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	<title>Inter-Esse &#187; Artigos</title>
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		<title>Luiz Felipe Pond&#233; &#8211; Os olhos do macaco</title>
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		<pubDate>Mon, 24 May 2010 12:45:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; VOCÊ JÁ OLHOU nos olhos de um chimpanzé? Da próxima que for a um zoológico, faça isso. Você perceberá que ali existe uma alma presa como a sua. Seus olhos carregam um misto de espanto e tristeza que só humanos conhecem, que parece brotar de excesso de sensibilidade. Sim, simpatizo com o darwinismo. Mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#160;</p>
<p align="justify">VOCÊ JÁ OLHOU nos olhos de um chimpanzé? Da próxima que for a um zoológico, faça isso. Você perceberá que ali existe uma alma presa como a sua. Seus olhos carregam um misto de espanto e tristeza que só humanos conhecem, que parece brotar de excesso de sensibilidade.   </p>
<p>Sim, simpatizo com o darwinismo. Mas nem por isso sou ateu. Tampouco tem razão o grande filósofo Daniel Dennett, cujos livros devoro e a quem admiro na sua luta para combater a velha covardia humana travestida de fé, quando supõe que qualquer relação entre darwinismo e tradição monoteísta ocidental implica medo do ateísmo.    </p>
<p>Não tento &quot;casar&quot; o darwinismo com qualquer &quot;prova&quot; da existência de Deus. Provar a existência de Deus me dá sono, nem acho possível prová- la. Como não levo a razão tão a sério, não temo suas incoerências.    </p>
<p>Pelo contrário, minha simpatia está sempre contra as certezas da razão. Penso, sim, que não há nenhuma grande coerência na vida, nem uma narrativa única. Uma vida dilacerada entre narrativas contrárias me parece sempre mais sólida.</p>
<p align="justify">O conforto da certeza me entedia. Sou da velha escola: o sofrimento é que molda o caráter.   </p>
<p>O darwinismo me comove, assim como Shakespeare. Quando ouço Macbeth dizer &quot;a vida é um conto narrado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada&quot;, eu penso na luta cega de nossos ancestrais cuja humanidade foi cozida em sangue. E isso me comove.    </p>
<p>Converti-me ao darwinismo desde criança, ao ver aqueles desenhos nos quais imagens de hominídeos vão paulatinamente virando imagens de homens.    </p>
<p>Mais tarde, quando não era não mais criança, convenci-me da verdade do darwinismo quando me vi diante das análises do comportamento humano produzidas pela psicologia evolucionista.    </p>
<p>Não creio nas teorias que afirmam a construção social dos comportamentos, apesar de que algum grau de influência social em nosso comportamento obviamente existe.    </p>
<p>Prefiro a ideia de comportamento comodestino, maldição. Mas minha relação com o darwinismo sempre foi mais estética do que um mero convencimento racional.    </p>
<p>O que primeiro me cativou no darwinismo foi a descrição da origem do ser humano como uma saga contra um meio ambiente terrível e contra os horrores de nossa própria &quot;alma&quot; pré-humana.    <br />A solidão dos nossos ancestrais combatendo os elementos externos e internos me parece uma ode à beleza humana, arrancada da indiferença das pedras.    </p>
<p>A escuridão e a solidão do universo me encantam. Pensar que homens e mulheres são areia que um dia tomou consciência de si mesma e de sua solidão me parece um épico que canta nossa dignidade visceral.    </p>
<p>A dignidade que só cabe aos desgraçados. Reconheço essa dignidade nos olhos do macaco: a dignidade da testemunha assombrada.    </p>
<p>O horror de nosso passado, para mim, sempre foi motivo de orgulho. Sim, vejo o darwinismo como um drama cósmico do qual temos o privilégio de ser testemunhas assombradas. Sim, repito, a humanidadedos humanos foi cozida em sangue, uma pérola numa imensa massa cega de matéria.    </p>
<p>Os ateus não deixam de ter razão quando apontam o pânico que muitas pessoas têm diante de descrições da vida como a darwinista. O filósofo Nietzsche (século 19) chama esse pânico de ressentimento. Daí nasceriam as bobagens platônicas e cristãs acerca de um outro mundo onde não haveria sofrimento.    </p>
<p>Mas o ressentimento de gente como Platão ou cristãos não é nada se comparado ao ridículo de algumas crenças atuais,mas que respondem ao mesmo pânico.    </p>
<p>Por exemplo, pensemos na crença em &quot;energias&quot;. Que os deuses me protejam de cair um dia no ridículo de &quot;acreditar em energias&quot;. Odeio a palavra &quot;energia&quot;. Energia isso, energia aquilo, hoje em dia qualquer um usa a palavra &quot;energia&quot; para seus delírios religiosos de consumo.    </p>
<p>Digo sempre: quer uma religião? Procure uma de, no mínimo mil anos de existência, e preferivelmente que não tenha passado pela Califórnia ou pela física quântica.    </p>
<p>Seu sofá está sobre um cano de água? Humm, más energias. Você tem um câncer? Precisa &quot;limpar&quot; as más energias. O tratamento energético não te curou? Ahhh, você não estava preparado, precisa abrir sua mente. Ovos têm energia, alfaces têm energia, o azul da parede tem energia. As energias vão resolver o conflito israelo-palestino. As energias vão parar teu envelhecimento.</p>
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		<title>Um resumo do meu pensamento, por H. U. von Balthasar</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Dec 2009 17:56:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Igreja]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<category><![CDATA[Catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[Teologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Hans Urs von Balthasar é, certamente, um dos grandes nomes da Teologia do século XX. Com&#160; uma obra monumental, neste artigo de 1988 o teólogo suíço faz uma síntese de seu percurso reflexivo que nos parece fundamental percorrer em absoluto. *&#160;&#160; *&#160;&#160; * Quando um homem publica muitos livros grandes, as pessoas se perguntam: o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><strong><a href="http://hansursvonbalthasar.blogspot.com/" target="_blank">Hans Urs von Balthasar</a></strong> é, certamente, um dos grandes nomes da Teologia do século XX. Com&#160; uma obra monumental, neste artigo de 1988 o teólogo suíço faz uma síntese de seu percurso reflexivo que nos parece fundamental percorrer em absoluto.</p>
<p align="center">*&#160;&#160; *&#160;&#160; *     <br /><a href="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/12/balthasar.jpg"><img title="balthasar" style="border-top-width: 0px; display: inline; border-left-width: 0px; border-bottom-width: 0px; margin: 15px 0px 10px 10px; border-right-width: 0px" height="244" alt="balthasar" src="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/12/balthasar_thumb.jpg" width="162" align="right" border="0" /></a></p>
<p align="justify">Quando um homem publica muitos livros grandes, as pessoas se perguntam: o que, fundamentalmente, ele quis dizer? Se ele é um romancista prolífico, por exemplo, um Dickens ou um Dostoiévski, escolhe-se um ou outro de seus trabalhos sem se preocupar muito com sua obra como um todo. Mas com um filósofo ou um teólogo, o caso é totalmente diferente. Deseja-se tocar o coração de seu pensamento, porque se pressupõe que tal coração deva existir.</p>
