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	<title>Inter-Esse &#187; Opinião</title>
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		<title>Saramago e Camus ou Sobre ser honesto com a exist&#234;ncia</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Jun 2010 23:05:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Camus]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje faleceu José Saramago, o primeiro escritor lusófono a ser laureado com o Prêmio Nobel. Para além de gostar ou não gostar de sua produção literária, sua importância é inegável. Contudo, a obra de Saramago não é somente sua expressão criadora. Por opção deliberada e explícita do próprio, passou a ser, talvez mais de uns [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Hoje faleceu José Saramago, o primeiro escritor lusófono a ser laureado com o Prêmio Nobel. Para além de gostar ou não gostar de sua produção literária, sua importância é inegável. Contudo, a obra de Saramago não é somente sua expressão criadora. Por opção deliberada e explícita do próprio, passou a ser, talvez mais de uns tempos pra cá, sua expressão intelectual e, mais premente, sua expressão existencial.</p>
<p align="justify">Em <em>O evangelho segundo Jesus Cristo</em>, <em>Ensaio sobre a cegueira</em> e <em>Caim</em>, Saramago não apenas modela e burila sua arte mas, como todo artista que se pretenda sério, desenha ou redige a sua metafísica. Por “metafísica” entendo aqui um discurso sobre a estrutura última do real, daquilo que é. E sabemos desde sempre que sua visão de mundo é pautada por sua opção pelo marxismo, que aparece não somente em suas falas como em suas participações (como em encontros com Stédile <em>et caterva</em>). É também explícito seu ateísmo. Esses dois pilares – que obviamente se conectam e se inter-alimentam &#8211; perfazem o sustentáculo, portanto, de sua metafísica (aliados a uma dose não desprezível de eclesioclastia). É o que podemos ver em sua última entrevista para a Folha de São Paulo:</p>
<blockquote><p align="justify">Desde muito novo orientei-me para a consciência de que o mundo está errado. Não importa aqui qual foi o grau da minha militância todos esses anos. O que importa é que o mundo estava errado, e eu queria fazer coisas para modificá-lo. O espaço ideológico e político em que se esperava encontrar alguma coisa que confirmasse essa idéia era, é claro, a esquerda comunista. Para aí fui e aí estou. Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal. O que isso quer dizer? Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista.</p>
</blockquote>
<p align="justify">&#160;</p>
<blockquote><p align="justify">A história da humanidade é um desastre contínuo. Nunca houve nada que se parecesse com um momento de paz. Se ainda fosse só a guerra, em que as pessoas se enfrentam ou são obrigadas a se enfrentar… Mas não é só isso. Esta raiva que no fundo há em mim, uma espécie de raiva às vezes incontida, é porque nós não merecemos a vida. Não a merecemos. Não se percebeu ainda que o instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem. O animal, para se alimentar, tem que matar o outro animal. Mas nós não, nós matamos por prazer, por gosto. Se fizermos um cálculo de quantos delinqüentes vivem no mundo, deve ser um número fabuloso. Vivemos na violência. Não usamos a razão para defender a vida; usamos a razão para destruí-la de todas as maneiras -no plano privado e no plano público.</p>
</blockquote>
<p align="justify">&#160;</p>
<blockquote><p align="justify">Por que eu teria de mudar [em relação a seu ateísmo]? Porque supostamente me salvou a vida? Quem me salvou foram os médicos e a minha mulher. E Deus se esqueceu de Santa Catarina? Não quero ofender ninguém, mas Deus não existe. Salvo na cabeça das pessoas, onde está o diabo, o mal e o bem. Inventamos Deus porque tínhamos medo de morrer, acreditávamos que talvez houvesse uma segunda vida. Inventamos o inferno, o paraíso e o purgatório. Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle, não tanto das almas, porque à igreja não importam as almas, mas dos corpos. O sonho da igreja sempre foi nos transformar em eunucos. A Bíblia foi escrita ao longo de 2.000 anos e não é um livro que se possa deixar nas mãos de um inocente. Só tem maus conselhos, assassinatos, incestos…</p>
</blockquote>
<p align="justify">E por fim:</p>
<blockquote><p align="justify">A igreja, que, para efeitos propagandísticos, cultiva a modéstia e a humildade, nos comportamentos age com um orgulho sem limite. Por isso criei esse padre, que quer exorcizar um elefante, como se fosse possível imaginar o que vai ali pela cabeça do bicho e, por analogia, o que vai pela cabeça de um homem comum.</p>
</blockquote>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">Há duas experiências das quais pode partir uma analítica séria da existência: a da unidade e a da ruptura. Ou há uma unidade primordial profunda entre o homem e sua existência, mesmo que por vezes ela possa fugir de nós sob signos de rupturas, ou a marca distintiva da experiência humana é o fato da irreconciliabilidade, da fratura e do desnível entre o homem e sua vida, ainda que cravejada aqui e ali de irrupções verticais ascendentes que costumamos chamar de felicidade. Como podemos depreender de suas falas acima, Saramago parece partir desta última (que devemos reconhecer, costuma ser a opção daqueles que enxergar bem as coisas). Entretanto, ao ler tudo o que hoje inundou todas as mídias sobre o passamento do autor português (não sem um certo fastio), não consegui não me recordar de outro merecedor do Prêmio Nobel de Literatura, só que de 1957, Albert Camus.</p>
<p align="center">* * *</p>
<p align="justify">Camus (1913-1960), como Saramago, dispensa apresentações. Assim como o português, também teve infância pobre, vivenciou de perto em sua Argélia, conflitos entre “forças imperialistas” e “oprimidos colonizados”, experimentou o sofrimento de uma doença horrível – arrastou a tuberculose e sucessivos pneumotórax até sua morte trágica em um acidente de automóvel – e, por fim, completa 50 anos de falecimento no ano em que morre Saramago. Talvez por isso – odeio tais conjeturas, mas enfim – tenha também partido da experiência fundamental do sofrimento e do mal que são índices de assimetria entre o homem e sua existência. É a esta assimetria entre uma “paixão de viver e um destino de morte”, que se espalha e contamina toda nossa epistemologia, bem como toda ética possível, que Camus chama Absurdo. Mas aqui já começa por se desenhar a lucidez e a honestidade existencial de Camus, que jamais Saramago pôde alcançar.</p>
<p align="justify">Para começar, ao contrário do que afirma o português, não há nada de errado com o “mundo”, A natureza – <em>phýsis</em> – segue sendo si mesma inclusive como um paradigma de acordo. Nela não há divórcio possível. Nos diz Camus:</p>
<blockquote><p align="justify">Se eu fosse árvore por entre as árvores, gato por entre os animais, esta vida teria um sentido ou, sobretudo, esse problema [do Absurdo] não se colocaria, pois eu faria parte deste mundo.</p>
</blockquote>
<p align="justify">Camus é lúcido porque sabe que é no encontro entre homem e mundo que surge o desnível. É o homem, por sua condição de infinitamente desejante que só pode ser em uma existência finita num mundo que o ultrapassa, que compõe o Absurdo. Contudo, o mundo não é somente o <em>locus</em> da história humana, mas é também <em>phýsis:</em></p>
<blockquote><p align="justify">A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo.</p>
</blockquote>
<p align="justify">Lucidez que se desdobra na consciência de que toda tentativa de resolver aquele divórcio de modo imanente é desonestidade. Assim, Marx e os revolucionários não acrescentam uma gota de bálsamo na úlcera da existência; ao contrário, fazem uso de um problema metafísico para legitimar uma tentativa de resposta histórica e histérica que desemboca em mais absurdos. É só quem parte da idéia de que é possível corrigir a existência por expedientes políticos, ao invés de exclusivamente por uma ascese, que pode acreditar – sim, é uma crença – na indiferença entre a finitude e o assassinato:</p>
<blockquote><p align="justify">Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes.</p>
</blockquote>
<p align="justify">Mas para ser honesto, Camus também reflete sobre Caim. A questão “Deus” foi sempre um problema urgente em sua vida (que se lembre sua dissertação de conclusão do curso de filosofia, sobre Plotino e Santo Agostinho). Mas novamente, aquilo que chamamos de lucidez e honestidade existencial é o que diferencia o rebelde do Revoltado. A reflexão camusiana se impõe em toda sua profundidade porque não olha a condição humana a partir do homem ideal plasmado pela revolução, mas para o homem infinitamente apaixonado por sua existência:</p>
