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Apontamentos sobre o Ateísmo – O único ateísmo respeitável

September 14th, 2009 | 2 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião

 

Por conta dos últimos posts e das discussões que tenho travado ultimamente, tenho pensado mais detidamente sobre o ateísmo como posição intelectual. Vou ignorar solenemente o ateísmo como posição moral já que, em geral, quem arroga o ateísmo como pressuposto ético simplesmente quer advogar a favor  da anomia, o que cai bem a adolescentes (com 15, 30 ou mesmo 60 anos).

Como já me referi em outro post, há um pressuposto absolutamente incômodo na posição ateísta que deseja assumir o papel de último guardião da racionalidade. O que esta posição não compreende é que, ao dizer que é a última instância da razão, só faz trabalhar duramente contra ela. Explico: caso a razão seja reduzida exclusivamente ao seu aspecto técnico e instrumental – próprio do cálculo científico –, ela simplesmente deia de ser a razão humana em toda sua miríade de expressões. Basta dizer que vivenciamos um momento histórico inaudito no qual atividades estritamente racionais, como a Filosofia e a Teologia estão absolutamente banidas do domínio do “racional”. Com isso, Platão, Aristóteles, Duns Scoto e Tomás de Aquino, caso fossem vivos hoje, seriam chamados de irracionais. Experimente dizer com Aristóteles, por exemplo, que a atividade do lógos, por excelência, é contemplar os primeiros princípios ou ainda que a Ética, embora não possa exigir o mesmo nível de demonstração da Matemática é plenamente racional em seu périplo investigativo. Você será sumariamente banido de qualquer conversa agradável de salão e as pessoas passaram a não lhe convidar para colóquios em cafés ou nos quais se serve queijo e vinho.

Desejo acrescentar mais um outro ponto. Quem se diz ateu por ser cético não pode, justamente por isso, adotar a posição da defesa ferrenha do cientificismo. Assuma seu ceticismo e o seu corolário que é um estado de epoché, ou suspensão de juízo que, se coerente, deve impregnar inclusive a pesquisa científica, como o fez o bom e velho Hume. Se a dedução a partir dos primeiros princípios é suspeita, quanto mais o serão as induções feitas nos laboratórios (um dia você aprenderá que isto tudo é hábito, portanto, do domínio da psicologia (xiii…)).

Sendo assim, sou tentado a respeitar, em suma, apenas um certo tipo de ateísmo que podemos chamar de niilista ou existencial. Se sua posição parte da fratura ao invés da composição “harmoniosa” das teorias científicas, ou da experiêcia da diferença ao invés daquela da unidade. Se sua crítica tem fundamento num páthos trágico que padece do drama próprio em ser humano, falho, corruptível e mau, orgulhoso, preguiçoso, invejoso e vil, eu posso pensar ser possível entabular consigo uma conversa (racional) séria. Porque só a partir daí que você será capaz de entender o fundo do poço no qual o homem se encontra, ponto de partida da antropologia cristã que entende o homem como criatura que se recusa a ser o que é afastando-se de Deus, sem escondê-lo atrás da falsa esperança que de alguma atividade exclusivamente humana possa se depreender uma resposta realmente satisfatória. E pode então perceber que passa a se mover no terreno da legítima Teologia. e Filosofia da Religião. Não aquela que se combate em best-sellers, mas aquela que diz, realmente, algo ao coração e à razão humana.







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Apontamentos sobre o Ateísmo – Ateísmo e Moralidade

September 7th, 2009 | 4 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião

Por recomendação do meu amigo Francisco Razzo, comecei a acompanhar uma de suas discussões com um ateu (ou uma atéia, ao que parece). Em linhas gerais, a questão colocada vai nestes termos:

Há quem defenda que a moral tem uma origem transcendental, mas as recentes investigações no campo da neurociência e biologia comportamental parecem sugerir uma outra explicação.