<p align="justify">A questão tem sido frequentemente dirigida a mim por alguns, desconcertados pelo grande número dos meus livros: Por onde alguém deve começar a fim de entendê-lo? Eu tentarei condensar meus vários fragmentos, “in a nutshell” (em poucas palavras), como dizem os ingleses, tanto quanto for possível de ser feito sem me trair muito. O perigo de tal compressão consiste em ser muito abstrato. É necessário amplificar o que se segue com minhas obras biográficas, por um lado (sobre os Padres da Igreja, sobre Karl Barth, Buber, Bernanos, Guardini, Reinhold Schneider, e todos os autores tratados na trilogia) e, por outro, com as obras sobre espiritualidade (tais como as sobre a oração contemplativa, sobre Cristo, Maria e a Igreja) e, finalmente, com as numerosas traduções dos Padres da Igreja, de teólogos da Idade Média e dos tempos modernos. Mas aqui é necessário limitarmo-nos a apresentar o esquema da Trilogia: Estética, Dramática e Lógica.</p>
<p align="justify">Comecemos com uma reflexão sobre a situação do homem. Ele existe como um ser limitado em um mundo limitado, mas sua razão está aberta ao ilimitado, para a totalidade do ser. A prova consiste no reconhecimento de sua finitude, de sua contingência: eu existo, mas poderia não existir. Muitas coisas que não existem poderiam existir. Essências são limitadas, mas o ser (<i>l’être</i>) não. Esta divisão, a “distinção real” de São Tomás, é a fonte de todo pensamento religioso e filosófico da humanidade. Não é necessário lembrar que toda a filosofia humana (se nós abstrairmos o domínio bíblico e sua influência) é essencialmente religiosa e teológica, porque coloca o problema do Ser Absoluto, seja atribuindo a este um caráter pessoal ou não.</p>
<p align="justify">Quais são as principais soluções que a humanidade apresenta para este enigma? Pode-se tentar deixar para trás a divisão entre Ser (<i>Être</i>) e essência, entre o infinito e o finito; poder-se-ia então dizer que todo o ser é infinito e imutável (Parmênides) ou que tudo é movimento, ritmo entre contrários, devir (Heráclito).</p>
<p align="justify">No primeiro caso, o finito e limitado será, como tal, o não-ser, como uma ilusão que se deve detectar: esta é a solução do misticismo budista com suas milhares de nuances no oriente. É também a solução plotiniana: a verdade é apenas apreendida no êxtase onde se toca o Uno, que é ao mesmo tempo, Tudo e Nada (relativo ao todo o resto que só parece existir). O segundo caso se contradiz a si próprio: puro devir em pura finitude só pode se conceber em identificando os contrários: vida e morte, boa fortuna e adversidade, sabedoria e insensatez (como Heráclito o fez).</p>
<p align="justify">Assim, é necessário começar por uma inescapável dualidade: o finito não é o infinito. Em Platão o mundo sensível, terrestre não é o mundo divino, ideal. A questão é, então, inevitável: De onde vem a divisão? Por que não somos Deus?</p>
<p align="justify">A primeira tentativa de uma resposta: deve ter havido uma queda, um declínio, e o caminho para a salvação só pode ser o retorno do finito sensível para o infinito inteligível. Este é o caminho de todas as místicas não-bíblicas. A segunda tentativa de uma resposta: o Deus infinito tinha necessidade do mundo finito. Por quê? Para se aperfeiçoar a si mesmo, para atualizar todas as suas possibilidades? Ou mesmo para ter um objeto para amar? As duas soluções levam ao panteísmo. Em ambos os casos, o Absoluto, Deus em si mesmo, torna-se indigente, finito. Mas se Deus não tem necessidade do mundo então: Por que o mundo existe?</p>
<p align="justify">Nenhuma filosofia pode dar uma resposta satisfatória para esta questão. São Paulo diria para os filósofos que Deus criou o homem de tal modo para que este procurasse o Divino, tentasse atingir o Divino. É por isso que toda a filosofia pré-cristã é, em suma, teológica. Mas, de fato, a verdadeira resposta à filosofia só pode ser dada pelo Ser ele mesmo, revelando a si mesmo por si mesmo. Seria o homem capaz de entender essa revelação? A resposta afirmativa seria dada apenas pelo Deus da Bíblia. Por um lado, este Deus, Criador do mundo e do homem, conhece sua criatura: “Eu que criei o olho, não vejo? Eu que criei o ouvido, não ouço?” e nós adicionamos “Eu que criei a linguagem, não poderia falar e me fazer ouvir?” E isto coloca a contrapartida: para ser capaz de ouvir e entender a auto-revelação de Deus, o homem precisa em si mesmo estar à procura de Deus, ser esta uma questão que se coloca a ele. Assim, não há teologia bíblica sem uma filosofia religiosa. A razão humana deve ser aberta ao infinito.</p>
<p align="justify">É aqui que a substância do meu pensamento se insere. Deixe-me dizer antes de tudo que o termo tradicional “metafísico” significa o ato de transcender a física, que para os gregos significava a totalidade do cosmos, do qual o homem fazia parte. Para nós, física é outra coisa: a ciência do mundo material. Para nós o cosmos atinge sua perfeição no homem que, ao mesmo tempo, sintetiza o mundo e o ultrapassa. Assim nossa filosofia será essencialmente uma meta-antropologia, pressupondo não somente as ciências cosmológicas, mas também as ciências antropológicas e ultrapassando-as através da questão do ser e da essência do homem.</p>
<p align="justify">O homem existe apenas em diálogo com seu vizinho. A criança é trazida à consciência de si mesma apenas pelo amor, pelo sorriso de sua mãe. Neste encontro um horizonte ilimitado se abre para ela, revelando-lhe quatro coisas: (1) que ele é um no amor com sua mãe, mesmo em sendo outro que sua mãe, entretanto, seu ser é uno; (2) que o amor é bom, então o ser é bom; (3) que o amor é verdadeiro, então todo ser é verdade; e (4) que o amor evoca prazer, gozo, então todo ser é belo.</p>
<p align="justify">Somemos aqui que a epifania do ser só tem sentido se em aparência (<i>Erscheinung</i>) nós apreendemos a essência que se manifesta em si mesma (<i>Ding an sich</i>). A criança chega ao conhecimento não de uma pura aparência, mas de sua mãe ela mesma. Isto não exclui que nossa apreensão da essência se dê apenas através da manifestação e não diretamente em si mesma (São Tomás).</p>
<p align="justify">O Uno, o Bem, a Verdade, e o Belo, estes são o que nós chamamos os atributos transcendentais do Ser, porque eles ultrapassam todos os limites das essências e são coextensivos com o Ser. Se há uma distância insuperável entre Deus e sua criatura, mas se há também uma analogia entre eles que não pode ser resolvida em nenhuma forma de identidade, então deve também existir uma analogia entre os transcendentais &#8211; entre aquelas da criatura e daquelas em Deus.</p>
<p align="justify">Há duas conclusões a se tirar disso: uma positiva, outra negativa. A positiva: o homem existe apenas pelo diálogo interpessoal, portanto, pela linguagem, fala (em gestos, mímica ou em palavras). Porque então negar-se a fala com o Ser Ele mesmo? “No início era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a palavra era Deus” (Jo 1,1).</p>
<p align="justify">A negativa: supondo que Deus é verdadeiramente Deus (o que significa que ele é a totalidade do Ser que não necessita de criatura), então Deus seria a plenitude da Unidade, do Bem, da Verdade e da Beleza e, por consequência, as criaturas limitadas participam nos transcendentais apenas de uma forma parcial, fragmentária. Tomemos um exemplo: o que é a unidade em um mundo finito? É a da espécie (cada homem é totalmente homem, que é sua unidade), ou é o indivíduo (cada homem é indivisivelmente ele mesmo)? Unidade é então polarizada no domínio da finitude. Pode-se demonstrar a mesma polaridade para o Bem, a Verdade e a Beleza.</p>
