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Acerbo Nimis – sobre o ensino do catecismo

October 13th, 2009 | Comente | Postado em Educação, Igreja

Abaixo, um dos mais preciosos documentos do Magistério sobre a necessidade e a importância da catequese.

 

 

CARTA ENCÍCLICA ACERBO NIMIS

 

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Sobre o Ensino do Catecismo.

aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos
e Mais Ordinários em Paz e Comunhão com a Santa Sé Apostólica:
Sobre o Ensino do Catecismo.

PAPA PIO X

 

 

Veneráveis Irmãos:

Saúde e Bênção Apostólica.

1.  Pelos inescrutáveis desígnios de Deus fomos elevados de nossa pequenez ao cargo de Supremo Pastor do Rebanho de Cristo, em dias bem críticos e amargos, pois o antigo inimigo anda em redor deste Rebanho e lhe arma laços em tão pérfida astúcia, que hoje, principalmente, parece haver-se cumprido aquela profecia do Apóstolo aos anciãos da Igreja de Éfeso: Sei que vos hão de assaltar lobos vorazes, que não pouparão o Rebanho (At 20,29). Dos males que afligem a Religião não há quem, animado de zelo pela Glória divina, deixe de investigar as causas e razões, acontecendo que, como as encontra cada qual diversas, proponha diferentes meios, de acordo com a sua opinião pessoal, para defender e restaurar o Reino de Deus na Terra. Não proscrevemos, Veneráveis Irmãos, os pareceres alheios, mas estamos com os que pensam que esta depressão e debilidade das almas, de que derivam os maiores males, provêm, principalmente, da ignorância das Coisas Divinas. Esta opinião concorda inteiramente com o que o Deus mesmo declarou pelo Profeta Oséias: Não há conhecimento de Deus na Terra. A maldição e a mentira, e o homicídio e o roubo e o adultério tudo inundaram; o sangue junta-se ao sangue e por causa disto a Terra se cobrirá de luto e todos os seus moradores desfalecerão” (Os 4,1-3).

Necessidade da Instrução

2.  Quão fundadas são, desgraçadamente, estas lamentações, hoje, que existe tão crescido número de pessoas, entre o Povo Cristão, que ignoram totalmente as coisas que é mister conhecer para conseguir a Salvação Eterna! Ao dizer Povo Cristão não nos referimos somente à plebe, ou às classes inferiores às quais servem de escusa o acharem-se com freqüência submetidas a homens tão duros que lhes não deixam tempo nem para cuidar de si mesmas, nem das coisas que se referem à sua alma mas e principalmente falamos daqueles aos quais não falta entendimento nem cultura e até se mostram dotados de profana erudição, apesar de que em coisas de Religião vivem da maneira mais temerária e imprudente que imaginar se possa. Dificílimo seria ponderar a espessura das trevas que os envolvem e o que mais triste é a tranqüilidade com que nelas permanecem! De Deus, Soberano Autor e Moderador de todas as coisas, e da Sabedoria da Fé Cristã não se preocupam, de forma que verdadeiramente nada sabem da Encarnação do Verbo de Deus, nem da Perfeita Restauração do Gênero Humano, por Ele consumada; nada sabem acerca da Graça, principal auxílio para alcançar os Bens Eternos; nada, acerca do Augusto Sacrifício nem dos Sacramentos, mediante os quais conseguimos e conservamos a Graça. Quanto ao pecado, não conhecem sua malícia nem o opróbrio que consigo traz, de sorte que não põem o menor cuidado em evitá-lo ou expiá-lo, e chegam ao Dia Extremo em disposição tal que, para não os deixar sem qualquer Esperança de Salvação, o Sacerdote se vê constrangido a aproveitar os derradeiros instantes de vida para sumariamente lhes ensinar Religião, ao invés de empregá-los principalmente, conforme conviria, em movê-los a afetos de Caridade; isto quando não sucede que o moribundo sofra de tão culpável ignorância que tenha por inútil o auxílio do Sacerdote e resolva tranqüilamente franquear os Umbrais da Eternidade sem haver prestado a Deus conta dos seus pecados. Por isso, o Nosso Predecessor Bento XIV justamente escreveu: Afirmamos que a maior parte dos condenados às penas eternas padece sua perpétua desgraça por ignorar os Mistérios da Fé, que necessariamente se devem conhecer e crer, para ser contado no número dos eleitos (Instit.  XXVII, 18).

3.  Sendo assim, Veneráveis Irmãos, que há de surpreendente, pergunto, em que a corrupção dos costumes e sua depravação sejam tão grandes e cresçam diariamente, não digo nas nações bárbaras, mas até nos próprios Povos que ostentam o nome de Cristãos? Com razão dizia o Apóstolo São Paulo, escrevendo aos Efésios:A fornicação e toda espécie de impureza ou avareza nem sequer se nomeie entre vós, como convém a Santos; nem palavras torpes, nem chocarrices (Ef 5,3-4). Como fundamento deste Pudor e Santidade, com os quais se moderam as paixões, determinou a Ciência das Coisas Divinas: E assim, cuidai, irmãos, em andar com Prudência; não como insensatos, mas como circunspectos Portanto, não sejais imprudentes, mas considerai qual é a Vontade de Deus (Ef 5, 15.17).
Sentença justa; porque a vontade humana apenas conserva algum resto daquele amor à honestidade e à retidão, inspirados ao homem por Deus, seu Criador, amor que o impelia para um bem, não velado por sombras, mas claramente visto. Mas, depravada pela corrupção do pecado original e esquecida de Deus, seu Gerador, a vontade humana inclina-se a amar a vaidade e a procurar a mentira. Extraviada e cega pelas más paixões, necessita de um guia que lhe mostre o caminho para que retome as Veredas da Justiça, que desgraçadamente abandonou. Este guia, que não é preciso buscar fora do homem, e de que a natureza o proveu, é a própria razão; mas se à razão falta aquela luz, irmã sua, que é a Ciência das Coisas Divinas, sucederá que um cego guiará outro cego e ambos cairão no abismo. O Santo Rei Davi, glorificando a Deus por esta Luz da Verdade que havia infundido na razão humana, dizia: A luz do Vosso rosto, Senhor, está impressa em nós”. E indicava o efeito desta comunicação da Luz, acrescentando: Infundistes a alegria em meu coração (Sl 4, 6-7).