<p align="justify">&#160;</p>
<blockquote><p align="justify">Com Caim, a primeira revolta coincide com o primeiro crime. A história da revolta, tal como a vivemos atualmente, é muito mais a dos filhos de Caim do que a dos discípulos de Prometeu. […] Sob esta ótica, o Novo Testamento pode ser considerado como uma tentativa de responder antecipadamente a todos os Caim do mundo, ao suavizar a figura de Deus e ao criar um intercessor entre ele e o homem. O Cristo veio resolver dois problemas principais, o mal e a morte, que são precisamente os problemas dos revoltados. […] A noite do Gólgota só tem tanta importância na história dos homens porque nessas trevas a divindade, abandonado ostensivamente os seus privilégios tradicionais, viveu até o fim, incluindo o desespero, a angústia da morte. [… mesmo] A gnose, por suas origens gregas, permanece conciliadora e tende a destruir o legado judaico do cristianismo.</p>
</blockquote>
<p align="justify">Camus era, em suas próprias palavras, não um ateu, mas um blasfemo. O que pode soar adolescente, é o grito fundamental do homem frente à experiência do Absurdo e do Mal mas que mantém a clareza de visão. Não se trata de negar infantilmente a Deus, como uma “criação humana” (o próprio Feuerbach já se encheria…), mas de experienciar radicalmente o paradoxo, a dúvida e o não-entendimento. Há algum santo que, neste sentido, não seja blasfemo?</p>
<p align="center">* * *</p>
<p align="justify">Em 1948, Camus foi chamado a falar no convento dominicano de Latour-Maubourg. Ao contrário do que se poderia esperar, o “ateu” começa por denunciar a desonestidade existencial, aqui sob o nome de “farisaismo laico&quot;:</p>
<blockquote><p align="justify">Há, de início, um farisaísmo laico ao qual eu me esforço por não ceder. Eu chamo farisaísmo laico aquele que faz crer que o cristianismo é coisa fácil, e que faz menção de exigir ao cristão, ao nome de um cristianismo visto do exterior, mais do que ele exige de si mesmo. […] eu não partirei jamais do princípio que a verdade do cristianismo é ilusória, mas somente do fato que eu não pude nela adentrar.</p>
</blockquote>
<p align="justify">À guisa de conclusão, Camus é ponto-a-ponto infinitamente mais honesto ao seu problema inicial do que Saramago. Este último, para além de sua contribuição estilística e literária, não esgarçou um só centímetro do limite da reflexão humana sobre sua condição existencial, Sua metafísica, no sentido que explicitei acima, desdobra-se em ranço (marxista-eclesioclasta-ateu) que denuncia a própria obra. E não consegue combater o Absurdo porque nele, ao contrário do que ocorre na obra de Camus, a criação para na historia e jamais alcança a existência.</p>
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		<title>Novamente, a eclesioclastia e a revolta do fraco contra o forte</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Apr 2010 16:19:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Entre as várias tentativas de explicar e entender o que move a agenda eclesioclasta contemporânea, penso ser fundamental retomar o cerne daquilo que impulsiona a oposição à Igreja desde os tempos mais remotos e passando pelos períodos áureos de oposição à Igreja de Cristo, a saber, a revolta do fraco contra o forte. E poucos souberam tão bem localizar e explicitar tal dinâmica quanto Nietzsche que, agudamente, reconhece um dos momentos de eclosão de tal movimento já na Reforma Protestante:</p>
<blockquote><p align="justify">&quot;Mas a coisa mais estranha é que aqueles que mais desejam reter e preservar o cristianismo são os que mais fizeram para destruí-lo (…) A reforma luterana, em toda a sua extensão e amplitude, foi a indignação do simples contra o complexo; para falar prudentemente, foi uma falta de refinamento, honestamente um engano.</p>
<p align="justify">(…)Lutero era fatalmente limitado, superficial e imprudente. Ele confundiu, atrapalhou, deu os Livros Sagrados na mão de qualquer um – o que significa dá-los na mão dos filólogos, que são os destruidores de toda crença baseada em livros. Ele demoliu o conceito de &quot;igreja&quot; por repudiar a fé na inspiração dos concílios; para que o conceito de &quot;igreja&quot; permaneça vigoroso como é, ele pressupõe que o Espírito inspirador que fundou a igreja permaneça vivo nela, construindo-a, continue ainda a fazer nela sua morada de descanso. (…) Lutero destruiu um ideal que ele não sabia como alcançar (…) De fato, ele não sabia o que estava fazendo.&quot;      <br /><strong></strong></p>
<p align="right"><strong>NIETZSCHE, F.</strong> <em>A Gaia ciência (traduzido da edição americana)</em></p>
</blockquote>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">Não é de hoje que vemos a agenda eclesioclasta do mundo moderno, cujo porta-voz, arauto e profeta é a mídia (esta última grande instância de sentido da atualidade, ao lado da ciência e da tecnologia). Já no século passado H. U. von Balthasar, um dos maiores teólogos do século XX dizia que, para fazer com que as pessoas não lhe ouvissem mais, bastava citar &quot;Deus&quot; ou &quot;Igreja&quot; na conversa, e todo discurso se esvaziaria de sentido instantaneamente. O que ocorre hoje é a manifestação explícita da &quot;revolta do fraco contra o forte&quot;, &quot;do superficial contra o profundo&quot; já presente na heresia de Lutero. O mundo (e seus profetas) odeiam a Igreja porque não a podem alcançar. Aqueles mesmos criminosos que abusam de crianças não o fazem em acordo com o que ensina a Mãe Igreja, mas o fazem contra ela. Estes são os primeiros a empreenderem uma dinâmica de destruição daquilo que não sabem como efetivar. A modernidade odeia a Igreja porque, como já previra Hegel, quis abandonar os valores do passado sem saber bem o que colocar no lugar. E nunca antes na história do pensamento ocidental a mudança histérica de paradigmas foi vista como uma qualidade e não um defeito. E se chega ao ponto de adorar o vazio à grandiosidade…</p>
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		<title>Ainda sobre homossexualismo e pedofilia</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Apr 2010 16:27:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em um dos posts anteriores em que comentei os casos de pedofilia na Igreja, também fiz referência à relação existente entre os casos de pedofilia e a conduta homossexual. Tal relação não é uma novidade interpretativa minha, mas algo que vem sendo falado e estudado de maneira bastante consistente. Contudo, há alguns comentários que vão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Em <strong><a href="http://www.gabrielferreira.com.br/index.php/se-falei-mal-provai-o/" target="_blank">um dos posts anteriores</a></strong> em que comentei os casos de pedofilia na Igreja, também fiz referência à relação existente entre os casos de pedofilia e a conduta homossexual. Tal relação não é uma novidade interpretativa minha, mas algo que vem sendo falado e estudado de maneira bastante consistente. Contudo, há alguns comentários que vão ou no sentido contrário ao da referida relação ou, ainda, da impropriedade lógica de tal inferência. Pretendo aqui comentar as duas coisas.</p>
<p align="justify"><strong>1. SOBRE A IMPROPRIEDADE LÓGICA DAS RELAÇÕES ENTRE HOMOSSEXUALIDADE E PEDOFILIA<em>.</em></strong></p>
<p align="justify">De fato, sabemos que por meio de dados estatísticos um sem número de falácias são veiculadas e defendidas todos os dias. Assim, relações numéricas acabam, na mão de propagandistas, tornando-se índices fortes de relação causal. A própria declaração do Cardeal Bertone, a saber, de que a maioria esmagadora de casos de pedofilia na Igreja – em torno de 90% – se dava entre padres e crianças do sexo masculino, poderia servir para tal mau uso dos dados. Portanto, é necessário esclarecer algumas coisas.</p>
<p align="justify">Entre duas grandezas há diversas formas de relação. E não é sem razão que Hume chama a atenção para o nosso hábito de relacioná-las, em grande parte das vezes, em termos de causa e efeito. Desse modo, tendemos a restringir a miríade de relações (que podem ser de gênero, espécie, número etc.) àquela de causação. É importante lembrar que, mesmo a relação causal se diz de muitos modos, como já o lembra Aristóteles na Metafísica, muito embora cotidianamente nós a reduzamos ao sentido de causa eficiente. Mas vejamos mais de perto o caso da relação estatística citada, entre homossexualismo e pedofilia.</p>
<p align="justify">É notoriamente uma falácia, amplamente conhecida mesmo da lógica clássica, dizer que haja uma relação causal necessária entre dois eventos apenas porque se repetem simultaneamente em grande parte dos casos. É possível ilustrar o caso com a chamada falácia da afirmação do consequente: </p>
<blockquote><p align="justify">Se X então Y</p>