<p align="justify">Eu construí então uma filosofia e uma teologia iniciando de uma analogia e não do Ser abstrato, mas do Ser como ele é encontrado concretamente em seus atributos (não categoriais, mas transcendentais). E como os transcendentais perpassam todo o Ser, eles devem ser internos a cada um dos outros; o que é verdadeiramente verdadeiro é verdadeiramente bom e belo e uno. Um ser aparece, ele tem uma epifania; nela há a beleza e nos faz maravilhar. Em aparecendo ele se dá a si mesmo, entrega a si próprio para nós: e isto é bom. E em se dando a si mesmo, ele fala de si, se desvela: é verdadeiro (em si mesmo, mas em outro para quem se revela).</p>
<p align="justify">Desse modo, pode-se construir, sobretudo uma teologia <i>aesthetique</i> (<i>Gloria</i>): Deus aparece. Ele aparece para Abraão, para Moisés, para Isaías e, finalmente, em Jesus Cristo. Uma questão teológica: como nós distinguimos sua aparição, sua epifania dentre centenas de outros fenômenos no mundo? Como nós distinguimos o verdadeiro e único Deus vivo de Israel dos ídolos que o cercam e de todas as tentativas filosóficas e teológicas de alcançá-lo? Como nós percebemos a incomparável gloria de Deus na vida, na Cruz, na Ressurreição de Cristo, a glória diferente de toda a glória deste mundo?</p>
<p align="justify">Pode-se então continuar com uma <i>dramatique</i> uma vez que Deus trava uma aliança conosco: como a absoluta liberdade de Deus em Jesus Cristo confronta a relativa, mas verdadeira, liberdade do homem? Haverá, talvez, uma luta mortal entre os dois, em que cada um vai defender contra o outro o que concebe e escolhe como o bem? Qual será o desenrolar da batalha, a vitória final?</p>
<p align="justify">Pode-se terminar com uma <i>logique</i> (uma teo-lógica). Como Deus pode fazer a si mesmo compreensível ao homem, como pode a Palavra infinita expressar a si mesma em um mundo finito sem perder seu sentido? Este é o problema das duas naturezas de Jesus Cristo. E como o espírito limitado do homem pode apreender o sentido ilimitado da Palavra de Deus? Este é o problema do Espírito Santo.</p>
<p align="justify">Esta é, portanto, a articulação da minha trilogia. Eu quis mencionar apenas as questões colocadas pelo método, sem chegar até as respostas porque isto iria muito além dos limites de um sumário introdutório como este.</p>
<p align="justify">Em conclusão, todavia, é necessário abordar brevemente a resposta cristã à questão colocada no início em relação às filosofias religiosas da humanidade. Eu disse que a resposta cristã, porque as respostas do Antigo Testamento e, <i>a fortiori</i> do Islã (que permanece essencialmente no invólucro da religião de Israel) são incapazes de fornecer uma resposta satisfatória à questão de por que Yahweh, por que Allah criou um mundo do qual ele não tinha necessidade para ser Deus. Apenas o fato é afirmado nas duas religiões, e não o porquê.</p>
<p align="justify">A resposta cristã está contida nestes dois dogmas fundamentais: no da Trindade e no da Encarnação. No dogma trinitário Deus é uno, bom, verdadeiro e belo porque é essencialmente Amor, e Amor supõe o “um”, o “outro” e sua unidade. E se é necessário supor o Outro, a Palavra, o Filho, em Deus, então a alteridade da criação não é uma queda, uma desgraça, mas uma imagem de Deus, mesmo não sendo ela mesma, Deus.</p>
<p align="justify">E como o Filho em Deus é o eterno ícone do Pai, Ele pode sem contradição assumir em si mesmo a imagem da criação, purificá-la, e fazê-la entrar em comunhão com a vida divina sem dissolvê-la (em um falso misticismo). É aqui que é necessário distinguir natureza e graça.</p>
<p align="justify">Todas as verdadeiras soluções oferecidas pela fé cristã residem, então, nestes dois mistérios, categoricamente recusadas pela razão humana que se faz a si mesma absoluta. É por causa disso que a verdadeira batalha entre religiões começa apenas depois da vinda de Cristo. A humanidade ira preferir renunciar a todas as questões filosóficas &#8211; no marxismo ou positivismo de todas as estirpes, a aceitar uma filosofia que encontre sua resposta final apenas na revelação do Cristo.</p>
<p align="justify">Prevendo isto, o Cristo mandou seus discípulos para todo o mundo como ovelhas entre lobos. Antes de fazer um pacto com o mundo é necessário meditar sobre esta comparação.</p>
<p align="justify"><b></b></p>
<p align="justify"><strong>Originalmente publicado em <i>Communio</i> 15 (inverno de 1988). © 1988 <i>Communio: International Catholic Review</i>. </strong>Tradução minha, a partir do inglês.</p>
<p align="justify">
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		<title>Artigo Pastoreando &#8211; 10</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Nov 2009 14:19:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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<p align="justify"><b>Desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia</b></p>
<p align="justify"><b></b></p>
<p align="justify"><b></b></p>
<p align="justify"><a href="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/11/anastasis.jpg"><img title="anastasis" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; margin: 5px 10px 5px 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" height="350" alt="anastasis" src="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/11/anastasis_thumb.jpg" width="284" align="left" border="0" /></a>O quinto artigo da nossa Profissão de Fé é, talvez, aquele que mais nos parece obscuro mas que,&#160; no entanto, apresenta o mistério central de nossa Salvação e que por isso deve ser contemplado e meditado em toda sua imensa extensão de significado. Como nos diz São Paulo, “se Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé” (1Cor. 15,17).</p>
<p align="justify">Como se pode notar há duas verdades veiculadas neste artigo que, embora possamos dividir para melhor explicar, estão intimamente ligadas.</p>
<p align="justify">A primeira diz respeito à descida de Jesus Cristo à mansão dos mortos. Com a Paixão e Morte do Senhor em vista de sua Ressurreição, a própria morte é aniquilada e as portas do Céu nos são abertas definitivamente. Assim, a Igreja ensina que é para abrir também as portas aos mortos que O precederam que afirmamos a descida de Jesus à morada dos mortos. Os efeitos salvíficos do Cristo são, portanto, atemporais, isto é, não se limitam como todos os outros eventos, ao presente em que ocorrem e ao futuro que se dá a partir deles, mas estende-se por toda a extensão da história da humanidade, inclusive para aqueles que O precederam a fim de que todos conheçam o Verbo Encarnado para nossa Salvação. Sua visita aos mortos que para nós é tempo de silêncio e vigília, corresponde no ciclo litúrgico ao Sábado Santo.</p>
