| Assine nosso RSS

Debate Pe. Copleston e Bertrand Russell

fevereiro 2nd, 2010 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja, Vídeos

 

Em 28 de janeiro de 1948 a BBC de Londres transmitiu o debate entre o Pe. Frederick Charles Copleston e o filósofo Bertrand Russell sobre a existência de Deus. Há aí uma brilhante exposição, feita pelo padre, do argumento pela contingência (ou a partir da Terceira Via de São Tomás), bem como a resposta do padre às objeções lógicas levantadas por Russell. Para baixar o pdf da transcrição completa (em inglês), clique aqui.

 

Há no youtube alguns excertos do áudio, exatamente da seção sobre o argumento pela Contingência:

 

Parte 1:

 

 

Parte 2:

Aproveitem.







Add to Technorati Favorites Tags: , , , ,

Algumas considerações sobre as perspectivas atuais da Teologia e da Filosofia da Religião

dezembro 7th, 2009 | 7 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião

 

É sabido que sempre corremos o risco de nos identificarmos às posições que frequentemente criticamos. As visitações frequentes ao que podemos chamar de terreno inimigo podem fazer com que passemos mais tempo do lado de lá do que em nossa própria casa. De certo modo, é essa a atmosfera na qual escrevo algumas poucas considerações sobre que o estou denominando perspectivas da teologia e da filosofia da religião atuais.

De início, devo dizer que parto de uma decisão certamente arbitrária: estou considerando Teologia e Filosofia da Religião aquela teologia e aquela filosofia da religião que julgo minimamente séria. Estou pondo de lado Teologias da Libertação, Feministas e Regionalistas, bem como Sociologias ou Antropologias meramente descritivas da Religião ou do “fenômeno” religioso. Também coloco de lado as teologias e filosofias da religião não-cristãs. É importante notar que as minhas justificativas possíveis para a adoção de tais critérios na separação do que julgo ou não sério, são exatamente os problemas que aponto a seguir.

Quero, antes, dizer que o que afirmo aqui são idéias em curso e devem ser debatidas. Afirmo também que cada um dos pontos abaixo pode e deverá ser ampliado a fim de dar conta de toda a complexidade dos problemas colocados. Dito isso:

 

1. O debate religioso é quase que exclusivamente negativo e elaborado a partir de pautas colocadas pela crítica à religião (fé X razão, refutação de argumentos científicos ou crítica dos pressupostos epistemológicos científicos etc.). Nos termos que S. Pio X já apontava na magnífica Pascendi Dominici Gregis, a teologia se faz hoje quase como se “o fim a alcançar é a conciliação da fé com a ciência, ficando porém sempre incólume a primazia da ciência sobre a fé”. Há também uma quase ausência de colocações positivas acerca da ética, epistemologia ou metafísica cristãs. Podemos dizer que abateu-se sobre o lado religioso do debate, uma certa timidez cognitiva que raramente ousa propor a colocação efetiva de posições cristãs no lugar dos princípios adversários. Na prática, pouco nos movemos fora do domínio que queremos dissolver. O debate sério atual é estritamente apologético e pouco ou nada catequético. Por catequese entendo a apresentação e o ensino sistemático das verdades de fé. Isso traz um consequente abandono do que podemos chamar de dimensão evangelizadora sob o nome de proselitismo (novamente, definição a partir do léxico que queremos combater). Se a Igreja nasce, como dito na Dominus Iesus, do mandado de Cristo de avançar e anunciar o Evangelho a toda criatura, de acordo com as perspectivas que se apresentam, ela está fadada a minguar até a morte, caso isso fosse possível (mesmo esta tese que acabo de enunciar, a da impossibilidade de que a Igreja venha a acabar, parece atualmente sem valor cognitivo nenhum para a maioria dos teólogos), Atualmente assumimos o discurso de que devemos nos abster de toda tentativa de conversão já que a “escolha” religiosa se passa no domínio do sujeito emotivista. Por emotivismo entendo a corrente que pretende reduzir todo o âmbito da ação e da escolha humana a pontos de vista sobre os quais se assente ou não, acarretando o consequente banimento da autoridade da razão e da argumentação racional em tais assuntos. O que nos leva ao próximo ponto.

