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Artigo Pastoreando – 10

fevereiro 8th, 2010 | Comente | Postado em Igreja

Subiu aos Céus, está sentado à direita de Deus-Pai Todo-Poderoso

TintorettoTheAscension O sexto artigo de nossa Profissão de Fé está intimamente ligado ao anterior e o desenvolve, explicitando os maravilhosos efeitos da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em sua primeira parte, professamos a Ascensão do Senhor (At. 1,9). Tal evento não é apenas uma manifestação fantástica, mas exibe a nós a sua glória tremenda. Como nos diz São Pio X, o Cristo ascende aos céus para tomar posse de seu Reino merecido por sua morte, como também para preparar o “lugar” de nossa glória, para ser nosso Mediador e Advogado junto ao Pai e enviar Seu Santo Espírito aos apóstolos.

Nas Escrituras, vemos diversos relatos de homens que foram arrebatados ao céu: o profeta Elias que subiu numa “carruagem de fogo” (2 Reis. 2,11); o profeta Habacuc carregado pelo anjo (Dn. 14,35); Filipe levado pelo Espírito (At. 8,39) e a própria Mãe do Senhor, Maria Santíssima, cuja Assunção solenemente celebramos. Contudo, diferentemente de todos estes, que foram arrebatados e carregados por Deus, Jesus Cristo ascendeu aos céus por seu próprio poder e glória, por ser Deus e Homem Ele mesmo e por Sua distinta Realeza. Ele é o Rei cujo Reino não pertence a este mundo mas que, justamente por isso, quer que O sigamos, de coração e de mente, à habitação celeste.

Na segunda parte do artigo, ao professarmos que o Cristo toma assento ao lado de Deus-Pai, queremos nos aproximar, por meio de uma imagem sensível, de uma realidade fundamental. O Cristo Ressuscitado fixa-Se de uma vez por todas em Seu lugar de glória desde toda a eternidade. Cumprida sua missão salvífica, o Senhor retorna ao Pai em toda sua glória, importância e dignidade, expressa pela imagem do “sentar-se à direita”. É aí que Jesus é colocado “acima de todo principado, potestade, virtude, dominação e de todo nome que possa haver nesse mundo como no futuro” (Ef. 1,21).

Roguemos então ao Cristo, Rei dos Céus e Salvador nosso, para que, guiados por ele, possamos nós também alcançarmos a eternidade junto do Pai.

 

Um abraço.

Gabriel Ferreira







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Ter sempre o Senhor ante meus olhos

fevereiro 7th, 2010 | Comente | Postado em Igreja

bosch

Alguém perguntou a Antão: "O que devo fazer para agradar a Deus?" O ancião replicou:  "Preste atenção àquilo que lhe recomendo: onde quer que vás, sempre tenha Deus ante teus olhos; o que quer que faças, faze-o de acordo com o testemunho das Escrituras." (Vida de S. Antão. 3).

A resposta de Santo Antão, que faz uso do Salmo 16 (15), é de tal força, que ultrapassa o peso da própria pergunta e carrega-nos vertiginosamente para dentro do Mistério divino. Ela contém em si a Graça que nos veio trazer Deus, no ápice de sua Revelação e assim, a Trindade toda inteira se faz sentir.

Vejamos o que nos exorta o anacoreta, nas palavras do salmista:

 

 

"Tenho sempre o Senhor ante meus olhos,
Pois se O tenho ao meu lado não vacilo"

 

Ora, ter o Senhor sempre ante os olhos é contemplá-Lo a todo momento. É sobretudo experienciá-Lo a cada instante compartilhando a nossa experiência existencial com Ele e, aqui, começamos a entender o quanto tal experiência nos poderia ser terrível: Não somos dignos de ver a Deus, eis a verdade; Ele é o totalmente Outro, oculto, velado, onipotente, aquele que ninguém vê. Nem mesmo Moisés, no Horeb ousou erguer seus olhos para a sarça que ardia sem consumir-se, tanto mais ter seu rosto voltado para Ele todo o tempo! Seria então apenas uma vivência de humilhação e angústia que nos propõe o salmista?

Não. Eis a novidade que o salmista já anuncia: este Deus que nos ultrapassa totalmente quer ser encarado por nós de tal modo, que assumindo nossa condição em seu traço mais distintivo – a morte -, como nos diz Isaías elevou-se para que fosse visto por todos. A encarnação do Filho Unigênito pelo Espírito Santo é a realização da possibilidade de que Deus seja alguém com quem se pode travar conhecimento, o mais perfeito possível. Compreende-se então facilmente o que São Paulo quer nos dizer quando radicaliza a grande verdade evangélica: Ninguém vê a Deus – e portanto ninguém vai a Deus -, senão pelo Cristo, face visível do Deus invisível.

Ter, portanto, os olhos sempre no Senhor, ter os olhos fitos nos olhos do Cristo, é travar com Ele uma relação de intimidade profunda, ao enxergar-se Nele, como que refletido em seus olhos e ver-se em Seus pensamentos. O Deus temível, o Senhor dos Exércitos, desvela-se no amor do Cristo Bom Pastor que se coloca ao nosso lado para que não vacilemos. A resposta de Santo Antão atinge o cerne, não só da pergunta, mas de toda a estrutura da criação e, de forma mais sublime, do Homem: agradar a Deus é conhecer intimamente a Deus, Uno e Trino, de uma maneira definitiva e absoluta, com só Ele poderia nos proporcionar.







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Sobre a Cognoscibilidade natural de Deus

janeiro 26th, 2010 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja

Prezados.

Pretendo fazer uma pequena série de posts sobre as relações entre Fé e Razão. Como Deus e sua existência são os primeiros objetos aos quais a teologia deve se voltar, começo por postar uma síntese dogmática católica sobre a possibilidade de se conhecer a existência de Deus.

A síntese abaixo, traduzida por mim a partir da edição americana da famosa obra de Ludwig Ott, Grundriss der katholtschen Dogmatik (que pode ser encontrada na Amazon.com pelo banner ao lado) tem como objetivo afirmar as verdades básicas enunciadas pela Igreja acerca do tema. Como uma síntese que é, não pretende senão apresentar as teses e os argumentos e provas existentes tais como a Igreja professa, sem a pretensão de desenvolvê-los tampouco esgotá-los.

Contudo, creio ser fundamental, como pedra angular da posição afirmativa da cognoscibilidade de Deus para a razão natural, explicitá-la com a maior clareza possível a fim de dirimir possíveis erros e rebater possíveis falsas acusações quanto às posições adotadas.

Devo notar também que, a partir da enunciação dos pontos abaixo, voltaremos a alguns destes pontos a fim de tentar explicitá-los ainda mais.

 

*  *  *

 

A EXISTÊNCIA DE DEUS

A Cognoscibilidade natural de Deus

 

§ I. Possibilidade de conhecer a Deus apenas com a luz da razão natural.

1. Dogma: Deus, nosso Criador e Senhor pode ser conhecido com certeza à luz da razão natural através das coisas criadas (de fé).

O Concílio Vaticano definiu: "Si quis Dixerit, Deum unum et al creatorem verum Dominum nostrum, per ea quae facta sunt Naturali rationis humanae lumine certo cognosci non posse ", a. s.; Dz 1806, cf. 1391, 1785.

A definição do Concílio Vaticano tem os seguintes elementos:

a) o objeto de nosso conhecimento é um, verdadeiro Deus, Criador Nosso Senhor e é, portanto, um Deus diferente do mundo e pessoal;

b) o princípio subjetivo do conhecimento está em um estado natural da razão coisas da natureza decaída;

c) os meios de conhecimento são as coisas criadas;

d) este conhecimento é, por si, um conhecimento certo;

e) é possível, embora não seja a única maneira de conhecer a Deus.