<p align="justify">A segunda e gloriosa verdade deste artigo é a Ressurreição do Senhor, propriamente dita. Com ela consuma o Tríduo Pascal e o projeto amoroso de Deus para nós. Ela marca o ápice dos tempos. A Ressurreição é a declaração definitiva de Deus ao gênero humano: ao problema da morte, recebemos a resposta da vida plena, cujo sinal já nos era apresentado na abertura das sepulturas quando da Crucificação (cf. Mt. 27,52) e à questão do afastamento de Deus, está dada a supressão do pecado e a Aliança eterna com Ele para que sejamos partícipes da natureza divina (1 Pd. 1,4), já vislumbrada na ruptura do véu do Santuário (cf. Mt. 27,51). Assim, Deus está plenamente acessível a todos nós para que, tomando parte da Aliança por Cristo Jesus, possamos gozar da Vida e do Amor que nunca se esgotam.</p>
<p align="right">Um abraço.</p>
<p align="right">Gabriel Ferreira</p>
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		<title>Luiz Felipe Pond&#233; &#8211; A Cruz</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Nov 2009 15:59:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; A cruz Essa proibição cospe na cara de 2.000 anos de história de uma grande parte da humanidade &#160; ANOS ATRÁS, em Paris, o historiador Jacques Le Goff me falava da sua preocupação com o destino da cultura ocidental. Para ele, o Ocidente poderia perder sua identidade como resultado de sua própria produção cultural. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#160;</p>
<p align="justify"><b><font size="4">A cruz</font></b></p>
<div align="justify">
<hr noshade="noshade" size="2" /></div>
<p align="justify"><b><i>Essa proibição cospe na cara de 2.000 anos de história de uma grande parte da humanidade</i></b><i></i></p>
<div align="justify">
<hr noshade="noshade" size="2" /></div>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">ANOS ATRÁS, em Paris, o historiador Jacques Le Goff me falava da sua preocupação com o destino da cultura ocidental. Para ele, o Ocidente poderia perder sua identidade como resultado de sua própria produção cultural.</p>
<p align="justify">Outros intelectuais também partilhariam de suas inquietações. Entre eles, o antropólogo Lévi-Strauss, morto semana passada. Le Goff se inquietava porque parte das agonias da cultura ocidental teria sido fruto dos &quot;achados&quot; da história e da antropologia e seus frutos, as filosofias e políticas relativistas do século 20.</p>
<p align="justify">O relativismo existe desde os sofistas gregos e tem em Protágoras seu ícone máximo de então. Mas o que é &quot;relativismo&quot;? Em Protágoras é: &quot;O homem é a medida de todas as coisas&quot; (versão curta). Isto quer dizer que tudo é criação humana: a moral, a religião, enfim, as verdades de cada cultura. Sentados num bar, diríamos: &quot;Cada um é cada um&quot;.</p>
<p align="justify">A história contemporânea acentuou essa versão das coisas quando afirmou que as épocas têm suas concepções de mundo específicas e que não podemos dizer que uma época seja melhor do que a outra. A antropologia, por sua vez (e aqui entra Lévi-Strauss), afirmou que as culturas não podem ser comparadas umas com as outras sem cometermos o pecado de não percebermos que cada cultura seria um sistema fechado em si mesmo, onde um comportamento só poderia ser julgado pelos valores morais da própria cultura.</p>
<p align="justify">Por exemplo, matar bebês pode ser um horror moral acima do equador e uma obrigação sublime abaixo do equador. É comum remeter a Lévi-Strauss a descoberta da &quot;dignidade intrínseca&quot; de cada cultura, e que não se deve julgar uma cultura usando valores de outras.</p>
<p align="justify">Não há dúvida que essa atitude é essencial para a antropologia. O problema começaria quando pensamos no impacto do relativismo no próprio Ocidente que o inventou. Dito de outra forma: o relativismo se transformou numa militância política e moral apenas no Ocidente. Enquanto os ocidentais estariam sofrendo de uma &quot;indigestão&quot; devido à assimilação do relativismo, as &quot;outras&quot; culturas, estudadas pelos próprios ocidentais, permaneceriam no seu repouso não contaminado pelo relativismo. Trocando em miúdos: muçulmanos podem permanecer acreditando em seu paraíso com virgens, índios em seus espíritos da floresta, enfim, apenas os ocidentais deveriam &quot;relativizar&quot; seu Deus e suas &quot;verdades&quot;.</p>
<p align="justify">Sendo os cientistas sociais, os filósofos, os professores e os jornalistas maciçamente ocidentais, seriam as crianças deles que deveriam ser educadas duvidando da validade universal de seu mundo. Aí entra a inquietação de Le Goff: o Ocidente poderia se dissolver como identidade à medida que relativizaria a si mesmo, enquanto as &quot;outras&quot; culturas seriam poupadas da crítica relativista, porque indiferentes à angústia relativista ocidental e, também, porque contam com a simpatia do Ocidente nessa indiferença e na defesa de sua &quot;dignidade intrínseca&quot;.</p>
<p align="justify">A verdade é que os homens são sempre contraditórios e, ainda que eu não saiba se Lévi-Strauss de fato partilhava da mesma angustia de Le Goff, algumas pessoas afirmam que ele admirava seu avô Rabino e que julgava os racionalistas ateus uns chatos e preferiria aqueles que acreditam em Deus. Pode ser boato, mas isso faria dele um homem mais interessante do que alguns que engoliram o relativismo assim como quem come pão e vai ao circo.</p>
<p align="justify">Um exemplo da &quot;indigestão&quot; causada pelo relativismo no Ocidente é o recente caso dos crucifixos nas escolas italianas. Aparentemente uma mãe se queixou de que o filho se sentia &quot;desrespeitado&quot; porque, não sendo cristão, tinha que frequentar uma sala de aula com uma cruz na parede. A partir daí, teriam decidido pela proibição do crucifixo nas escolas.</p>
<p align="justify">Essa decisão é ridícula porque a cruz é um símbolo, seja eu cristão ou não, das raízes do próprio Ocidente, naquilo que ele mais preza: amor ao próximo, generosidade e justiça, enfim, um Deus que morre de amor. Nós contemporâneos somos ignorantes de um modo gritante acerca do cristianismo, confundindo-o com alguns de seus momentos mais infelizes e cruéis (toda cultura é infeliz e cruel de alguma forma). Essa proibição cospe na cara de 2.000 anos de história de uma grande parte da humanidade, e os ignorantes que a realizaram deveriam ser obrigados a pedir desculpa aos cristãos.</p>
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		<title>Os tais dos valores &#8211; Luiz Felipe Pond&#233;</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 00:41:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; RECEBI MUITOS e-mails por conta da &#34;Vovó das Havaianas&#34;, a coluna de 5 de outubro, onde comentei o comercial &#34;maldito&#34; da &#34;vovó que gosta de sexo&#34;. Mas, afinal, por que se ofender com isso? A queixa dos ofendidos, em situações como essa, normalmente cai sobre essa coisa de que, hoje em dia, se fala [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">RECEBI MUITOS e-mails por conta da &quot;Vovó das Havaianas&quot;, a coluna de 5 de outubro, onde comentei o comercial &quot;maldito&quot; da &quot;vovó que gosta de sexo&quot;. Mas, afinal, por que se ofender com isso?</p>