Como se pode perceber, o problema é em relação a uma fundamentação transcendental da moralidade. Mas antes de dizer qualquer coisa – antes mesmo de discussão bibliográfica – a respeito da referida tese a autora comete um erro lógico grave, com consequência e desdobramentos não menos perigosos:


1.
O oposto de transcendente é imanente. Ora, mas conceitos abstratos, filosofia e argumentos racionais são imanentes (= não transcendentes) mas não podem de jeito nenhum serem depreendidos da biologia ou da fisiologia A identificação entre “imanente” ou “domínio do estritamente humano” e “biologia” ou “fisiologismo” simplesmente é falaciosa. Nem a tentativa desesperada de filiar argumentos, juízos ou outros tipos de ações da razão a sinapses e, portanto, a causas químico-biológicas resolve; ficam completamente em aberto ao menos a questão de qual explicação última para a existência de tais processos, bem como a questão da existência da diversidade desses juízos e argumentos, sem falar naquela do entendimento e do convencimento racional intersubjetivo através do reconhecimento da lógica ou do “sentido” da argumentação, que visivelmente não podem ser reduzida à fisiologia.

 

2. Já Aristóteles vê que a moralidade é exatamente o campo no qual fica patente a distância entre o homem e a natureza. Como diz o Estagirita, a natureza (physis) é o campo do sempre (aei), já as "coisas humanas" (ta anthropina) são o campo do "frequentemente". Só há o campo da eticidade porque ao homem é facultado fazer diferente do biológico. Esta distinção é fundamental e DEVE estar no início desse tipo de conversa. Só existe ética porque diferentemente do plano da natureza (e, portanto, da simples biologia), o plano da ação humana é aquele onde podem ocorrer mudanças provenientes da ação livre do homem, caso contrário nem haveria tal domínio, pois seríamos estritamente condicionados pela natureza, isto é, pelo biologismo.

 

3.  Está aí embutido um pressuposto que já identifiquei em outros momentos e que chega a ser enervante, a saber, a oposição entre “transcendental” e “biologia” ou “neurociência” que, no fundo, quer significar “religião” ou “fé”, confinada no chiqueirinho da sensibilidade e “ciência” ou “objetividade” de outro, como último bastião da resistência da Razão (com “r” maiúsculo neoclássico). Não é o momento de se debater isto a fundo, mas a própria oposição posta nestes termos (sem eufemismos como “transcendental”) é absolutamente irracional.

 

UPDATE: Fui citado e comentado aqui. Abaixo, meu comentário ao comentário:

Caro O. Braga.

Primeiramente, obrigado pela referência e pela leitura e, nas grandes linhas, concordo consigo. Alguns outros comentários:

1. Devo lembrá-lo que minhas considerações se deram em referência a uma tese determinada, a saber, aquela que cito no início que, ela sim, opõe biologia e fé, por exemplo, e que tenta filiar de maneira EXCLUSIVA a moral ao fisiologismo.

2. Não creio que “empirismo” seja uma terceira categoria referente à “transcendente” e “imanente”. “Imanente” significa, em termos gerais, que o fim de algo ou uma ação está no próprio agente. “Transcendente” é, portanto, aquele ato cuja finalidade ou sentido está para além dele. É este o sentido de certos atos em Aristóteles e em Santo Tomás (”pensar” e “cortar”, por exemplo). Empírico, como claramente se pode ver, não se relaciona a esta categoria de atos, mas diz respeito à uma certa qualidade específica de um dado ou conhecimento em relação à sua origem (empeiría, experiência).

3. Contudo, concordamos que aquilo que não é transcendente não é necessariamente biológico (como queria a autora da tese que refuto). Mas isto é justamente o que eu desejava mostrar.

4. Não nego – e nem Aristóteles, cujo ponto de vista eu citei – que a natureza seja necessária ao desdobramento da moral. Entretanto, objeto firmemente que ela seja suficiente, como afirma a interlocutora.

Um abraço.

UPDATE 2: Gostaria de citar um trecho de Alasdair MacIntyre que bem ilustra o que aqui queremos dizer:

But man without culture is a myth. Our biologicalnature certainly  places constraints on all cultural possibility; but man who has nothing but a biological nature is a creature of whom we know nothing. It is only man with practical intelligence – and that, as we have seen, is intelligence informed by virtues – whom we actively meet in history.

MACINTYRE, A. After Virtue, p. 150-151.







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Ecce homo

February 16th, 2009 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião

Texto do nosso amigo, Francisco Razzo.