2. Provas pela Escritura

Segundo o testemunho da Escritura é possível saber a existência de Deus:

a) através da natureza. Sb 13, 1-9; ver. 15 diz: “Pela grandeza e beleza das coisas criadas, pelo raciocínio (analogós) se chega a conhecer o Criador destas”. Romanos 1, 20: "Pois desde a criação do mundo, o Deus invisível, seu eterno poder e divindade são conhecidas pelas criaturas, assim que são indesculpáveis. O conhecimento de Deus, testemunhado em ambos os lugares, é um conhecimento natural, verdadeiro, mediato e facilmente apreensível.

b) através da consciência. Rm 2, 14s: "Quando os gentios, guiados pela razão natural cumprem os preceitos da lei, eles mesmos, ser ter a lei [mosaica], são para si mesmos a lei. E com isso mostram que os preceitos da lei estão escritos em seus corações. " Os gentios conhecem naturalmente e, portanto, sem revelação sobrenatural, o essencial da lei do Antigo Testamento. Em seu coração há gravada uma lei cuja força obrigatória os faz conhecer o Supremo Legislador.

c) por meio da história. At 14, 14-16, 17, 26-29. São Paulo nos seus discursos de Listra e no Areópago de Atenas, declara que o próprio Deus havia dado testemunho de si aos povos gentios com incessantes benefícios e que é fácil encontrá-Lo, pois está muito perto de cada um de nós "porque nele vivemos movemos e existimos "(17, 28).

3. Prova pela Tradição

Os Santos Padres, de acordo com os ensinamentos da Sagrada Escritura, sempre insistiram que era possível e fácil de adquirir um conhecimento natural de Deus. Cf. Tertuliano, Apol. 17: "Oh testemunho da alma, que é naturalmente cristã ". Os padres gregos preferiram os argumentos da existência de Deus chamados cosmológicos, que partem da experiência externa; os padres latinos preferiram argumentos psicológicos, que partem da experiência interior. Cf. Teófilo de Antioquia, Ad Autolycum 1 4-5: "Deus fez todas as coisas do nada, dando-lhes a existência, de modo que através de suas obras conheceríamos e entenderíamos sua grandeza. Pois assim como na alma do homem não se vê a alma, porque é invisível aos olhos humanos, mas através dos movimentos corporais temos conhecimento da mesma, de forma semelhante Deus é também invisível para os olhos do homem, mas chegamos a vê-Lo e conhecê-Lo graças a sua providência e suas obras. Pois assim como a visão de um barco que desliza habilmente sobre as ondas dirigindo-se ao porto inferimos com toda evidência que haja em seu interior um piloto que o governa, da mesma maneira temos que pensar que Deus é o diretor do universo inteiro, ainda que não O vejamos com os olhos corporais, porque é invisível para eles.”Veja também Santo Irineu, Adv.. Haer. n 9, 1; São João Crisóstomo, In ep. ad Rom., hom. 3, 2 (mais de 1, 19).

4. A idéia “inata” de Deus?

Invocando a autoridade dos Santos Padres, muitos teólogos católicos, como Ludovico Thomassin, H. Klee, A. Staudenmaier, J. von Kuhn, ensinaram que a idéia de Deus não é adquirida raciocinando sobre o mundo da experiência, mas que é inata ao homem. É verdade que muitos pais da Igreja, como São Justino (Apol. 11 6) e Clemente de Alexandria (Strom. V 14, 133, 7), designaram a idéia de Deus como "conatural" (emfytos), “não aprendida" (adídakhtos), “aprendida por si mesma” (autodídakhtos, automathés) ou "dom da alma” (animae dos, Tertuliano, Adv. Marc. I 10). São João Damasceno diz, "O conhecimento da existência de Deus foi plantada por ele mesmo na natureza de todos” (De fide orth. I, 1). No entanto, esses mesmos pais ensinam que adquirimos o conhecimento de Deus através da contemplação da natureza, e, portanto, não significa que é inata em nós a idéia de Deus como tal, mas a capacidade de conhecê-Lo com facilidade e, de certo modo, espontaneamente, através de suas obras. Cf. S. Tomás, In Boethium De Trinitate, q. 1, a. 3 “eius cognitio nobis innata dicitur esse, in quantum per principia nobis innata de facili pericpere possumus Deus esse".

§ 2. Possibilidade de demonstrar a existência de Deus

Pode-se demonstrar a existência de Deus através do princípio do nexo de causalidade (sentença próxima à fé).

Os tradicionalistas L. E. Bautain (+1867) e A. Bonnetty (+1879), por requerimento eclesiástico, tiveram de concordar com a seguinte proposição: “A razão humana pode provar com certeza a existência de Deus” ( ‘ratiocinatio potest cum prova certitudine existentiam Dei "), DZ 1622, 1650. Sua Santidade o papa Pio X, no juramento prescrito (1910) contra os erros do modernismo, completou a definição que o Concílio Vaticano, havia dado sobre a possibilidade natural de conhecer a Deus, e precisa que a razão humana pode provar formalmente a existência de Deus através do princípio da causalidade: "Deum, rerum omnium principium et finem, naturali lumine rationis per ea quae facta sunt, hoc est per visibilia creationis opera, tanquam causam per effectus certo cognosci, adeoque demonstrari etiam posse” Dz. 2145.

 

A possibilidade de provar a existência de Deus se deduz:

a) Do dogma da cognoscibilidade natural de Deus; pois a prova da existência de Deus se distingue do conhecimento elementar que temos de Deus em que a base epistemológica daquele se apresenta de forma científica.

b) Do fato de que os teólogos, desde a época patrística, apresentaram argumentos para demonstrar a existência de Deus, cf. Aristides, Apol. 1, 1-3; Teófilo de Antioquia, Ad Autolycum 1 5; Minucio Félix, Octavius 17, 4 ss, 18, 4, Santo Agostinho, De vera religione 30-32; Conf X 6, XI, 4; São João Damasceno, De fide orth. 1 3.

A Escolástica foi capaz de mostrar em seus representantes mais notórios uma adesão fiel a esta verdade da demonstrabilidade da existência de Deus. S. Tomás de Aquino deu a forma clássica à argumentação escolástica para esta tese (S. Th 1 2, 3; SCG 1 13). Somente na escolástica tardia, alguns representantes influentes do nominalismo (Guilherme de Ockham, Nicolas de Autrecourt, Pierre d’Ailly), movido por seu ceticismo, começaram a por em dúvida a segurança desses argumentos.

Os argumentos para a existência de Deus se apóiam na validez absoluta do princípio de causalidade, formulado assim por S. Tomás: "Omne quod movetur, ab alio movetur” (moveri = mover-se = passar da potência ao ato). Enquanto Kant, influenciado por David Hume, restringe a validade deste princípio ao mundo da experiência, S. Tomás funda sua validade para o que está além do mundo da experiência,para o transcendente, na redução ao princípio da contradição, evidente por si mesmo; S.Th. 1 2, 3.







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Artigo Pastoreando – 9

novembro 24th, 2009 | 1 Comentário | Postado em Igreja

 

Desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia

anastasisO quinto artigo da nossa Profissão de Fé é, talvez, aquele que mais nos parece obscuro mas que,  no entanto, apresenta o mistério central de nossa Salvação e que por isso deve ser contemplado e meditado em toda sua imensa extensão de significado. Como nos diz São Paulo, “se Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé” (1Cor. 15,17).

