquer disson?ncia? ?s vezes fica-se com a impress?o de que a nossa sociedade tenha necessidade pelo menos de um grupo ao qual n?o conceda qualquer toler?ncia, contra o qual seja poss?vel tranquilamente arremeter-se com avers?o. E se algu?m ousa aproximar-se do mesmo ? do Papa, neste caso ? perde tamb?m o direito ? toler?ncia e pode de igual modo ser tratado com avers?o sem temor nem dec?ncia.

Amados Irm?os, nos dias em que me veio ? mente escrever-vos esta carta, deu-se o caso de, no Semin?rio Romano, ter de interpretar e comentar o texto de Gal 5, 13-15. Notei com surpresa o car?cter imediato com que estas frases nos falam do momento actual: ?N?o abuseis da liberdade como pretexto para viverdes segundo a carne; mas, pela caridade, colocai-vos ao servi?o uns dos outros, porque toda a lei se resume nesta palavra: Amar?s o teu pr?ximo como a ti mesmo. Se v?s, por?m, vos mordeis e devorais mutuamente, tomai cuidado em n?o vos destruirdes uns aos outros?. Sempre tive a propens?o de considerar esta frase como um daqueles exageros ret?ricos que ?s vezes se encontram em S?o Paulo. E, sob certos aspectos, pode ser assim. Mas, infelizmente, este ?morder e devorar? existe tamb?m hoje na Igreja como express?o duma liberdade mal interpretada. Porventura ser? motivo de surpresa saber que n?s tamb?m n?o somos melhores do que os G?latas? Que pelo menos estamos amea?ados pelas mesmas tenta??es? Que temos de aprender sempre de novo o recto uso da liberdade? E que devemos aprender sem cessar a prioridade suprema: o amor? No dia em que falei disto no Semin?rio Maior, celebrava-se em Roma a festa de Nossa Senhora da Confian?a. De facto, Maria ensina-nos a confian?a. Conduz-nos ao Filho, de Quem todos n?s podemos fiar-nos. Ele guiar-nos-?, mesmo em tempos turbulentos. Deste modo quero agradecer de cora??o aos numerosos Bispos que, neste per?odo, me deram comoventes provas de confian?a e afecto, e sobretudo me asseguraram a sua ora??o. Este agradecimento vale tamb?m para todos os fi?is que, neste tempo, testemunharam a sua inalter?vel fidelidade para com o Sucessor de S?o Pedro. O Senhor nos proteja a todos n?s e nos conduza pelo caminho da paz. Tais s?o os votos que espontaneamente me brotam do cora??o neste in?cio da Quaresma, tempo lit?rgico particularmente favor?vel ? purifica??o interior, que nos convida a todos a olhar com renovada esperan?a para a meta luminosa da P?scoa.

Com uma especial B?n??o Apost?lica, me confirmo

Vosso no Senhor

BENEDICTUS PP. XVI

Vaticano, 10 de Mar?o de 2009.







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