<p align="justify">Y</p>
<p align="justify">Então X</p>
</blockquote>
<p align="justify">ou algo como “Se chove, o chão fica molhado. O chão está molhado, logo choveu”. É claro que pode haver outra causa para a umidade do chão, tal como um acidente ou a umidificação artificial. Não se pode então dizer que há uma relação causal necessária entre o homossexualismo e a pedofilia. Há outras falácias que se poderiam desvelar, como dizer “Todo pedófilo respira oxigênio/ X respira oxigênio/ Então X é pedófilo. Tal argumento é visivelmente falacioso e não prova relação causal última necessária.</p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">Dito isto, e afastado o erro, há outras coisas a se considerar. Como disse, há diversas formas de relação entre duas entidades que não a de causa. Assim, embora não seja uma relação estrita de causa e efeito necessária, pois nem é verdade que todo homossexual seja pedófilo nem que todo caso de pedofilia é cometido por um suejito homossexual, estabelecer uma ligação entre dois eventos ou elementos que repetidamente se dão simultaneamente não é ilógico. Note-se novamente que a relação não precisa ser necessariamente de causa.</p>
<p align="justify">No início da epidemia de AIDS, tínhamos a famigerada noção de “grupos de risco”, ou seja, havia grupos em que a incidência de casos de infecção por HIV era maior, a saber, homossexuais, usuários de drogas injetáveis e hemofílicos. Novamente, a relação não é de causação estrita: ser homossexual, usuário de drogas injetáveis ou hemofílico não é condição <em>sine qua non</em> para ter AIDS (do mesmo modo que ser homossexual não é condição <em>sine qua non</em> para ser pedófilo. Note-se, que nem ser padre, nem ser celibatário…). Tanto o é que a própria noção de grupo de risco foi oficialmente substituída por aquela de “comportamento de risco” (veja <strong><a href="http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMIS9C8919D5PTBRIE.htm#faq1" target="_blank">aqui</a></strong> no próprio site do Governo Federal sobre a doença) já que atualmente a incidência de infecção extrapolou os referidos grupos (é possível pensar que a noção de grupo de risco seja associada ao caso em que apenas determinado grupo esteja sujeito à doença, como se pode dizer que apenas mulheres são sujeitas ao câncer de colo de útero, por exemplo).</p>
<p align="justify"><strong>Entretanto, embora não se possa relacionar causalmente os grupos de risco com os casos de HIV, a ligação e, inclusive a maior cautela com tais grupos era (ou ainda é) ilógica ou irracional? Não era absolutamente visível a co-incidência entre ser membro de um daqueles grupos e estar mais exposto à infecção por HIV? Porque não há uma relação causal estrita e necessária a inferência de que se deveria afastar-se do comportamento de tal grupo é irracional?</strong></p>
<p align="justify"><strong></strong></p>
<p align="justify"><strong>2. SOBRE A MAIOR INCIDÊNCIA DE CASOS DE PEDOFILIA ENTRE HOMOSSEXUAIS</strong></p>
<p align="justify">Há numerosos estudos sérios sobre as relações entre homossexualismo e pedofilia. Como ponto de partida para o levantamento da bibliografia, cito dois:</p>
<p align="justify">- O <strong><a href="http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/1556756" target="_blank">estudo de K. Freund e R. J. Watson, da Universidade de Toronto</a></strong>, cujo abstract reproduzo abaixo:</p>
<blockquote><p align="justify">Previous investigations have indicated that the ratio of sex offenders against female children vs. offenders against male children is approximately 2:1, while the ratio of gynephiles to androphiles among the general population is approximately 20:1. The present study investigated whether the etiology of preferred partner sex among pedophiles is related to the etiology of preferred partner sex among males preferring adult partners. Using phallometric test sensitivities to calculate the proportion of true pedophiles among various groups of sex offenders against children, and taking into consideration previously reported mean numbers of victims per offender group, the ratio of heterosexual to homosexual pedophiles was calculated to be approximately 11:1. This suggests that the resulting proportion of true pedophiles among persons with a homosexual erotic development is greater than that in persons who develop heterosexually. This, of course, would not indicate that androphilic males have a greater propensity to offend against children.</p>
</blockquote>
<p align="justify">A razão de 11 para 1 não pode ser considerada desprezível. </p>
<p align="justify">- Veja-se ainda o estudo de <a href="http://www.mega.nu:8080/ampp/baldwin_pedophilia_homosexuality.pdf" target="_blank"><strong>Steve Baldwin</strong></a>, com quantidade assombrosa de referências a estudos e análises que chegam a apontar taxas ainda maiores.</p>
<p align="justify"><strong></strong></p>
<p align="justify"><strong>3. SOBRE A PROPAGANDA PEDÓFILA HOMOSSEXUAL</strong></p>
<p align="justify">Aqui a coisa fica deslavada: não acredite em mim, visite o site da NAMBLA.org (<em>North American Man-Boy Association)</em> <strong>uma associação destinada a propagar a relação pedófila homossexual. </strong>Visite a seção “Who we are”, bem como o “FAQ”. A associação se autodescreve como se segue:</p>
<blockquote><p>NAMBLA&#8217;s goal is to end the extreme oppression of men and boys in mutually consensual relationships by:</p>
<p>building understanding and support for such relationships;</p>
<p>educating the general public on the benevolent nature of man/boy love;</p>
<p>cooperating with lesbian, gay, feminist, and other liberation movements;</p>
<p>supporting the liberation of persons of all ages from sexual prejudice and oppression.</p>
<p>Our membership is open to everyone sympathetic to man/boy love and personal freedom.</p>
</blockquote>
<p align="justify"><strong>Durante 10 anos a NAMBLA foi associada à ILGA – International Lesbian and Gay Association que, em 1993 tornou-se membro consultivo da ONU em assuntos referentes à homossexualidade.</strong></p>
<p align="justify">Faço referência ao <a href="http://juliosevero.blogspot.com/2006/04/padres-pedofilia-e-homossexualismo.html" target="_blank"><strong>artigo de Júlio Severo em que ele recolhe várias citações sobre a agenda pedófila de entidades e associações homossexuais</strong></a><strong>. </strong>Embora não concorde com todas as inferências, é inegável o farto recolhimento de material.</p>
<p align="justify">Por fim, lembre-se que não se trata de tentar combater a (baixa) incidência de casos de pedofilia entre membros do clero com a “simples” acusação de que o problema é a homossexualidade. <strong>Trata-se de identificar uma tendência que, embora não se possa afirmar que exprime causa direta e necessária, constitui ao menos uma relação de gênero: são duas perversões sexuais que comprovadamente costumam se acompanhar; duas inclinações a hábitos sexualmente desordenados que, se poderia dizer, brotam de uma mesma concepção de como fazer uso da própria sexualidade.</strong></p>
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		<title>Se falei mal, provai-o&#8230;</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Apr 2010 01:18:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As últimas ações da agenda que visa agredir a Igreja a partir das falsas acusações sistemáticas tiveram, ontem, enfim, uma resposta à altura. Ela veio do Cardeal Tarcisio Bertone que afirmou o óbvio ululante: a esmagadora maioria dos casos envolvendo o abuso sexual de crianças e adolescente por membros do clero se deu entre padre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">As últimas ações da agenda que visa agredir a Igreja a partir das falsas acusações sistemáticas tiveram, ontem, enfim, uma resposta à altura. Ela veio do Cardeal <a href="http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1566429-5602,00.html" target="_blank"><strong>Tarcisio Bertone que afirmou o óbvio ululante</strong></a><strong>: </strong>a esmagadora maioria dos casos envolvendo o abuso sexual de crianças e adolescente por membros do clero se deu entre padre e meninos, portanto, com ligação íntima com o homossexualismo e não com o celibato. Mas parece que alguns esqueceram de entender conclusões óbvias:</p>
<p align="justify"><strong>1. </strong>Que a pedofilia é uma perversão, até os críticos mais virulentos o reconhecem. Mas por que a sodomia não? O ponto crucial para a legitimação moral é a legitimação social? O fato de que seja socialmente aceitável a relação homossexual exclui <em>per se</em> o debate? Se assim for, Deus nos livre, se chegarmos a uma sociedade que assimila a pedofilia como comportamento sexual aceitável ocorrerá por si só uma <em>metábasis eis allo génos</em> (uma mudança de gênero) em relação ao seu valor moral? O mesmo para a demais parafilias (necrofilia, zoofilia etc.)?</p>