2. Outra das características nefastas, derivada da concepção de religião como habitando no domínio da escolha a partir da vontade, mas que também alimenta o ponto anterior naquilo que chamo de timidez cognitiva é a abstenção de um dos princípios mais fundamentais de todo e qualquer discurso religioso, sobretudo do cristão, que é a pretensão de Verdade em sentido lato. Com Verdade em seu sentido mais amplo, quero significar uma verdade objetiva, em toda sua extensão de explicação sobre o real e independente do sujeito que a enuncia bem como de seu assentimento. Os pensadores e polemistas cristãos parecem empregar seus esforços – sem dúvida alguma, valiosíssimos – em simplesmente preservar ou abrigar as teses religiosas das investidas de seus críticos. Podemos ilustrar o que apontamos com um tipo de debate bastante em voga, a saber, entre a visão cristã de mundo e aquela do darwinismo. Pululam ensaios que demolem fisiológica e arqueologicamente a posição dos evolucionistas, mas pouco se vê uma explicação positiva e convincente da posição cristã sobre o Gênesis (isto é, sobre o registro das origens) ou ainda de como as Escrituras são, ainda para nós homens do século XXI, uma reserva semântica preciosa mesmo no que diz respeito ao que hoje fica absolutamente restrito às ciências naturais; que se note bem, não no sentido de rivalizar com a metodologia científica mas apontando, por exemplo, dimensões que aquela metodologia não consegue alcançar. Devemos notar que, mesmo o fato de o discurso sobre a estrutura do real ser hoje devido apenas às ciências é, em parte, culpa e responsabilidade do pavor e da ignorância cognitiva dos teólogos e dos filósofos da religião que, desde a crítica iluminista, só se defendem (lembre-se de Schleiermacher que afirma que a religião não deve pretender rivalizar com a ciência ou com a metafísica na interpretação do mundo). Desse modo, é visível que a questão da Verdade foi apartada do seu peso existencial e das possíveis consequências para um ser humano existente que deveria se relacionar com ela (e aí sim deveria aderir à Verdade também por sua vontade, mas nunca ao largo dela) e passou a habitar apenas no terreno da atividade judicativa sobre questões factuais (se é “verdadeiro” ou “falso” que o homem evoluiu de outras espécies, por exemplo) e não mais sobre princípios e causas. Se “todo aquele que é da Verdade escuta a minha voz”, como diz o Cristo (cf. Jo 18,37), Ele talvez hoje não seja mais ouvido porque a Verdade não parece ter mais nada a ver com o Senhor..

3. Por fim, isto se manifesta também no terreno das Ciências da Religião. Qualquer tentativa de entrar no debate com tal pretensão (de Verdade) é, a priori, fadada ao fracasso. Alguém que pretendesse empreender um estudo sobre a plausibilidade bíblica da primazia petrina, por exemplo, contra a crítica luterana, seria condenado, dentro da Filosofia da Religião, ao âmbito da Teologia (como se isso fosse um rebaixamento). Já na Teologia, ouviria-se que tal questão é irrelevante para uma teologia contemporânea em suas vertentes mais vanguardistas e seria banido do debate como um radical ou reacionário (como se fosse mais um degrau de rebaixamento). Houve então um recrudescimento tanto quantitativo quanto qualitativo nas questões e nos problemas da reflexão religiosa. Elas diminuíram em número, já que algumas foram excluídas e tornaram-se diluídas em seu caráter mais essencial. Isto não é difícil de notar a partir do fato de que as questões e problemas da Teologia e da Filosofia da Religião, tal como estas disciplinas têm se dado atualmente, podem quase serem reduzidas às questões da Sociologia, Filosofia da Ciência ou Antropologia. Com isso quero apontar que também entre aqueles que deveriam buscar a Verdade pelo estudo e pesquisa séria também têm os ouvidos tapados à voz do Cristo. Onde ele será ouvido então?

 

*  *  *

 

ATUALIZAÇÃO: Segue abaixo meus comentários aos valiosos comentários do Marcelo Viana, que podem ser vistos na caixa de comentários deste mesmo post.

Caro Marcelo.

Quero começar agradecendo firmemente seu comentário. Ele não só traz boas contribuições, mas serve de ocasião para continuar a reflexão.

Você inicia seu comentário dizendo da dificuldade de interpretar para além dos domínios da cosmovisão modernista. De fato, para isso, há justamente a necessidade de romper com o acordo irrestrito e inconsciente com o domínio cognitivo e semântico da modernidade, como já previra São Pio X (por favor, passe a Pascendi Dominici Gregis na frente em sua fila de leituras).

Creio que você acerta em dizer que grande parte da dificuldade se dá por nossa própria culpa. Entretanto, penso que erra ao tomar como modelo próximo o padre da paróquia mais próxima e seu ideário. Os modelos próximos são justamente as grandes matrizes do nosso pensamento que mantêm sua proximidade justamente por sua urgência atual: a filosofia séria, a teologia séria e o Magistério da Igreja.