Como se pode notar há duas verdades veiculadas neste artigo que, embora possamos dividir para melhor explicar, estão intimamente ligadas.

A primeira diz respeito à descida de Jesus Cristo à mansão dos mortos. Com a Paixão e Morte do Senhor em vista de sua Ressurreição, a própria morte é aniquilada e as portas do Céu nos são abertas definitivamente. Assim, a Igreja ensina que é para abrir também as portas aos mortos que O precederam que afirmamos a descida de Jesus à morada dos mortos. Os efeitos salvíficos do Cristo são, portanto, atemporais, isto é, não se limitam como todos os outros eventos, ao presente em que ocorrem e ao futuro que se dá a partir deles, mas estende-se por toda a extensão da história da humanidade, inclusive para aqueles que O precederam a fim de que todos conheçam o Verbo Encarnado para nossa Salvação. Sua visita aos mortos que para nós é tempo de silêncio e vigília, corresponde no ciclo litúrgico ao Sábado Santo.

A segunda e gloriosa verdade deste artigo é a Ressurreição do Senhor, propriamente dita. Com ela consuma o Tríduo Pascal e o projeto amoroso de Deus para nós. Ela marca o ápice dos tempos. A Ressurreição é a declaração definitiva de Deus ao gênero humano: ao problema da morte, recebemos a resposta da vida plena, cujo sinal já nos era apresentado na abertura das sepulturas quando da Crucificação (cf. Mt. 27,52) e à questão do afastamento de Deus, está dada a supressão do pecado e a Aliança eterna com Ele para que sejamos partícipes da natureza divina (1 Pd. 1,4), já vislumbrada na ruptura do véu do Santuário (cf. Mt. 27,51). Assim, Deus está plenamente acessível a todos nós para que, tomando parte da Aliança por Cristo Jesus, possamos gozar da Vida e do Amor que nunca se esgotam.

Um abraço.

Gabriel Ferreira







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Pastores que fazem o trabalho dos lobos

novembro 23rd, 2009 | 3 Comentários | Postado em Igreja

 

A humanidade irá preferir renunciar a todas as questões filosóficas – no Marxismo ou positivismo de todas as cores – a aceitar uma filosofia que encontre sua única resposta final na revelação de Cristo. Cristo enviou os seus discípulos como ovelhas no meio de lobos. Deveríamos meditar sobre esta comparação, antes de fazermos um pacto com o mundo.

(Card. H. U. von Balthasar, Communio 4 (1988) p. 309), citado a partir daqui.

 

Bom Pastor, catacumbas de Roma, séc. III

É o próprio Senhor que o diz: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16).  Assim, por contraposição, a imagem do Cristo – e por similitude, do clero que deveria zelar e conduzir retamente – é a do Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas (cf. Jo 10,11). Contudo, não é raro presenciarmos padres e, por que não dizer, bispos que, subvertendo a vocação do Senhor, agem como lobos que espantam e parecem trabalhar sistematicamente para destruir o rebanho.

Hoje mesmo, encontrei uma ex-aluna da minha turma de Catequese de adultos que me contava da sua traumática experiência no Curso de Noivos. Segundo ela, o sacerdote (já conhecido por mim e responsável por grandes bobagens que já foram comentadas por aqui)  falou sobre as relações entre os homens e as mulheres no hinduísmo (!!!) e sobre como não é preciso ser católico para bem viver o matrimônio (!!!).

Para além do óbvio, o que horroriza é a completa inversão do papel do sacerdote, desprezando seu dever de ensinar e instruir. Ainda segundo minha ex-aluna, que é fonte bem confiável, o padre sequer tangenciou a explicitação do sacramento e da visão da Igreja sobre a união de um homem e de uma mulher. A isso, preferiu tecer longos comentários sobre a importância do toque e do carinho, como só uma das retardadas apresentadoras de programas vespertinos sabe fazer.

Agora, veja outra situação: tenho um casal de amigos muito queridos. Ambos poderiam ser ditos ateus. Assim, não pretendem se casar na Igreja, por uma honestidade intelectual, moral e, porque não dizer, espiritual, que respeito muito. Contudo, em diversas conversas agradabilíssimas que tivemos, estes dois sabem exatamente que o Matrimônio é índice do amor de Deus para com o gênero humano e de Cristo por sua Igreja e que, justamente por isso, é elevado pelo Senhor mesmo, à dignidade de Sacramento (ou sinal sensível da Graça invisível instituído para nossa justificação, como o declara o Concíclio de Trento). Em outras palavras, sabem mais do que todos os que fizeram o famigerado curso de noivos.

Note bem, embora eu seja catequista e tenha assumido como chamado pessoal o convite de São Pedro (“Estejais sempre prontos a dar razão de vossa fé a todo aquele que vo-la pedir (Pd. 3,15), não cabe a mim, primeiramente, o múnus de ensinar. Ele é do Bispo e, por extensão, dos presbíteros. São eles que deveriam, como diz Chesterton, manter erguidos os muros que permitem que as crianças brinquem sem caírem no abismo. Mas na prática, muitos deles fazem diferente. São pérfidos detratores que deveriam ser, no mínimo impedidos de falar, pois jamais serão dignos do pastoreio à imagem do Cristo.







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Artigo Pastoreando – 8

novembro 9th, 2009 | 1 Comentário | Postado em Igreja

 

Padeceu sob Pôncio Pilatos: foi crucificado, morto e sepultado

 

crucificacao tintorettoO quarto artigo do Símbolo Apostólico sintetiza diversos aspectos fundamentais da nossa fé na  medida em que reúne elementos fundamentais da nossa Salvação.

Em primeiro lugar, há uma indicação de natureza histórica: O julgamento e a condenação de Nosso Senhor Jesus Cristo tem uma determinada localização na história humana, a saber, foi na época em que Pôncio Pilatos governava a Judéia. Contudo, a importância da presença de Cristo em nossa história a ultrapassa infinitamente. Ele vem ao encontro da humanidade no tempo para nos remir de uma falta supratemporal, ou seja, de nossa ofensa infinita a Deus. Como nos diz São Tomás de Aquino, Cristo ofereceu-se em sacrifício em nosso favor por duas razões: a primeira, para ser o remédio para o pecado e, a segunda, para servir de exemplo para como deve ser a nossa própria vida, a saber, de total entrega a Deus Pai. Assim, para exaurir nossa culpa, foi necessário que a própria Segunda Pessoa da Trindade se oferecesse em sacrifício por nós. Do mesmo modo que em Adão – primeiro homem – todo o gênero humano pecou, em Cristo – novo Adão – todos fomos justificados.

Uma vez morto, e morto verdadeiramente, o Senhor foi sepultado conforme os costumes judaicos. Contudo, aquilo que é o centro do artigo não pode deixar de ser outro que não a Cruz.

O Senhor foi crucificado, isto é, padeceu de uma forma violentíssima para que, ao contemplarmos o horror de sua morte, pudéssemos também nos escandalizarmos com nossos pecados. Devemos ver então, no Crucificado, todas as virtudes humanas em sua máxima expressão, bem como o amor de Deus para conosco em todo seu esplendor. É também de Seu lado ferido que nasce a Igreja, como nos lembra São João Crisóstomo, que nos ensina a reconhecer na água que dele escorre, o santo Batismo que nos assimila ao Senhor, e no Seu preciosíssimo Sangue, a Eucaristia, fonte e ápice de toda a vida eclesial. Contemplemos o Senhor na Cruz, o Deus que se esvazia por nós e adoremos o mistério que nos salva.