Efeitos das Doutrina Cristã

4.  Descobre-se facilmente que assim é, porque, de fato, a Doutrina Cristã nos faz conhecer a Deus e o que chamamos suas Infinitas Perfeições, quiçá mais fundamente que as forças naturais. E de que forma? Mandando-nos ao mesmo tempo reverenciar a Deus por obrigação de ”, que se refere à razão; por dever de Esperança”, que se refere à vontade, e por dever de Caridade”, que se refere ao coração, com o qual torna o homem inteiramente submetido a Deus, seu Criador e Moderador. De igual forma só a Doutrina Cristã estabelece o homem na posse de sua eminente dignidade natural como filho do Pai Celestial, que está nos Céus, e que o fez à Sua imagem e semelhança para viver eternamente feliz com Ele. Mas desta mesma dignidade e do conhecimento que dela se deve ter, deduz Cristo que os homens devem amar-se como irmãos e viver na Terra como convém aos Filhos da Luz, não em glutonerias e embriaguez, não em desonestidades e dissoluções, não em contendas e emulações (Rm 13,13). Manda-nos, outrossim, que nos entreguemos às Mãos de Deus, que é quem cuida de nós; que socorramos os pobres, façamos o bem a nossos inimigos e prefiramos os Bens Eternos da alma aos perecedores bens temporais. E, mesmo sem esmiuçar tudo, não é, porventura, a Doutrina de Cristo que recomenda e prescreve ao homem soberbo aquela humildade que é o verdadeiro manancial de Sua Glória? Todo aquele, pois, que se humilhar, esse será o maior no Reino dos Céus (Mt 18,4). Nesta Celestial Doutrina nos é ensinada igualmente a Prudência de Espírito, que serve para nos proteger da prudência da carne; a Justiça, por meio da qual damos a cada um o que lhe pertence; a Fortaleza, que nos torna capaz de sofrer e padecer tudo generosamente por Deus e pela Bem-aventurança Eterna; enfim, a Temperança, que nos torna amável a Pobreza por Amor de Deus, e que em meio de nossas humilhações faz com que nos gloriemos na Cruz. De maneira que pela Sabedoria Cristã não somente recebe nossa inteligência a Luz que nos permite alcançar a Verdade, mas até a vontade fica empolgada daquele Amor que nos conduz a Deus e a Ele nos une mediante o exercício da Virtude.

5.  Longe estamos de afirmar que a malícia da alma e a corrupção dos costumes não possam co-existir com a consciência da Religião. Prouvera a Deus que os fatos demonstrassem o contrário. Mas compreendemos que quando e espírito está envolto pelas espessas trevas da ignorância, não se pode capacitar nem da retidão da vontade nem dos bons costumes, porque se, caminhando com olhos abertos, pode o homem apartar-se do bom caminho, o que sofre de cegueira está em perigo iminente de desviar-se. Acrescente-se que em quem não está de todo apagado o archote da Fé, resta ainda uma Esperança de que se emende e se cure da corrupção dos costumes; mas quando a ignorância se junta à depravação, já não resta possibilidade de remédio, mas está aberto o caminho da ruína.

O Primeiro Ministério.

6.  Posto que da ignorância da Religião procedem tão graves danos, e, de outro lado, são tão grandes a necessidade e a utilidade da Doutrina Religiosa, desde que, desconhecendo-a,  em vão se esperaria que alguém cumprisse as obrigações de Cristão, convém saber agora a quem compete preservar as almas desta perniciosa ignorância e instruí-las em tão indispensável Ciência. O que, Veneráveis Irmãos, não oferece dificuldade alguma, porque essa transcendente missão recai sobre os Pastores de Almas. Estes, efetivamente, acham-se obrigados por preceito do próprio Cristo a conhecer e apascentar as ovelhas que lhes foram confiadas. Apascentar é, antes do mais, doutrinar. Eu vos darei Pastores segundo o Meu Coração, que vos apascentarão com a Ciência e com a Doutrina (Jr 3,15).
Assim falava Jeremias, inspirado por Deus; pelo que dizia o Apóstolo São Paulo: Cristo não me enviou para Batizar, mas para pregar (1Cor 1,17). Advertindo assim que o principal Ministério de quantos exercem, em certo sentido, o governo da Igreja, consiste em ensinar aos fiéis a Doutrina Sagrada.

7.  Inútil se nos afigura aduzir novas provas da excelência deste Ministério e da estima que merece de Deus. Certo é que Deus exalta grandemente a Piedade que nos move a procurar o alívio das humanas misérias; mas, quem negará que muito acima dela devem ser colocados o zelo e o trabalho mediante os quais o entendimento recebe o ensino e os conselhos referentes, não às necessidades terrenas, mas aos Bens Celestiais? Nada pode ser mais grato a Jesus Cristo, Salvador das almas, que pelo Profeta Isaías disse de Si Mesmo: Fui enviado para Evangelizar os pobres (Lc 4,18).
Importa muito, Veneráveis Irmãos, insistir para que todos os Sacerdotes compreendam bem que ninguém tem maior obrigação e dever mais imperioso. Porque, quem negará que no Sacerdote hão de unir-se a Ciência e a Santidade de Vida? Nos lábios do Sacerdote deve estar o depósito da Ciência (Ml 2,7). E, com efeito, a Igreja o exige rigorosamente de quantos aspiram a ingressar no Sacerdócio. E por que isto? Porque o Povo Cristão espera receber do sacerdote o ensinamento da Divina Lei e porque Deus o destina para propagá-la. De sua boca se há de aprender a Lei, pois que ele é o Anjo do Senhor dos Exércitos (Ml 2,7). Por isso, nas Ordens Sacras, o Bispo diz, dirigindo-se aos que vão ser elevados ao Sacerdócio: Que vossa Doutrina seja remédio espiritual para o Povo de Deus, e os cooperadores de nossa Ordem sejam prudentes, para que, meditando dia e noite acerca da Lei, creiam no que leram e ensinem aquilo em que acreditam (Pontif. Romano).
Se não há Sacerdote algum a quem não correspondam estas obrigações, quais não serão as daqueles que pelo nome e autoridade que ostentam e por sua mesma dignidade têm a seu cargo e como que por compromisso a Cura das Almas? Estes devem ser colocados de algum modo nas fileiras dos Pastores e Doutores que Jesus Cristo deu aos fiéis para que não sejam como meninos flutuantes, e levados, ao sabor de todo vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia dos que induzem ao erro, mas, praticando a Verdade na Caridade, cresçamos em todas as coisas naquele que é a Cabeça, o Cristo (Ef 4, 14-15).

