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Leibniz – Sobre a origem fundamental das coisas

September 2nd, 2010 | Comente | Postado em Filosofia

Esta entrevista publicada hoje, trouxe-me à memória o texto de Leibniz que reproduzo abaixo e que, de fato, dispensa apresentações.

*   *   *

De rerum originatione radicali
Gottfried Wilhelm Leibniz
( 23.nov.1697)

 

leibniz Além do mundo, isto é, além do agregado das coisas finitas, existe alguma Unidade dominante que o rege e que está para aquele mundo não só como a alma para mim mesmo, ou melhor, como eu para o meu corpo, mas também em um sentido mais elevado. Pois a Unidade que domina o universo não apenas rege o mundo, mas também o constrói ou faz; ela é superior ao mundo e, por assim dizer, extramundana. Por conseguinte, ela é a razão fundamental das coisas. Com efeito, não podemos achar em qualquer das coisas singulares, ou mesmo em agregados completos e nas séries de coisas, uma razão suficiente pela qual existam. Suponhamos que um livro sobre os elementos de geometria tenha perpetuamente existido, uma cópia sendo feita de uma outra. É óbvio que, embora possamos explicar uma presente cópia como sendo uma reprodução de um livro anterior, do qual foi copiado, isso nunca nos levará a uma razão completa (para a existência de tal livro), não importando quantos livros consideremos, visto que sempre teremos curiosidade de saber o porquê da existência perpétua de tais livros, o porquê de tais livros terem sido escritos e por que o foram desta forma e não de outra. O que é verdadeiro para esses livros também o é para os diferentes estados do mundo, pois o estado que segue é, de certo modo, copiado do estado precedente, embora em conformidade com certas leis de mudança. E assim, por mais que possamos retroceder aos estados anteriores, jamais encontraremos nesses estados uma razão (ratio) completa para o porquê de existir qualquer mundo e por que ele é do modo que é.

Eu certamente admito que tu possas imaginar que o mundo é eterno. Todavia, desde que assumas nada além de uma sucessão de estados e desde que nenhuma razão suficiente para o mundo pode ser encontrada em qualquer um deles (de fato, assumindo tantos quantos queiras não encontrarás de modo algum a razão), é evidente que esta deve ser encontrada em outra parte. Pois nas coisas eternas, mesmo se não há causa, devemos mesmo assim conceber uma razão que nas coisas imutáveis é a própria necessidade ou essência em si, enquanto que nas coisas mutáveis (se, a priori, nós imaginássemos que são eternas), a razão seria a força superior de certas inclinações, como veremos em breve, onde as razões não se tornam necessárias (no sentido de uma necessidade absoluta ou metafísica, onde o contrário implica uma contradição), mas inclinam. Disto se conclui que mesmo se assumirmos a eternidade do mundo, nós não podemos evitar a necessidade de admitir a razão fundamental e extramundana das coisas, que é Deus.

Portanto, as razões para o mundo encontram-se ocultas em algo extramundano, distinto da sucessão de estados ou da série de coisas cujo agregado constitui o mundo. E assim, nós devemos passar da necessidade física ou hipotética, que determina as coisas posteriores do mundo pelas anteriores, para alguma coisa que seja de necessidade absoluta ou metafísica, algo para o qual a razão não pode ser dada. Pois o mundo presente é física ou hipoteticamente necessário, mas não absoluta ou metafisicamente. Isto é, dado que ele foi uma vez tal e qual, segue-se que as coisas no futuro manifestar-se-ão do mesmo modo. Portanto, desde que a raiz fundamental deve estar em algo que é de necessidade metafísica e desde que a razão para algo existente deve vir de algo que realmente existe, segue-se que deve existir um Ser único de necessidade metafísica, isto é, deve existir um ser cuja essência é a existência, e, portanto, deve existir algo diverso da pluralidade das coisas, que difere do mundo, que admitimos e demonstramos não ser de necessidade metafísica.

Além disso, para explicarmos um pouco mais distintamente como verdades temporais, contingentes ou físicas originam-se das verdades eternas, essenciais ou metafísicas devemos primeiro admitir que desde que algo existe, em vez de nada, há uma certa exigência de existência ou, por assim dizer, uma pretensão à existência nas coisas possíveis ou na possibilidade ou essência nela mesma; em uma palavra, que a essência tende por si mesma à existência. Donde segue-se daí que todos os possíveis, isto é, todas as coisas que expressam essência ou realidade possível, tendem com igual direito a existência em proporção à quantidade de essência ou realidade ou grau de perfeição que elas contêm, pois a perfeição nada mais é do que a quantidade de essência.

Disto se compreende que das infinitas combinações de possibilidades e séries possíveis, aquela que existe é aquela através da qual o máximo de essência ou possibilidade é levado a existir. Sempre vigora nas coisas um princípio de orientação de acordo com que se deve buscar o máximo ou o mínimo; isto é, que se produza o máximo efeito com o mínimo de gasto, por assim dizer. E no caso atual, o tempo e o lugar ou, em uma palavra, a receptividade ou capacidade do mundo pode ser considerada como o custo ou como o terreno sobre o qual se construa o mais agradável dos edifícios e a variedade das formas do mundo correspondam à comodidade do edifício e ao número e refinamento dos quartos. E a situação é semelhante àquela de determinados jogos nos quais todas as posições sobre o tabuleiro devem ser preenchidas conforme certas regras e onde, no final, obstruídos certos espaços, tu serás forçado a deixar mais posições vazias do que poderias ou desejarias, a menos que utilizes de algum ardil. Há, contudo, um certo procedimento através do qual se pode mais facilmente preencher o tabuleiro. Assim da mesma maneira que, por exemplo, se supusermos que nos peçam para construir um triângulo, sem que nos seja dada qualquer orientação, haveremos de produzir um triângulo eqüilátero; ou se supusermos que vamos de um ponto a outro sem qualquer orientação prévia quanto à trajetória, acabaremos por escolher aquela mais fácil, isto é, a mais curta; da mesma forma, dizíamos, assumindo que em algum tempo o ser prevaleça sobre o não-ser; ou que haja uma razão pela qual alguma coisa exista em vez do nada; ou que se deva passar da possibilidade para o ato, embora sem nenhuma outra determinação, segue-se que existiria tanta possibilidade quanto poderia existir, dada a capacidade do tempo ou do espaço (isto é, da ordem possível das existências); em resumo, assemelha-se a azulejos assentados a fim de, em determinada área, conter o maior número possível deles.