<p align="justify">A queixa dos ofendidos, em situações como essa, normalmente cai sobre essa coisa de que, hoje em dia, se fala tanto quanto se fala em cabala da Vila Madalena, energias, aquecimento global e outros clichês, isso é, os tais dos &quot;valores&quot;.    <br />Frases como &quot;hoje não existem valores&quot; soam tão ridículas como &quot;sofro porque os unicórnios estão sendo extintos&quot;. Quando alguém começa falando &quot;porque a crise dos valores hoje em dia&#8230;&quot;, eu já sei que o resto é blábláblá. Por acaso alguém acha que o mundo já foi melhor? Há 500 anos existiam &quot;valores&quot; mais válidos? Respondo: não, o mundo nunca foi bom. E mais: se há 500 anos havia &quot;valores&quot; mais válidos é porque simplesmente havia menos opções na vida. Muitas opções, muita mistura, muitas viagens, muita gente diferente, muita terapia&#8230;    <br />muita incerteza. A própria ideia de &quot;escolha de valores&quot; implica num &quot;mercado de valores&quot;.    <br />Todo mundo se acha &quot;progressista&quot;, &quot;emancipado&quot;, &quot;ético&quot;, adora dizer que gosta de mudanças morais, mas contanto que o mundo caiba em sua salinha de TV. O relativismo só serve para se achar índio fofinho.</p>
<p align="justify">Quer deixar alguém com vergonha: mande ele ou ela elencar a lista de &quot;valores&quot; que julga certa (não vale coisas do tipo &quot;não matarás&quot; porque essa ideia é de Moisés&#8230;). Ninguém é repressor, mas todo mundo tem seu chicotinho à mão. O moralismo barato nunca esteve tanto em voga. Falando mal da propaganda me sinto como um agente do bem enfrentando os demônios do mundo. Mas todo mundo quer que a economia gire, o dinheiro circule e venha parar em suas mãos. Para isso acontecer, tem de ter consumo. Ah, como é difícil esse mundo de gente grande.    <br />Ouvi dizer que umas 200 leis andam por aí querendo controlar a propaganda. Ouvi também falar de uma lei que obriga a ter, nas fotos, algo como &quot;esta foto não é real&quot; a fim de libertar as meninas da beleza &quot;artificial&quot;. Alguém pode me explicar o que vem a ser a &quot;beleza natural&quot;?</p>
<p align="justify">Ninguém pode controlar o modo como se &quot;forma&quot; o padrão de beleza sem se tornar um fascista. Pois bem, aí está o photoshop ético. Ridículo, como aliás todo esse furor legislativo. A ideia de uma propaganda &quot;construtiva&quot; em termos de &quot;valores&quot; é de inspiração fascista. Quem vai dizer quais são os &quot;valores construtivos&quot;?</p>
<p align="justify">Se tomarmos por evidência o que as pessoas falam, todas têm ótimos &quot;valores&quot;, ninguém corrompe ninguém, ninguém trai ninguém, ninguém mente para ninguém, todo mundo ensina aos filhos o bem. Veja a pesquisa recente publicada no caderno Mais! desta Folha (dia 4 passado): segundo a pesquisa, nós vivemos numa Escandinávia, todo mundo é muito ético.    <br />Aliás, sobre essa bobagem da Escandinávia ser vista como modelo ético, recomendo a leitura do romance do dinamarquês Christian Junguersen &quot;A Exceção&quot; (ed. Intrínseca). Nesse maravilhoso livro, um grupo de mulheres que trabalham num centro em Copenhague de combate e investigação de genocídios (olha só: elas são do bem!) se põe a perseguir e destruir uma delas, apenas porque as outras pensam que ela é suburbana, careta e tem uma família &quot;Doriana&quot;.</p>
<p align="justify">Ninguém fala a verdade quando é perguntado sobre &quot;valores&quot;. Óbvio que não: seria como ficar nu em público. A tendência a projetar uma autoimagem de gigante ético é tão normal quanto cobrir as partes íntimas do corpo. É mais ou menos como se perguntar: é verdade que sua mãe é amante do vizinho? Ela é, mas você não vai contar.</p>
<p align="justify">Por exemplo, uma reunião de pais numa escola é um desfile de pessoas que são absolutamente seguras quanto aos &quot;valores&quot; que passam para os filhos. Mentira. Pura piada. Quando muito, os pais veem os filhos à noite. Só não terceirizam os filhos quem não tem dinheiro ou mulheres sem inquietações profissionais ou libertárias, ou seja, as &quot;coitadas&quot; que as outras acham que são &quot;apenas mães&quot;.</p>
<p align="justify">Se dependesse desses &quot;santos&quot;, o mundo já estaria salvo só de ouvi-los cantar o hino aos &quot;valores de seus filhos&quot;. A vida cotidiana se dá aos pedaços, aos trancos e barrancos, com fragmentos de consciência e a custa de muito esforço. Ninguém sabe com certeza o que está fazendo, quando está fazendo, em meio a tudo que faz ao mesmo tempo, o tempo todo.    <br />Enfim, suspeito que esse papo de &quot;valores&quot; serve para evitarmos falar de coisas mais sérias.</p>
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		<title>Luiz Felipe Pond&#233; &#8211; No Sinai</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Sep 2009 22:32:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[QUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna no dia 28 de setembro, caro leitor, eu estarei de jejum,&#160; na sinagoga. Hoje é o Dia do Perdão, data máxima do calendário judaico. O que significa o Dia do Perdão? Um bom ponto de partida para pensar em seu significado é a passagem da Bíblia hebraica quando os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><a href="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/09/GottliebJews_Praying_in_the_Synagogue_on_Yom_Kippur.jpg"><img title="Gottlieb-Jews_Praying_in_the_Synagogue_on_Yom_Kippur" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; margin: 0px 10px 0px 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" height="365" alt="Gottlieb-Jews_Praying_in_the_Synagogue_on_Yom_Kippur" src="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/09/GottliebJews_Praying_in_the_Synagogue_on_Yom_Kippur_thumb.jpg" width="284" align="left" border="0" /></a>QUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna no dia 28 de setembro, caro leitor, eu estarei de jejum,&#160; na sinagoga. Hoje é o Dia do Perdão, data máxima do calendário judaico. O que significa o Dia do Perdão? Um bom ponto de partida para pensar em seu significado é a passagem da Bíblia hebraica quando os hebreus, ao pé do monte Sinai, aguardam o retorno de seu líder Moisés com as tábuas da Lei.</p>
<p align="justify">Mas nem tudo saiu como se esperava: Moisés atrasa seu retorno (fica 40 dias na montanha) e o povo perde a paciência. Quando volta, encontra os recém libertos da escravidão no Egito adorando um bezerro de ouro. Deus, irritado, mata a metade ali mesmo. A outra metade será condenada a vagar perdida pelo deserto do Sinai até que morram todos e seus filhos possam, enfim, entrar na terra prometida. E aí está o perdão. </p>
<p align="justify">Dirá o leitor irritado: &quot;Mas onde?&quot;. Antes de tudo, caro leitor, tenha em mente que perdão e justiça não são a mesma coisa. O perdão é maior do que a justiça, ele cabe ali onde a justiça não seria suficiente. Você pode ser justo com alguma pessoa, sem perdoá-la. </p>
<p align="justify">Claro que muitos de nós, pessoas educadas, não acreditam que esta seja uma narrativa histórica, mas sim mítica. O que é um mito? Muita gente boa estudou isso: os psicólogos S. Freud e C.G. Jung, os historiadores das religiões M. Eliade, J. Campbell e K. Armstrong, e o filósofo E. Cassirer. Um modo minimamente correto de entender é pensar que o mito não descreve necessariamente um fato histórico, mas sim vivências humanas ancestrais que falam do significado da vida. </p>