Disposições da Igreja.

8.  Por isso, o Sacrossanto Concílio de Trento, falando dos Pastores de Almas, julgou que a primeira e a maior de suas obrigações era a de ensinar o Povo Cristão (Sess.V, c. 2 de Refor.; XXII, c. 8; sess. XXIV. c. 4 e 7 de Refor.). Dispôs, em conseqüência, que ao menos nos Domingos e Festas Solenes dessem ao Povo Instrução Religiosa, e durante os Santos Tempos de Avento e Quaresma diariamente ou ao menos três vezes por semana. Mas não só isto, porque acrescenta o Concílio que os Párocos estão obrigados, ao menos nos Domingos e Dias de Festa, a ensinar, por si ou por outros, aos meninos as Verdades da Fé e a Obediência que devem a Deus e a seus pais; e lhes manda, outrossim, que, quando tenham de administrar algum Sacramento, instruam em sua virtude os que o vão receber, explicando-o por meio de Pregações em língua vulgar.

9.  Em sua Constituição Etsi Minime”, Nosso Predecessor Bento XIV resumiu estas prescrições e as determinou claramente, dizendo: Duas obrigações impõe principalmente o Concílio de Trento aos Pastores de almas: uma, que todos os Dias de Festa falem ao Povo acerca das Coisas Divinas; outra, que ensinem aos meninos e aos ignorantes os Elementos da Lei Divina e da Fé”. Este Sapientíssimo Pontífice distingue justamente o duplo Ministério, a saber, a Pregação, que habitualmente se chama Explicação do Evangelho, e o Ensino da Doutrina Cristã. Não faltarão, porventura, Sacerdotes que, movidos do desejo de poupar-se trabalho, crêem que com as Homilias satisfazem a obrigação de ensinar o Catecismo. Quem quer que reflita descobrirá a erronia desta opinião; porque a Pregação do Evangelho está destinada aos que já possuem os Elementos da Fé e vem a ser como o pão que se deve dar aos adultos; mas, pelo contrário, o Ensino do Catecismo é aquele alimento de que São Pedro queria que todos o desejassem avidamente com simplicidade, como meninos recém-nascidos. Este Ofício de Catequista consiste em[1] escolher algumas Verdades relativas à Fé e aos Bons Costumes Cristãos e expô-las e explicá-las em todos os seus aspectos. E como o fim do ensino é a Perfeição da Vida, o Catequista há de comparar o que Deus manda obrar e o que os homens realmente fazem, depois do que, e havendo extraído oportunamente algum exemplo da Sagrada Escritura, da História da Igreja ou das Vidas dos Santos, há de aconselhar o seu auditório e como que indicar-lhe a dedo a norma a que se deve ajustar a vida, e terminará exortando os presentes a fugir dos vícios e a praticar a Virtude.

Instrução Popular.

10.  Não ignoramos, em verdade, que o Ofício de Ensinar a Doutrina Cristã não é grato a muitos, que o estimam em pouco e acaso impróprio para conseguir o elogio popular; isto posto, entendemos que semelhante juízo pertence aos que se deixam levar pela leviandade mais do que pela Verdade. Não negamos certamente a aprovação devida aos Oradores Sacros que, movidos do sincero desejo da Glória Divina, se empregam na defesa e reivindicação da Fé ou em fazer o Panegírico dos Santos; mas seu labor requer outra preliminar, a dos Catequistas, pois, faltando esta, não há fundamento e em vão se fadigam os que edificam a casa. Assaz freqüente é que floridos discursos, recebidos com aplauso por nutridas assembléias, somente sirvam para agradar ao ouvido e não comovam as almas. Em troca, o Ensino Catequético, ainda que simples e humilde, merecem que se lhe apliquem estas palavras que Deus inspirou a Isaías: Do mesmo modo que a chuva e a neve descem do Céu e a ele não retornam, mas empapam a terra e a penetram e fecundam, a fim de que produzam semente para semear e pão para comer, assim será a Palavra que sai da minha boca: não tornará a mim vazia, mas obrará tudo aquilo que Eu quero e executará felizmente aquelas coisas para que Eu a enviei (Is 55,10-11). O mesmo juízo se há de formular daqueles Sacerdotes que, para melhor exporem as Verdades da Religião, publicam eruditos volumes, motivo pelo qual são dignos, certamente, de copiosos elogios; mas, sem embargo, quão reduzido é o número dos que consultam as obras deste gênero e destas tiram os frutos que corresponderiam aos desejos do autor! Mas o Ensino da Doutrina Cristã, se feito como se deve fazê-lo, nunca é inútil para os que o escutam.

11.  Convém repeti-lo, para inflamar o zelo dos Ministros do Senhor; já é crescidíssimo, e aumenta cada dia mais, o número dos que tudo ignoram em matéria de Religião, ou têm de Deus e da Fé Cristã conceito tal, que, em plena Luz da Verdade Católica, lhes permite viver como pagãos. Ai! Quão grande é o número, não diremos de meninos, mas de adultos e até de anciãos, encurvados pela idade, que ignoram absolutamente os principais Mistérios da Fé, e, ouvindo falar de cristo, respondem: Quem é Ele para que eu creia nEle?” (Jo 9,36). Daí o terem por lícito forjar e manter ódio contra o próximo, fazer contratos iníquos, explorar negócios infames, fazer empréstimos usurários e constituir-se réus de outras prevaricações semelhantes. Daí que, ignorantes da Lei de Cristo que não somente proíbe toda ação torpe, mas também todo pensamento voluntário e o desejo de cometê-la muitos que, seja lá pelo que for, quase se abstêm dos prazeres vergonhosos, alimentam em suas almas, que carecem de Princípios Religiosos, os pensamentos mais perversos, e tornam o número de suas iniqüidades maior que o dos cabelos de sua cabeça. E deve-se repetir que estes vícios não se encontram somente entre a gente do Campo e o Povo Baixo das Cidades, mas também, e acaso com maior freqüência, entre homens de outra categoria, inclusive entre os que se invaidecem de seu saber e, apoiados em uma vã erudição, pretendem ridicularizar a Religião e blasfemar de tudo quanto não conhecem (Jd 10).