Disto já podemos compreender maravilhosamente como uma espécie de Matemática Divina ou Mecanismo Metafísico é utilizada na criação das coisas e como a determinação de um máximo encontra lugar. O caso é semelhante àquele da geometria, onde o ângulo reto é eminentemente distinto de todos os demais ângulos; ou como o caso de um líquido colocado com outro de tipo diferente que toma, então, uma forma mais propícia a conter o máximo, ou seja, a da esfera; ou sobretudo, como o caso da mecânica comum onde da luta recíproca de muitos corpos pesados finalmente surge um movimento através do qual resulta, no total, a maior descida. Pois, exatamente como todos os possíveis tendem com igual direito para a existência em proporção às suas realidades, igualmente todos os corpos pesados tendem com igual direito a descer em proporção aos seus pesos; e tal como neste caso resulta um movimento que contém a maior descida de corpos pesados quanto possível, naquele outro dá origem a um mundo no qual o maior número de possíveis é produzido.

De fato, agora temos a necessidade física derivada da necessidade metafísica. Pois mesmo que o mundo não seja metafisicamente necessário, no sentido de que seu contrário implique contradição ou absurdidade lógica, ele é, todavia, fisicamente necessário ou determinado, no sentido de que seu contrário implica imperfeição ou absurdidade moral. E exatamente como a possibilidade é o princípio (principium) da essência, da mesma maneira a perfeição ou grau de essência (através do qual o maior número de coisas são compossíveis) é o princípio da existência. Daí está óbvio que o Autor do mundo é livre, ainda que tudo faça de modo determinado, já que Ele atua conforme um princípio de sabedoria ou perfeição. Na verdade, a indiferença provém da ignorância e o mais sábio é aquele que mais está determinado a fazer aquilo que é mais perfeito.

Mas, tu dizes, essa comparação entre um certo mecanismo de metafísica determinante e o mecanismo físico de corpos pesados, embora pareça elegante, é defeituosa na medida em que os corpos pesados, que tendem para baixo, realmente existem, enquanto as possibilidades ou essências, antes ou fora da existência são imaginárias ou ficcionais e, portanto, não se pode buscar nelas uma razão de existir. Eu respondo que nem essas essências nem as assim denominadas verdades eternas a elas pertinentes são fictícias. Pelo contrário, elas existem em um certo reino das idéias, por assim dizer, ou seja, no próprio Deus, a fonte de toda essência e da existência de todo o resto. A própria existência da atual série das coisas demonstra que, ao que parece, não falamos sem base. Desde que a razão para as coisas deve ser buscada nas necessidades metafísicas ou nas verdades eternas, já que (como mostrei acima) não pode ser encontrada na série de coisas; e já que as coisas existentes não podem derivar de nenhuma outra coisa exceto de coisas existentes, como acima observei, então, é necessário que as verdades eternas tenham suas existências em algum sujeito absoluta e metafisicamente necessário, isto é, em Deus, através de quem aquelas coisas, que de outra maneira seriam imaginárias, são realizadas (para utilizar uma expressão bárbara, porém representativa).

De fato, observamos que tudo no mundo acontece de acordo com leis das verdades eternas, leis que não são meramente geométricas, mas também metafísicas, isto é, não apenas em conformidade com necessidades materiais, mas também em conformidade com razões formais. Isto é verdade não somente em termos muito gerais, como na explicação (ratio) que acabei de dar sobre o porquê do mundo existir ao invés do nada e por que ele existe desse modo ao invés de qualquer outro (explicação que certamente deve ser deduzida da tendência dos possíveis para existir), mas também, descendo aos casos particulares, observamos o modo maravilhoso pelo qual leis metafísicas de causa, potência e ação têm seu lugar na totalidade da natureza e observamos que essas leis metafísicas prevalecem sobre as leis puramente geométricas da matéria. Como eu próprio descobri para meu assombro, na explicação das leis do movimento isto é verdade a tal ponto que fui finalmente forçado a abandonar a lei da composição geométrica das forças (conatus), que certa vez defendera na minha juventude quando era então mais materialista, como já expliquei mais longamente alhures.

E assim, a razão fundamental para a realidade não só das essências mas também das existências repousa em um Ser único que deve, necessariamente, ser maior, superior e anterior ao mundo, pois através d’Ele não apenas as coisas existentes que formam o mundo, como também todos os possíveis, têm suas realidades. Porém, isso só pode ser procurado em uma única fonte, em virtude da interconexão de todas essas coisas. Ademais, é evidente que dessa fonte as coisas existentes brotam e se produzem continuamente, por ela tendo sido produzidas, uma vez que não se torna claro por que um estado de mundo mais do que um outro, ontem mais do que hoje, deveria dela brotar. Também é óbvio como Deus atua não apenas fisicamente, mas também de forma livre, e como Ele é não apenas a causa eficiente das coisas, mas a causa final, e como n’Ele temos não apenas a razão para a grandeza ou poder do mecanismo do universo como já constituído, mas também a razão da bondade ou sabedoria ao constituí-lo.

