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Saramago e Camus ou Sobre ser honesto com a existência

June 18th, 2010 | 2 Comentários | Postado em Filosofia, Livros, Opinião

Hoje faleceu José Saramago, o primeiro escritor lusófono a ser laureado com o Prêmio Nobel. Para além de gostar ou não gostar de sua produção literária, sua importância é inegável. Contudo, a obra de Saramago não é somente sua expressão criadora. Por opção deliberada e explícita do próprio, passou a ser, talvez mais de uns tempos pra cá, sua expressão intelectual e, mais premente, sua expressão existencial.

Em O evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a cegueira e Caim, Saramago não apenas modela e burila sua arte mas, como todo artista que se pretenda sério, desenha ou redige a sua metafísica. Por “metafísica” entendo aqui um discurso sobre a estrutura última do real, daquilo que é. E sabemos desde sempre que sua visão de mundo é pautada por sua opção pelo marxismo, que aparece não somente em suas falas como em suas participações (como em encontros com Stédile et caterva). É também explícito seu ateísmo. Esses dois pilares – que obviamente se conectam e se inter-alimentam – perfazem o sustentáculo, portanto, de sua metafísica (aliados a uma dose não desprezível de eclesioclastia). É o que podemos ver em sua última entrevista para a Folha de São Paulo:

Desde muito novo orientei-me para a consciência de que o mundo está errado. Não importa aqui qual foi o grau da minha militância todos esses anos. O que importa é que o mundo estava errado, e eu queria fazer coisas para modificá-lo. O espaço ideológico e político em que se esperava encontrar alguma coisa que confirmasse essa idéia era, é claro, a esquerda comunista. Para aí fui e aí estou. Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal. O que isso quer dizer? Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista.

 

A história da humanidade é um desastre contínuo. Nunca houve nada que se parecesse com um momento de paz. Se ainda fosse só a guerra, em que as pessoas se enfrentam ou são obrigadas a se enfrentar… Mas não é só isso. Esta raiva que no fundo há em mim, uma espécie de raiva às vezes incontida, é porque nós não merecemos a vida. Não a merecemos. Não se percebeu ainda que o instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem. O animal, para se alimentar, tem que matar o outro animal. Mas nós não, nós matamos por prazer, por gosto. Se fizermos um cálculo de quantos delinqüentes vivem no mundo, deve ser um número fabuloso. Vivemos na violência. Não usamos a razão para defender a vida; usamos a razão para destruí-la de todas as maneiras -no plano privado e no plano público.

 

Por que eu teria de mudar [em relação a seu ateísmo]? Porque supostamente me salvou a vida? Quem me salvou foram os médicos e a minha mulher. E Deus se esqueceu de Santa Catarina? Não quero ofender ninguém, mas Deus não existe. Salvo na cabeça das pessoas, onde está o diabo, o mal e o bem. Inventamos Deus porque tínhamos medo de morrer, acreditávamos que talvez houvesse uma segunda vida. Inventamos o inferno, o paraíso e o purgatório. Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle, não tanto das almas, porque à igreja não importam as almas, mas dos corpos. O sonho da igreja sempre foi nos transformar em eunucos. A Bíblia foi escrita ao longo de 2.000 anos e não é um livro que se possa deixar nas mãos de um inocente. Só tem maus conselhos, assassinatos, incestos…

E por fim:

A igreja, que, para efeitos propagandísticos, cultiva a modéstia e a humildade, nos comportamentos age com um orgulho sem limite. Por isso criei esse padre, que quer exorcizar um elefante, como se fosse possível imaginar o que vai ali pela cabeça do bicho e, por analogia, o que vai pela cabeça de um homem comum.

 

Há duas experiências das quais pode partir uma analítica séria da existência: a da unidade e a da ruptura. Ou há uma unidade primordial profunda entre o homem e sua existência, mesmo que por vezes ela possa fugir de nós sob signos de rupturas, ou a marca distintiva da experiência humana é o fato da irreconciliabilidade, da fratura e do desnível entre o homem e sua vida, ainda que cravejada aqui e ali de irrupções verticais ascendentes que costumamos chamar de felicidade. Como podemos depreender de suas falas acima, Saramago parece partir desta última (que devemos reconhecer, costuma ser a opção daqueles que enxergar bem as coisas). Entretanto, ao ler tudo o que hoje inundou todas as mídias sobre o passamento do autor português (não sem um certo fastio), não consegui não me recordar de outro merecedor do Prêmio Nobel de Literatura, só que de 1957, Albert Camus.