12. Se é coisa vã esperar colheita de terra que não foi semeada, como se pode esperar gerações adornadas de boas obras, se oportunamente não foram instruídas na Doutrina Cristã? Donde justamente inferimos que, se a Fé enlanguesce em nossos dias a ponto de que em muitos sujeitos parece morta, é que se tem cumprido descuidadamente, ou se omitiu de todo, a obrigação de ensinar as Verdades contidas no Catecismo. Inútil será dizer, para encontrar escusa, que a Fé nos foi dada gratuitamente e conferida a cada um no Batismo. Porque, certamente, quando fomos batizados em Jesus Cristo , fomos enriquecidos com a posse da Fé; mas esta divina semente não chega a crescer e lançar grandes ramos (Mc 4,32) se fica abandonada a si mesma e à sua nativa Virtude. Tem o homem, desde que vem a este mundo, a faculdade de entender; mas esta faculdade necessita da excitação da palavra materna para converter-se em ato, como se costuma dizer nas escolas. Isto, precisamente, acontece ao homem Cristão, que, ao renascer pela água e pelo Espírito Santo, traz como que em germe a Fé; necessita, porém, do ensinamento da Igreja para que esta Fé possa nutrir-se, desenvolver-se e dar fruto. Pelo que escrevia o Apóstolo: A Fé provém do ouvir e o ouvir depende da Pregação da Palavra de Cristo (Rm 10,17). E, para mostrar a necessidade do ensino, acrescentou: Como ouvirão falar, se não há quem lhes pregue?” (Rm 10,14).

Normas.

13.  Se, pelo que até aqui foi exposto, já se pode ver qual a importância da Instrução Religiosa do Povo, devemos fazer quanto nos seja possível a fim de que o Ensino da Sagrada Doutrina, que, servindo-nos das palavras do Nosso Predecessor Bento XIV, é a instituição mais útil para a Glória de Deus e a Salvação das Almas (Const. Etsi Minime, 13), se mantenha sempre florescente ou, onde tenha sido descuidada, se restaure. Assim, pois, Veneráveis Irmãos, querendo cumprir esta grave obrigação do Apostolado Supremo e fazer que em toda parte se observem em matéria tão importante as mesmas práticas, em virtude de Nossa Suprema Autoridade, estabelecemos para todas as Dioceses as seguintes disposições, que deverão ser rigorosamente observadas e cumpridas:

14. I.  Todos os Párocos, e em geral quantos Sacerdotes exercem a Cura de Almas, hão de instruir com respeito ao Catecismo, durante uma hora inteira, todos os Domingos e Dias de Festa do ano, sem exceptuar nenhum, a todos os meninos e meninas naquilo que devem crer e praticar para alcançar a Salvação Eterna.

15. II.  Os mesmos hão de preparar as meninas e meninos, em época fixa do ano, e mediante Instrução que há de durar vários dias, a receber dignamente os Sacramentos da Penitência e Confirmação.

16. III.  Além disso, hão de preparar com especial cuidado aos jovenzinhos e jovenzinhas, para que, santamente, se aproximem pela primeira vez da Sagrada Mesa, valendo-se para este fim de oportunas Instruções e Exortações, durante todos os dias da Quaresma, e, se for necessário, durante vários outros depois da Páscoa.

17. IV.  Em todas as Paróquias se erigirá canonicamente a Associação que vulgarmente se denomina Congregação da Doutrina Cristã [Cf. CD, 30], com a qual, principalmente onde aconteça ser escasso o número de Sacerdotes, terão os Párocos auxiliares do Estado Secular para o Ensino do Catecismo, os quais se ocuparão neste Ministério, tanto por zelo da Glória de Deus, como para lucrar as Santas Indulgências que os romanos Pontífices têm enriquecido essa Associação.

18. V.  Nas grandes cidades, principalmente onde haja Faculdades maiores, Liceus e Colégios, fundem-se Escolas de Religião, para instruir nas Verdades da Fé e nas práticas da Vida Cristã a Juventude que freqüenta as Escolas Públicas em que se não menciona as Coisas de Religião.

19. VI.  Porque nestes tempos de desordem a Idade Madura não está menos que a Infância necessitada de Instrução Religiosa, os Párocos e quantos Sacerdotes tenham Cura de Almas, além da costumada Homilia sobre o Santo Evangelho, que hão de fazer todos os Dias de Festa, na Missa Paroquial, escolham a hora mais oportuna para o comparecimento dos fiéis exceptuando a destinada à Doutrina dos meninos e façam Instruções Catequísticas aos adultos, em forma simples e acomodadas às suas inteligências, devendo para isso acomodar-se ao Catecismo do Concílio de Trento; de tal modo que no espaço de quatro ou cinco anos expliquem quanto se refere ao Símbolo, aos Sacramentos, ao Decálogo, à Oração e aos Mandamentos da Igreja.