E para que não pensem que estou aqui confundindo perfeição moral ou bondade com perfeição metafísica ou grandeza e que, admitindo a última, negue a primeira, deve-se compreender, do já exposto, que não somente o mundo é fisicamente (ou se preferires, metafisicamente) mais perfeito, isto é, que as séries de coisas que têm sido trazidas à existência são aquelas nas quais há, de fato, a maior quantidade de realidade, mas também que o mundo é moralmente perfeito, desde que a perfeição moral é perfeição física, para as próprias mentes. Disto resulta que o mundo não apenas é a mais admirável máquina, mas também, na medida em que é feito de mentes, a melhor república, através da qual se dá às mentes a maior possibilidade de felicidade ou alegria, em que consiste sua perfeição física.

Mas, tu perguntas, não experimentamos exatamente o oposto no mundo? Pois o pior dos males freqüentemente acontece aos muito bons e aos inocentes (tanto entre os animais, como entre os seres humanos), que são feridos e mortos, até mesmo torturados. No fim, o mundo parece mais um caos confuso do que uma coisa ordenada por alguma suprema sabedoria, especialmente se notarmos a conduta do gênero humano. Confesso que, à primeira vista, isso parece desta forma, mas uma análise mais profunda das coisas nos impõe a opinião oposta. Destas considerações que apresentei é óbvio, a priori, que tudo, mesmo as mentes, está na sua maior perfeição.

E, de fato, é injusto formar um juízo a menos que se tenha examinado inteiramente a lei, como dizem os jurisconsultos. Conhecemos apenas uma pequena parte da eternidade que se estende sem medida, pois curta é a memória de muitos milhares de anos que a história nos concede. E, todavia, de tal escassa experiência precipitadamente formamos juízos a respeito do imenso e do eterno, como pessoas nascidas e criadas na prisão ou, se preferires, nas minas subterrâneas de sal da Sarmatia, pessoas que pensam não haver outra luz no mundo senão a luz obscurecida de suas tochas, luz certamente não suficiente para guiar seus passos. Olha para um belo quadro; cobre-o exceto por uma pequena parte. Então, como parecerá ele senão como uma combinação confusa de cores sem encanto e sem arte; na verdade, por mais próximo que o examinemos terá ele essa aparência. Mas tão logo a cobertura seja retirada e possas ver toda a tela de um local adequado, compreenderás que aquilo que parecia manchas acidentais sobre a tela, fora feito com completa arte pelo autor da obra. E o que os olhos descobrem na pintura, os ouvidos descobrem na música. De fato, os mais ilustres mestres da composição muito freqüentemente mesclam dissonâncias com consonâncias a fim de excitar o ouvinte e penetrar-lhe, por assim dizer, de modo que ansioso com o que vai acontecer, o ouvinte sinta o maior prazer quando a ordem for restaurada, exatamente como nos alegramos com pequenos perigos e desventuras, graças ao sentimento ou manifestação de nossa potência ou felicidade; ou como nos deleitamos no espetáculo de trapezistas ou no salto entre espadas devido à habilidade de nos estimular o pavor; ou como, quando por brincadeira, levantamos crianças ao alto como se fôssemos arremessá-las (também por essa razão, quando Christian, rei da Dinamarca, ainda uma criança envolta em faixas, foi carregado por um macaco até a beira do telhado, todos se sentiram aflitos, mas logo em seguida riram quando o animal, como que sorrindo, o colocou seguramente no berço). Por esse princípio, é insípido sempre comer alimentos doces; para excitar o paladar deve-se misturar sabores acres, ácidos e até amargos. Quem não provou coisas amargas, não mereceu as doces nem tampouco as apreciará. O prazer não deriva da uniformidade, pois essa traz futuramente desgosto e nos torna idiotas, não alegres: esse princípio é a lei da alegria.

Mas o que dissemos acerca da parte, ou seja, que pode estar perturbada sem deixar de haver harmonia no todo, não deveria ser entendido como se não houvesse razão nas partes, ou como se fosse suficiente para o mundo inteiro ser perfeito em sua classe mesmo se a raça humana fosse miserável, não prestasse atenção à Justiça no universo, ou não nos assegurasse, como certas pessoas de juízo pobre acreditam a respeito da totalidade das coisas. Pois se deve compreender que, assim como na melhor república constituída cuida-se para que cada indivíduo obtenha, tanto quanto possível, o que lhe é ótimo, o universo seria insuficientemente perfeito a menos que levasse em conta os indivíduos tanto quanto poderia ser feito consistentemente preservando a harmonia do universo. É impossível nessa questão achar um modelo melhor que a própria lei da justiça que manda que cada um participe da perfeição do universo e de sua própria felicidade em proporção a sua própria virtude e na medida que sua vontade tem contribuído para o bem comum. Isso exclui o que denominamos a caridade e o amor de Deus no que consiste toda força e poder da religião cristã, segundo o juízo dos sábios teólogos. Nem parece admirável o fato de que tanto se atribua às mentes no universo, desde que refletem a imagem do Supremo Criador e a Ele se referem não só como máquinas em relação aos seus construtores (como fazem as outras coisas), mas também como cidadãos em relação ao príncipe. Igualmente, essas mentes são destinadas a perdurar tanto tempo quanto o próprio universo, de certa maneira, exprimindo e concentrando em si mesmas o todo de modo que se pode afirmar que são partes totais.