Um abraço.
Gabriel Ferreira

 

P.S.:  Veja uma das mais fortes crucificações, a de Tintoretto, em imagem de alta definição aqui.







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Acerbo Nimis – sobre o ensino do catecismo

outubro 13th, 2009 | Comente | Postado em Educação, Igreja

Abaixo, um dos mais preciosos documentos do Magistério sobre a necessidade e a importância da catequese.

 

 

CARTA ENCÍCLICA ACERBO NIMIS

 

image

Sobre o Ensino do Catecismo.

aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos
e Mais Ordinários em Paz e Comunhão com a Santa Sé Apostólica:
Sobre o Ensino do Catecismo.

PAPA PIO X

 

 

Veneráveis Irmãos:

Saúde e Bênção Apostólica.

1.  Pelos inescrutáveis desígnios de Deus fomos elevados de nossa pequenez ao cargo de Supremo Pastor do Rebanho de Cristo, em dias bem críticos e amargos, pois o antigo inimigo anda em redor deste Rebanho e lhe arma laços em tão pérfida astúcia, que hoje, principalmente, parece haver-se cumprido aquela profecia do Apóstolo aos anciãos da Igreja de Éfeso: Sei que vos hão de assaltar lobos vorazes, que não pouparão o Rebanho (At 20,29). Dos males que afligem a Religião não há quem, animado de zelo pela Glória divina, deixe de investigar as causas e razões, acontecendo que, como as encontra cada qual diversas, proponha diferentes meios, de acordo com a sua opinião pessoal, para defender e restaurar o Reino de Deus na Terra. Não proscrevemos, Veneráveis Irmãos, os pareceres alheios, mas estamos com os que pensam que esta depressão e debilidade das almas, de que derivam os maiores males, provêm, principalmente, da ignorância das Coisas Divinas. Esta opinião concorda inteiramente com o que o Deus mesmo declarou pelo Profeta Oséias: Não há conhecimento de Deus na Terra. A maldição e a mentira, e o homicídio e o roubo e o adultério tudo inundaram; o sangue junta-se ao sangue e por causa disto a Terra se cobrirá de luto e todos os seus moradores desfalecerão” (Os 4,1-3).

Necessidade da Instrução

2.  Quão fundadas são, desgraçadamente, estas lamentações, hoje, que existe tão crescido número de pessoas, entre o Povo Cristão, que ignoram totalmente as coisas que é mister conhecer para conseguir a Salvação Eterna! Ao dizer Povo Cristão não nos referimos somente à plebe, ou às classes inferiores às quais servem de escusa o acharem-se com freqüência submetidas a homens tão duros que lhes não deixam tempo nem para cuidar de si mesmas, nem das coisas que se referem à sua alma mas e principalmente falamos daqueles aos quais não falta entendimento nem cultura e até se mostram dotados de profana erudição, apesar de que em coisas de Religião vivem da maneira mais temerária e imprudente que imaginar se possa. Dificílimo seria ponderar a espessura das trevas que os envolvem e o que mais triste é a tranqüilidade com que nelas permanecem! De Deus, Soberano Autor e Moderador de todas as coisas, e da Sabedoria da Fé Cristã não se preocupam, de forma que verdadeiramente nada sabem da Encarnação do Verbo de Deus, nem da Perfeita Restauração do Gênero Humano, por Ele consumada; nada sabem acerca da Graça, principal auxílio para alcançar os Bens Eternos; nada, acerca do Augusto Sacrifício nem dos Sacramentos, mediante os quais conseguimos e conservamos a Graça. Quanto ao pecado, não conhecem sua malícia nem o opróbrio que consigo traz, de sorte que não põem o menor cuidado em evitá-lo ou expiá-lo, e chegam ao Dia Extremo em disposição tal que, para não os deixar sem qualquer Esperança de Salvação, o Sacerdote se vê constrangido a aproveitar os derradeiros instantes de vida para sumariamente lhes ensinar Religião, ao invés de empregá-los principalmente, conforme conviria, em movê-los a afetos de Caridade; isto quando não sucede que o moribundo sofra de tão culpável ignorância que tenha por inútil o auxílio do Sacerdote e resolva tranqüilamente franquear os Umbrais da Eternidade sem haver prestado a Deus conta dos seus pecados. Por isso, o Nosso Predecessor Bento XIV justamente escreveu: Afirmamos que a maior parte dos condenados às penas eternas padece sua perpétua desgraça por ignorar os Mistérios da Fé, que necessariamente se devem conhecer e crer, para ser contado no número dos eleitos (Instit.  XXVII, 18).

3.  Sendo assim, Veneráveis Irmãos, que há de surpreendente, pergunto, em que a corrupção dos costumes e sua depravação sejam tão grandes e cresçam diariamente, não digo nas nações bárbaras, mas até nos próprios Povos que ostentam o nome de Cristãos? Com razão dizia o Apóstolo São Paulo, escrevendo aos Efésios:A fornicação e toda espécie de impureza ou avareza nem sequer se nomeie entre vós, como convém a Santos; nem palavras torpes, nem chocarrices (Ef 5,3-4). Como fundamento deste Pudor e Santidade, com os quais se moderam as paixões, determinou a Ciência das Coisas Divinas: E assim, cuidai, irmãos, em andar com Prudência; não como insensatos, mas como circunspectos Portanto, não sejais imprudentes, mas considerai qual é a Vontade de Deus (Ef 5, 15.17).
Sentença justa; porque a vontade humana apenas conserva algum resto daquele amor à honestidade e à retidão, inspirados ao homem por Deus, seu Criador, amor que o impelia para um bem, não velado por sombras, mas claramente visto. Mas, depravada pela corrupção do pecado original e esquecida de Deus, seu Gerador, a vontade humana inclina-se a amar a vaidade e a procurar a mentira. Extraviada e cega pelas más paixões, necessita de um guia que lhe mostre o caminho para que retome as Veredas da Justiça, que desgraçadamente abandonou. Este guia, que não é preciso buscar fora do homem, e de que a natureza o proveu, é a própria razão; mas se à razão falta aquela luz, irmã sua, que é a Ciência das Coisas Divinas, sucederá que um cego guiará outro cego e ambos cairão no abismo. O Santo Rei Davi, glorificando a Deus por esta Luz da Verdade que havia infundido na razão humana, dizia: A luz do Vosso rosto, Senhor, está impressa em nós”. E indicava o efeito desta comunicação da Luz, acrescentando: Infundistes a alegria em meu coração (Sl 4, 6-7).