* * *

Camus (1913-1960), como Saramago, dispensa apresentações. Assim como o português, também teve infância pobre, vivenciou de perto em sua Argélia, conflitos entre “forças imperialistas” e “oprimidos colonizados”, experimentou o sofrimento de uma doença horrível – arrastou a tuberculose e sucessivos pneumotórax até sua morte trágica em um acidente de automóvel – e, por fim, completa 50 anos de falecimento no ano em que morre Saramago. Talvez por isso – odeio tais conjeturas, mas enfim – tenha também partido da experiência fundamental do sofrimento e do mal que são índices de assimetria entre o homem e sua existência. É a esta assimetria entre uma “paixão de viver e um destino de morte”, que se espalha e contamina toda nossa epistemologia, bem como toda ética possível, que Camus chama Absurdo. Mas aqui já começa por se desenhar a lucidez e a honestidade existencial de Camus, que jamais Saramago pôde alcançar.

Para começar, ao contrário do que afirma o português, não há nada de errado com o “mundo”, A natureza – phýsis – segue sendo si mesma inclusive como um paradigma de acordo. Nela não há divórcio possível. Nos diz Camus:

Se eu fosse árvore por entre as árvores, gato por entre os animais, esta vida teria um sentido ou, sobretudo, esse problema [do Absurdo] não se colocaria, pois eu faria parte deste mundo.

Camus é lúcido porque sabe que é no encontro entre homem e mundo que surge o desnível. É o homem, por sua condição de infinitamente desejante que só pode ser em uma existência finita num mundo que o ultrapassa, que compõe o Absurdo. Contudo, o mundo não é somente o locus da história humana, mas é também phýsis:

A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo.

Lucidez que se desdobra na consciência de que toda tentativa de resolver aquele divórcio de modo imanente é desonestidade. Assim, Marx e os revolucionários não acrescentam uma gota de bálsamo na úlcera da existência; ao contrário, fazem uso de um problema metafísico para legitimar uma tentativa de resposta histórica e histérica que desemboca em mais absurdos. É só quem parte da idéia de que é possível corrigir a existência por expedientes políticos, ao invés de exclusivamente por uma ascese, que pode acreditar – sim, é uma crença – na indiferença entre a finitude e o assassinato:

Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes.

Mas para ser honesto, Camus também reflete sobre Caim. A questão “Deus” foi sempre um problema urgente em sua vida (que se lembre sua dissertação de conclusão do curso de filosofia, sobre Plotino e Santo Agostinho). Mas novamente, aquilo que chamamos de lucidez e honestidade existencial é o que diferencia o rebelde do Revoltado. A reflexão camusiana se impõe em toda sua profundidade porque não olha a condição humana a partir do homem ideal plasmado pela revolução, mas para o homem infinitamente apaixonado por sua existência:

 

Com Caim, a primeira revolta coincide com o primeiro crime. A história da revolta, tal como a vivemos atualmente, é muito mais a dos filhos de Caim do que a dos discípulos de Prometeu. […] Sob esta ótica, o Novo Testamento pode ser considerado como uma tentativa de responder antecipadamente a todos os Caim do mundo, ao suavizar a figura de Deus e ao criar um intercessor entre ele e o homem. O Cristo veio resolver dois problemas principais, o mal e a morte, que são precisamente os problemas dos revoltados. […] A noite do Gólgota só tem tanta importância na história dos homens porque nessas trevas a divindade, abandonado ostensivamente os seus privilégios tradicionais, viveu até o fim, incluindo o desespero, a angústia da morte. [… mesmo] A gnose, por suas origens gregas, permanece conciliadora e tende a destruir o legado judaico do cristianismo.

Camus era, em suas próprias palavras, não um ateu, mas um blasfemo. O que pode soar adolescente, é o grito fundamental do homem frente à experiência do Absurdo e do Mal mas que mantém a clareza de visão. Não se trata de negar infantilmente a Deus, como uma “criação humana” (o próprio Feuerbach já se encheria…), mas de experienciar radicalmente o paradoxo, a dúvida e o não-entendimento. Há algum santo que, neste sentido, não seja blasfemo?