Também devemos sustentar que as aflições, especialmente as dos bons, guiam-nos ao bem maior. Isso é verdadeiro não apenas na Teologia, mas também fisicamente (physice), desde que um grão atirado na terra deve sofrer antes de produzir frutos. E em geral pode-se afirmar que aflições que são temporariamente más são boas quanto aos seus efeitos, uma vez que se constituem em atalhos para uma maior perfeição. Assim é nas coisas físicas onde líquidos que fermentam mais lentamente também demoram a melhorar, mas aqueles em que há uma perturbação mais violenta, mais depressa são melhorados, pois eliminam (impure) partes com mais força. E isso é o que tu denominarias de recuo a fim de saltar para frente com maior força (recuar para melhor saltar). Essas considerações devem ser não somente agradáveis e consoladoras, mas também verdadeiras. E penso que no universo nada é mais verdadeiro do que a felicidade, nem mais feliz ou doce do que a verdade.

Em acréscimo às belezas e perfeições da totalidade das obras divinas, devemos também reconhecer um certo progresso constante e ilimitado em todo o universo, de modo a seguir sempre rumo a um maior desenvolvimento (cultus), exatamente como uma grande parte do nosso mundo está agora cultivado (cultura) e assim tornar-se-á mais e mais. E embora certas coisas regressem a seus estados selvagens originais e outros sejam destruídos e sepultados, devemos, todavia, entender isso do mesmo modo como interpretamos, a pouco, a aflição. De fato, essa destruição e sepultamento nos conduzirão à obtenção de algo melhor, de modo que, em certa medida, lucremos com a perda.

E quanto à objeção de que se assim fosse, então o mundo deveria, há muito tempo, ser um paraíso a resposta é: ainda que muitas substâncias já tenham alcançado uma grande perfeição, todavia, em razão da infinita divisibilidade do contínuo, há sempre partes adormecidas no abismo das coisas a serem despertadas e promovidas a maiores e melhores coisas, ou, em resumo, a um cultivo melhor. Assim, o progresso nunca chega a um fim.

 

Fonte: Leibniz Brasil







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Ainda sobre homossexualismo e pedofilia

April 20th, 2010 | 1 Comentário | Postado em Igreja, Opinião

Em um dos posts anteriores em que comentei os casos de pedofilia na Igreja, também fiz referência à relação existente entre os casos de pedofilia e a conduta homossexual. Tal relação não é uma novidade interpretativa minha, mas algo que vem sendo falado e estudado de maneira bastante consistente. Contudo, há alguns comentários que vão ou no sentido contrário ao da referida relação ou, ainda, da impropriedade lógica de tal inferência. Pretendo aqui comentar as duas coisas.

1. SOBRE A IMPROPRIEDADE LÓGICA DAS RELAÇÕES ENTRE HOMOSSEXUALIDADE E PEDOFILIA.

De fato, sabemos que por meio de dados estatísticos um sem número de falácias são veiculadas e defendidas todos os dias. Assim, relações numéricas acabam, na mão de propagandistas, tornando-se índices fortes de relação causal. A própria declaração do Cardeal Bertone, a saber, de que a maioria esmagadora de casos de pedofilia na Igreja – em torno de 90% – se dava entre padres e crianças do sexo masculino, poderia servir para tal mau uso dos dados. Portanto, é necessário esclarecer algumas coisas.

Entre duas grandezas há diversas formas de relação. E não é sem razão que Hume chama a atenção para o nosso hábito de relacioná-las, em grande parte das vezes, em termos de causa e efeito. Desse modo, tendemos a restringir a miríade de relações (que podem ser de gênero, espécie, número etc.) àquela de causação. É importante lembrar que, mesmo a relação causal se diz de muitos modos, como já o lembra Aristóteles na Metafísica, muito embora cotidianamente nós a reduzamos ao sentido de causa eficiente. Mas vejamos mais de perto o caso da relação estatística citada, entre homossexualismo e pedofilia.

É notoriamente uma falácia, amplamente conhecida mesmo da lógica clássica, dizer que haja uma relação causal necessária entre dois eventos apenas porque se repetem simultaneamente em grande parte dos casos. É possível ilustrar o caso com a chamada falácia da afirmação do consequente:

Se X então Y

Y

Então X

ou algo como “Se chove, o chão fica molhado. O chão está molhado, logo choveu”. É claro que pode haver outra causa para a umidade do chão, tal como um acidente ou a umidificação artificial. Não se pode então dizer que há uma relação causal necessária entre o homossexualismo e a pedofilia. Há outras falácias que se poderiam desvelar, como dizer “Todo pedófilo respira oxigênio/ X respira oxigênio/ Então X é pedófilo. Tal argumento é visivelmente falacioso e não prova relação causal última necessária.

 

Dito isto, e afastado o erro, há outras coisas a se considerar. Como disse, há diversas formas de relação entre duas entidades que não a de causa. Assim, embora não seja uma relação estrita de causa e efeito necessária, pois nem é verdade que todo homossexual seja pedófilo nem que todo caso de pedofilia é cometido por um suejito homossexual, estabelecer uma ligação entre dois eventos ou elementos que repetidamente se dão simultaneamente não é ilógico. Note-se novamente que a relação não precisa ser necessariamente de causa.