Efeitos das Doutrina Cristã

4.  Descobre-se facilmente que assim é, porque, de fato, a Doutrina Cristã nos faz conhecer a Deus e o que chamamos suas Infinitas Perfeições, quiçá mais fundamente que as forças naturais. E de que forma? Mandando-nos ao mesmo tempo reverenciar a Deus por obrigação de ”, que se refere à razão; por dever de Esperança”, que se refere à vontade, e por dever de Caridade”, que se refere ao coração, com o qual torna o homem inteiramente submetido a Deus, seu Criador e Moderador. De igual forma só a Doutrina Cristã estabelece o homem na posse de sua eminente dignidade natural como filho do Pai Celestial, que está nos Céus, e que o fez à Sua imagem e semelhança para viver eternamente feliz com Ele. Mas desta mesma dignidade e do conhecimento que dela se deve ter, deduz Cristo que os homens devem amar-se como irmãos e viver na Terra como convém aos Filhos da Luz, não em glutonerias e embriaguez, não em desonestidades e dissoluções, não em contendas e emulações (Rm 13,13). Manda-nos, outrossim, que nos entreguemos às Mãos de Deus, que é quem cuida de nós; que socorramos os pobres, façamos o bem a nossos inimigos e prefiramos os Bens Eternos da alma aos perecedores bens temporais. E, mesmo sem esmiuçar tudo, não é, porventura, a Doutrina de Cristo que recomenda e prescreve ao homem soberbo aquela humildade que é o verdadeiro manancial de Sua Glória? Todo aquele, pois, que se humilhar, esse será o maior no Reino dos Céus (Mt 18,4). Nesta Celestial Doutrina nos é ensinada igualmente a Prudência de Espírito, que serve para nos proteger da prudência da carne; a Justiça, por meio da qual damos a cada um o que lhe pertence; a Fortaleza, que nos torna capaz de sofrer e padecer tudo generosamente por Deus e pela Bem-aventurança Eterna; enfim, a Temperança, que nos torna amável a Pobreza por Amor de Deus, e que em meio de nossas humilhações faz com que nos gloriemos na Cruz. De maneira que pela Sabedoria Cristã não somente recebe nossa inteligência a Luz que nos permite alcançar a Verdade, mas até a vontade fica empolgada daquele Amor que nos conduz a Deus e a Ele nos une mediante o exercício da Virtude.

5.  Longe estamos de afirmar que a malícia da alma e a corrupção dos costumes não possam co-existir com a consciência da Religião. Prouvera a Deus que os fatos demonstrassem o contrário. Mas compreendemos que quando e espírito está envolto pelas espessas trevas da ignorância, não se pode capacitar nem da retidão da vontade nem dos bons costumes, porque se, caminhando com olhos abertos, pode o homem apartar-se do bom caminho, o que sofre de cegueira está em perigo iminente de desviar-se. Acrescente-se que em quem não está de todo apagado o archote da Fé, resta ainda uma Esperança de que se emende e se cure da corrupção dos costumes; mas quando a ignorância se junta à depravação, já não resta possibilidade de remédio, mas está aberto o caminho da ruína.

O Primeiro Ministério.

6.  Posto que da ignorância da Religião procedem tão graves danos, e, de outro lado, são tão grandes a necessidade e a utilidade da Doutrina Religiosa, desde que, desconhecendo-a,  em vão se esperaria que alguém cumprisse as obrigações de Cristão, convém saber agora a quem compete preservar as almas desta perniciosa ignorância e instruí-las em tão indispensável Ciência. O que, Veneráveis Irmãos, não oferece dificuldade alguma, porque essa transcendente missão recai sobre os Pastores de Almas. Estes, efetivamente, acham-se obrigados por preceito do próprio Cristo a conhecer e apascentar as ovelhas que lhes foram confiadas. Apascentar é, antes do mais, doutrinar. Eu vos darei Pastores segundo o Meu Coração, que vos apascentarão com a Ciência e com a Doutrina (Jr 3,15).
Assim falava Jeremias, inspirado por Deus; pelo que dizia o Apóstolo São Paulo: Cristo não me enviou para Batizar, mas para pregar (1Cor 1,17). Advertindo assim que o principal Ministério de quantos exercem, em certo sentido, o governo da Igreja, consiste em ensinar aos fiéis a Doutrina Sagrada.

7.  Inútil se nos afigura aduzir novas provas da excelência deste Ministério e da estima que merece de Deus. Certo é que Deus exalta grandemente a Piedade que nos move a procurar o alívio das humanas misérias; mas, quem negará que muito acima dela devem ser colocados o zelo e o trabalho mediante os quais o entendimento recebe o ensino e os conselhos referentes, não às necessidades terrenas, mas aos Bens Celestiais? Nada pode ser mais grato a Jesus Cristo, Salvador das almas, que pelo Profeta Isaías disse de Si Mesmo: Fui enviado para Evangelizar os pobres (Lc 4,18).
Importa muito, Veneráveis Irmãos, insistir para que todos os Sacerdotes compreendam bem que ninguém tem maior obrigação e dever mais imperioso. Porque, quem negará que no Sacerdote hão de unir-se a Ciência e a Santidade de Vida? Nos lábios do Sacerdote deve estar o depósito da Ciência (Ml 2,7). E, com efeito, a Igreja o exige rigorosamente de quantos aspiram a ingressar no Sacerdócio. E por que isto? Porque o Povo Cristão espera receber do sacerdote o ensinamento da Divina Lei e porque Deus o destina para propagá-la. De sua boca se há de aprender a Lei, pois que ele é o Anjo do Senhor dos Exércitos (Ml 2,7). Por isso, nas Ordens Sacras, o Bispo diz, dirigindo-se aos que vão ser elevados ao Sacerdócio: Que vossa Doutrina seja remédio espiritual para o Povo de Deus, e os cooperadores de nossa Ordem sejam prudentes, para que, meditando dia e noite acerca da Lei, creiam no que leram e ensinem aquilo em que acreditam (Pontif. Romano).
Se não há Sacerdote algum a quem não correspondam estas obrigações, quais não serão as daqueles que pelo nome e autoridade que ostentam e por sua mesma dignidade têm a seu cargo e como que por compromisso a Cura das Almas? Estes devem ser colocados de algum modo nas fileiras dos Pastores e Doutores que Jesus Cristo deu aos fiéis para que não sejam como meninos flutuantes, e levados, ao sabor de todo vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia dos que induzem ao erro, mas, praticando a Verdade na Caridade, cresçamos em todas as coisas naquele que é a Cabeça, o Cristo (Ef 4, 14-15).

Disposições da Igreja.

8.  Por isso, o Sacrossanto Concílio de Trento, falando dos Pastores de Almas, julgou que a primeira e a maior de suas obrigações era a de ensinar o Povo Cristão (Sess.V, c. 2 de Refor.; XXII, c. 8; sess. XXIV. c. 4 e 7 de Refor.). Dispôs, em conseqüência, que ao menos nos Domingos e Festas Solenes dessem ao Povo Instrução Religiosa, e durante os Santos Tempos de Avento e Quaresma diariamente ou ao menos três vezes por semana. Mas não só isto, porque acrescenta o Concílio que os Párocos estão obrigados, ao menos nos Domingos e Dias de Festa, a ensinar, por si ou por outros, aos meninos as Verdades da Fé e a Obediência que devem a Deus e a seus pais; e lhes manda, outrossim, que, quando tenham de administrar algum Sacramento, instruam em sua virtude os que o vão receber, explicando-o por meio de Pregações em língua vulgar.

9.  Em sua Constituição Etsi Minime”, Nosso Predecessor Bento XIV resumiu estas prescrições e as determinou claramente, dizendo: Duas obrigações impõe principalmente o Concílio de Trento aos Pastores de almas: uma, que todos os Dias de Festa falem ao Povo acerca das Coisas Divinas; outra, que ensinem aos meninos e aos ignorantes os Elementos da Lei Divina e da Fé”. Este Sapientíssimo Pontífice distingue justamente o duplo Ministério, a saber, a Pregação, que habitualmente se chama Explicação do Evangelho, e o Ensino da Doutrina Cristã. Não faltarão, porventura, Sacerdotes que, movidos do desejo de poupar-se trabalho, crêem que com as Homilias satisfazem a obrigação de ensinar o Catecismo. Quem quer que reflita descobrirá a erronia desta opinião; porque a Pregação do Evangelho está destinada aos que já possuem os Elementos da Fé e vem a ser como o pão que se deve dar aos adultos; mas, pelo contrário, o Ensino do Catecismo é aquele alimento de que São Pedro queria que todos o desejassem avidamente com simplicidade, como meninos recém-nascidos. Este Ofício de Catequista consiste em[1] escolher algumas Verdades relativas à Fé e aos Bons Costumes Cristãos e expô-las e explicá-las em todos os seus aspectos. E como o fim do ensino é a Perfeição da Vida, o Catequista há de comparar o que Deus manda obrar e o que os homens realmente fazem, depois do que, e havendo extraído oportunamente algum exemplo da Sagrada Escritura, da História da Igreja ou das Vidas dos Santos, há de aconselhar o seu auditório e como que indicar-lhe a dedo a norma a que se deve ajustar a vida, e terminará exortando os presentes a fugir dos vícios e a praticar a Virtude.