<p align="justify">Pessoalmente prefiro ler textos bíblicos como narrativas literárias, além, é claro, de lê-los como livros sagrados, caso a leitura seja confessional, que não é meu caso aqui. Minha restrição a leitura psicologizante ou marxista de textos bíblicos é porque estas leituras pecam por ferir a própria &quot;trama&quot;, a fim de reafirmar a teoria que usamos para lê-lo. Explico-me.     <br />O crítico Anatol Rosenfeld escreveu um ensaio em sua coletânea &quot;Texto e Contexto&quot; (ed. Perspectiva) chamado &quot;Psicologia Profunda e Crítica&quot;, no qual ele dá boas dicas do por que não abordar um texto literário reduzindo-o a excessos psicologizantes. Sua crítica cai sobre a tentativa de ler, por exemplo, Hamlet como mais um rapazinho que queria transar com a mãe e matar o próprio pai. Ou ler Santa Tereza d&#8217;Ávila em chave junguiana e ver em seus escritos místicos mais um processo de individuação.     <br />Acho que no caso freudiano a redução é ainda pior porque o conceito de inconsciente coletivo em Jung preserva um drama maior nos personagens do que uma mera &quot;historinha de uma menina esquisita e sua mania neurótica por Deus&quot;. E, por isso, ele sustenta a dramaticidade para além da &quot;mera&quot; sexualidade neurótica da menina. </p>
<p align="justify">Para Rosenfeld, não devemos psicologizar personagens porque, ao fazer isso, vamos a &quot;Hamlet&quot; apenas para reencontramos a teoria de Freud e assim perdemos &quot;Hamlet&quot; e ficamos apenas com seu &quot;mesquinho&quot; complexo de Édipo. O mesmo, digo eu, acontece quando lemos a Bíblia à cata de interpretações marxistas ou políticas: lemos a Bíblia para rever a luta de classes e a disputa política, e o drama específico narrado se perde, junto com a força de seus personagens.     <br />Neste sentido, se não entendermos a relação entre o &quot;personagem&quot; Deus de Israel e os heróis bíblicos para além de reduções psicológicas ou políticas, perdemos a força do perdão dado no Sinai. </p>
<p align="justify">Deus não precisa perdoar ninguém porque Ele não precisa de ninguém. Este é o personagem. Quando o povo trai a aliança depois de tudo que Ele fez, Ele poderia simplesmente destruir tudo. Fosse Ele apenas justo, o sol pararia de brilhar. A ideia que Deus seja misericordioso nasce do fato que Ele nos criou e é paciente conosco sem precisar sê-lo. Daí a afirmação comum na Bíblia hebraica de que Ele carrega o mundo na palma de Sua mão enquanto nós somos uma sombra que passa. </p>
<p align="justify">O filósofo judeu A.I. Heschel (século 20) diz, num texto dedicado ao Dia do Perdão, que neste dia estamos de pé diante de Deus. O sentimento é de &quot;pahad&quot; (medo em hebraico). Devemos abaixar a cabeça e tremer, desnudando um coração que diante de Deus é sempre nu. Evidente que, além do temor, está em questão as grandes virtudes hebraicas, a gratidão, a coragem e a humildade. O pó em nós estremece diante da imensidão infinita que é Deus. Ao ouvir o coração disparado de medo, devemos escutar nele a alegria que é existir. </p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">Que os judeus tenham uma ótima</p>
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		<title>Luis Felipe Pond&#233; &#8211; Uivando para a lua</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jun 2009 14:07:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[Coluna de 01/06 de Pondé, na Folha. Um dos melhores textos do professor em sua coluna. Leitura obrigatória. &#8211; LUIZ FELIPE PONDÉ Uivando para a Lua Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm menos de mil anos &#160; NÃO SOU contra a religião. Ser religioso não implica ser menos inteligente, informado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Coluna de 01/06 de Pondé, na Folha. Um dos melhores textos do professor em sua coluna. Leitura obrigatória.</p>
<p>&#8211;</p>
<p><b>LUIZ FELIPE PONDÉ </b>    <br /><b>Uivando para a Lua</b></p>
<hr noshade="noshade" size="2" /><b><i>Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm menos de mil anos </i></b><i></i><br />
<hr noshade="noshade" size="2" />
<p>&#160;</p>
<p align="justify">NÃO SOU contra a religião. Ser religioso não implica ser menos inteligente, informado ou ético. Tem muita gente &quot;inteligente&quot; que comete erros ridículos como esse. Nem todo religioso uiva para a Lua. Tampouco os religiosos detêm o monopólio do apetite por matar seus semelhantes. Religiosos ou não, gostamos de matar e odiar. O século 20 destruiu qualquer ilusão quanto à doçura ou autocrítica dos ateus ou dos que creem na &quot;história&quot; ou na ciência. </p>
<p align="justify">Mas de fato há riscos específicos na crença religiosa, ainda mais em tempos de indústria cultural. Caro leitor, caso queira buscar uma religião, evite aquelas que têm menos de mil anos. Em matéria de religião, quanto mais velha, melhor. Outra coisa: se passou pela Califórnia, a chance de a religião ficar boba aumenta muito. </p>
<p align="justify">Mas existem umas &quot;novas&quot; religiões por aí, que Deus me perdoe. Pegue o exemplo do tal neopaganismo da deusa-mãe. Pessoas de boa-fé simpáticas aos paganismos antigos devem tomar cuidado com a literatura barata que é comum nessa área. Procurem trabalhos de historiadores da Antiguidade e da Idade Média reconhecidos, e não livros de auto-ajuda espiritual escritos por picaretas quânticos. Infelizmente, muitos dos neopagãos soam como adolescentes mal-informados e de idade um pouco passadinha. </p>
<p align="justify">O termo &quot;paganismo&quot; aqui normalmente quer dizer religião celta, mas às vezes pode ser uma salada mista com a Isis egípcia e o Odin escandinavo. Percebe-se que a atitude é basicamente a mesma de quem escolhe uma calça jeans, um CD ou uma praia &quot;cabeça&quot;. Na falta de informação arqueológica significativa sobre essas religiões &quot;celtas&quot; (fato que os neopagãos desconhecem), filmes ruins e literatura barata entram no lugar, compondo o imaginário &quot;histórico&quot; acerca do passado celta, que é sempre visto como harmonioso e sábio como se houvesse algum passado harmonioso e sábio em nossa história. </p>
<p align="justify">Um dos exemplos da visão adolescente nesse caso é achar que o cristianismo destruiu uma religião (das bruxas celtas) que vivia em paz com o mundo. Não existe religião na história que não tenha tido seu quinhão de sordidez, mas &quot;crianças&quot; não entendem isso. Segundo algumas fontes romanas (não cristãs), há suspeita de que alguns dos cultos &quot;celtas&quot; praticavam sacrifícios humanos, o que para os romanos era um pouco fora dos limites. Os romanos eram conhecidos por sua tolerância religiosa (Roma não foi um desfile de Neros), se eles destruíram alguns desses cultos, é porque coisa boa não era. </p>
<p align="justify">O imaginário adolescente é claro: o cristianismo, este perverso, patriarcal, destruiu uma sociedade onde homens e mulheres viviam em comunhão sem opressão. Para eles, queimaram-se milhares de mulheres e homens inteligentíssimos na Idade Média. A verdade é que provavelmente a maior parte dessas infelizes vítimas era gente boba mesmo. Pergunta: como seria o mundo se o paganismo tivesse vencido?     <br />Responderiam os &quot;adoradores da deusa&quot;: viveríamos num mundo sem classes, sem machismo, sem ódio, sem guerras, mas, ainda assim, rico, com antibióticos, internet, sexo aos montes, aviões e baladas. </p>