 

tomecaravaggioSe existe hoje uma tend?ncia entre as pessoas ditas esclarecidas, intelectual e moralmente,  essa tend?ncia ? o de meter o bedelho em assuntos em que elas n?o possuem a m?nima compet?ncia, e a religi?o sem d?vida ? a bola da vez, sobretudo, quando se trata da Igreja Cat?lica, ? claro! H? sempre um ?mente aberta? distintamente em qualquer conversinha de boteco soltando um ?ah, mas a Igreja Cat?lica…?, ?Ah, A Idade M?dia e a Inquisi??o…?. Entre os mais cultos, aqueles mesmos que acham que livros de auto-ajuda s?o pra alienados, mas que se ap?iam em livros de divulga??o cient?fica e j? se acham os g?nios indom?veis dos mais elevados estudos, a briga definitivamente se tornou entre ?F?? e ?Ci?ncia?. Outro dia, um professor de hist?ria ficou horrorizado ao descobrir que eu era cat?lico, disse na minha cara, sem pudor: ?como uma pessoa esclarecida, um professor de filosofia, pode ser cat?lico??. Em outras palavras, o que ele estava querendo dizer era: ?A intelig?ncia deve excluir necessariamente a F?, ser? que voc? n?o percebeu ainda, que o mundo agora ? moderno??. Coisas do tipo n?o s?o raras, chove por a? o dia todo na minha orelha! Evidente que as raz?es dessas coisas t?m ra?zes profundas na hist?ria. E elas se alastram pela falta de boas raz?es dos nossos amados intelectuais panflet?rios que resolveram salvar a humanidade da sua cegueira.

Mas vamos ficar s? com o b?sico, por enquanto, nada de fazer arqueologia das id?ias: ? not?vel hoje em dia, que toda vez em que se discute ?teoria da evolu??o de Darwin? a coisa toma o caminho da intermin?vel disputa entre F? e Raz?o. Como se essa fosse a conseq??ncia mais ?bvia! ?Afinal, como ainda ? poss?vel que esses ignorantes acreditem em Ad?o e Eva??. A verdade ? que Darwin ? visto como o patrono de um tipo de postura paradigm?tica para os amantes da ci?ncia, enquanto os mais inclinados ? F? ? quero dizer os mais c?ticos em rela??o ?s verdades da ci?ncia ? s?o tachados como meros idiotas que negam a realidade e se trancam no submundo da fantasias e dos del?rios est?pidos. Resumindo: Darwin e sua Teoria da Evolu??o, sin?nimo de Ci?ncia. Religi?o (sobretudo a crist?) e sua concep??o de cria??o (bom, em sete dias, a? voc? j? est? querendo demais, n?o?) sin?nimo de burrice, estupidez, fuga do real, terrorismo etc.

Primeiramente, devemos concordar que as coisas realmente n?o s?o bem assim, vamos ser historicamente sinceros: Darwin n?o est? com essa bola toda! E depois, que a teologia crist?, sobretudo no que diz respeito ? quest?o da Cria??o e da sua antropologia (i.e. como ela define o Homem), est? longe de ser um amontoado de lorotas tolas ou historinhas da carochinha. Basta ler Santo Agostinho, Santo Anselmo e Tomas de Aquino, se ainda sobrar f?lego! Eu duvidei no come?o, fui at? esses autores, como dizem, quase que "furei os z?io", mas definitivamente mordi a l?ngua… Meu problema, revendo meu entusiasmado ate?smo, ? que a coisa toda era uma grave falta de repert?rio cultural e falta de chinelada. Chegamos a um n?vel hoje t?o lament?vel de cultura e repert?rio que se voc? n?o tiver uma opini?o sobre algum assunto, qualquer que seja, ? capaz de entrar em colapso por ressentimento. Eu confesso, quando eu era jovem e inteligente eu n?o podia admitir que algu?m acreditasse em Deus e ao mesmo tempo ser meu professor de qu?mica. Agora que estou quase com um p? na meia idade e sou tamb?m quase um tapado, eu percebo que os professores de ci?ncia que ainda hoje acreditam em Deus s?o corrosivamente mais c?ticos do que aquelas que acham que Deus ? ?pio do pov?o. Isso n?o ? regra, ? uma leviana constata??o de um leviano cotidiano escolar.