* * *

Em 1948, Camus foi chamado a falar no convento dominicano de Latour-Maubourg. Ao contrário do que se poderia esperar, o “ateu” começa por denunciar a desonestidade existencial, aqui sob o nome de “farisaismo laico":

Há, de início, um farisaísmo laico ao qual eu me esforço por não ceder. Eu chamo farisaísmo laico aquele que faz crer que o cristianismo é coisa fácil, e que faz menção de exigir ao cristão, ao nome de um cristianismo visto do exterior, mais do que ele exige de si mesmo. […] eu não partirei jamais do princípio que a verdade do cristianismo é ilusória, mas somente do fato que eu não pude nela adentrar.

À guisa de conclusão, Camus é ponto-a-ponto infinitamente mais honesto ao seu problema inicial do que Saramago. Este último, para além de sua contribuição estilística e literária, não esgarçou um só centímetro do limite da reflexão humana sobre sua condição existencial, Sua metafísica, no sentido que explicitei acima, desdobra-se em ranço (marxista-eclesioclasta-ateu) que denuncia a própria obra. E não consegue combater o Absurdo porque nele, ao contrário do que ocorre na obra de Camus, a criação para na historia e jamais alcança a existência.







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Os novos intelectuais da USP

February 8th, 2010 | 2 Comentários | Postado em Educação, Imprensa

Assim como fiz no ano passado, posto algumas fotos da “recepção” dos calouros da USP. Clique para ampliar.

 

usp2010-7 usp2010-1 usp2010-2 usp2010-3 usp2010-4 usp2010-5 usp2010-6

Para ver as restantes, clique aqui.







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Migalhas eleitorais

October 14th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Opinião

Postei sobre a “pol?mica” suscitada pela estrat?gia da campanha de Marta. Veja l?.


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Teologia e Fundamento

July 14th, 2008 | 8 Comentários | Postado em Geral, Igreja, Opinião

Li hoje, no excelente site da Chiesa, a not?cia sobre a querela entre os irm?os Boff, Leonardo e Clodovis acerca de um recerte artigo deste ?ltimo. Clodovis, em texto publicado no volume de outrubro ?ltimo na Revista Eclesi?stica Brasileira (leia na ?ntegra aqui e volte depois para ler o resto) aponta o que chama de “questionamento de fundo” acerca dos fundamentos da Teologia da Liberta??o. Sua cr?tica se dirige, principalmente, ao que denomina, um tanto imprecisamente, “ambig?idade epistemol?gica”. Alguns coment?rios:

1. O ponto no qual Clodovis toca ? nevr?lgico. Por “ambig?idade epistemol?gica” o te?logo levanta um questionamento sobre uma suposta indecis?o entre o pobre como princ?pio e o Cristo como princ?pio.

2. Entretanto C. Boff foi por demais euf?mico. Se o ponto de vista ? o da pr?xis da TdL nos seus 40 anos de caminhada, Clodovis h? de convir que n?o h? nenhuma flutua??o no que diz respeito aos fundamentos. O vi?s adotado, por exemplo, por Jon Sobrino ? explicitamente o do pobre, n?o como lugar ou categoria teol?gica, mas como prisma atrav?s do qual mesmo o mist?rio salv?fico do Cristo deve ser visto. Ou n?o ? isso o que senten?as como as de Jon Sobrino, em seu Jesucristo liberador, querem dizer: “Los pobres cuestionan dentro de la comunidad la fe cristol?gica y le ofrecen su direcci?n fundamental? (p. 50) ou ainda “El lugar social, es pues, el m?s decisivo para la fe, el m?s decisivo para configurar el modo de pensar cristol?gico y el que exige y facilita la ruptura epistemol?gica? (p. 52).

O que verdadeiramente h? n?o ? uma indecis?o de princ?pio mas, de fato, uma decis?o enganosa. E a “conseq??ncia” ?bvia ? que h? d?cadas vimos colhendo os frutos de tal erro. Neste aspecto o artigo de Clodovis Boff n?o tem nada de genial. Ele inclusive demora a se dar conta daquilo que, desde sempre, constitui o cerne das cr?ticas feitas ? TdL.

3. Trechos como os seguintes mostram os desdobramentos necess?rios do problemas acima apontado:

Que o pobre seja um princ?pio da teologia ou uma perspectiva (?tica ou enfoque), ? poss?vel, leg?timo e mesmo oportuno. Mas apenas como princ?pio segundo, como prioridade relativa. Se assim ?, a teologia que arranca da?, como ? a TdL, s? pode ser um “discurso de segunda ordem”, que sup?e em sua base uma “teologia primeira”.

e ainda

No plano eclesial. A “pastoral da liberta??o” se torna um bra?o a mais do “movimento popular”. A Igreja se “onguiza”.