20. VII. Todas as coisas, Veneráveis Irmãos, mandamos e estabelecemos em virtude de Nossa Autoridade Apostólica. Agora, obrigação vossa é procurar, cada qual em sua própria Diocese, que estas prescrições se cumpram inteiramente e sem tardança. Velai, pois, e, com a autoridade que vos é peculiar, procurai que nossos mandamentos não caiam em olvido ou o que seria igual se cumpram com negligência e frouxidão. Para evitar esta falta, haveis de empregar as recomendações mais assíduas e imperativas aos Párocos, a fim de que não expliquem o Catecismo sem preparação, mas preparando-se antes com esmero, de modo que não falem a linguagem da sabedoria humana, senão que com simplicidade de coração e sinceridade diante de Deus (2Cor 1,12) sigam o exemplo de Cristo, que, embora expusesse coisas que estavam ocultas desde a criação do mundo (Mt 12,34), sem embargo as dizia todas ao povo por meio de Parábolas ou exemplos, e sem Parábolas não lhes pregava (Mt 12,34). Sabemos também que o mesmo fizeram os Apóstolos, ensinados por Jesus Cristo, e deles dizia São Gregório Magno: Puseram todo cuidado em pregar aos povos ignorantes coisas simples e acessíveis, e não coisas altas e árduas (Moral. lib. 17, c. 26). E, em Coisas de Religião, uma grande parte de homens de nosso tempo deve ser considerada ignorante.


O Trabalho do Ensino.

21. Não quiséramos que alguém, em razão desta mesma simplicidade que convém observar, imaginasse que o Ensino Catequístico não requeira trabalho nem meditação; pelo contrário, são de maior necessidade que em qualquer outra. É mais fácil achar um Orador que fale com abundância e brilho, que um Catequista cujas explicações mereçam elogios em tudo. Todos , portanto, hão de ter em conta que, por grande que seja a facilidade de conceitos e de expressão de que sejam naturalmente dotados, nenhum falará da Doutrina Cristã com proveito espiritual dos adultos e dos meninos, se antes não se preparou com estudos e séria meditação. Enganam-se os que, fiando-se na inexperiência e aviltamento intelectual do Povo, julgam-se poderem proceder negligentemente nesta matéria. O contrário é que é a verdade; quanto mais seja a incultura do auditório, maior zelo e cuidado se requerem para lograr que as Verdades mais sublimes, tão elevadas sobre o entendimento da generalidade dos homens, penetrem na inteligência dos ignorantes, os quais, não menos que os sábios, necessitam conhecê-las para alcançar a Eterna Bem-Aventurança.

22.  Seja-nos permitido, Veneráveis Irmãos, dizer-vos ao terminar esta Carta, o que disse Moisés: Aquele que seja do Senhor, reúna-se comigo (Ex 32,26). Rogamo-vos e suplicamos que observeis quão grandes são os estragos que produz nas almas a só ignorância das Coisas Divinas. Talvez muitas outras obras úteis e dignas de elogio se encontrem estabelecidas por vós nas vossas Dioceses, para bem de vossos respectivos rebanhos; mas, com preferência a todas elas, e com todo o empenho, todo o zelo e toda a constância que vos sejam possíveis, haveis de cuidar esmeradamente de que o conhecimento da Doutrina Cristã chegue a penetrar na mente e no coração de todos. Comunique cada qual ao próximo repetimos com o Apóstolo São Pedro a graça segundo a recebeu, como bons dispensadores dos dons de Deus, os quais são multiformes (1Pe 4,10).

Que, mediante a intercessão da Imaculada e Bem-Aventurada Virgem, vosso zelo e piedosa indústria se excitem com a Bênção Apostólica, que amorosamente vos concedemos, a vós, a vosso Clero e ao Povo que vos está confiado, e seja testemunha de Nosso afeto e primícias dos Divinos Dons.

         

  Dado em Roma,

            junto de São Pedro,

            no dia 15 de Abril do ano de 1905,

            segundo de Nosso Pontificado.

      PIO, PAPA X







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Artigo Pastoreando 1

April 23rd, 2009 | 2 Comentários | Postado em Igreja, Opinião

Há dois meses fui convidado por um grande amigo sacerdote a escrever pequenas contribuições ao jornalzinho de sua paróquia, o que tenho feito com prazer. Embora não sejam grandes em tamanho e em envergadura teórica, vou postá-los aqui. Talvez sejam de alguma valia. Segue, então, o primeiro dos três que já escrevi.

* * *

É com imensa alegria que escrevo estas linhas que inauguram esta coluna. Desejo fazer deste espaço uma oportunidade de reflexão e crescimento, tanto para vocês, que me leem, quanto para mim que escrevo. Muitos assuntos e temas serão tratados aqui. Também, com o tempo, vamos nos conhecendo melhor. Contudo, desejo sempre ter em vista o seguimento daquilo que nossa Igreja nos aponta. Assim, pretendo comentar desde notícias e temas ligados à nossa fé, até responder questões sobre a Santa Doutrina, quando me for possível.

É neste sentido que desejo começar com alguns poucos comentários acerca de uma citação das Escrituras que, penso eu, deve estar sempre no horizonte de nossas reflexões e orações, como baliza para nossa vivência pessoal e comunitária.

Ela está no versículo 15, do terceiro capítulo da primeira carta de São Pedro (1Pd. 3,15). Nesta carta, São Pedro se dirige aos cristãos "eleitos que são estrangeiros e estão espalhados" em vários lugares (v. 1). Entre várias admoestações, está no versículo 15 aquela que primeiro nos interessa: "Portanto, não temais as suas ameaças e não vos turbeis. Antes santificai em vossos corações Cristo, o Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito."

Neste versículo, São Pedro nos convida a estarmos sempre prontos, ainda que com mansidão, a defender a nossa fé e a dar a razão de nossa esperança. As palavras usadas no texto grego original não deixam dúvidas: "apología", defesa, discurso com a finalidade de justificar e "lógos", razão, discurso encadeado e racionalmente compreensível. Desse modo, São Pedro nos convida a conhecer de maneira mais profunda e professar conscientemente aquilo que Cristo e sua Igreja nos ensinam.

Entretanto devemos ressaltar mais um aspecto interessante desta passagem. São Pedro coloca este chamado à defesa e à explicação da nossa fé para aqueles que nos pedem, em profunda conexão com a santificação de Cristo em nossos corações, bem como com a nossa segurança e capacidade de ultrapassar os temores e vacilos em nossa vida de fé. A superação de nossos receios e temores só pode se dar se santificamos realmente Cristo em nossos corações, o que, por sua vez, depende de um conhecimento profundo de nossa fé, que se desdobra também na nossa firme capacidade de a professarmos e de a justificarmos publicamente, junto aos nossos irmãos que não a conhecem ou que a atacam, sempre com "suavidade e respeito".