Mas, ? isso, grandes professores hoje se ap?iam n?o mais em ci?ncia s?ria, mas na maldita m?dia pseudocient?fica ou nos militantes panflet?rios que insistem na absurda exist?ncia da guerra entre ci?ncia e f?, que sinceramente chega ser escandaloso! Reproduzo aqui, para dar um ?nico exemplo, o que diz um desses divulgadores descaradamente mal-informados sobre especialidades que n?o lhe dizem respeito: No cap?tulo ?Religi?o ? O espectro que assombra?, de O espectro de Darwin, Michael Rose diz:

Todas as civiliza??es pr?-modernas tiveram teologias em que seres ou for?as de grande poder davam origem a toda a ordem aparente na Terra. Tais for?as ou seres costumavam ser racionalmente concebidos, a fim de dar sentido ?s esta??es, ? sorte na guerra e assim por diante. Antes da ci?ncia, o saber era dominado pela religi?o e os doutos, quase que invariavelmente, eram sacerdotes. Tal como as ideologias, as religi?es s?o singularmente imunes ? experimenta??o e a comprova??o. Quem insiste em apresentar provas ou argumentos que contradigam um artigo de f? ? perseguido como herege, em vez de enaltecido por sua descoberta. A religi?o interessa-se, em ?ltima inst?ncia, pela autoridade e pela f?, e n?o pela d?vida e pelo conhecimento. (p. 234).

S?o essas e outras fantasias ditas cient?ficas ? uma vez que saiu do teclado de um cientista ? que povoam a mente dos que por uma raz?o puramente ret?rica acreditam que isso seja realmente ci?ncia e aquilo religi?o. O que acontece ? que esses caras descaradamente n?o sabem o que significa religi?o, desconfio at? se sabem o que realmente significa ci?ncia, e menos ainda sabem o que significa uma religi?o como o Cristianismo. A verdade ? que esses caras, com diploma de PhD, n?o fazem a m?nima id?ia do que est?o falando, e por uma quest?o muito, mas muito delicada, n?o estudaram sobre o assunto, s?o especialistas, diga se de passagem, do mais alto gabarito em amebas, besouros, mol?culas, querendo falar, vejam s?, nada mais nada menos, do que… de Deus. Alguma vez na vida ser? que esses caras abriram uma linha de um S?o Jo?o da Cruz e notou ? com certo constrangimento, se forem sinceros ? o alto grau de d?vida, e n?o autoridade, que movia os seus passos ao Monte Carmelo? Resposta simples, n?o! Alguma vez esses caras leram excertos de um texto como o de J? e notaram que era movido por uma d?vida muito mais ardente e corrosiva do que a de qualquer um desses cientistas ditos movidos pelo conhecimento e n?o pela autoridade? ?bvio, n?o! Ou leram um o relato sobre Tom?, desesperado com o seu ceticismo em ter de enfiar o dedo na ferida do Cristo para ver se aquilo realmente era uma chaga? N?o, n?o leram! N?o sabem do que falam, mas querem manter a notoriedade, afinal, s?o cientistas em busca do conhecimento e n?o da gl?ria! Se h? uma semelhan?a e um ?elo perdido? entre a ameba e o homem, pronto: ecce homo!

Francisco Razzo

 

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Apontamentos sobre o Ate?smo ? Ate?smo e Raz?o
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Apontamentos sobre o Ateísmo – Ateísmo e Razão

February 2nd, 2009 | 5 Comentários | Postado em Filosofia, Opinião

 

Vez ou outra acabo parando em sites e blog de ateus convictos. Em todas essas oportunidades, leio com atenção o que eles têm a dizer. E na imensa maioria das vezes o que encontro são sempre os mesmos clichês pseudo-intelectuais. Hábito este (o de desfilar clichês falaciosos), que os ateus adoram reprovar nos crentes. Dentre eles, um dos que mais me incomoda, pelo tamanho da falácia, é aquele que prega que responder afirmativamente a questão da existência de Deus é um ato necessariamente advindo de alguém irracional ou, no mínimo, alguém em quem a Razão já deixou de operar. Em suma, a posição atéia é a única legitimamente racional. Vai daí que os ateus seriam também o último abrigo da racionalidade.