Novamente, o autor s? faz reverberar aquilo que h? muito j? ? sabido. Entretanto, a s?ntese genial ? feita n?o por C. Boff mas alguns anos antes, por von Balthasar em seu The office of Peter.., que agudamente notou que tal engano de princ?pio faz com que o cristianismo seja reduzido a uma certa pr?xis como se n?o constitu?sse, na realidade, na f? em determinadas coisas.

4. Clodovis Boff v? as coisas, no que diz respeito ao Documento de Aparecida, de uma maneira um tanto ing?nua (para concordar em o menos um ponto da cr?tica de Leonardo). N?o quero aqui tra?ar uma an?lise no que tange o texto dos bispos. Mas cumpre lembrar que o autor mesmo aponta sem ver a equivocidade dos princ?pios no tal documento:

E mesmo quando a V Confer?ncia parte dos pobres, seguindo o m?todo “ver, julgar e agir”, faz isso apenas materialmente (para contentamento dos TdL), pois formalmente parte sempre, antes ainda, de Cristo.

A distin??o entre “formal” e “material” n?o d? conta da ambig?idade presente nos pressupostos do bispos do Congresso de Aparecida. H? ainda n?o pequenos resqu?cios da TdL na CNBB que, de fato, carrega para a reda??o do Documento a mesma op??o errada pelo fundamento segundo.

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Ainda sobre Filosofia e Sociologia

June 7th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Educação, Música, Opinião

Lendo o Avelar, como fa?o diariamente, topei com este seu coment?rio sobre a nova medida e, ainda, com a declara??o de Giannotti. Como o assunto me interessa, tanto que postei a aprova??o no dia, quero fazer mais alguns adendos:

1) De fato, Avelar tem raz?o ao dizer qu?o il?gica ? a posi??o que pressup?e que n?o se deve mudar nada at? que se possa mudar tudo. “Mudar tudo” demanda tempo – leia-se gera??es -, o que privaria sem real motivo os atuais discentes de ao menos tomarem contato com algo que se chama filosofia. Pr?ticas educacionais n?o podem esperar o fim da hist?ria ou a sociedade sem classes, ainda que se configurem como ajustes m?nimos (sendo altamente discut?vel a quest?o sobre qu?o m?nima ? re-inclus?o das disciplinas acima citadas). A acreditar em Arist?teles – e no livro alfa de sua Metaf?sica -, o to thaum?zein, o espanto, ainda ? o primeiro motor da atividade filos?fica e se imp?e frente a toda discuss?o pol?tica (esta sim impregnada, por vezes, da vacuidade que imputam ? filosofia). Assim, simplesmente n?o encontro sentido na pergunta que Giannotti se faz acerca de como ensinar filosofia para quem n?o aprendeu a raciocinar. N?o seria esta uma das nobres tarefas da filosofia? Despertar o amor pelas di?iresis e synagog?s (Fedro, 266B)? Ou a filosofia contempor?nea, isto ?, feita atualmente n?o deve mais ser semelhante a Eros e, portanto, desejante? Deveria ser reduzida a um “fazer discursos bem articulados” que talvez falem do Amor (ou de quaisquer outros temas) sem estar ele mesmo enamorado. O germe inicial da reflex?o ? aquele mesmo da filosofia. Ent?o, como pedir uma multitude de pressupostos?

2) Mas lendo a declara??o do professor Giannotti n?o posso deixar de concordar com algumas coisas. Diz o professor:

A meu ver, h? coisas mais importantes, que s?o prioridades, do que ensinar filosofia. Em particular ensinar portugu?s, como todos sabem, al?m de f?sica, biologia, matem?tica, hist?ria, geografia… Isto ?, se situar no plano da linguagem, da ci?ncia e da temporalidade. Coisa que a maioria dos professores de ensino m?dio n?o ? capaz de fazer. N?s vamos gastar tempo e esfor?o em coisas subsidiadas ao inv?s de focar no fundamental.

Desbastado o elemento apontado no t?pico acima, que n?o admite um pequeno ganho se n?o for acompanhado do resultado total, resta ainda algo a ser focalizado no que diz o professor (e n?o creio que isto seja sinal de um ju?zo sobre a indignidade ou incapacidade dos jovens para a filosofia, como aponta Avelar).