Penso que o ponto fundamental no qual que você se afasta do que estou dizendo é no que vem a seguir. Julgo ser possível sintetizar aquilo que você diz em uma de suas sentenças:

Quanto à Verdade de Cristo, uma vez tirada a venda, não é difícil de enxergá-la. A Teologia se desenvolveria muito fácil e naturalmente num mundo que estivesse disposto, pelo menos, a ver a religião como um fundamento da própria existência.

Os dois aspectos estão aí expressos: “tirar a venda” e a quase “naturalidade da veracidade existencial do Cristo. De início, você mesmo expressa a complexa tensão entre a necessidade de uma ação positiva e uma quase “auto-evidência” da Verdade, o que dificulta que as coisas sejam assim como você diz.

Por “tirar a venda” você entende a desconstrução e a propaganda ativa de tal desconstrução, inclusive nas escolas etc. Aqui deveríamos apelar para os modelos corretos, como você bem lembrou. São Paulo, Santo Agostinho, São Justino e outros, jamais julgaram que seu afazer se limitava a desconstruir a tese adversária e que, depois, naturalmente viria à tona a Verdade evidente de Cristo. Primeiro porque desconstruir é, ainda, manter-se no domínio adversário: da desconstrução só salta à vista a fragilidade do objeto e, logicamente, jamais o valor de verdade de outra tese (que não a da possibilidade de desconstrução daquele objeto, sob pena de ofensa ao princípio do terceiro excluído). Deve haver, então, necessariamente, a colocação efetiva da tese que se quer afirmar. Quero amparar o que digo com dois pontos, um filosófico e um exemplo tirado de um dos modelos realmente exemplares:

a. As considerações sobre o conceito de evidência de São Tomás (ST, I, q.2, art. 1) podem nos auxiliar. Uma coisa pode ser dita evidente de duas maneiras: evidente em si, mas não para nós, e evidente em si e para nós. Evidente em si, é a proposição cujo predicado está contido essencialmente no sujeito (por exemplo, ”O homem é animal”, pois “animal” está contido essencialmente em “homem”). Entretanto, se alguém desconhece que se dê tal relação entre o predicado e o sujeito, a proposição pode ser evidente em si mesma e não para nós. É de suma importância para o que estou querendo dizer, o contexto em que ocorrem tais considerações de S. Tomás. É no domínio da prova da existência de Deus que o Aquinate fala de evidência. A proposição “Deus existe” é evidente em si, mas não para nós, por isso é necessária demonstração e ensino. A proposição “O cristianismo é verdadeiro” até pode ser considerada evidente em si, mas certamente não o é para nós. O maior sinal disso é justamente a existência do debate. E também não se pode dizer que ela se torna praticamente evidente pela desconstrução do projeto moderno, bem como da propaganda de tal destruição.

b. São Paulo em Atenas (At. 17, 15-34) é talvez o modelo exato para nosso problema. São Paulo irrita-se e angustia-se pelos erros dos atenienses. Seus debatedores julgavam estranhas suas teses (v. 20). O Apóstolo então começa pregando a partir do registro e do ambiente semântico de seus adversários, fazendo mesmo um elogio à religiosidade ateniense, muito embora a reconhecesse como idolatria: introduz a tese de que o Deus que prega é o que cria tudo o que existe, que não é feito por mãos humanas e, inclusive, usa o léxico da filosofia grega (ser, movimento) e faz referência à sua cultura (“Porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser, como até alguns dos vossos poetas disseram: Nós somos também de sua raça… “, v. 28).

É fundamental notar que, até aqui, embora seus ouvintes já soubessem que ele anuncia algo novo e diferente (v. 18), seguem-no em sua exposição e não há contenda. Embora haja uma discordância, ela está implícita e não causa maiores estragos. Mas perceba o que acontece quando, efetivamente, São Paulo enuncia sua tese fundamental:

Quando o ouviram falar de ressurreição dos mortos, uns zombavam e outros diziam: A respeito disso te ouviremos outra vez. (v. 32)

O que quero dizer, usando o exemplo de São Paulo, é que, embora seja necessário partir do registro da modernidade, no qual nós também nos movemos, não basta simplesmente que o desconstruamos e o destruamos, já que nosso objetivo não pode ser a mera aniquilação do projeto modernista. Como São Paulo, deve-se enunciar de maneira efetiva a tese que se julga verdadeira, com seus argumentos e reflexões, enfrentando inclusive a zombaria e o descrédito com a firmeza na fé e na razão. Creio ser aí o ponto fundamental da relação entre “fides et ratio”.