De início, é realmente triste notar que se está pouco disposto a entabular discussões realmente sérias sobre aquela questão. Em parte porque a maioria do que vejo por aí se contenta na retaliaçã desvairada de interlocutores cheios de boa-fé mas, de fato, despreparados. Pode se coletar pelos sites e blogs ateus uma multidão de xingamentos e falácias que têm como objetivo único ganhar a discussão e, não necessariamente, explicitar ou refutar. Isso se deve também ao fato de que a imensa maioria dos ateus que leio por aí têm, eles mesmos, uma formação e um preparo duvidoso para lidar com tais questões. A bibliografia utilizada em geral, não deixa dúvidas: Dawkins, Hitchens e similares. Jamais chegaram perto nem de algo como The Cambridge Companion to Atheism, que tem seríssimos contribuidores (e que “magicamente” não conta com Dawkins e Hitchens) ou mesmo de ivros básicos sobre filosofia da religião. Estudar a fundo os argumentos filosóficos históricos então é pedir quase um milagre (ops!). No máximo replicam os comentários estúpidos feitos por gente que também nunca os estudou a fundo. Nietzsche, Feuerbach e Marx se tornam, na mão deles, um infinito depósito de citações virulentas. Prefiro nem comentar sobre Darwin.

Junte-se a isso que os blogueiros ateus em sua imensa maioria não conhece absolutamente nada sobre teologia(s). Aqui reaparece o fascínio pelos clichês históricos (a Igreja vendia lugar no céu), teológicos (Se Deus é onipotente, por que ele não….) e sociológicos (a maioria dos crentes é proveniente de camadas com pouco estudo etc…) que nem de longe acomete os pensadores sérios sobre o assunto: mesmo o problema da teodicéia é ignorado em suas linhas mais fundas. Vê-se que o quadro geral não é bom para elevar a discussão sobre o tema.

Falta retomar a questão da relaçã entre ateísmo e razão. A questão é muito longa e não quero desenrolá-la toda. Só quero tocar num ponto que julgo principal. Dizer que falta racionalidade à posição que afirma Deus é, tão simplesmente, uma tolice:

1. Filosófica. Seja qual for a definição de Razão a ser adotada, não se pode furtar àquela grega de lógos que, diferentemente do que dizem professores de primário, não quer dizer simplesmente estudo. Lógos é discurso racionalmente encadeado, compreensível racionalmente e obviamente se relaciona com “argumento”. Com isso, dizer que qualquer discurso gramaticalmente encadeado, que se pode entender por qualquer ente racional é privado de razão, é idiota. Existem discursos racionais que são falaciosos, errados, tendenciosos etc. Mas nem Aristóteles concordaria que os argumentos sofísticos falaciosos, por exemplo, carecem da presença de ação do lógos. Pode ser um lógos ruim, mas ainda assim é um lógos. Dizer que falta razão à argumentos como as cinco vias de S. Tomás ou ao argumento anselmiano ou ontológico é, no mínimo, ignorância. A própria grafia de razão com “R” maiúsculo já denota uma opção por uma tal concepção de racionalidade que não é unívoca tampouco incriticável.

2. Histórica. Alguém em sã consciência pode defender a tese de que gente como São Tomás, Descartes, Hegel e tantos outros são irracionais ou não fazem uso da razão? Chega a ser maldade desconhecer, ainda que historicamente, a presença de um esforço racional e válido para provar a existência de Deus. Dizer que a priori aqueles que defendem a existência de Deus não pensam ou são irracionais tão somente pelo fato de defenderem tal tese é de uma estupidez violenta.







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A ciência torna a crença em Deus obsoleta?

October 29th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião


A John Templeton Foundation está promovendo uma coletânea de artigos sobre a questão acima. Ela conta com nomes eloquentes nessa discussão, como o Cardeal Schönborn e Christopher Hitchens.

 

 

Os artigos estão aqui. E podem ser baixados todos em pdf clicando aqui.

 

Há também bons debates entre os articulistas, que estão disponíveis aqui.

 

 

Alguém para engrossar o debate?







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Alguns fragmentos extemporâneos

October 23rd, 2008 | 2 Comentários | Postado em Aforismos, Filosofia, Igreja

Dois excertos retirados de duas cartas de F. Nietzshe, para escandalizar os nitzscheanos de boteco:

Sils-Maria, July 21, 1881: Postcard to Heinrich K?selitz (Peter Gast)

"It occurred to me, dear friend, that for you the constant inner struggle with Christianity in my book [The Dawn] must be strange, even distressing; but it is still the best piece of ideal life which I have become really familiar with; from the time I was a little boy I have pursued its paths into many different nooks and crannies. And I believe I have never been cruel in my heart toward it. I am after all the descendant of whole generations of Christian ministers-forgive me this limitation! -"

F. N. in Sils

***

Sils-Maria, July 23, 1881: Postcard to Franz Overbeck

"[...] As far as Christianity is concerned, I hope you will believe this much: in my heart I have never held it in contempt and, ever since childhood, have often struggled with myself on behalf of its ideals. In the end, to be sure, the result has always been the sheerest impossibility. – [....]"