Instrução Popular.

10.  Não ignoramos, em verdade, que o Ofício de Ensinar a Doutrina Cristã não é grato a muitos, que o estimam em pouco e acaso impróprio para conseguir o elogio popular; isto posto, entendemos que semelhante juízo pertence aos que se deixam levar pela leviandade mais do que pela Verdade. Não negamos certamente a aprovação devida aos Oradores Sacros que, movidos do sincero desejo da Glória Divina, se empregam na defesa e reivindicação da Fé ou em fazer o Panegírico dos Santos; mas seu labor requer outra preliminar, a dos Catequistas, pois, faltando esta, não há fundamento e em vão se fadigam os que edificam a casa. Assaz freqüente é que floridos discursos, recebidos com aplauso por nutridas assembléias, somente sirvam para agradar ao ouvido e não comovam as almas. Em troca, o Ensino Catequético, ainda que simples e humilde, merecem que se lhe apliquem estas palavras que Deus inspirou a Isaías: Do mesmo modo que a chuva e a neve descem do Céu e a ele não retornam, mas empapam a terra e a penetram e fecundam, a fim de que produzam semente para semear e pão para comer, assim será a Palavra que sai da minha boca: não tornará a mim vazia, mas obrará tudo aquilo que Eu quero e executará felizmente aquelas coisas para que Eu a enviei (Is 55,10-11). O mesmo juízo se há de formular daqueles Sacerdotes que, para melhor exporem as Verdades da Religião, publicam eruditos volumes, motivo pelo qual são dignos, certamente, de copiosos elogios; mas, sem embargo, quão reduzido é o número dos que consultam as obras deste gênero e destas tiram os frutos que corresponderiam aos desejos do autor! Mas o Ensino da Doutrina Cristã, se feito como se deve fazê-lo, nunca é inútil para os que o escutam.

11.  Convém repeti-lo, para inflamar o zelo dos Ministros do Senhor; já é crescidíssimo, e aumenta cada dia mais, o número dos que tudo ignoram em matéria de Religião, ou têm de Deus e da Fé Cristã conceito tal, que, em plena Luz da Verdade Católica, lhes permite viver como pagãos. Ai! Quão grande é o número, não diremos de meninos, mas de adultos e até de anciãos, encurvados pela idade, que ignoram absolutamente os principais Mistérios da Fé, e, ouvindo falar de cristo, respondem: Quem é Ele para que eu creia nEle?” (Jo 9,36). Daí o terem por lícito forjar e manter ódio contra o próximo, fazer contratos iníquos, explorar negócios infames, fazer empréstimos usurários e constituir-se réus de outras prevaricações semelhantes. Daí que, ignorantes da Lei de Cristo que não somente proíbe toda ação torpe, mas também todo pensamento voluntário e o desejo de cometê-la muitos que, seja lá pelo que for, quase se abstêm dos prazeres vergonhosos, alimentam em suas almas, que carecem de Princípios Religiosos, os pensamentos mais perversos, e tornam o número de suas iniqüidades maior que o dos cabelos de sua cabeça. E deve-se repetir que estes vícios não se encontram somente entre a gente do Campo e o Povo Baixo das Cidades, mas também, e acaso com maior freqüência, entre homens de outra categoria, inclusive entre os que se invaidecem de seu saber e, apoiados em uma vã erudição, pretendem ridicularizar a Religião e blasfemar de tudo quanto não conhecem (Jd 10).

12. Se é coisa vã esperar colheita de terra que não foi semeada, como se pode esperar gerações adornadas de boas obras, se oportunamente não foram instruídas na Doutrina Cristã? Donde justamente inferimos que, se a Fé enlanguesce em nossos dias a ponto de que em muitos sujeitos parece morta, é que se tem cumprido descuidadamente, ou se omitiu de todo, a obrigação de ensinar as Verdades contidas no Catecismo. Inútil será dizer, para encontrar escusa, que a Fé nos foi dada gratuitamente e conferida a cada um no Batismo. Porque, certamente, quando fomos batizados em Jesus Cristo , fomos enriquecidos com a posse da Fé; mas esta divina semente não chega a crescer e lançar grandes ramos (Mc 4,32) se fica abandonada a si mesma e à sua nativa Virtude. Tem o homem, desde que vem a este mundo, a faculdade de entender; mas esta faculdade necessita da excitação da palavra materna para converter-se em ato, como se costuma dizer nas escolas. Isto, precisamente, acontece ao homem Cristão, que, ao renascer pela água e pelo Espírito Santo, traz como que em germe a Fé; necessita, porém, do ensinamento da Igreja para que esta Fé possa nutrir-se, desenvolver-se e dar fruto. Pelo que escrevia o Apóstolo: A Fé provém do ouvir e o ouvir depende da Pregação da Palavra de Cristo (Rm 10,17). E, para mostrar a necessidade do ensino, acrescentou: Como ouvirão falar, se não há quem lhes pregue?” (Rm 10,14).

Normas.

13.  Se, pelo que até aqui foi exposto, já se pode ver qual a importância da Instrução Religiosa do Povo, devemos fazer quanto nos seja possível a fim de que o Ensino da Sagrada Doutrina, que, servindo-nos das palavras do Nosso Predecessor Bento XIV, é a instituição mais útil para a Glória de Deus e a Salvação das Almas (Const. Etsi Minime, 13), se mantenha sempre florescente ou, onde tenha sido descuidada, se restaure. Assim, pois, Veneráveis Irmãos, querendo cumprir esta grave obrigação do Apostolado Supremo e fazer que em toda parte se observem em matéria tão importante as mesmas práticas, em virtude de Nossa Suprema Autoridade, estabelecemos para todas as Dioceses as seguintes disposições, que deverão ser rigorosamente observadas e cumpridas:

14. I.  Todos os Párocos, e em geral quantos Sacerdotes exercem a Cura de Almas, hão de instruir com respeito ao Catecismo, durante uma hora inteira, todos os Domingos e Dias de Festa do ano, sem exceptuar nenhum, a todos os meninos e meninas naquilo que devem crer e praticar para alcançar a Salvação Eterna.

15. II.  Os mesmos hão de preparar as meninas e meninos, em época fixa do ano, e mediante Instrução que há de durar vários dias, a receber dignamente os Sacramentos da Penitência e Confirmação.

16. III.  Além disso, hão de preparar com especial cuidado aos jovenzinhos e jovenzinhas, para que, santamente, se aproximem pela primeira vez da Sagrada Mesa, valendo-se para este fim de oportunas Instruções e Exortações, durante todos os dias da Quaresma, e, se for necessário, durante vários outros depois da Páscoa.