E como crescer na fé senão pela oração em conjunto com a escuta atenciosa da Palavra de Deus que emana das Escrituras e do Magistério da Igreja? Quantas vezes não somos tentados ou mesmo atacados por doutrinas e idéias vãs ou vemos algumas pessoas serem levadas por elas? Quanto conhecemos da nossa própria fé, do Credo que em toda missa professamos? E da história de nossa Igreja? Santificamos o Senhor em nossos corações pela firmeza do conhecimento de nossa fé? Que importância damos à catequese?

Na próxima edição, comentarei o chamado que São Paulo nos faz à fé adulta.

Um abraço.







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Bento XVI sobre a Justifica??o

November 20th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Igreja, Links
Na audi?ncia desta ?ltima quarta-feira, dia 19 de novembro, o papa Bento XVI se dedicou a explicitar a quest?o da Justifica??o. Abaixo, o texto na ?ntegra.

* * *

Queridos irm?os e irm?s:

No caminho que estamos percorrendo sob a guia de S?o Paulo, queremos agora deter-nos em um tema que est? no centro das controversas do s?culo da Reforma: a quest?o da justifica??o. Como um homem chega a ser justo aos olhos de Deus? Quando Paulo encontrou o ressuscitado no caminho de Damasco, era um homem realizado: irrepreens?vel quanto ? justi?a derivada da Lei (cf.?Fil 3, 6), superava muitos de seus conterr?neos na observ?ncia das prescri??es mosaicas e era zeloso em conservar as tradi??es de seus pais (cf.?G?l 1, 14). A ilumina??o de Damasco mudou radicalmente sua exist?ncia: come?ou a considerar todos os seus m?ritos, conquistas de uma carreira religiosa integr?ssima, como??lixo? frente ? sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo (cf. Flp 3, 8). A?Carta aos Filipenses nos oferece um testemunho comovente da passagem de Paulo de uma justi?a fundada na Lei e conseguida com a observ?ncia das obras prescritas a uma justi?a baseada na f? em Cristo: havia compreendido que o que at? agora lhe havia parecido um lucro, na verdade frente a Deus era uma perda, e havia decidido por isso apostar toda sua exist?ncia em Jesus Cristo (cf.?Flp 3, 7). O tesouro escondido no campo e a p?rola preciosa, em cuja posse investe todo o demais, j? n?o eram as obras da Lei, mas Jesus Cristo, seu Senhor.

A rela??o entre Paulo e o Ressuscitado chegou a ser t?o profunda que o impulsionou a afirmar que Cristo n?o era somente sua vida, mas seu viver, at? tal ponto que, para poder alcan??-lo, inclusive a morte era um lucro (cf.?Flp 1, 21). N?o ? que ele desprezasse a vida, mas que havia compreendido que para ele o viver j? n?o tinha outro objetivo e, portanto, j? n?o tinha outro desejo que alcan?ar Cristo, como em uma competi??o atl?tica, para estar sempre com Ele: o Ressuscitado se havia convertido no princ?pio e no fim da sua exist?ncia, no motivo e na meta da sua corrida. S? a preocupa??o pelo crescimento na f? daqueles aos que havia evangelizado e a solicitude por todas as Igrejas que havia fundado (cf.?2 Cor 11, 28) o induziam a desacelerar a corrida rumo ao seu ?nico Senhor, para esperar os disc?pulos, para que pudessem correr com ele. Se na anterior observ?ncia da Lei n?o tinha nada que reprovar-se desde o ponto de vista da integridade moral, uma vez alcan?ado por Cristo, preferia n?o julgar a si mesmo (cf.?1 Cor 4, 3-4), mas se limitava a correr para conquistar Aquele por quem havia sido conquistado (cf.?Flp 3, 12).

Por causa desta experi?ncia pessoal da rela??o com Jesus, Paulo coloca no centro de seu Evangelho uma irreduz?vel oposi??o entre dois percursos alternativos para a justi?a: um constru?do sobre as obras da Lei, o outro fundado sobre a gra?a da f? em Cristo. A alternativa entre a justi?a pelas obras da Lei e a justi?a pela f? em Cristo se converte assim em um dos temas dominantes de suas cartas: ?N?s, judeus de nascen?a, e n?o pecadores dentre os pag?os,?sabemos, contudo, que ningu?m se justifica pela pr?tica da lei, mas somente pela f? em Jesus Cristo. Tamb?m n?s cremos em Jesus Cristo, e tiramos assim a nossa justifica??o da f? em Cristo, e n?o pela pr?tica da lei. Pois, pela pr?tica da lei, nenhum homem ser? justificado? (G?l 2, 15-16). E ele reafirma aos crist?os de Roma que ?com efeito, todos pecaram e todos est?o privados da gl?ria de Deus),?e s?o justificados gratuitamente por sua gra?a; tal ? a obra da reden??o, realizada em Jesus Cristo? (Rm 3, 23-24). E acrescenta: ?Pensemos que o homem ? justificado pela f?, independentemente das obras da Lei? (ibid 28). Lutero traduziu esta passagem como ?justificados s? pela f??. Voltarei sobre isto ao final da catequese. Antes devemos esclarecer o que ? esta ?Lei? da qual fomos liberados e o que s?o essas ?obras da Lei? que n?o justificam. A opini?o ? que se repetir? na hist?ria ? segundo a qual se tratava da lei moral, e que a liberdade crist? consistia, portanto, na liberta??o da ?tica, j? existia na comunidade de Corinto. Assim, em Corinto circulava a palavra ?panta mou estin? (tudo me ? l?cito). ? ?bvio que esta interpreta??o ? err?nea: a liberdade crist? n?o ? libertinagem, a liberta??o da qual S?o Paulo fala n?o ? libertar-se de fazer o bem.