F. N. in Sils

Não se esqueça de ler isto também.







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O ônibus ateísta ou O comboio dos que aproveitam a vida

October 22nd, 2008 | 7 Comentários | Postado em Filosofia, Geral, Igreja, Imprensa, Opinião

O homem foi concebido para duvidar de si mesmo,
mas não duvidar da verdade, e isso foi exatamente invertido.
G. K. Chesterton, Ortodoxia

Há pouco vi uma notícia no site do The Guardian, que a British Humanist  Association está promovendo a colocada de propagandas com conteúdo ateísta em ônibus da Inglaterra, como o da foto ao lado. O ateísta-pop (pois é, não há somente padre-pop) Richard Dawkins contribuiu inclusive financeiramente para a campanha. Bem, o dinheiro é deles e eles fazem o que quiserem ou seja, é uma publicidade bizarra, mas legítima. Entretanto, o que salta aos olhos são algumas outras bizarrices embutidas aí que a velocidade com que o ônibus passa não pode obliterar a paciência da reflexão.

1. Bons tempos eram aqueles em que se criticavam as pessoas de fé pelo fato de que suas crenças não passavam de projeções, numa alteridade (Deus), dos desejos mais humanos, o que seria causa de um feliz torpor alienante (não é, Feuerbach?). Mas agora, vejam vocês, como diz o anúncio, a provável não existência de Deus deve fazer com que você pare é de se preocupar e comece a aproveitar a vida. Deriva-se disso que a crença em Deus leva diretamente à preocupação, ao "stress" (essa palavra mágica dos nossos dias) e ao embotamento da vida. Crer em Deus, além de uma deficiência estatística, não tem mais nada a ver com aquela idéia tão fundamental do Evangelho, que estabelece de uma ver por todas a relação íntima entre a Verdade e a liberdade (Jo 8,32), mas é causa de uma preocupação tenebrosa que é inimiga do bom proveito da vida.

2. A "deficiência estatística" a que me referi é expressa pela improbabilidade da existência de Deus, veiculada no anúncio. Mas ela esconde uma tese mais nefasta, a saber, de que a racionalidade encontra sua expressão (senão máxima, a mais pujante) na estatística, no cálculo e na ciência. Não vou explicar porque è óbvia a passagem indevida. Leia Heidegger, Taylor, Camus, Adorno, Horkheimer, Chesterton, entre muitos outros. O que torna o quadro mais tenebroso é quão cristalizada essa equação  tola está se tornando, sendo arrolada até como base de argumento ateísta que se pretende "sério" (não é, Dawkins?)

3. Mas o pensamento tem mesmo suas surpresas. Não custa nada abandonar Monsieur Descartes por um instante e pensar dialeticamente. Qual é o gênero de preocupações do qual os ateístas querem nos livrar? A imaginar pelo "enjoy your life", são aquelas referentes a palavrinhas ou sentenças inconvenientes como "morte", "responsabilidade", "sentido da vida", "ética", "imortalidade". Questões que mesmo Kant, que desferiu duros golpes contra a possibilidade de conhecimento racional (sério, desta vez) acerca dessas questões, não deixou de dizer que:

Problemas como estes: se o mundo tem um princípio e um limite da sua extensão no espaço; se algures e talvez no meu próprio eu pensante há uma unidade indissolúvel e indivisível ou apenas o divisível e o transitório; se sou livre nos meus atos ou, como outros seres, sou conduzido pelo fio da natureza e do destino; se, finalmente, há uma suprema causa do mundo ou se as coisas da natureza e a sua ordem constituem o último objeto onde devemos deter todas as nossas considerações; problemas estes, pela solução dos quais, de bom grado, o matemático daria toda a sua ciência, porque esta não pode satisfazer os mais altos e importantes anelos da humanidade.

KANT, I. CRP, B 492.

E eis que o que surge, diante dessa apatia cientificista deficiente, é o mais puro torpor alienante criado por uma idéia infantil do "aproveitar a vida" e que faz com que os ateístas que pretendem hospedar a Razão e o esclarecimento emergem como uma legião de pseudo-intelectuais marketeiros que estão muito pouco dispostos a debater e muito mais dispostos a propagandear.O que nos leva ao próximo ponto.