<p align="justify"><strong>2. </strong>Chega a ser ultrajante a tentativa de relacionar o celibato clerical à pedofilia. O arremedo de argumento apresentado pelos defensores de tal associação repousa sobre uma inferência ridiculamente falaciosa de que uma suposta repressão da libido geraria necessariamente um extravasamento desordenado, como a pedofilia. Nada mais patético.</p>
<p align="justify">Já Aristóteles chamava a atenção para que a existência de razão e certa liberdade eram os sinais distintivos do homem em relação aos demais entes da natureza. Isso significa que ao homem é possível, diferentemente dos animais e das plantas, optar até contrariamente à natureza se sua deliberação racional o mostrar como mais adequado ou vantajoso. Desse modo, é possível reprimir o desejo de comer, dormir ou copular em benefício de outras finalidades mais altas.</p>
<p align="justify">Dizer então que a opção pelo celibato é algo antinatural já é por si só prova de imbecilidade ou má-fé. É tão naturalmente possível quanto a dieta. Do mesmo modo, dizer que optar pela castidade tem como consequência necessária a irrupção do desejo sexual de maneira desordenada é dizer que o jejum é sucedido obrigatoriamente por orgias gastronômicas ou que a abstinência de determinado alimento ou substância precede o excesso. </p>
<p align="justify">Some-se à ignorância (e à má-fé) a importância inegavelmente extremada atribuída à dimensão sexual. Por vezes ela parece ser a última instência de sentido existencial, o que agrada aos espiritual e intelectualmente fracos que gostam de banir a reflexão sobre o assunto sob o nome de repressão. <strong>Se há uma relação possível de ser feita é justamente aquela óbvia que conecta um hábito pervertido (pedofilia)&#160; a outro hábito igualmente desordenado (homossexualismo).</strong></p>
<p align="justify"><strong>3. </strong>Em tudo isso é absolutamente visível que a meta é denegrir e rebaixar a Igreja mediante um <strong>esforço sistemático e obstinado de coerção semântica</strong>, cuja finalidade é forçar a associação entre as palavras “Igreja” e “Pedofilia”. E como bem se sabe, a manipulação da linguagem é sempre sinal de manipulação intelectual. Note-se que todo clichê que é repetido à exaustão é sinal de que seu significado está cristalizado de modo que refletir sobre ele não é mais necessário. Não é exatamente o que se pretende: a repetição nauseante das palavras “Igreja” e “Pedofilia” nas mesmas sentenças a ponto de que seus sentidos se fundam de modo que à menção de uma brote imediatamente a outra?</p>
<p align="justify">Triste é ver a Santa Sé se pronunciar contra o Cardeal que só enunciou a verdade dos fatos. O que nos lembra que a resposta que dá o Senhor ante o escárnio e a humilhação: “Replicou-lhe Jesus: Se falei mal, prova-o, mas se falei bem, por que me bates?” (Jo 18,23).</p>
<p align="justify">* Há dois excelentes posts sobre o assunto: <a href="http://juliosevero.blogspot.com/2006/04/padres-pedofilia-e-homossexualismo.html" target="_blank"><strong>um do Julio Severo</strong></a><strong>&#160;</strong>e outro no <a href="http://neoateismodelirio.wordpress.com/2010/04/14/contra-fatos-nao-ha-argumentos-tarcisio-bertone-estava-certo/" target="_blank"><strong>Neo-Ateísmo, Um delírio</strong></a><strong>. </strong>Em tempo, <strong><a href="http://zenit.org/p-24599" target="_blank">artigo da Zenit</a></strong> sobre o mesmo assunto.</p>
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		<title>Luiz Felipe Pond&#233; &#8211; De 1984 a 2010</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Apr 2010 14:28:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[NO ROMANCE &#34;1984&#34;, de George Orwell, o personagem principal trabalha alterando os arquivos históricos para moldar as consciências para o bom convívio social. Chegamos à época em que essa distopia (contrário de utopia) virou realidade. Só que, desta vez, pelas mãos dos herdeiros dos projetos utópicos &#34;mais bem- intencionados&#34;. Porém, antes, um reparo. A política [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">NO ROMANCE &quot;1984&quot;, de George Orwell, o personagem principal trabalha alterando os arquivos históricos para moldar as consciências para o bom convívio social. Chegamos à época em que essa distopia (contrário de utopia) virou realidade. Só que, desta vez, pelas mãos dos herdeiros dos projetos utópicos &quot;mais bem- intencionados&quot;. </p>
<p align="justify">Porém, antes, um reparo. A política é um mal necessário, mas existem formas e formas de política. A minha pode ser entendida como uma política herdada de autores como Isaiah Berlin, filósofo e historiador das ideias do século 20, judeu nascido em Riga, Letônia, radicado na Inglaterra. Em matéria de política, prefiro sempre os britânicos aos franceses ou alemães. Tal como ele diz em seu recém-publicado no Brasil &quot;Idéias Políticas na Era Romântica&quot; (Cia. das Letras), prefiro a liberdade à felicidade. </p>
<p align="justify">A felicidade se declina no plural, porque os valores são conflitantes e não acredito em nenhuma forma de resolver essas diferenças. A melhor sociedade é a sociedade na qual ninguém tem razão (ninguém sabe a verdade definitiva sobre o bem e o mal), mas um número significativo de pessoas consegue conviver razoavelmente, mesmo sem saber a verdade sobre o bem e o mal. O furor coletivo de &quot;verdades do bem&quot; deve ser mantido sob controle rígido assim como delírios de um serial killer numa noite de calor insuportável. A sociedade é o lugar do apenas tolerável. E a profecia de Orwell? Todo mundo já tinha ouvido falar que na China o governo estaria alterando os livros de história das escolas para que a Revolução Cultural Chinesa (uma das maiores monstruosidades cometidas na história da humanidade) desaparecesse da memória das gerações mais jovens. Vale lembrar que muitas das pessoas que entre nós se preparam para assumir o governo concordavam com aquelas atrocidades: matar, saquear, sequestrar gente inocente. </p>
<p align="justify">Mas o que dizer de países democráticos como o Canadá? Recentemente, estudantes e professores &quot;amantes da liberdade&quot; quase lincharam uma intelectual americana, Ann Coulter, e impediram que ela falasse numa universidade. Não ouvi nenhum dos intelectuais de plantão defendê-la. Era de esperar que muitas mulheres do mundo das letras não o fizessem, uma vez que ela é loira e gostosa, pecados imperdoáveis para intelectuais feias e azedas. A causa da fúria da &quot;comunidade intelectual&quot; da universidade no Canadá era porque essa loira conservadora é conhecida por não rezar na cartilha dos opressores &quot;do bem&quot;. </p>
<p align="justify">O Canadá é um dos países mais totalitários no que se refere à repressão ao uso livre da linguagem e à crítica aos costumes da nova casta fascista que empesteia o mundo. Lá, de repente, você pode ser preso porque usou uma palavra que esta casta julga inapropriada. Toda vez que estamos diante do controle oficial da língua, estamos diante de um regime opressor. Mas fiquemos em nossa cozinha e deixemos os canadenses afogados em seu fascismo do detalhe. </p>
<p align="justify">Outro dia vi na mão de uma colega uma foto do &quot;novo Saci&quot;. Tiraram o cachimbo da boca do Saci. Eu, que sou um amante de cachimbos e charutos cubanos (e viva la Revolución!!), me senti diretamente afetado. Meu irmão de fé, o Saci, está sendo reprimido. A ideia é que, com cachimbo, ele é um mau exemplo para as crianças. Imagino que esses caras acham que bom exemplo é mulher vestida de homem coçando o saco. </p>
<p align="justify">Outro caso recente é a perseguição a velhas cantigas de roda e histórias infantis. Por exemplo, o &quot;atirei o pau no gato&quot; deve virar &quot;não atire o pau no gato&quot; para que as crianças não cresçam espancando gatos por aí. O fascismo &quot;verde&quot; chega ao ponto de tirar das crianças uma música divertida para torná-las defensoras dos gatos. </p>
<p align="justify">Lembro-me de meninas na minha infância que cantavam essas músicas e ainda assim choravam quando os meninos ensaiavam torturar pequenos animais só para vê-las chorar e assim chegar perto delas. Como era bom jogar baratas mortas no lanche das meninas só para ver elas pularem deliciosamente das suas cadeiras em lágrimas. </p>
<p align="justify">O Lobo Mau não pode mais ser mau e comer a vovozinha da Chapeuzinho Vermelho. Muito menos o Caçador pode salvá-la, porque estaria estimulando às meninas sonharem com príncipes encantados. O novo fascismo quer que os lobos sejam bonzinhos (pobres lobos) e que as meninas não sonhem com caçadores que as protejam (coitadas). Sim, 1984 é agora. </p>