Por fim, o que você diz é um tanto complicado pois parece achar justo e correto um movimento ativo tendo em vista desconstruir e fazer propaganda da falsidade do projeto moderno, mas acha no mínimo estranho uma atitude semelhante na tarefa de positivamente afirmar como Verdade (ou “fazer propaganda”) o projeto cristão; “isso é algo que cabe a Deus controlar”. Abstem-se inclusive da pretensão de “imposição” de tal projeto às pessoas, ao mesmo tempo em que pensa ser estritamente necessária a “imposição” da crítica e da desconstrução através de uma propaganda sistemática, até no conteúdo programático das escolas. Por que esta diferença? Não estaria aí a manutenção da tese emotivista – claramente modernista – da escolha pessoal sobre a qual não pode ingerir o discurso racional? Ao assumirmos isto não estaríamos permanecendo no terreno adversário sem nos movermos um só centímetro para além dele? Não se está assumindo que isso é “proselitismo” e seu decorrente tom pejorativo?

Em uma palavra, sua resposta exibe um tanto daquela esquizofrenia que acomete a todos nós, inclusive eu. Entendemos o problema, percebemos uma ou duas atitudes coerentes, mas duvidamos um tanto da validade epistemológica e, porque não dizer, metafísica, da outra alternativa. É a isso que chamei de “pavor cognitivo”.

É razoável pensar que talvez encontrássemos hoje, com mais facilidade, mártires pela falsidade da tese moderna do que mártires pela veracidade do Cristianismo.







Add to Technorati Favorites Tags: , , ,

Sobre Livros e Bibliografias… duvidosas

novembro 10th, 2009 | 3 Comentários | Postado em Educação, Filosofia, Livros, Opinião

 

lostsymbol No caderno “mais!”, do jornal Folha de São Paulo da semana passada, o professor e jornalista Marcelo Gleiser cita e incensa os livros do escritor americano Dan Brown (aquele do Código Da Vinci e outros da mesma lavra). A princípio, nada contra a referência (ruim), mas ela me remete a um problema que julgo mais grave.

De tempos pra cá, pode-se notar um crescimento no interesse (que catapulta Dan Brown e seus asseclas) por livros que tentam mesclar ficção e realidade em assuntos como filosofia, religião, teologia, história medieval etc.  Não há como não lembrar também de outro que, embora seja Prêmio Nobel (ahn, bons tempos em que só grandes sujeitos eram laureados…), não faz lá coisas muito diferentes: José Saramago e seu Caim. Novamente, nada conta a ficção. O problema está na meta básis eis allo génos, ou passagem para outro gênero, como diz Aristóteles. De fato, consumidores deste tipo de livro têm uma curiosidade que se pode dizer sincera sobre tais assuntos. Contudo, fazem uma passagem de nível absurdamente nociva e, por que não dizer, irritante. caimsaramago

Jamais, em tempo algum, Dan Brown seria citado entre scholars como bibliografia para estudos   medievais ou sobre história da Igreja. Saramago nunca seria lembrado como biblista pelos devaneios que comete em seu Caim ou, ainda, em seu O Evangelho segundo Jesus Cristo, por exegetas que se dedicam durante uma vida a estudar tais temas a sério; ainda, Quando Nietzsche chorou não deve ser bibliografia obrigatória para se entender o pensador alemão. O que ocorre é a materialização atual da intuição platônica de que poetas (e aqui, romancistas) iludem e conduzem ao erro sob o verniz da bela forma, do entretenimento ou da falsa erudição. É cada vez mais frequente nas discussões, repudiar estudiosos em favor de diletantes vomitadores de best-sellers. Agora são estes as autoridades últimas.

nietzschechorou Para além da queda de qualidade cada vez mais sensível nestes debates, é notável que começa a se desenvolver um processo medonho de regressão da reflexão (como Adorno previra em relação à audição por conta da música popular). E note-se que este movimento não ocorre apenas entre os que se abrigam sob aquele tipo de bibliografia: os detratores também rebaixam o nível do debate, seja tomando esse tipo de literatura como índice da posição religiosa, por exemplo (e ignorando tudo o que há de sério neste campo) ou fazendo uso, como “contra-argumento” de livros de mesmo calibre (penso aqui em Dawkins, por exemplo), Hoje em dia, “””refuta-se””” Santo Anseimo com Richard Dawkins; o Proslógion com God’s delusion*.

 

E voltamos a um tipo de incômodo que sinto há anos. Ninguém aceitaria morar numa casa construída por mim caso eu apresentasse como credenciais, anos e anos brincando de Lego quando pequeno. Ou ainda, alguém aceitaria que eu abrisse sua cabeça em caso de um tumor, já que coleciono leituras sobre as maravilhas do cérebro?

 

* Apenas para explicitação, que se note que o argumento anselmiano é bastante diferente daquele que Descartes apresenta em suas Meditações, que ganha o predicado “ontológico”.







Add to Technorati Favorites Tags: , , , ,