4. Serei bem breve: a instituição que propaga tal publicidade se denomina "humanista". Ora, ao querer livrar o homem destas "preocupações", será possível ser humanista? Sem dar espaço epistemológico às questões mais primordiais ao homem?

E então







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Sobre Dawkins e delírios…

February 29th, 2008 | 7 Comentários | Postado em Igreja, Livros, Opinião

Por esses dias, andei dando uma olhada novamente do livro de Richard Dawkins, The God Delusion, bem como lendo algumas coisas relacionadas por aí. Chega a ser enervante a complacência com o livro. Ergo:

1. O tratamento dado por Dawkins no capítulo 3, sobre as provas filosóficas da existência de Deus, chega ser ridículo. A começar pela linguagem que o autor utiliza ao tratar, por exemplo, do argumento de Santo Anselmo, no Proslogion. O autor diz:

“Let me translate this infantile argument into the appropriate language, which is the language of the playground.” (p. 80)

Vejamos: será que de fato a linguagem infantil do playground é a mais apropriada para lidar com um argumentos tratado rigorosamente por filósofos como Descartes, Kant ou Hegel? Prefiro apostar que não. Para além disso, sou terminantemente obrigado a discordar do prof. Idelber Avelar que, em um post sobre o livro, diz que Dawkins não pode ser acusado de não conhecer a fundo as “sutilezas” da argumentação dado que, de certo modo, a priori, ela é falsa ou, como comenta Avelar, que tal acusação seria análoga àquela que exigiria que um autor que se propusesse a refutar a astrologia, tomasse profundo conhecimento de sutilezas de posturas astrológicas contrárias. Entretanto, há aqui no argumento de Avelar (e talvez entre também no rol de falácias de Dawkins) uma pequena falácia: de fato, dado que as diversas tentativas de se provar a existência de Deus pela raz?o, sobretudo com argumentos a priori, caem em erro, questionar pelo conhecimento das finezas dos diversos argumentos que procuram provar a exist?ncia de Deus não é absolutamente relevante. Entretanto, falta aqui um termo médio: não está dado de antemão que tais tentativas são falsas. O objetivo do capítulo de Dawkins é, justamente, provar o erro e a inconclusividade presentes nos argumentos para a existência de Deus (S. Tomás, S. Anselmo etc.). é assim que ele descreve, no final do capítulo anterior, o próximo movimento de seu texto:

“But first, before proceeding with my main reason for actively disbelieving in God’s existence, I have a responsibility to dispose of the positive arguments for belief that have been offered through history.” (p. 73, destaque meu)

Assim, não é possível apelar para o fato de que os argumentos s?o inconclusivos para justificar a ignorância de Dawkins sobre eles. Em outras palavras, o autor só poderia prescindir de conhecer a fundo os argumentos se não fosse sua empreitada provar, exatamente, que são falsos.

2. Por falar em Kant, Dawkins saca o alemão da manga como aquele que viu o truque escondido no argumento anselmiano. Não quero me estender sobre a argumentação de Kant sobre o argumento ontológico na Crítica da Razão Pura, o que exigiria todo um preâmbulo sobre o projeto kantiano da Crítica, bem como explicitar todo o périplo do debate sobre os conceitos de essência e existência. Apenas quero manifestar que Dawkins tamb?m parece não conhecer o movimento da argumentação de Kant. Ele simplesmente diz que “existência” não é uma perfeição sem apoiar a análise na negação kantiana de que “existência” é um predicado real e, portanto, ele só diz algo sobre a posição (positio) do objeto e pede para ir além disso, uma intuição sensível que, por definição, é impossível no caso de Deus. Ora, a refutação de Kant advém de sua concepção de “existência” que está longe de ser unívoca na história da filosofia. Basta dizer que depois dele, Hegel retoma o uso do argumento a partir de pressupostos distintos dos de Kant. Assim, a apropriação que Dawkins faz de Kant não diz nada, já que nem explicita os seus pressupostos (coisa que alguém como Kant jamais deixaria de fazer).

3. Uma última palavra sobre o movimento argumentativo geral do livro: será que apontar inúmeros problemas das religiões (como explicitamente Dawkins faz em 6 dos 10 capítulos) é um bom argumento para se mostrar que Deus é um delírio? Mas como já lembrava Kierkegaard, Mundus vult decipi (o mundo quer ser enganado).