<p align="justify">As bobagens também aparecem no uso absurdo de referências advindas de sistemas religiosos que ainda existem. Por exemplo, alguns neopagãos afirmam que a cabala (mística judaica medieval) foi uma criação egípcia pré-era cristã! A tal &quot;árvore da cabala&quot;, onde aparecem os atributos de Deus, é uma das coisas que mais sofrem com o besteirol neopagão. A culpa do mau uso da cabala é, em parte, infelizmente, de alguns &quot;cabalistas&quot; judeus atuais que a vendem como receita barata de conseguir dinheiro, amor e sexo. Jung também vira bobagem nas mãos dos neopagãos: tudo é &quot;arquétipo&quot; a serviço de qualquer ideia besta que você tenha. </p>
<p align="justify">O neopaganismo é em grande parte invenção de caras ingleses esquisitos e suas namoradas mal-amadas do século 20 mesmo. Junte-se a isso um pouco de física quântica (aquela que, segundo alguns &quot;entendidos&quot;, faz acontecer tudo o que você quiser contanto que se diga a palavra mágica &quot;energia!&quot;), a mania incontrolável de falar sobre si mesma, uma pitada de feminismo místico, e você será uma neobruxa. </p>
<p align="justify">Tenho um critério para levar religiosos a sério: se usar a palavra &quot;energia&quot; e disser que posso fazer tudo o que eu quiser porque tudo o que preciso saber está em meu inconsciente, pulo fora. O próximo passo dele será uivar para a Lua. </p>
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		<title>Artigo Pastoreando 2</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Apr 2009 14:22:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Caríssimos. Abaixo, o segundo dos pequenos textos. &#160; * * * &#160; Na edição passada, comentamos a citação retirada da Carta de São Pedro que nos chamava ao conhecimento e à defesa de nossa fé. Penso que aquela citação está em estreita conexão com outra, agora de São Paulo se dirigindo aos Efésios, capítulo 4, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caríssimos. Abaixo, o segundo dos pequenos textos. </p>
<p>&#160;</p>
<p align="center">* * *</p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">Na edição passada, comentamos a citação retirada da Carta de São Pedro que nos chamava ao conhecimento e à defesa de nossa fé. Penso que aquela citação está em estreita conexão com outra, agora de São Paulo se dirigindo aos Efésios, capítulo 4, especificamente os versículos 13b e 14. A comunidade de Éfeso passou por diversas tensões e, justamente por conta disso, o Apóstolo diz: </p>
<p align="justify">&quot;até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. 14. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores.&quot;</p>
<p align="justify">Quero apontar justamente aquilo que penso ser o centro do conselho de São Paulo: devemos atingir a maturidade, termos uma fé adulta, em oposição àquela de criança, frágil e que é levada por qualquer vento de doutrina. Novamente aparece aqui a relação radical – de raiz –, entre o aprofundamento e a maturidade da fé e o seguimento do Senhor. É assim que podemos chegar &quot;à estatura de Cristo&quot;. Nos nossos tempos atuais, assim como entre os Efésios, vivemos nós também em meio a crises e tensões que desafiam nossa maturidade em matéria de fé. Por vezes somos infantis e displicentes com o que não devíamos e adultos e arrogantes quando não nos seria lícito. Se por um lado devemos nos fazer crianças na postura de escuta e confiança em Deus, verdadeiramente entregues a Ele, por outro lado permanecemos na meninice irresponsável em nossos compromissos e conhecimentos das coisas de Deus e de Sua Igreja. E como crescer na fé senão pela oração em conjunto com a escuta atenciosa da Palavra de Deus que emana das Escrituras e do Magistério da Igreja? </p>
<p align="justify">Atingir a estatura de Cristo é assumir plenamente a nossa fé com firmeza de propósito e inteligência adulta. Se a vida às vezes nos bate em ondas, que nossa fé e nossa adesão à Igreja não se sujeite aos percalços mas que esteja acima dos ventos enganadores como farol seguro para nosso caminho.</p>
<p align="right">Um abraço.</p>
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		<title>Luiz Felipe Pond&#233; &#8211; A escolha</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Mar 2009 19:55:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; Coluna de hoje, 23/03. Leitura obrigatória para quem quiser tomar parte no debate de forma séria (e não ao molde dos diletantes que palpitam por aqui aos montes). Chamo atenção para as referências ao iluminismo e convido à leitura do post imediatamente anterior. &#8211; TEMA DURO esse da menina estuprada em Pernambuco. O debate [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">Coluna de hoje, 23/03. Leitura obrigatória para quem quiser tomar parte no debate de forma séria (e não ao molde dos diletantes que palpitam por aqui aos montes). Chamo atenção para as referências ao iluminismo e convido à leitura do post imediatamente anterior.</p>
<p align="justify">&#8211;</p>
<p align="justify">TEMA DURO esse da menina estuprada em Pernambuco. O debate sobre aborto é difícil porque reúne forças sociais antagônicas. Os pró-aborto são tão duros quanto os católicos: é um diálogo de surdos. As crenças que alimentam a posição católica são nulas para os não-crentes.</p>
<p align="justify">Para os antiaborto, legalizar o aborto é legalizar uma forma de homicídio. Seria você menos radical se visse seu país tornar prática legítima um tipo de homicídio? Por outro lado, seria você menos radical se visse os religiosos te proibirem de se livrar de um problema (o feto) somente porque eles creem em algo que você não crê?</p>
<p align="justify">A violência dos pró-aborto vem da relação entre aborto e liberdade: proibir o aborto é tornar a mulher presa da mecânica reprodutiva. Sem precisar ir fundo na filosofia latente nessa posição, é evidente a negação da humanidade do feto nesse caso. O feto não seria mais do que um punhado de células.</p>
<p align="justify">Daí todo o infeliz debate acerca de uma definição &quot;científica&quot; da vida: os pró-aborto precisam se resguardar numa definição &quot;científica&quot; do que não seja humano (ou seja, desumanizar o feto) para não serem vistos como exterminadores de vítimas indefesas.</p>
<p align="justify">Do ponto de vista do Estado laico, legalizar o aborto pode ser visto apenas como um ato dentro do princípio político de tolerância, no qual o Estado &quot;passa a bola&quot; para o indivíduo e suas instâncias sociais: as pessoas que decidam, quem julgar &quot;crime&quot; não faça, quem não julgar &quot;crime&quot; que faça. Evidente que para os antiaborto, esse passo não é tolerante para com a vítima (o feto), que não tem voz ativa no processo. A própria ideia de crime de fato já desapareceu. De novo, seria como deixar ao assassino a decisão livre de matar ou não.</p>
<p align="justify">Outro fato que torna esse debate viciado é o preconceito contra a Igreja Católica, aliás, o único preconceito aceito pelos &quot;inteligentes&quot;. Daí o desfile de expressões banais como &quot;Inquisição&quot;, &quot;Idade Média&quot; ou &quot;trevas&quot;. Puro senso comum. A igreja não é estúpida. Estúpido é quem pensa que ela o seja. Sua herança de 2.000 anos atesta a vida de uma instituição que soube atravessar séculos frequentando todas as trincheiras do mundo.</p>
<p align="justify">Para os pró-aborto, a máxima iluminista &quot;O mundo só terá paz quando o último rei for enforcado nas tripas do último papa&quot; continua sendo um princípio político. Infelizmente, grande parte dos estudos &quot;científicos&quot; sobre a Igreja Católica sofre do mesmo preconceito banal.</p>