No início da epidemia de AIDS, tínhamos a famigerada noção de “grupos de risco”, ou seja, havia grupos em que a incidência de casos de infecção por HIV era maior, a saber, homossexuais, usuários de drogas injetáveis e hemofílicos. Novamente, a relação não é de causação estrita: ser homossexual, usuário de drogas injetáveis ou hemofílico não é condição sine qua non para ter AIDS (do mesmo modo que ser homossexual não é condição sine qua non para ser pedófilo. Note-se, que nem ser padre, nem ser celibatário…). Tanto o é que a própria noção de grupo de risco foi oficialmente substituída por aquela de “comportamento de risco” (veja aqui no próprio site do Governo Federal sobre a doença) já que atualmente a incidência de infecção extrapolou os referidos grupos (é possível pensar que a noção de grupo de risco seja associada ao caso em que apenas determinado grupo esteja sujeito à doença, como se pode dizer que apenas mulheres são sujeitas ao câncer de colo de útero, por exemplo).

Entretanto, embora não se possa relacionar causalmente os grupos de risco com os casos de HIV, a ligação e, inclusive a maior cautela com tais grupos era (ou ainda é) ilógica ou irracional? Não era absolutamente visível a co-incidência entre ser membro de um daqueles grupos e estar mais exposto à infecção por HIV? Porque não há uma relação causal estrita e necessária a inferência de que se deveria afastar-se do comportamento de tal grupo é irracional?

2. SOBRE A MAIOR INCIDÊNCIA DE CASOS DE PEDOFILIA ENTRE HOMOSSEXUAIS

Há numerosos estudos sérios sobre as relações entre homossexualismo e pedofilia. Como ponto de partida para o levantamento da bibliografia, cito dois:

- O estudo de K. Freund e R. J. Watson, da Universidade de Toronto, cujo abstract reproduzo abaixo:

Previous investigations have indicated that the ratio of sex offenders against female children vs. offenders against male children is approximately 2:1, while the ratio of gynephiles to androphiles among the general population is approximately 20:1. The present study investigated whether the etiology of preferred partner sex among pedophiles is related to the etiology of preferred partner sex among males preferring adult partners. Using phallometric test sensitivities to calculate the proportion of true pedophiles among various groups of sex offenders against children, and taking into consideration previously reported mean numbers of victims per offender group, the ratio of heterosexual to homosexual pedophiles was calculated to be approximately 11:1. This suggests that the resulting proportion of true pedophiles among persons with a homosexual erotic development is greater than that in persons who develop heterosexually. This, of course, would not indicate that androphilic males have a greater propensity to offend against children.

A razão de 11 para 1 não pode ser considerada desprezível.

- Veja-se ainda o estudo de Steve Baldwin, com quantidade assombrosa de referências a estudos e análises que chegam a apontar taxas ainda maiores.

3. SOBRE A PROPAGANDA PEDÓFILA HOMOSSEXUAL

Aqui a coisa fica deslavada: não acredite em mim, visite o site da NAMBLA.org (North American Man-Boy Association) uma associação destinada a propagar a relação pedófila homossexual. Visite a seção “Who we are”, bem como o “FAQ”. A associação se autodescreve como se segue:

NAMBLA’s goal is to end the extreme oppression of men and boys in mutually consensual relationships by:

building understanding and support for such relationships;

educating the general public on the benevolent nature of man/boy love;

cooperating with lesbian, gay, feminist, and other liberation movements;

supporting the liberation of persons of all ages from sexual prejudice and oppression.

Our membership is open to everyone sympathetic to man/boy love and personal freedom.

Durante 10 anos a NAMBLA foi associada à ILGA – International Lesbian and Gay Association que, em 1993 tornou-se membro consultivo da ONU em assuntos referentes à homossexualidade.

Faço referência ao artigo de Júlio Severo em que ele recolhe várias citações sobre a agenda pedófila de entidades e associações homossexuais. Embora não concorde com todas as inferências, é inegável o farto recolhimento de material.

Por fim, lembre-se que não se trata de tentar combater a (baixa) incidência de casos de pedofilia entre membros do clero com a “simples” acusação de que o problema é a homossexualidade. Trata-se de identificar uma tendência que, embora não se possa afirmar que exprime causa direta e necessária, constitui ao menos uma relação de gênero: são duas perversões sexuais que comprovadamente costumam se acompanhar; duas inclinações a hábitos sexualmente desordenados que, se poderia dizer, brotam de uma mesma concepção de como fazer uso da própria sexualidade.







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Debate Pe. Copleston e Bertrand Russell

February 2nd, 2010 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja, Vídeos

 

Em 28 de janeiro de 1948 a BBC de Londres transmitiu o debate entre o Pe. Frederick Charles Copleston e o filósofo Bertrand Russell sobre a existência de Deus. Há aí uma brilhante exposição, feita pelo padre, do argumento pela contingência (ou a partir da Terceira Via de São Tomás), bem como a resposta do padre às objeções lógicas levantadas por Russell. Para baixar o pdf da transcrição completa (em inglês), clique aqui.

 

Há no youtube alguns excertos do áudio, exatamente da seção sobre o argumento pela Contingência:

 

Parte 1:

 

 

Parte 2:

Aproveitem.







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Algumas considerações sobre as perspectivas atuais da Teologia e da Filosofia da Religião

December 7th, 2009 | 7 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião

 

É sabido que sempre corremos o risco de nos identificarmos às posições que frequentemente criticamos. As visitações frequentes ao que podemos chamar de terreno inimigo podem fazer com que passemos mais tempo do lado de lá do que em nossa própria casa. De certo modo, é essa a atmosfera na qual escrevo algumas poucas considerações sobre que o estou denominando perspectivas da teologia e da filosofia da religião atuais.