Mas o que significa, portanto, a Lei da qual fomos libertos e o que n?o salva? Para S?o Paulo, como para todos os seus contempor?neos, a palavra Lei significava a Tor? em sua totalidade, ou seja, os cinco livros de Mois?s. A Tor? implicava, na interpreta??o farisaica, que Paulo havia estudado e feito sua, um conjunto de comportamentos que iam desde o n?cleo ?tico at? as observ?ncias rituais e culturais que determinavam substancialmente a identidade do homem justo. Particularmente a circuncis?o, a observ?ncia do alimento puro e geralmente a pureza ritual, as regras sobre a observ?ncia do s?bado, etc., comportamentos que aparecem com freq??ncia nos debates entre Jesus e seus contempor?neos. Todas estas observ?ncias que expressam uma identidade social, cultural e religiosa, haviam chegado a ser singularmente importantes no tempo da cultura helen?stica, come?ando desde o s?culo III a.C. Esta cultura, que se havia convertido na cultura universal de ent?o, era uma cultura aparentemente racional, um cultura polite?sta aparentemente tolerante, que exercia uma forte press?o de uniformidade cultural e amea?ava assim a identidade de Israel, que estava politicamente obrigado a entrar nesta identidade comum da cultura helen?stica com a conseguinte perda de sua pr?pria identidade, perdendo assim tamb?m a preciosa heran?a da f? de seus pais, a f? no ?nico Deus e nas promessas de Deus.

Contra esta press?o cultural, que amea?ava n?o s? a identidade israelense, mas tamb?m ? f? no ?nico Deus e em suas promessas, era necess?rio criar um muro de diferencia??o, um escudo de defesa que protegesse a preciosa heran?a da f?; este muro consistia precisamente nas observ?ncias e prescri??es judaicas. Paulo, que havia aprendido estas observ?ncias precisamente em sua fun??o defensiva do dom de Deus, da heran?a da f? em um ?nico Deus, via esta identidade amea?ada pela liberdade dos crist?os: por isso os perseguia. No momento de seu encontro com o Ressuscitado, ele entendeu que com a ressurrei??o de Cristo a situa??o havia mudado radicalmente. Com Cristo, o Deus de Israel, o ?nico Deus verdadeiro se convertia no Deus de todos os povos. O muro ? assim diz a?Carta aos Ef?sios ? entre Israel e os pag?os j? n?o era necess?rio: ? Cristo quem nos protege contra o polite?smo e todos os seus desvios; ? Cristo quem nos une com e no ?nico Deus; ? Cristo quem garante nossa verdadeira identidade na diversidade das culturas, ? Ele o que nos torna justos. Ser justo quer dizer simplesmente estar com Cristo e em Cristo. E isso basta. J? n?o s?o necess?rias outras observ?ncias. Por isso a express?o??solo fide? de Lutero ? certa se n?o se op?e ? f?, ? caridade, ao amor. A f? ? olhar para Cristo, confiar-se a Cristo, unir-se a Cristo, conformar-se com Cristo, com a sua vida. E a forma, a vida de Cristo, ? o amor; portanto, crer ? conformar-se com Cristo e entrar em seu amor. Por isso S?o Paulo, na?Carta aos G?latas, na qual sobretudo desenvolveu sua doutrina sobre a justifica??o, fala da f? que age por meio da caridade (cf.?G?l 5, 14).

Paulo sabe que no duplo amor a Deus e ao pr?ximo est? presente e cumprida toda a Lei. Assim, na comunh?o com Cristo, na f? que cria a caridade, toda a Lei se realiza. Somos justos quando entramos em comunh?o com Cristo, que ? amor. Veremos o mesmo no Evangelho do pr?ximo domingo, solenidade de Cristo Rei. ? o Evangelho do juiz cujo ?nico crit?rio ? o amor. O que pede ? s? isso: tu me visitaste quando estava enfermo? Quando estava na pris?o? Tu me deste de comer quando tinha fome, ou me vestiste quando estava nu? E, assim, a justi?a se decide na caridade. Portanto, ao t?rmino deste Evangelho, podemos dizer: s? amor, s? caridade. Mas n?o h? contradi??o entre este Evangelho e S?o Paulo. ? a mesma vis?o, segundo a qual a comunh?o com Cristo, a f? em Cristo cria a caridade. E a caridade ? a realiza??o da comunh?o com Cristo. Assim, se estamos unidos a Ele somos justos, e n?o h? outra forma.

No final, podemos s? rezar ao Senhor para que nos ajude a crer. Crer realmente; crer se converte, assim, em vida, unidade com Cristo, transforma??o de nossa vida. E transformados pelo seu amor, pelo amor a Deus e ao pr?ximo, podemos ser realmente justos aos olhos de Deus.

[Tradu??o: ?lison Santos. Revis?o: Aline Banchieri

? Copyright 2008 - Libreria Editrice Vaticana]

* * *

Leia tamb?m a Declara??o conjunta sobre a doutrina da Justifica??o, assinada pela Igreja e pelos luteranos.

Veja tamb?m
Quest?es sobre a catolicidade
Teologia e Fundamento
“Teologia” moderna

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Deus n?o ? cat?lico???

November 12th, 2008 | Comente | Postado em Igreja, Opinião

Leiam a mat?ria do Chiesa.com sobre o ?ltimo livro do Cardeal Carlo Maria Martini. Na mesma p?gina h? o precioso artigo do professor da Universidade de Floren?a, Pietro De Marco.

Ainda n?o li o livro do Cardeal Martini, que foi lan?ado em outubro passado. Vou procurar saber algumas coisas mais para comentar com mais propriedade. Por enquanto leiam l?.

Leia tamb?m
De costas para o futuro …em dire??o ao Eterno
A Ci?ncia torna a cren?a em Deus obsoleta?
O ?nibus ate?sta ou O comboio dos que aproveitam a vida

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Preocupa??o sobre as homilias

October 7th, 2008 | Comente | Postado em Igreja, Imprensa, Links

Pra voc?s verem que n?o sou s? eu quem vejo o problema:

Homilias preocupam S?nodo


Um dos temas mais mencionados at? agora

CIDADE DO VATICANO, ter?a-feira, 7 de outubro de 2008.

A qualidade das homilias na missa ? em certas ocasi?es t?o preocupante que provoca o abandono de fi?is da Igreja, constatou-se no S?nodo dos Bispos.