<p align="justify">A identificação medíocre dela com mera instância de opressão vicia a reflexão, principalmente porque muitos desses estudiosos partilham da mesma máxima iluminista. Ao contrário, a igreja exerce hoje um (solitário) papel essencial como instituição que relativiza as obviedades modernas, entre elas o de nos lembrar da desumanização silenciosa do feto que opera no fundo dos argumentos pró-aborto.</p>
<p align="justify">Mas o caso da menina em Pernambuco tem dois agravantes: o suposto risco de vida da &quot;mãe&quot;, uma menina de nove anos, e a violência sexual por parte do padrasto. Ambos tornam o aborto legítimo perante a lei. Aqui se agrava, aos meus olhos, o ruído de grande parte do debate.   <br />Fosse minha filha a menina de nove anos, eu não pestanejaria, faria o aborto. A ideia de ela correr risco por culpa de um canalha me levaria a fúria. Entre perder minha filha e a eliminação de dois bebês &quot;estranhos&quot;, optaria pela eliminação dos bebês. Não usaria eufemismos. Não pediria para que me considerassem um guerreiro da luz contra as trevas nem pediria palmas. Aceitaria a culpa como parte da escolha. Fosse eu o médico envolvido no procedimento, tampouco pestanejaria. Mas não veria aí a vitória da ciência contra a religião, mas uma dura decisão num campo de batalha: qual das vítimas deve morrer?</p>
<p align="justify">Para além da insensibilidade do bispo e das banalidades de quem se julga um agente da luz contra as trevas, acho essencial que alguém continue repetindo, mesmo sendo enxovalhado, que em meio às agonias dos seres humanos sempre existem vítimas silenciosas.   <br />A história está cheia de exemplos de desumanização política e &quot;científica&quot; a serviço do extermínio.    <br />Logo existirão cientistas que gritarão em favor do uso de fetos abortados em pesquisa. Por que o desperdício? </p>
<p align="justify">De minha parte, repito, escolheria minha filha, sabendo que meu ato implicou a morte de seres inocentes, mas a paixão por minha filha me impediria o luxo de ter princípios.</p>
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		<title>Luis Felipe Pond&#233; &#8211; N&#227;o</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Mar 2009 18:21:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">
<hr noshade="noshade" size="2" /></p>
<p align="justify"><b><i>Será o colunista de direita ou de esquerda? Cansativa essa ladainha, não? Seria ele legal?</i></b><i></i></p>
<div align="justify">
<hr noshade="noshade" size="2" /></div>
<p align="justify">COMO É difícil a vida de um herege. Caminhar entre as chamas ardentes do desejo (ideológico) travestido de posturas &quot;científicas&quot; é uma tarefa infernal. O mais fácil é falar o que todo mundo acha &quot;legal&quot;. Mas eu, como homem de fé (mas não seria eu um pessimista que não acredita num &quot;mundo melhor&quot;?!) continuo a crer que as pessoas pensam no que leem, sem necessariamente concordarem comigo. Continuamos a apreciar que ardam no fogo aqueles que falam o que não gostamos, ainda que este desejo hoje passe por repúdio justificado.</p>
<p align="justify">Falava eu, na coluna de 2 de março, do relativismo cultural, e de sua ética festiva. Afirmações de que sou &quot;contra&quot; os índios foram muitas, apesar de eu dizer explicitamente que não sou contra os índios e reconhecer os absurdos de quem os julgou seres inferiores. Será o colunista de &quot;direita&quot; ou de &quot;esquerda&quot;? Cansativa essa ladainha, não? Seria ele uma pessoa legal? Teria esperanças?</p>
<p align="justify">Respondo a última pergunta com a frase de um amigo: &quot;Eu tenho filhos (logo, fiz da minha esperança choro, carne, fezes e sangue)&quot;. Com isso não quero dizer que não ter filhos signifique que você não tenha esperanças, quero dizer apenas que ao tê-los, os riscos aumentam muito se você não tiver esperanças.</p>
<p align="justify">Combato o &quot;mal do século&quot; acordando cedo todo dia e falando com dezenas de pessoas de 20 a 60 anos, enfrentando os impasses da formação de seres humanos sem abraçar teorias falsas sobre &quot;um mundo melhor é possível&quot;. Já disse antes e vou repetir: o homem faz o que pode diante da opacidade do mundo. Isso não é defender a imutabilidade das coisas (só uma alma superficial pensaria isso), é apenas assumir um lugar na história do mundo: a tragédia.</p>
<p align="justify">A identificação entre &quot;otimismo&quot; e comprometimento com a vida é coisa do marketing.</p>
<p align="justify">Volto hoje ao relativismo (sou um obsessivo, já perceberam?), apontando outro impasse. Há alguns dias, na Escandinávia (aquele lugar onde a humanidade deu certo porque as pessoas têm os afetos corretos, as opiniões corretas, os sexos corretos e os lixos corretos), especialistas se reuniram para debater os direitos humanos. De repente, uma ansiedade toma conta da plateia: não seriam os direitos humanos uma invenção eurocêntrica? Oh! E aí? É justo aplicá-la a todos? O problema surge quando se pergunta: e se alguma &quot;cultura&quot; se sentir ofendida com tais &quot;direitos&quot;? Uma solução seria dar às &quot;culturas&quot; a chance de dizer &quot;não&quot; ao que as agredir na sua integridade. Típica solução da ética festiva do relativismo de salão. Mas como aplicá-la? Como evitar que a ideia de direitos humanos invada a praia dos &quot;outros&quot;?</p>
<p align="justify">Vejamos. Onde acaba uma &quot;cultura&quot; e começa outra? Portanto, &quot;quem&quot; teria o direito de dizer &quot;não&quot;? &quot;Quem&quot; ou &quot;o que&quot; seria &quot;uma cultura&quot;? Quem falaria pelas &quot;culturas&quot;? Quem diria &quot;não&quot;? O presidente do país? Delegados da ONU? Xamãs? Alguma ONG?    <br />Fundamentalistas? O &quot;povo&quot;?</p>
<p align="justify">Aquele mesmo que normalmente passa por cima de todo mundo, movido seja lá pelo que for?    <br />E mais, que tal pensarmos em alguns &quot;nãos&quot;?</p>
<p align="justify">Não à democracia. Não à emancipação feminina, nada de mulheres estudando coisas que complicam o dia-a-dia do patriarcalismo. Não ao aborto. Não à pesquisa com células-tronco. Não à universidade laica. Não à condenação da &quot;circuncisão feminina&quot;. Não à condenação de massacres intertribais na África (afinal, é da cultura deles se matarem, há milênios). Não à transfusão de sangue. Não à proibição de matar bebês com más formações. Não à tolerância religiosa. Não à imprensa livre (aqui talebans de todos os tipos poderiam repudiar tudo de que não gostam). Não ao homossexualismo. Não às vacinas (isso seria mais típico de quem abraça árvores). Não ao casamento interracial. Não à internet (grande risco de promiscuidade cultural). Não ao sexo fora do casamento. Não aos imigrantes estrangeiros. Não à proibição do aprisionamento de mulheres em casa. Não ao uso de camisinha. Não ao Estado laico. Não ao transplante de órgãos. Não à proibição do infanticídio praticado por alguns índios. Imagine, caro leitor, se em cem anos o Iraque tiver universidades cheias de mulheres de saia curta e sem homens mandando nelas, cafés cheios de artistas e intelectuais, aborto legal, gays fazendo filmes sobre seus heróis, democracia atuante, tribunais transparentes.</p>
<p align="justify">Haverá uma releitura da guerra do Iraque em alguma conferencia sobre direitos humanos?</p>
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