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		<title>O Deus rid&#237;culo dos cientistas</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Mar 2010 14:48:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160; Em sua coluna no caderno mais! do último dia 28, Marcelo Gleiser publica um texto que, a&#160;&#160; princípio, parece carregado de boas intenções e de uma posição respeitosa para com a postura religiosa. Embora, deve-se notar, o faça com uma espécie de tom condescendente, quase paterno, que perdoa as bobagens que a criança faz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Flying_Spaghetti_Monster.jpg"><img title="Flying_Spaghetti_Monster" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; margin: 40px 0px 5px 10px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" height="244" alt="Flying_Spaghetti_Monster" src="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Flying_Spaghetti_Monster_thumb.jpg" width="244" align="right" border="0" /></a>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">Em sua coluna no caderno mais! do último dia <strong><a href="http://img25.imageshack.us/img25/3610/folhadespaulomarcelogle.jpg" target="_blank"></a></strong>28, <strong><a href="http://img25.imageshack.us/img25/3610/folhadespaulomarcelogle.jpg" target="_blank"></a></a></strong>Marcelo Gleiser <strong><a href="http://img25.imageshack.us/img25/3610/folhadespaulomarcelogle.jpg" target="_blank">publica um texto</a></strong> que, a&#160;&#160; princípio, parece carregado de boas intenções e de uma posição respeitosa para com a postura religiosa. Embora, deve-se notar, o faça com uma espécie de tom condescendente, quase paterno, que perdoa as bobagens que a criança faz (mas isso é assunto para um outro post, se bem que já é possível notá-lo pela análise do primeiro ponto, abaixo). O que me chama atenção, de fato, são duas posições veiculadas no texto que comentarei separadamente, não obstante formem um só bloco que sinaliza uma ignorância profunda sobre o tema.</p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify"><strong>1. O progresso da ciência afeta a crença em Deus. </strong>Em 2008, motivado pela questão proposta por um seminário da John Templeton Foundation, fiz um <a href="http://www.gabrielferreira.com.br/index.php/a-ciencia-torna-a-crenca-em-deus-obsoleta/" target="_blank"><strong>post com os links das falas de um debate sobre se a ciência tornaria a crença em Deus obsoleta</strong></a><strong>. </strong>Marcelo Gleiser retoma a tese para apenas aparentemente rechaçá-la:</p>
<blockquote><p align="justify">O Deus que interferia no mundo transformou-se no Deus criador: após criar o mundo, deixou-o à mercê de suas leis. Mas, nesse caso, o que seria de Deus? Se essa tendência continuasse, a ciência tornaria Deus desnecessário? </p>
<p align="justify">Foi dessa tensão que surgiu a crença de que a agenda da ciência é roubar Deus das pessoas. Um número espantoso de pessoas acha mesmo que esse é o objetivo dos cientistas, acabar com a crença de todo mundo. Os livros de Richard Dawkins e outros cientistas ateus militantes, que acusam os que creem de viverem num estado de delírio permanente, não ajudam em nada a situação. Mas será isso mesmo o que a ciência pretende? Será que esses fundamentalistas ateus falam por todos os cientistas?</p>
<p align="justify">De modo algum. Eu conheço muitos cientistas religiosos, que não veem qualquer conflito entre a sua ciência e a sua crença. Para eles, quanto mais entendem o Universo, mais admiram a obra do seu Deus. (São vários.) Mesmo que essa não seja a minha posição, respeito os que creem.</p>
</blockquote>
<p align="justify">O autor parece mesmo ir contra a “crença” geral de que os cientistas agiriam sistemática e obstinadamente para banir Deus da mente das pessoas, muito embora atribua a esta o papel de nova religião, ao dizer que a tarefa última da atividade científica é “aliviar o sofrimento humano”. Contudo, mais adiante, o colunista expõe o que realmente pensa:</p>
<blockquote><p align="justify">É óbvio que, como já afirmava Einstein, crer num Deus que interfere nos afazeres humanos é incompatível com a visão da ciência de que a natureza procede de acordo com leis que, bem ou mal, podemos compreender. O problema se torna sério quando a religião se propõe a explicar fenômenos naturais; dizer que o mundo tem menos de 7.000 anos ou que somos descendentes diretos de Adão e Eva, que, por sua vez, foram criados por Deus, é equivalente a viver no século 16 ou antes disso. A insistência em negar os avanços e as descobertas da ciência é, francamente, inaceitável.</p>
</blockquote>
<p align="justify">De fato então, o progresso da ciência ao longo dos anos não deixa mais lugar para um Deus que aja realmente no mundo. Marcelo Gleiser, sem se dar conta, incorre em uma contradição severa, mas comum, que habita o espírito daqueles que ignoram matizes mais sutis do problema. Novamente, há dois pontos a serem vistos:</p>
<p align="justify"><strong>1.1.</strong> Vamos às avessas: se não há mais compatibilidade entre um Deus que seja a explicação última dos fenômenos da natureza (I), mas há lugar para algum tipo de crença em Deus que coabite com a ciência, tal lugar só pode se dar no íntimo da sensibilidade humana, conforme já dizia Schleiermacher (II). Deus se dá somente na experiência humana e em suas questões existenciais. LOGO, só há espaço para a ação de Deus, não nos fenômenos e na ordem íntima do universo, mas no homem e em seus afazeres. Mas SED CONTRA, o autor afirma que crer num Deus que interfira nos afazeres humanos é incompatível com a ciência. Então, qual o “lugar” epistemológico de Deus, ó cientista, se não como explicação última do mundo tampouco nos afazeres humanos?</p>
<p align="justify"><strong>1.2.</strong> O nosso cientista brasileiro, professor nos EUA (ô, que orgulho!)&#160; parece desconhecer uma distinção básica que já está em Aristóteles. Há uma grande diferença entre o domínio da natureza, regrado por certas leis, e o âmbito das “coisas humanas”, no qual há liberdade e contingência. O autor mistura indistintamente os “afazeres humanos” com o fato de que “a natureza procede de acordo com leis”. Novamente, se não pelo que foi mostrado em 1.1., Gleiser incorre aqui em contradição: se os dois registros – humano e aquele da natureza – são um e o mesmo, sem distinção, e a crença em um Deus que ingira nas coisas humanas (que estão, ao que parece, intimamente ligadas às leis que regem a natureza) é incompatível com a ciência, não sobra novamente espaço para Deus. <strong>Assim, subrepticiamente Marcelo Gleiser deixa vir à tona a crença que a ciência vai banindo Deus do mundo e o texto nada tem, ao menos inconscientemente, de apologeta da convivência harmoniosa entre fé e ciência.</strong></p>
<p align="justify"><strong></strong></p>
<p align="justify"><strong>2. O conceito de Deus de Gleiser é de um adolescente em idade escolar. </strong>Este é mais um exemplo do que diz Dinesh D’Souza: veja o que acontece quando deixamos um cientista escapar do laboratório. Para o autor, o conceito de Deus é tal que possa ser reduzido a uma mera hipótese explicativa que deverá ser descartada em se mostrando que há aquelas que obtêm maior êxito cognitivo, numa dinâmica quase popperiana. Tal tese defenestra milênios de conhecimentos filosóficos e teológicos e manda ao espaço todas as sutilezas racionais. Ou Deus é uma entidade mágica que deveria operar feitos miraculosos e explícitos, exibindo-se a nós grandes juízes da validade epistemológica do universo, ou ele deve ser posto de lado dada sua ineficácia. Não se deve ignorar aqui o uso do conceito de eficácia, tão caro à nossa época, e que galga os mais altos postos metafísicos a ponto de ser predicado ou não a Deus. Ignora-se que a questão Deus não está em vista de duelar com questões de “como” são as coisas do mundo mas, de “por que” as coisas do mundo são (o que, para qualquer ser racional, afetaria o “como” em última instância..). <strong>E note-se que não há MENOS realidade ou objetividade aqui mas, ao contrário, MAIS interferência e MAIS ação de Deus no mundo. Deus como causa última da série de coisas no mundo (como já dissera Aristóteles e S. Tomás de Aquino). </strong>Mas, novamente, estamos no terreno de um pensamento refinado que a malha esgarçada da rede conceitual da maioria dos cientistas, não consegue capturar.</p>
<p align="justify">Não me espanta que, quando pretendem refutar a existência de Deus, alguns cientistas como Dawkins, façam uso do famigerado “Flying Spaghetti Monster”…</p>