De início, devo dizer que parto de uma decisão certamente arbitrária: estou considerando Teologia e Filosofia da Religião aquela teologia e aquela filosofia da religião que julgo minimamente séria. Estou pondo de lado Teologias da Libertação, Feministas e Regionalistas, bem como Sociologias ou Antropologias meramente descritivas da Religião ou do “fenômeno” religioso. Também coloco de lado as teologias e filosofias da religião não-cristãs. É importante notar que as minhas justificativas possíveis para a adoção de tais critérios na separação do que julgo ou não sério, são exatamente os problemas que aponto a seguir.

Quero, antes, dizer que o que afirmo aqui são idéias em curso e devem ser debatidas. Afirmo também que cada um dos pontos abaixo pode e deverá ser ampliado a fim de dar conta de toda a complexidade dos problemas colocados. Dito isso:

 

1. O debate religioso é quase que exclusivamente negativo e elaborado a partir de pautas colocadas pela crítica à religião (fé X razão, refutação de argumentos científicos ou crítica dos pressupostos epistemológicos científicos etc.). Nos termos que S. Pio X já apontava na magnífica Pascendi Dominici Gregis, a teologia se faz hoje quase como se “o fim a alcançar é a conciliação da fé com a ciência, ficando porém sempre incólume a primazia da ciência sobre a fé”. Há também uma quase ausência de colocações positivas acerca da ética, epistemologia ou metafísica cristãs. Podemos dizer que abateu-se sobre o lado religioso do debate, uma certa timidez cognitiva que raramente ousa propor a colocação efetiva de posições cristãs no lugar dos princípios adversários. Na prática, pouco nos movemos fora do domínio que queremos dissolver. O debate sério atual é estritamente apologético e pouco ou nada catequético. Por catequese entendo a apresentação e o ensino sistemático das verdades de fé. Isso traz um consequente abandono do que podemos chamar de dimensão evangelizadora sob o nome de proselitismo (novamente, definição a partir do léxico que queremos combater). Se a Igreja nasce, como dito na Dominus Iesus, do mandado de Cristo de avançar e anunciar o Evangelho a toda criatura, de acordo com as perspectivas que se apresentam, ela está fadada a minguar até a morte, caso isso fosse possível (mesmo esta tese que acabo de enunciar, a da impossibilidade de que a Igreja venha a acabar, parece atualmente sem valor cognitivo nenhum para a maioria dos teólogos), Atualmente assumimos o discurso de que devemos nos abster de toda tentativa de conversão já que a “escolha” religiosa se passa no domínio do sujeito emotivista. Por emotivismo entendo a corrente que pretende reduzir todo o âmbito da ação e da escolha humana a pontos de vista sobre os quais se assente ou não, acarretando o consequente banimento da autoridade da razão e da argumentação racional em tais assuntos. O que nos leva ao próximo ponto.

2. Outra das características nefastas, derivada da concepção de religião como habitando no domínio da escolha a partir da vontade, mas que também alimenta o ponto anterior naquilo que chamo de timidez cognitiva é a abstenção de um dos princípios mais fundamentais de todo e qualquer discurso religioso, sobretudo do cristão, que é a pretensão de Verdade em sentido lato. Com Verdade em seu sentido mais amplo, quero significar uma verdade objetiva, em toda sua extensão de explicação sobre o real e independente do sujeito que a enuncia bem como de seu assentimento. Os pensadores e polemistas cristãos parecem empregar seus esforços – sem dúvida alguma, valiosíssimos – em simplesmente preservar ou abrigar as teses religiosas das investidas de seus críticos. Podemos ilustrar o que apontamos com um tipo de debate bastante em voga, a saber, entre a visão cristã de mundo e aquela do darwinismo. Pululam ensaios que demolem fisiológica e arqueologicamente a posição dos evolucionistas, mas pouco se vê uma explicação positiva e convincente da posição cristã sobre o Gênesis (isto é, sobre o registro das origens) ou ainda de como as Escrituras são, ainda para nós homens do século XXI, uma reserva semântica preciosa mesmo no que diz respeito ao que hoje fica absolutamente restrito às ciências naturais; que se note bem, não no sentido de rivalizar com a metodologia científica mas apontando, por exemplo, dimensões que aquela metodologia não consegue alcançar. Devemos notar que, mesmo o fato de o discurso sobre a estrutura do real ser hoje devido apenas às ciências é, em parte, culpa e responsabilidade do pavor e da ignorância cognitiva dos teólogos e dos filósofos da religião que, desde a crítica iluminista, só se defendem (lembre-se de Schleiermacher que afirma que a religião não deve pretender rivalizar com a ciência ou com a metafísica na interpretação do mundo). Desse modo, é visível que a questão da Verdade foi apartada do seu peso existencial e das possíveis consequências para um ser humano existente que deveria se relacionar com ela (e aí sim deveria aderir à Verdade também por sua vontade, mas nunca ao largo dela) e passou a habitar apenas no terreno da atividade judicativa sobre questões factuais (se é “verdadeiro” ou “falso” que o homem evoluiu de outras espécies, por exemplo) e não mais sobre princípios e causas. Se “todo aquele que é da Verdade escuta a minha voz”, como diz o Cristo (cf. Jo 18,37), Ele talvez hoje não seja mais ouvido porque a Verdade não parece ter mais nada a ver com o Senhor..