Baixe o livro de Dawkins aqui (em inglês).

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O cientista não é grande

September 24th, 2007 | 4 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Imprensa, Opinião

Houve um tempo feliz no qual o que se criticava na atividade científica e nos seus agentes era a demasiada ênfase na lógica sistemática que, já segundo Kierkegaard e Nietzsche, mas também Adorno e Camus, arrasta tudo para o plano da identidade massificadora. Entretanto, ao que parece, é para ela que talvez alguns dos mais “proeminentes” cientistas de hoje deveriam voltar. Não me refiro nem aquelas lógicas modernas. Uma boa olhada no velho Aristóteles evitaria problemas como o que encontramos na resenha do “avassalador” Richard Dawkins sobre o livro de seu colega Christopher Hitchens (Deus não é grande), publicada no caderno “mais”, da Folha de São Paulo, do domingo último (23/09).

Para além das singelas caracterizações de Hitchens como “pulverizador” de seus inimigos, mas dotado de uma romântica “cortesia à moda antiga”, há algumas coisas a considerar:

Tanto Dawkins quanto seu amigo de campanha “cometem” alguns argumentos estranhos. O ”cinturão ateu” (em oposição ao “cinturão bíblico” citado por Dawkins) se alinha no projeto de erradicar a crença em Deus sobretudo através de “provas” científicas da exponencial improbabilidade e não-necessidade da existência de Deus. Abstenho-me de lançar mão da objeção banal (qualquer aluno de 2º semestre de filosofia poderia já utilizá-lo com uma mínima perícia) de que toda prova de “improbabilidade” e de “não-necessidade”, não descarta nem logicamente a existência de Deus. Quero me ater ao alvo principal de críticas que, segundo a resenha de Dawkins, compõem o livro de Hitchens, a saber, os malefícios causados na história da humanidade pela religião. A divisa de Hitchens, citada pelo resenhista, é que “a religião envenena tudo”. Seguem-se análises de exemplos que, ao invés de argumentos ou provas parecem mais serem uma tentativa de deitar sobre o livro um verniz de erudição. E vai-se de Madre Teresa à perseguição de Rushdie pelos muçulmanos; dos casos de pedofilia da Igreja Católica nos EUA à “brilhante” descoberta exegética de erros de tradução nas Escrituras. Toda uma coleção de mazelas, maldades, ódio, fúria, vingança e perseguição proveniente das religiões é exibida. Há ainda no livro de Hitchens capítulos “pujantes” sobre a figura do porco no judaísmo e no islamismo, mas deixemos isso de lado. A meu ver, o problema surge agora. Cito Dawkins:

Um dos temas centrais de Hitchens é que os deuses são criados pelo homem, e não o contrário (p. 6)

Todo o rosário (desculpem-me, não resisti) que “provaria” que a religião envenena tudo também gera a conclusão de que… Deus não existe. Ora, a menos que se esteja querendo agir de má-fé, a lógica não deixa que se passe da existência da violência nas religiões ou mesmo do “erro” em certas concepções religiosas do mundo ao “Deus não existe”. Muitos pontos podem aqui ser evocados, como o imperdoável desconhecimento deste senhor, apontado como muito erudito por seu resenhista, da presença dessa “tese” no pensamento ocidental, bem como seus desdobramentos na história do mesmo pensamento (Santo Tomás é tomado como ingênuo no capítulo 5), as gigantescas discussões sobre a validade dessas “provas” apresentadas ou ainda sua opinião sábia sobre Platão, sobre quão ridículas são as tentativas de uma aproximação entre fé e razão, divergente inclusive daquela do paleontólogo Stephen Jay-Gould, cuja leitura é recomendada pelo livro de Hitchens. Ora, mas aceitar a utilização de calamidades religiosas como argumento contra a existência de Deus equivale a aceitar a contraposição da chamada prova moral da existência de Deus.

A partir daí, o rigor e a cientificidade pouco, ou nada, tem a dizer. Apenas é possível também ressaltar o tom apologético que tantos outros identificam em Dawkins e Hitchens, que beira o fanatismo religioso. Não posso deixar também de lembrar, já que falamos de lógica, finalmente, do famoso debate entre Bertrand Russel e o Pe. Copleston. Perguntado pelo clérigo se ele estaria dizendo que a não-existência de Deus poderia ser provada, Russel responde: “No, I should not say that”..







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