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		<title>Alguns elementos para o debate F&#233; e Raz&#227;o &#8211; I</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Feb 2010 03:28:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; O status questionae da questão central do debate sobre Fé e Razão parece poder ser bem resumido pelo parágrafo abaixo, do professor Luiz López-Farjeat, de Princeton: Contemporary discussions on epistemology have raised a relevant problematic in the field of what might be called the epistemology of religion. The problem lies in the field of [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">O <em>status questionae </em>da questão central do debate sobre Fé e Razão parece poder ser bem resumido pelo parágrafo abaixo, do professor Luiz López-Farjeat, de Princeton:</p>
<blockquote><p align="justify">Contemporary discussions on epistemology have raised a relevant problematic in the field of what might be called the epistemology of religion. The problem lies in the field of doxology and it may have arisen in the following way: We have an epistemological responsibility to justify our beliefs; religious beliefs are inherently unjustifiable; therefore, it seems to be irresponsible to hold religious beliefs.</p>
</blockquote>
<p align="justify">De certo modo, e com certas modificações, tanto o juízo de A. J. Ayer sobre o fato de asserções religiosas (e éticas) serem “senseless” quanto a crítica da epistemologia reformada, de A. Plantinga, ao que chamam de evidencialismo, se desenvolvem a partir deste mesmo núcleo. Desejo então simplesmente propor alguns pontos que penso serem fundamentais – ou ao menos relevantes -&#160; para tal discussão:</p>
<p align="justify">- Uma das condições necessárias atualmente para o debate é uma concordância, em maior ou menor grau, sobre o pressuposto de que há dois campos de significação (ou ao menos de pretensão de significação, para os críticos da validade epistemológica da fé) absolutamente heterogêneos. A tentativa de encontrar um ponto de tangência entre os dois domínios deve partir de sua distância. </p>
<p align="justify">- Para além da diferenciação, há hoje em dia uma implícita hierarquização referente aos dois termos, Razão e Crença. O primeiro tem uma precedência tal, que o ponto desejável de contato é a justificação segunda ante a primeira.</p>
<p align="justify">- Parece haver historicamente uma certa conformação quanto ao conceito de Razão que, por definição, baniu a possibilidade de conjunção. A Razão é tida como, a priori, impermeável pela Crença a não ser no caso de ser induzida a erro.</p>
<p align="justify">Assim:</p>
<p align="justify">- Não parece ser relevante que ambos os registros ou domínios ocorrem de fato num mesmo sujeito. Com isso quero apontar que, ao menos de fato, ambos os registros encontram-se unidos por um mesmo sujeito que os opera. É possível pensar na hipótese de uma resposta num discurso antropológico, em sentido filosófico.</p>
<p align="justify">- Para filósofos como Santo Tomás, a hierarquia das faculdades é invertida, por exemplo. Com isso quero dizer que a aparente obviedade da precedência da Razão se construiu sobre um fundo histórico bem determinado, com elementos como o êxito social das ciências naturais e justamente a crítica à religião a partir do Iluminismo.</p>
<p align="justify">- Tal processo de conformação histórica do conceito atual de Razão, influenciada maciçamente pelos cânones das ciências naturais, moldou uma concepção que se afastou do conceito clássico de <em>lógos</em> ou <em>ratio</em>. Uma reabertura do conceito é então fundamental para retomar a possibilidade de contato entre Razão e Crença religiosa. Talvez no sentido de diversas racionalidades para diversos objetos nos moldes aristotélicos: o objeto da razão teorética não é o mesmo da razão prática, o que implica numa modificação de método de investigação mas não em abandono da razão.</p>
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		<title>Algumas considera&#231;&#245;es sobre as perspectivas atuais da Teologia e da Filosofia da Religi&#227;o</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Dec 2009 04:20:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; É sabido que sempre corremos o risco de nos identificarmos às posições que frequentemente criticamos. As visitações frequentes ao que podemos chamar de terreno inimigo podem fazer com que passemos mais tempo do lado de lá do que em nossa própria casa. De certo modo, é essa a atmosfera na qual escrevo algumas poucas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#160;</p>
<p align="justify">É sabido que sempre corremos o risco de nos identificarmos às posições que frequentemente criticamos. As visitações frequentes ao que podemos chamar de terreno inimigo podem fazer com que passemos mais tempo do lado de lá do que em nossa própria casa. De certo modo, é essa a atmosfera na qual escrevo algumas poucas considerações sobre que o estou denominando perspectivas da teologia e da filosofia da religião atuais.</p>
<p align="justify">De início, devo dizer que parto de uma decisão certamente arbitrária: estou considerando Teologia e Filosofia da Religião aquela teologia e aquela filosofia da religião que julgo minimamente séria. Estou pondo de lado Teologias da Libertação, Feministas e Regionalistas, bem como Sociologias ou Antropologias meramente descritivas da Religião ou do “fenômeno” religioso. Também coloco de lado as teologias e filosofias da religião não-cristãs. É importante notar que as minhas justificativas possíveis para a adoção de tais critérios na separação do que julgo ou não sério, são exatamente os problemas que aponto a seguir. </p>
<p align="justify">Quero, antes, dizer que o que afirmo aqui são idéias em curso e devem ser debatidas. Afirmo também que cada um dos pontos abaixo pode e deverá ser ampliado a fim de dar conta de toda a complexidade dos problemas colocados. Dito isso:</p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify"><strong>1. O debate religioso é quase que exclusivamente negativo e elaborado a partir de pautas colocadas pela crítica à religião</strong> (fé X razão, refutação de argumentos científicos ou crítica dos pressupostos epistemológicos científicos etc.). Nos termos que S. Pio X já apontava na magnífica <em>Pascendi Dominici Gregis</em>, a teologia se faz hoje quase como se “o fim a alcançar é a conciliação da fé com a ciência, ficando porém sempre incólume a primazia da ciência sobre a fé”. Há também uma quase ausência de colocações positivas acerca da ética, epistemologia ou metafísica cristãs. Podemos dizer que abateu-se sobre o lado religioso do debate, uma certa timidez cognitiva que raramente ousa propor a colocação efetiva de posições cristãs no lugar dos princípios adversários. Na prática, pouco nos movemos fora do domínio que queremos dissolver. O debate sério atual é estritamente apologético e pouco ou nada catequético. Por catequese entendo a apresentação e o ensino sistemático das verdades de fé. Isso traz um consequente abandono do que podemos chamar de dimensão evangelizadora sob o nome de proselitismo (novamente, definição a partir do léxico que queremos combater). Se a Igreja nasce, como dito na <em>Dominus Iesus</em>, do mandado de Cristo de avançar e anunciar o Evangelho a toda criatura, de acordo com as perspectivas que se apresentam, ela está fadada a minguar até a morte, caso isso fosse possível (mesmo esta tese que acabo de enunciar, a da impossibilidade de que a Igreja venha a acabar, parece atualmente sem valor cognitivo nenhum para a maioria dos teólogos), Atualmente assumimos o discurso de que devemos nos abster de toda tentativa de conversão já que a “escolha” religiosa se passa no domínio do sujeito emotivista. Por emotivismo entendo a corrente que pretende reduzir todo o âmbito da ação e da escolha humana a pontos de vista sobre os quais se assente ou não, acarretando o consequente banimento da autoridade da razão e da argumentação racional em tais assuntos. O que nos leva ao próximo ponto.</p>