3. Por fim, isto se manifesta também no terreno das Ciências da Religião. Qualquer tentativa de entrar no debate com tal pretensão (de Verdade) é, a priori, fadada ao fracasso. Alguém que pretendesse empreender um estudo sobre a plausibilidade bíblica da primazia petrina, por exemplo, contra a crítica luterana, seria condenado, dentro da Filosofia da Religião, ao âmbito da Teologia (como se isso fosse um rebaixamento). Já na Teologia, ouviria-se que tal questão é irrelevante para uma teologia contemporânea em suas vertentes mais vanguardistas e seria banido do debate como um radical ou reacionário (como se fosse mais um degrau de rebaixamento). Houve então um recrudescimento tanto quantitativo quanto qualitativo nas questões e nos problemas da reflexão religiosa. Elas diminuíram em número, já que algumas foram excluídas e tornaram-se diluídas em seu caráter mais essencial. Isto não é difícil de notar a partir do fato de que as questões e problemas da Teologia e da Filosofia da Religião, tal como estas disciplinas têm se dado atualmente, podem quase serem reduzidas às questões da Sociologia, Filosofia da Ciência ou Antropologia. Com isso quero apontar que também entre aqueles que deveriam buscar a Verdade pelo estudo e pesquisa séria também têm os ouvidos tapados à voz do Cristo. Onde ele será ouvido então?

 

*  *  *

 

ATUALIZAÇÃO: Segue abaixo meus comentários aos valiosos comentários do Marcelo Viana, que podem ser vistos na caixa de comentários deste mesmo post.

Caro Marcelo.

Quero começar agradecendo firmemente seu comentário. Ele não só traz boas contribuições, mas serve de ocasião para continuar a reflexão.

Você inicia seu comentário dizendo da dificuldade de interpretar para além dos domínios da cosmovisão modernista. De fato, para isso, há justamente a necessidade de romper com o acordo irrestrito e inconsciente com o domínio cognitivo e semântico da modernidade, como já previra São Pio X (por favor, passe a Pascendi Dominici Gregis na frente em sua fila de leituras).

Creio que você acerta em dizer que grande parte da dificuldade se dá por nossa própria culpa. Entretanto, penso que erra ao tomar como modelo próximo o padre da paróquia mais próxima e seu ideário. Os modelos próximos são justamente as grandes matrizes do nosso pensamento que mantêm sua proximidade justamente por sua urgência atual: a filosofia séria, a teologia séria e o Magistério da Igreja.

Penso que o ponto fundamental no qual que você se afasta do que estou dizendo é no que vem a seguir. Julgo ser possível sintetizar aquilo que você diz em uma de suas sentenças:

Quanto à Verdade de Cristo, uma vez tirada a venda, não é difícil de enxergá-la. A Teologia se desenvolveria muito fácil e naturalmente num mundo que estivesse disposto, pelo menos, a ver a religião como um fundamento da própria existência.

Os dois aspectos estão aí expressos: “tirar a venda” e a quase “naturalidade da veracidade existencial do Cristo. De início, você mesmo expressa a complexa tensão entre a necessidade de uma ação positiva e uma quase “auto-evidência” da Verdade, o que dificulta que as coisas sejam assim como você diz.

Por “tirar a venda” você entende a desconstrução e a propaganda ativa de tal desconstrução, inclusive nas escolas etc. Aqui deveríamos apelar para os modelos corretos, como você bem lembrou. São Paulo, Santo Agostinho, São Justino e outros, jamais julgaram que seu afazer se limitava a desconstruir a tese adversária e que, depois, naturalmente viria à tona a Verdade evidente de Cristo. Primeiro porque desconstruir é, ainda, manter-se no domínio adversário: da desconstrução só salta à vista a fragilidade do objeto e, logicamente, jamais o valor de verdade de outra tese (que não a da possibilidade de desconstrução daquele objeto, sob pena de ofensa ao princípio do terceiro excluído). Deve haver, então, necessariamente, a colocação efetiva da tese que se quer afirmar. Quero amparar o que digo com dois pontos, um filosófico e um exemplo tirado de um dos modelos realmente exemplares:

a. As considerações sobre o conceito de evidência de São Tomás (ST, I, q.2, art. 1) podem nos auxiliar. Uma coisa pode ser dita evidente de duas maneiras: evidente em si, mas não para nós, e evidente em si e para nós. Evidente em si, é a proposição cujo predicado está contido essencialmente no sujeito (por exemplo, ”O homem é animal”, pois “animal” está contido essencialmente em “homem”). Entretanto, se alguém desconhece que se dê tal relação entre o predicado e o sujeito, a proposição pode ser evidente em si mesma e não para nós. É de suma importância para o que estou querendo dizer, o contexto em que ocorrem tais considerações de S. Tomás. É no domínio da prova da existência de Deus que o Aquinate fala de evidência. A proposição “Deus existe” é evidente em si, mas não para nós, por isso é necessária demonstração e ensino. A proposição “O cristianismo é verdadeiro” até pode ser considerada evidente em si, mas certamente não o é para nós. O maior sinal disso é justamente a existência do debate. E também não se pode dizer que ela se torna praticamente evidente pela desconstrução do projeto moderno, bem como da propaganda de tal destruição.

b. São Paulo em Atenas (At. 17, 15-34) é talvez o modelo exato para nosso problema. São Paulo irrita-se e angustia-se pelos erros dos atenienses. Seus debatedores julgavam estranhas suas teses (v. 20). O Apóstolo então começa pregando a partir do registro e do ambiente semântico de seus adversários, fazendo mesmo um elogio à religiosidade ateniense, muito embora a reconhecesse como idolatria: introduz a tese de que o Deus que prega é o que cria tudo o que existe, que não é feito por mãos humanas e, inclusive, usa o léxico da filosofia grega (ser, movimento) e faz referência à sua cultura (“Porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser, como até alguns dos vossos poetas disseram: Nós somos também de sua raça… “, v. 28).