17. IV.  Em todas as Paróquias se erigirá canonicamente a Associação que vulgarmente se denomina Congregação da Doutrina Cristã [Cf. CD, 30], com a qual, principalmente onde aconteça ser escasso o número de Sacerdotes, terão os Párocos auxiliares do Estado Secular para o Ensino do Catecismo, os quais se ocuparão neste Ministério, tanto por zelo da Glória de Deus, como para lucrar as Santas Indulgências que os romanos Pontífices têm enriquecido essa Associação.

18. V.  Nas grandes cidades, principalmente onde haja Faculdades maiores, Liceus e Colégios, fundem-se Escolas de Religião, para instruir nas Verdades da Fé e nas práticas da Vida Cristã a Juventude que freqüenta as Escolas Públicas em que se não menciona as Coisas de Religião.

19. VI.  Porque nestes tempos de desordem a Idade Madura não está menos que a Infância necessitada de Instrução Religiosa, os Párocos e quantos Sacerdotes tenham Cura de Almas, além da costumada Homilia sobre o Santo Evangelho, que hão de fazer todos os Dias de Festa, na Missa Paroquial, escolham a hora mais oportuna para o comparecimento dos fiéis exceptuando a destinada à Doutrina dos meninos e façam Instruções Catequísticas aos adultos, em forma simples e acomodadas às suas inteligências, devendo para isso acomodar-se ao Catecismo do Concílio de Trento; de tal modo que no espaço de quatro ou cinco anos expliquem quanto se refere ao Símbolo, aos Sacramentos, ao Decálogo, à Oração e aos Mandamentos da Igreja.

20. VII. Todas as coisas, Veneráveis Irmãos, mandamos e estabelecemos em virtude de Nossa Autoridade Apostólica. Agora, obrigação vossa é procurar, cada qual em sua própria Diocese, que estas prescrições se cumpram inteiramente e sem tardança. Velai, pois, e, com a autoridade que vos é peculiar, procurai que nossos mandamentos não caiam em olvido ou o que seria igual se cumpram com negligência e frouxidão. Para evitar esta falta, haveis de empregar as recomendações mais assíduas e imperativas aos Párocos, a fim de que não expliquem o Catecismo sem preparação, mas preparando-se antes com esmero, de modo que não falem a linguagem da sabedoria humana, senão que com simplicidade de coração e sinceridade diante de Deus (2Cor 1,12) sigam o exemplo de Cristo, que, embora expusesse coisas que estavam ocultas desde a criação do mundo (Mt 12,34), sem embargo as dizia todas ao povo por meio de Parábolas ou exemplos, e sem Parábolas não lhes pregava (Mt 12,34). Sabemos também que o mesmo fizeram os Apóstolos, ensinados por Jesus Cristo, e deles dizia São Gregório Magno: Puseram todo cuidado em pregar aos povos ignorantes coisas simples e acessíveis, e não coisas altas e árduas (Moral. lib. 17, c. 26). E, em Coisas de Religião, uma grande parte de homens de nosso tempo deve ser considerada ignorante.


O Trabalho do Ensino.

21. Não quiséramos que alguém, em razão desta mesma simplicidade que convém observar, imaginasse que o Ensino Catequístico não requeira trabalho nem meditação; pelo contrário, são de maior necessidade que em qualquer outra. É mais fácil achar um Orador que fale com abundância e brilho, que um Catequista cujas explicações mereçam elogios em tudo. Todos , portanto, hão de ter em conta que, por grande que seja a facilidade de conceitos e de expressão de que sejam naturalmente dotados, nenhum falará da Doutrina Cristã com proveito espiritual dos adultos e dos meninos, se antes não se preparou com estudos e séria meditação. Enganam-se os que, fiando-se na inexperiência e aviltamento intelectual do Povo, julgam-se poderem proceder negligentemente nesta matéria. O contrário é que é a verdade; quanto mais seja a incultura do auditório, maior zelo e cuidado se requerem para lograr que as Verdades mais sublimes, tão elevadas sobre o entendimento da generalidade dos homens, penetrem na inteligência dos ignorantes, os quais, não menos que os sábios, necessitam conhecê-las para alcançar a Eterna Bem-Aventurança.

22.  Seja-nos permitido, Veneráveis Irmãos, dizer-vos ao terminar esta Carta, o que disse Moisés: Aquele que seja do Senhor, reúna-se comigo (Ex 32,26). Rogamo-vos e suplicamos que observeis quão grandes são os estragos que produz nas almas a só ignorância das Coisas Divinas. Talvez muitas outras obras úteis e dignas de elogio se encontrem estabelecidas por vós nas vossas Dioceses, para bem de vossos respectivos rebanhos; mas, com preferência a todas elas, e com todo o empenho, todo o zelo e toda a constância que vos sejam possíveis, haveis de cuidar esmeradamente de que o conhecimento da Doutrina Cristã chegue a penetrar na mente e no coração de todos. Comunique cada qual ao próximo repetimos com o Apóstolo São Pedro a graça segundo a recebeu, como bons dispensadores dos dons de Deus, os quais são multiformes (1Pe 4,10).

Que, mediante a intercessão da Imaculada e Bem-Aventurada Virgem, vosso zelo e piedosa indústria se excitem com a Bênção Apostólica, que amorosamente vos concedemos, a vós, a vosso Clero e ao Povo que vos está confiado, e seja testemunha de Nosso afeto e primícias dos Divinos Dons.

         

  Dado em Roma,

            junto de São Pedro,

            no dia 15 de Abril do ano de 1905,

            segundo de Nosso Pontificado.

      PIO, PAPA X







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Artigo Pastoreando – 5

agosto 3rd, 2009 | Comente | Postado em Igreja

Dando continuidade às minhas pequenas reflexões sobre o Credo, aqui vai a minha coluna deste mês.

* * *

Creio em Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra

pai-capelasistina

O primeiro dos doze artigos do Credo, reúne em uma só asserção os principais atributos de  Deus e da primeira Pessoa, o Pai. Devemos lembrar, antes de tudo, que a onipotência e a co-laboração na criação também pertencem às demais Pessoas da Santíssima Trindade. Contudo, o Pai aparece em primeiro lugar pois, como nos diz São Pio X, Ele não procede de nenhuma das outras Pessoas mas é, justamente, Aquele de quem o Filho e o Espírito Santo procedem. Há quatro pontos fundamentais nesta primeira afirmação das verdades de fé.

O primeiro deles é que cremos em Deus. No dia-a-dia dizemos “Deus” sem nos atentarmos para o que a palavra aponta. Primeiro, ao professarmos a crença em Deus, escrito inclusive com letra maiúscula, queremos dizer que temos fé em um Deus único (e não um deus entre outros deuses). Cremos que Ele é Deus e, portanto sumamente perfeito e sumamente bom e em Quem todas as qualidades superam muitíssimo nosso entendimento.

Em seguida, que Ele é também Pai. Em um primeiro sentido, que Ele é Pai da segunda pessoa da Trindade, Seu Filho. Assim também, é o Pai de toda a humanidade, já que a cria e a sustenta e, por último, é Pai de modo especial daqueles que se tornaram seus filhos adotivos por estarem associados a seu Filho por excelência, Cristo Jesus.

Ele também é Todo-Poderoso ou Onipotente. Por ser Deus, fonte e origem de tudo o que existe e sumamente perfeitíssimo, nEle não há distinção entre sua vontade, seu pensamento e a realidade. Só Deus é o Senhor de tudo o que há porque sua santíssima vontade é absolutamente soberana. Com isso também queremos professar que em Deus não há pecado nem erro, já que estes não são “poderes” ou possibilidades, mas justamente falta deles. Ou seja, sendo Todo-Poderoso, não há em Deus nenhuma imperfeição.