<p align="justify"><strong>2.</strong> Outra das características nefastas, derivada da concepção de religião como habitando no domínio da escolha a partir da vontade, mas que também alimenta o ponto anterior naquilo que chamo de timidez cognitiva é a <strong>abstenção de um dos princípios mais fundamentais de todo e qualquer discurso religioso, sobretudo do cristão, que é a pretensão de Verdade em sentido lato.</strong> Com Verdade em seu sentido mais amplo, quero significar uma verdade objetiva, em toda sua extensão de explicação sobre o real e independente do sujeito que a enuncia bem como de seu assentimento. Os pensadores e polemistas cristãos parecem empregar seus esforços – sem dúvida alguma, valiosíssimos – em simplesmente preservar ou abrigar as teses religiosas das investidas de seus críticos. Podemos ilustrar o que apontamos com um tipo de debate bastante em voga, a saber, entre a visão cristã de mundo e aquela do darwinismo. Pululam ensaios que demolem fisiológica e arqueologicamente a posição dos evolucionistas, mas pouco se vê uma explicação positiva e convincente da posição cristã sobre o Gênesis (isto é, sobre o registro das origens) ou ainda de como as Escrituras são, ainda para nós homens do século XXI, uma reserva semântica preciosa mesmo no que diz respeito ao que hoje fica absolutamente restrito às ciências naturais; que se note bem, não no sentido de rivalizar com a metodologia científica mas apontando, por exemplo, dimensões que aquela metodologia não consegue alcançar. Devemos notar que, mesmo o fato de o discurso sobre a estrutura do real ser hoje devido apenas às ciências é, em parte, culpa e responsabilidade do pavor e da ignorância cognitiva dos teólogos e dos filósofos da religião que, desde a crítica iluminista, só se defendem (lembre-se de Schleiermacher que afirma que a religião não deve pretender rivalizar com a ciência ou com a metafísica na interpretação do mundo). Desse modo, é visível que a questão da Verdade foi apartada do seu peso existencial e das possíveis consequências para um ser humano existente que deveria se relacionar com ela (e aí sim deveria aderir à Verdade também por sua vontade, mas nunca ao largo dela) e passou a habitar apenas no terreno da atividade judicativa sobre questões factuais (se é “verdadeiro” ou “falso” que o homem evoluiu de outras espécies, por exemplo) e não mais sobre princípios e causas. Se “todo aquele que é da Verdade escuta a minha voz”, como diz o Cristo (cf. Jo 18,37), Ele talvez hoje não seja mais ouvido porque a Verdade não parece ter mais nada a ver com o Senhor..</p>
<p align="justify"><strong>3. Por fim, isto se manifesta também no terreno das Ciências da Religião.</strong> Qualquer tentativa de entrar no debate com tal pretensão (de Verdade) é, a priori, fadada ao fracasso. Alguém que pretendesse empreender um estudo sobre a plausibilidade bíblica da primazia petrina, por exemplo, contra a crítica luterana, seria condenado, dentro da Filosofia da Religião, ao âmbito da Teologia (como se isso fosse um rebaixamento). Já na Teologia, ouviria-se que tal questão é irrelevante para uma teologia contemporânea em suas vertentes mais vanguardistas e seria banido do debate como um radical ou reacionário (como se fosse mais um degrau de rebaixamento). Houve então um recrudescimento tanto quantitativo quanto qualitativo nas questões e nos problemas da reflexão religiosa. Elas diminuíram em número, já que algumas foram excluídas e tornaram-se diluídas em seu caráter mais essencial. Isto não é difícil de notar a partir do fato de que as questões e problemas da Teologia e da Filosofia da Religião, tal como estas disciplinas têm se dado atualmente, podem quase serem reduzidas às questões da Sociologia, Filosofia da Ciência ou Antropologia. Com isso quero apontar que também entre aqueles que deveriam buscar a Verdade pelo estudo e pesquisa séria também têm os ouvidos tapados à voz do Cristo. Onde ele será ouvido então?</p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="center">*&#160; *&#160; *</p>
<p align="center">&#160;</p>
<p><strong>ATUALIZAÇÃO:</strong> <em>Segue abaixo meus comentários aos valiosos comentários do Marcelo Viana, que podem ser vistos na caixa de comentários deste mesmo post.</em></p>
<p><em></em></p>
<p>Caro Marcelo.</p>
<p align="justify">Quero começar agradecendo firmemente seu comentário. Ele não só traz boas contribuições, mas serve de ocasião para continuar a reflexão. </p>
<p align="justify">Você inicia seu comentário dizendo da dificuldade de interpretar para além dos domínios da cosmovisão modernista. De fato, para isso, há justamente a necessidade de romper com o acordo irrestrito e inconsciente com o domínio cognitivo e semântico da modernidade, como já previra São Pio X (por favor, passe a <em>Pascendi Dominici Gregis</em> na frente em sua fila de leituras).</p>
<p align="justify">Creio que você acerta em dizer que grande parte da dificuldade se dá por nossa própria culpa. Entretanto, penso que erra ao tomar como modelo próximo o padre da paróquia mais próxima e seu ideário. Os modelos próximos são justamente as grandes matrizes do nosso pensamento que mantêm sua proximidade justamente por sua urgência atual: a filosofia séria, a teologia séria e o Magistério da Igreja. </p>
<p align="justify">Penso que o ponto fundamental no qual que você se afasta do que estou dizendo é no que vem a seguir. Julgo ser possível sintetizar aquilo que você diz em uma de suas sentenças: </p>
<blockquote><p align="justify">Quanto à Verdade de Cristo, uma vez tirada a venda, não é difícil de enxergá-la. A Teologia se desenvolveria muito fácil e naturalmente num mundo que estivesse disposto, pelo menos, a ver a religião como um fundamento da própria existência.</p>
</blockquote>
<p align="justify">Os dois aspectos estão aí expressos: “tirar a venda” e a quase “naturalidade da veracidade existencial do Cristo. De início, você mesmo expressa a complexa tensão entre a necessidade de uma ação positiva e uma quase “auto-evidência” da Verdade, o que dificulta que as coisas sejam assim como você diz. </p>
<p align="justify">Por “tirar a venda” você entende a desconstrução e a propaganda ativa de tal desconstrução, inclusive nas escolas etc. Aqui deveríamos apelar para os modelos corretos, como você bem lembrou. São Paulo, Santo Agostinho, São Justino e outros, jamais julgaram que seu afazer se limitava a desconstruir a tese adversária e que, depois, naturalmente viria à tona a Verdade evidente de Cristo. Primeiro porque desconstruir é, ainda, manter-se no domínio adversário: da desconstrução só salta à vista a fragilidade do objeto e, logicamente, jamais o valor de verdade de outra tese (que não a da possibilidade de desconstrução daquele objeto, sob pena de ofensa ao princípio do terceiro excluído). Deve haver, então, necessariamente, a colocação efetiva da tese que se quer afirmar. Quero amparar o que digo com dois pontos, um filosófico e um exemplo tirado de um dos modelos realmente exemplares: </p>
<p align="justify"><strong>a. As considerações sobre o conceito de evidência de São Tomás</strong> (ST, I, q.2, art. 1) podem nos auxiliar. Uma coisa pode ser dita evidente de duas maneiras: evidente em si, mas não para nós, e evidente em si e para nós. Evidente em si, é a proposição cujo predicado está contido essencialmente no sujeito (por exemplo, ”O homem é animal”, pois “animal” está contido essencialmente em “homem”). Entretanto, se alguém desconhece que se dê tal relação entre o predicado e o sujeito, a proposição pode ser evidente em si mesma e não para nós. É de suma importância para o que estou querendo dizer, o contexto em que ocorrem tais considerações de S. Tomás. É no domínio da prova da existência de Deus que o Aquinate fala de evidência. A proposição “Deus existe” é evidente em si, mas não para nós, por isso é necessária demonstração e ensino. A proposição “O cristianismo é verdadeiro” até pode ser considerada evidente em si, mas certamente não o é para nós. O maior sinal disso é justamente a existência do debate. E também não se pode dizer que ela se torna praticamente evidente pela desconstrução do projeto moderno, bem como da propaganda de tal destruição. </p>
<p align="justify"><strong>b. São Paulo em Atenas (At. 17, 15-34) é talvez o modelo exato para nosso problema.</strong> São Paulo irrita-se e angustia-se pelos erros dos atenienses. Seus debatedores julgavam estranhas suas teses (v. 20). O Apóstolo então começa pregando a partir do registro e do ambiente semântico de seus adversários, fazendo mesmo um elogio à religiosidade ateniense, muito embora a reconhecesse como idolatria: introduz a tese de que o Deus que prega é o que cria tudo o que existe, que não é feito por mãos humanas e, inclusive, usa o léxico da filosofia grega (ser, movimento) e faz referência à sua cultura (“Porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser, como até alguns dos vossos poetas disseram: Nós somos também de sua raça&#8230; “, v. 28). </p>
<p align="justify">É fundamental notar que, até aqui, embora seus ouvintes já soubessem que ele anuncia algo novo e diferente (v. 18), seguem-no em sua exposição e não há contenda. Embora haja uma discordância, ela está implícita e não causa maiores estragos. Mas perceba o que acontece quando, efetivamente, São Paulo enuncia sua tese fundamental: </p>
<blockquote><p align="justify">Quando o ouviram falar de ressurreição dos mortos, uns zombavam e outros diziam: A respeito disso te ouviremos outra vez. (v. 32)</p>
</blockquote>
<p align="justify">O que quero dizer, usando o exemplo de São Paulo, é que, embora seja necessário partir do registro da modernidade, no qual nós também nos movemos, não basta simplesmente que o desconstruamos e o destruamos, já que nosso objetivo não pode ser a mera aniquilação do projeto modernista. Como São Paulo, deve-se enunciar de maneira efetiva a tese que se julga verdadeira, com seus argumentos e reflexões, enfrentando inclusive a zombaria e o descrédito com a firmeza na fé e na razão. Creio ser aí o ponto fundamental da relação entre “fides et ratio”. </p>