É fundamental notar que, até aqui, embora seus ouvintes já soubessem que ele anuncia algo novo e diferente (v. 18), seguem-no em sua exposição e não há contenda. Embora haja uma discordância, ela está implícita e não causa maiores estragos. Mas perceba o que acontece quando, efetivamente, São Paulo enuncia sua tese fundamental:

Quando o ouviram falar de ressurreição dos mortos, uns zombavam e outros diziam: A respeito disso te ouviremos outra vez. (v. 32)

O que quero dizer, usando o exemplo de São Paulo, é que, embora seja necessário partir do registro da modernidade, no qual nós também nos movemos, não basta simplesmente que o desconstruamos e o destruamos, já que nosso objetivo não pode ser a mera aniquilação do projeto modernista. Como São Paulo, deve-se enunciar de maneira efetiva a tese que se julga verdadeira, com seus argumentos e reflexões, enfrentando inclusive a zombaria e o descrédito com a firmeza na fé e na razão. Creio ser aí o ponto fundamental da relação entre “fides et ratio”.

Por fim, o que você diz é um tanto complicado pois parece achar justo e correto um movimento ativo tendo em vista desconstruir e fazer propaganda da falsidade do projeto moderno, mas acha no mínimo estranho uma atitude semelhante na tarefa de positivamente afirmar como Verdade (ou “fazer propaganda”) o projeto cristão; “isso é algo que cabe a Deus controlar”. Abstem-se inclusive da pretensão de “imposição” de tal projeto às pessoas, ao mesmo tempo em que pensa ser estritamente necessária a “imposição” da crítica e da desconstrução através de uma propaganda sistemática, até no conteúdo programático das escolas. Por que esta diferença? Não estaria aí a manutenção da tese emotivista – claramente modernista – da escolha pessoal sobre a qual não pode ingerir o discurso racional? Ao assumirmos isto não estaríamos permanecendo no terreno adversário sem nos movermos um só centímetro para além dele? Não se está assumindo que isso é “proselitismo” e seu decorrente tom pejorativo?

Em uma palavra, sua resposta exibe um tanto daquela esquizofrenia que acomete a todos nós, inclusive eu. Entendemos o problema, percebemos uma ou duas atitudes coerentes, mas duvidamos um tanto da validade epistemológica e, porque não dizer, metafísica, da outra alternativa. É a isso que chamei de “pavor cognitivo”.

É razoável pensar que talvez encontrássemos hoje, com mais facilidade, mártires pela falsidade da tese moderna do que mártires pela veracidade do Cristianismo.







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Sobre Livros e Bibliografias… duvidosas

November 10th, 2009 | 3 Comentários | Postado em Educação, Filosofia, Livros, Opinião

 

lostsymbol No caderno “mais!”, do jornal Folha de São Paulo da semana passada, o professor e jornalista Marcelo Gleiser cita e incensa os livros do escritor americano Dan Brown (aquele do Código Da Vinci e outros da mesma lavra). A princípio, nada contra a referência (ruim), mas ela me remete a um problema que julgo mais grave.

De tempos pra cá, pode-se notar um crescimento no interesse (que catapulta Dan Brown e seus asseclas) por livros que tentam mesclar ficção e realidade em assuntos como filosofia, religião, teologia, história medieval etc.  Não há como não lembrar também de outro que, embora seja Prêmio Nobel (ahn, bons tempos em que só grandes sujeitos eram laureados…), não faz lá coisas muito diferentes: José Saramago e seu Caim. Novamente, nada conta a ficção. O problema está na meta básis eis allo génos, ou passagem para outro gênero, como diz Aristóteles. De fato, consumidores deste tipo de livro têm uma curiosidade que se pode dizer sincera sobre tais assuntos. Contudo, fazem uma passagem de nível absurdamente nociva e, por que não dizer, irritante. caimsaramago

Jamais, em tempo algum, Dan Brown seria citado entre scholars como bibliografia para estudos   medievais ou sobre história da Igreja. Saramago nunca seria lembrado como biblista pelos devaneios que comete em seu Caim ou, ainda, em seu O Evangelho segundo Jesus Cristo, por exegetas que se dedicam durante uma vida a estudar tais temas a sério; ainda, Quando Nietzsche chorou não deve ser bibliografia obrigatória para se entender o pensador alemão. O que ocorre é a materialização atual da intuição platônica de que poetas (e aqui, romancistas) iludem e conduzem ao erro sob o verniz da bela forma, do entretenimento ou da falsa erudição. É cada vez mais frequente nas discussões, repudiar estudiosos em favor de diletantes vomitadores de best-sellers. Agora são estes as autoridades últimas.

nietzschechorou Para além da queda de qualidade cada vez mais sensível nestes debates, é notável que começa a se desenvolver um processo medonho de regressão da reflexão (como Adorno previra em relação à audição por conta da música popular). E note-se que este movimento não ocorre apenas entre os que se abrigam sob aquele tipo de bibliografia: os detratores também rebaixam o nível do debate, seja tomando esse tipo de literatura como índice da posição religiosa, por exemplo (e ignorando tudo o que há de sério neste campo) ou fazendo uso, como “contra-argumento” de livros de mesmo calibre (penso aqui em Dawkins, por exemplo), Hoje em dia, “””refuta-se””” Santo Anseimo com Richard Dawkins; o Proslógion com God’s delusion*.

 

E voltamos a um tipo de incômodo que sinto há anos. Ninguém aceitaria morar numa casa construída por mim caso eu apresentasse como credenciais, anos e anos brincando de Lego quando pequeno. Ou ainda, alguém aceitaria que eu abrisse sua cabeça em caso de um tumor, já que coleciono leituras sobre as maravilhas do cérebro?

 

* Apenas para explicitação, que se note que o argumento anselmiano é bastante diferente daquele que Descartes apresenta em suas Meditações, que ganha o predicado “ontológico”.







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