A quest?o ? que n?o temos bons professores de portugu?s, matem?tica ou f?sica. H? sim muitos bons professores de gram?tica, c?lculo e f?rmulas. Com isso quero dizer que n?o se ensina nos col?gios o pensamento sobre a linguagem ou a literatura, a reflex?o sobre os n?meros e suas rela??es nem tampouco a entender a physis. H? poucos dias fiquei surpreso com a rea??o de um colega, professor de matem?tica que ria largamente da investiga??o de Frege tendo em vista responder a pergunta “o que s?o n?meros?”. O colega soltou uma defini??o rid?cula (desmontada por Frege com muito senso de humor, diga-se de passagem, em um par?grafo de seu Fundamentos da Aritm?tica) e ca?oou da inutilidade de tal esfor?o.

Dessa forma, a filosofia ensinada por professores de filosofia med?ocres, estaria reduzida a um mero contar de sua hist?ria ou, ainda, a um procedimento mec?nico de associa??es de no??es jamais verdadeiramente entendidas. O que, visivelmente, nos faria recair na concep??o de filosofia como simulacro de qualquer coisa s?ria.

Diz ainda o professor:

As pessoas v?o come?ar a estudar os pr?-socr?ticos, falando de Tales, depois Parm?nides, Plat?o, Arist?teles e se chegar aos est?icos vai ser muito. Teremos um curso de filosofia que vai se resolver numa “decoreba” danada.

Como j? apontei aqui, mesmo o curr?culo “oficial” ? um piada. Vai de Tales a Wittgenstein em um ano. Isto serve bem ao prop?sito de escamotear a falta de n?vel dos professores, bem como ?quele de fazer da filosofia um ap?ndice de (falsa) erudi??o e n?o um espa?o de interven??o reflexiva em todos os dom?nios das ci?ncias (e portanto nas outras disciplinas) assim como na vida do pr?prio aluno. ? esse ?lan que cega profissionais de educa??o que falam tanto de “interdisciplinariedade” sem ver que ? a filosofia, como scientia rerum per causam ou como verdadeira epist?me ? a base para a concreta rela??o entre as disciplinas e, destas, com a vida.

Voltaremos a isso.

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ENEM

April 4th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Opinião

Ontem foram divulgados os dados do ENEM 2007. ? de chorar: Pior escola particular supera 75% das estaduais

No munic?pio onde moro, a melhor escola estadual teve, em m?dia 20 pontos (!!!) abaixo da m?dia das particulares.

Para quem trabalha com educa??o, como eu, ou tem uma m?nima no??o do que dados como esses querem realmente dizer, chega a ser aviltante tal diferen?a. Juro que gostaria de comentar mais, mas sinceramente ? at? dif?cil de come?ar. E n?o se engane: estes alunos que saem com defici?ncia prim?rias do Ensino M?dio ? que v?o lotar os cursos universit?rios – cada vez mais acess?veis – a fim de se tornarem advogados, psic?logos, m?dicos, engenheiros. Que n?o me venham com a “brilhante” refuta??o que consiste em dizer que estes n?o entrar?o nas melhores universidades, como se isso fosse, per si, um filtro de bons profissionais ou, ainda, que s? os “bem formados” ? que conseguem se imiscuir no mercado de trabalho. Ambas as teses s?o falsas.

Mas o pior deste tipo de argumento ? que ele continua jogando de lado o problema principal que ? o de se arrumar a educa??o no pa?s, apostando numa esp?cie de “sele??o natural”, ou seja, como se, de fato, invariavelmente profissionais formados em “boas universidades” fizessem desaparecer, como que por m?gica, os outros milhares. Em segundo lugar, transfere para a universidade uma tarefa que nem de longe deve ser sua, a saber, corrigir m?-forma??o de base ou ainda, for?ar, atrav?s do processo seletivo, o estudante a desenvolver excel?ncia.

Pat?tico.

Pesquise os dados do ENEM aqui.

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Como me tornei est?pido

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Car?ssimos

April 3rd, 2008 | 2 Comentários | Postado em Geral

Sei que estou devendo posts. Entretanto essas semanas est?o atribuladas. Mas at? o final desta, um coment?rio sobre a coluna do Ferreira Gullar no domingo passado.

At? l?, o que voc? pensa?

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