Por fim, o Deus único e nosso Pai é fonte e origem de toda a criação. Criar, neste sentido, só pode ser atributo de Deus pois significa criar a partir do nada. Aqui, céu e terra querem significar a totalidade de tudo o que há. É Deus Ele mesmo quem cria e sustenta todo o universo e todas as demais criaturas que nele existem. É então porque em Deus todas as suas qualidades são inseparáveis, que elas aparecem reunidas em um único artigo. Devemos então perceber que não é possível separar em nossa fé, nenhum dos pontos do primeiro artigo sem prejuízo de nosso entendimento de Deus e de nossa relação com Ele.

Um abraço.

Gabriel Ferreira







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Artigo Pastoreando – 3

abril 28th, 2009 | Comente | Postado em Igreja, Opinião

 

Olá a todos.

Na primeira de nossas contribuições, dissemos que iríamos nos dedicar a explicar e clarificar alguns elementos de nossa fé. Assim (e até para seguirmos o nome de nossa “coluna”), firmadas as bases nas citações bíblicas que comentamos anteriormente, quero hoje iniciar uma série de pequenos textos catequéticos. Para isso, nada mais primordial do que refletirmos sobre a própria catequese ela mesma.

A própria palavra já nos abre inúmeros sentidos e nos apresenta uma série de reflexões que, na maioria das vezes, desprezamos ou pomos de lado. A palavra “catequese” é proveniente do grego kata, isto é, através de, por meio de, e échêin, ouvir. Assim, catequese tem o sentido primeiro de instrução através do ouvir. A importância de seu sentido de atenção e escuta, que pede uma atitude de seguimento obediente, ou seja, de discipulado, é colocada mais em relevo por São Paulo, no versículo 17 do capítulo 10 de sua carta aos Romanos. Nos diz o Apóstolo: “Assim, a fé vem pela audição e a audição se faz pela palavra de Cristo”.

O termo original não nos deixa dúvidas. São Paulo nos diz que a fé vem ex akóes, pela audição. É sensível como hoje nos sentimos incômodos na posição de ouvintes. Tal postura está sempre ligada àquela de submissão, de passividade, a qual nos costuma inspirar, antes de mais nada, uma revolta surda. É assim no cotidiano, mas também na catequese, na homilia do padre e na penitência que a Igreja nos pede, como aquela da Quaresma pela qual acabamos de passar. Desejamos ser sujeitos, agentes, tomarmos a frente, antes de sermos ouvintes atentos e obedientes. Mas ao cristão cabe outra atitude. A escuta e o seguimento não é um perder-se num mutismo estéril mas, antes, é ouvir o que o Cristo tem a nos dizer e deixar que Sua palavra frutifique em nós. É para o próprio Deus feito homem que somos chamados a inclinar os ouvidos. Dessa forma, a catequese atenciosa e maternal da Igreja, em seus documentos, nas homilias dos sacerdotes e nos ensinamentos em geral não quer nos submeter, mas elevar-nos.

Coloquemo-nos próximos ao Senhor Ressuscitado, confiantes e atentos à sua Palavra de Verdade e Salvação.

Um abraço.







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Alguns comentários sobre o texto-base para o Ano Catequético Nacional – 2009

janeiro 19th, 2009 | 7 Comentários | Postado em Igreja, Opinião

 

Há alguns dias gastei meu rico dinheirinho e adquiri o texto-base para o Ano Catequéticoanocatequetico Nacional – 2009, elaborado e editado pela CNBB. Com todo o respeito que é devido aos senhores Bispos, só não digo que foi dinheiro jogado fora porque me serviu para trocar o dinheiro que precisava. Não posso fazer uma análise muito mais profunda do que vou fazer aqui pois não tive estômago para ler o livreto todo (64 pp.). Vamos aos breves comentários que justificam o meu repúdio ao opúsculo.

 

1. Bibliografia. O primeiro absurdo do documento é que à p. 61, onde estão as siglas e abreviaturas de outros textos e documentos citados, simplesmente não consta o Catecismo da Igreja Católica. Questão de ordem: como pode haver um texto que pretende ser subsídio básico para uma miríade de tarefas pastorais tendo como fim a catequese, sem ao menos citar o Catecismo?

 

2. Método. Para começar, o léxico do texto base é confuso. Lança mão de sentenças simplesmente vazias de sentido, numa linguagem de burocrata semelhante aos livros de auto-ajuda para executivos:

A ação evangelizadora da Igreja deve ser resposta consciente e eficaz para atender as exigências do mundo de hoje com indicações programáticas concretas, objetivos e métodos de trabalho, formação e valorização dos agentes e a procura dos meios necessários que permitam que o anúncio de Cristo chegue às pessoas.

De fato, a fragilidade dos métodos e das ações só aponta para a fragilidade dos objetivos do documento. O ver-julgar-agir, gloriosamente ressuscitado no Documento de Aparecida aparece aqui como modelo da ação catequética. Aqui, o ‘ouvir’, cerne e núcleo da catequese virou um falatório caótico ao definir que ‘Jesus é a resposta aos problemas humanos’ (p. 29). Não se deve achegar a Ele e escutá-Lo porque é a Salvação em pessoa, mas agora devemos nos aproximar em vista da resolução de nossos problemas. Ou São Paulo estaria defasado pedagogicamente ao dizer claramente que ‘a fé vem pela audição’ (ex akoês, em Rm 10,17)?

3. Quais princípios? O ponto no qual desejo me concentrar é o item ‘Princípios da animação bíblico-catequética?. Vejamos o que nos diz o texto:

As Escrituras ocupam lugar primeiro nas diversas formas do Ministério da Palavra, não só na pregação, mas também na Catequese. O Concílio Vaticano II chamou a atenção para a centralidade da Palavra de Deus na vida do cristão […] Assim, a fonte primeira da Catequese é a Bíblia, constituindo-se em seu ponto de partida, fundamento e norma. (pp. 48-49)

Como já comentei aqui, o Concílio Vaticano II é a citação preferida dos que pretendem legitimar qualquer bobagem. Contudo, vejamos o que nos diz a Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina:

9. A sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim. A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito Santo; a sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, para que eles, com a luz do Espírito de verdade, a conservem, a exponham e a difundam fielmente na sua pregação; donde resulta assim que a Igreja não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência.

E ainda:

É claro, portanto, que a sagrada Tradição, a sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e se associam que um sem os outros não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas.

  Os veneráveis senhores bispos parece que esqueceram coisas básicas sobre a doutrina da Revelação tal qual a Igreja Católica a entende. Ou viramos todos protestantes adeptos da tese da Sola Scriptura? Nos diz o Catecismo Romano:

But every sort of doctrine which is to be delivered to the faithful is contained in the word of God, which is divided into Scripture and Tradition.

Ora, por que o texto-base não aponta também o Catecismo, bem como as outras manifestações do Magistério, como fontes primárias da catequese? E o Credo como objeto principal da explicitação catequética? O texto-base composto pela CNBB cita inúmeras vezes seus próprios documentos, como o de Aparecida, o Diretório Nacional de Catequese entre outros, e no máximo, se limita a apontar as Constituições do Vaticano II sem, é claro, lê-los como se deve, como visto acima.

De fato, a catequese é o problema principal da Igreja hoje. Somente com ação catequética densa e contínua garante uma boa vivência comunitária, bem como o desdobramento das vocações religiosas e leigas. Nada se ganha com a transformação da catequese num processo vazio que não acarreta verdadeira conversão, sob o pretexto de torná-la mais palatável.

E a CNBB erra novamente.







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