O relator geral, cardeal Marc Ouellet, come?ava o debate nesta segunda-feira constatando que ?apesar da renova??o de que a homilia foi objeto no Conc?lio, sentimos ainda a insatisfa??o de numerosos fi?is com rela??o ao minist?rio da prega??o?.

?Esta insatisfa??o explica em parte a partida de muitos cat?licos para outros grupos religiosos?, denunciou.

Dom Mark Benedict Coleridge, arcebispo de Camberra-Goulburn (Austr?lia), prop?s em sua interven??o que se preparasse um Diret?rio Geral Homil?tico, como existe um Diret?rio Geral de Catequese.

Leia na ?ntegra aqui.

Leia tamb?m
Teologia e Fundamento
Sobre Dawkins e del?rios
“Teologia” moderna
Ahn, os jornalistas…

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Apenas para relembrar as diferen?as

March 27th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Igreja, Opinião

Embora a possibilidade de eu esquecer seja absurdamente remota, sempre ? bom demarcar as diferen?as entre isto:

 

 

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=enWiFcsBqIE]

E isto.

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De costas para o futuro …em direção ao Eterno

May 14th, 2007 | 10 Comentários | Postado em Igreja, Imprensa, Opinião

Um dos maiores teólogos do século XX, Hans Urs von Balthasar, no prefácio da obra The Drama of Atheism Humanism, do não menos brilhante Henri de Lubac, escreve que no registro da modernidade, toda sentença que contenha a palavra “Deus” é automaticamente desprovida de valor, ou seja, que tal palavra esvazia qualquer pretensão de sentido para espíritos modernos. Hoje, poderíamos dizer que não só a palavra “Deus”, mas as palavras “Igreja Católica” estão fadadas ao mesmo destino. Parece impossível a priori que um discurso que se pretenda carregado de sentido, fale da Igreja como algo sério e que possa legitimamente representar uma forma válida (ainda hoje) de leitura do mundo.

É a partir desse pano de fundo, uma eclesioclastia reinante, que a esmagadora maioria de comentários da imprensa (grande e pequena) sobre a vinda do Papa ao Brasil se forma. Num primeiro momento, só interessam as informações pífias sobre o seu cardápio ou sobre os protocolos do Vaticano, como elementos excêntricos que despertam curiosidade e repulsa. Posteriormente, com um desejo de interpretação “profunda” dos fatos, a mídia se volta para estatísticas (números de católicos no país, quantos dos que se dizem católicos acolhem as falas do Papa etc.), historietas (da infância “nazista” do pontífice, de seu papel como Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé que seria um eufemismo para o Tribunal da Santa Inquisição ou então basta ver capas e capas de revistas desvelando toda a história secreta do Vaticano e da Igreja Católica que é tão secreta e obscura que qualquer trabalhinho de imprensa semanal coloca à luz). E assim se constrói o imaginário e se “enforma” a população para a recepção do Santo Padre (para não falar de alguns teólogos que, carregados de ranços, por ora vociferam contra e por ora o adulam…).

Para além daquilo que é obviamente problemático ao se adotar simplesmente esse tipo de discurso para se falar de qualquer assunto, há uma terceira esfera de “análise” do evento Bento XVI que pulula em alguns meios de comunicação que se pretendem mais sofisticados: a que versa sobre a validade das idéias de Ratzinger e da Igreja (sem terem lido uma linha sequer do que ele escreveu). Assumo como exemplo a matéria principal da revista Carta Capital da última semana cuja capa exibe, sobre um fundo negro e vazio, a foto de Bento XVI de costas e aparentemente cabisbaixo com o grande título “De costas para o futuro”. Escolho tal matéria porque ela sintetiza todos os pontos acima apontados (contêm estatísticas, historietas e discurso sobre a validade das idéias da Igreja). O ponto alto da matéria está, a meu ver, já em sua primeira página:

Em termos práticos, levando-se em conta os objetivos do Vaticano, o que a realidade mostrará a Bento XVI é que são questionáveis os resultados da moderna ‘contra-reforma’ que ele mesmo gerenciou ao longo de quase três décadas.

O que a Igreja gostaria que a “realidade” entendesse, é que “futuro” por si só, não tem significado algum, e que este futuro que hoje nos é anunciado a partir de um presente egocêntrico, tende a ser fantasmagórico. Se como diz o então cardeal Ratzinger no documento Dominus Iesus, a Igreja nasce do mandato de Jesus Cristo de batizar todas as nações em nome da Trindade e “ensinar-lhes a cumprir tudo quanto vos mandei” (Mt 28, 20), a “realidade” à qual a Igreja deve voltar-se é aquela divina, não importando a que ela dê as costas. Independentemente de se concordar com ela ou não, o que está em jogo aqui é uma coerência interna – bem há muito esquecido em nossos tempos esquizofrênicos e contraditórios – cujos pressupostos a própria Igreja não se enxerga no direito de tocar, posto que ela é apenas depositum fidei, depósito da fé e não sua proprietária.

Afastar-se da mera temporalidade é para a Igreja, gesto de Amor pela humanidade que se manifesta na tentativa de voltar a ela com o intuito de conformá-la ao Eterno – ou qual seria o sentido de “venha a nós o Vosso Reino”? – ao invés de simplesmente concordar com ela de forma displicente. É querer elevar, de fato, o homem à sua maturidade perante Deus, superando a condição da qual fala São Paulo, que tão bem diagnostica nossa contemporaneidade: “para que não sejamos mais crianças, joguetes da ondas, agitados por todo vento de doutrina, presos pela artimanha dos homens e da sua astúcia que nos induz ao erro.” (Ef. 4, 14).

Ora, não foi essa mesma a citação-chave feita por Ratzinger na missa de início do conclave?

 

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Abaixo, alguns links relevantes:

Biografia de Bento XVI no site do Vaticano (em português)
Biografia de Bento XVI na Wikipedia (em português)
Lista Bibliográfica exaustiva e Reviews de livros de Bento XVI (em inglês)
Página da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé
Site Oficial da Visita do Papa ao Brasil







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