<p align="justify">Por fim, o que você diz é um tanto complicado pois parece achar justo e correto um movimento ativo tendo em vista desconstruir e fazer propaganda da falsidade do projeto moderno, mas acha no mínimo estranho uma atitude semelhante na tarefa de positivamente afirmar como Verdade (ou “fazer propaganda”) o projeto cristão; “isso é algo que cabe a Deus controlar”. Abstem-se inclusive da pretensão de “imposição” de tal projeto às pessoas, ao mesmo tempo em que pensa ser estritamente necessária a “imposição” da crítica e da desconstrução através de uma propaganda sistemática, até no conteúdo programático das escolas. <strong>Por que esta diferença? Não estaria aí a manutenção da tese emotivista – claramente modernista &#8211; da escolha pessoal sobre a qual não pode ingerir o discurso racional? Ao assumirmos isto não estaríamos permanecendo no terreno adversário sem nos movermos um só centímetro para além dele? Não se está assumindo que isso é “proselitismo” e seu decorrente tom pejorativo?</strong></p>
<p align="justify">Em uma palavra, sua resposta exibe um tanto daquela <strong>esquizofrenia que acomete a todos nós, inclusive eu</strong>. Entendemos o problema, percebemos uma ou duas atitudes coerentes, mas duvidamos um tanto da validade epistemológica e, porque não dizer, metafísica, da outra alternativa. É a isso que chamei de “pavor cognitivo”. </p>
<p align="justify">É razoável pensar que talvez encontrássemos hoje, com mais facilidade, mártires pela falsidade da tese moderna do que mártires pela veracidade do Cristianismo.</p>
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		<title>Sobre Livros e Bibliografias&#8230; duvidosas</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Nov 2009 13:08:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; No caderno “mais!”, do jornal Folha de São Paulo da semana passada, o professor e jornalista Marcelo Gleiser cita e incensa os livros do escritor americano Dan Brown (aquele do Código Da Vinci e outros da mesma lavra). A princípio, nada contra a referência (ruim), mas ela me remete a um problema que julgo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify"><a href="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/11/lostsymbol.jpg"><img title="lostsymbol" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; margin: 0px 10px 5px 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" height="175" alt="lostsymbol" src="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/11/lostsymbol_thumb.jpg" width="117" align="left" border="0" /></a> No caderno “mais!”, do jornal Folha de São Paulo da semana passada, o professor e jornalista Marcelo Gleiser cita e incensa os livros do escritor americano Dan Brown (aquele do Código Da Vinci e outros da mesma lavra). A princípio, nada contra a referência (ruim), mas ela me remete a um problema que julgo mais grave.</p>
<p align="justify">De tempos pra cá, pode-se notar um crescimento no interesse (que catapulta Dan Brown e seus asseclas) por livros que tentam mesclar ficção e realidade em assuntos como filosofia, religião, teologia, história medieval etc.&#160; Não há como não lembrar também de outro que, embora seja Prêmio Nobel (ahn, bons tempos em que só grandes sujeitos eram laureados…), não faz lá coisas muito diferentes: José Saramago e seu <em>Caim. </em>Novamente, nada conta a ficção. O problema está na <em>meta básis eis allo génos</em>, ou passagem para outro gênero, como diz Aristóteles. De fato, consumidores deste tipo de livro têm uma curiosidade que se pode dizer sincera sobre tais assuntos. Contudo, fazem uma passagem de nível absurdamente nociva e, por que não dizer, irritante. <a href="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/11/caimsaramago.jpg"><img title="caimsaramago" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; margin: 0px 0px 5px 10px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" height="184" alt="caimsaramago" src="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/11/caimsaramago_thumb.jpg" width="123" align="right" border="0" /></a></p>
<p align="justify">Jamais, em tempo algum, Dan Brown seria citado entre <em>scholars </em>como bibliografia para estudos&#160;&#160; medievais ou sobre história da Igreja. Saramago nunca seria lembrado como biblista pelos devaneios que comete em seu <em>Caim</em> ou, ainda, em seu <em>O Evangelho segundo Jesus Cristo, </em>por exegetas que se dedicam durante uma vida a estudar tais temas a sério; ainda, <em>Quando Nietzsche chorou</em> não deve ser bibliografia obrigatória para se entender o pensador alemão. O que ocorre é a materialização atual da intuição platônica de que poetas (e aqui, romancistas) iludem e conduzem ao erro sob o verniz da bela forma, do entretenimento ou da falsa erudição. É cada vez mais frequente nas discussões, repudiar estudiosos em favor de diletantes vomitadores de best-sellers. Agora são estes as autoridades últimas.</p>
<p align="justify"><a href="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/11/nietzschechorou.jpg"><img title="nietzschechorou" style="border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; margin: 0px 10px 0px 0px; border-left: 0px; border-bottom: 0px" height="189" alt="nietzschechorou" src="http://www.gabrielferreira.com.br/wp-content/uploads/2009/11/nietzschechorou_thumb.jpg" width="126" align="left" border="0" /></a> Para além da queda de qualidade cada vez mais sensível nestes debates, é notável que começa a se desenvolver um processo medonho de regressão da reflexão (como Adorno previra em relação à audição por conta da música popular). E note-se que este movimento não ocorre apenas entre os que se abrigam sob aquele tipo de bibliografia: os detratores também rebaixam o nível do debate, seja tomando esse tipo de literatura como índice da posição religiosa, por exemplo (e ignorando tudo o que há de sério neste campo) ou fazendo uso, como “contra-argumento” de livros de mesmo calibre (penso aqui em Dawkins, por exemplo), Hoje em dia, “””refuta-se””” Santo Anseimo com Richard Dawkins; o <em>Proslógion</em> com <em>God’s delusion</em>*. </p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">E voltamos a um tipo de incômodo que sinto há anos. Ninguém aceitaria morar numa casa construída por mim caso eu apresentasse como credenciais, anos e anos brincando de <em>Lego</em> quando pequeno. Ou ainda, alguém aceitaria que eu abrisse sua cabeça em caso de um tumor, já que coleciono leituras sobre as maravilhas do cérebro? </p>
<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">* Apenas para explicitação, que se note que o argumento anselmiano é bastante diferente daquele que Descartes apresenta em suas <em>Meditações</em>, que ganha o predicado “ontológico”. </p>
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		<title>Os tais dos valores &#8211; Luiz Felipe Pond&#233;</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 00:41:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>G. Ferreira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; RECEBI MUITOS e-mails por conta da &#34;Vovó das Havaianas&#34;, a coluna de 5 de outubro, onde comentei o comercial &#34;maldito&#34; da &#34;vovó que gosta de sexo&#34;. Mas, afinal, por que se ofender com isso? A queixa dos ofendidos, em situações como essa, normalmente cai sobre essa coisa de que, hoje em dia, se fala [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">&#160;</p>
<p align="justify">RECEBI MUITOS e-mails por conta da &quot;Vovó das Havaianas&quot;, a coluna de 5 de outubro, onde comentei o comercial &quot;maldito&quot; da &quot;vovó que gosta de sexo&quot;. Mas, afinal, por que se ofender com isso?</p>
<p align="justify">A queixa dos ofendidos, em situações como essa, normalmente cai sobre essa coisa de que, hoje em dia, se fala tanto quanto se fala em cabala da Vila Madalena, energias, aquecimento global e outros clichês, isso é, os tais dos &quot;valores&quot;.    <br />Frases como &quot;hoje não existem valores&quot; soam tão ridículas como &quot;sofro porque os unicórnios estão sendo extintos&quot;. Quando alguém começa falando &quot;porque a crise dos valores hoje em dia&#8230;&quot;, eu já sei que o resto é blábláblá. Por acaso alguém acha que o mundo já foi melhor? Há 500 anos existiam &quot;valores&quot; mais válidos? Respondo: não, o mundo nunca foi bom. E mais: se há 500 anos havia &quot;valores&quot; mais válidos é porque simplesmente havia menos opções na vida. Muitas opções, muita mistura, muitas viagens, muita gente diferente, muita terapia&#8230;    <br />muita incerteza. A própria ideia de &quot;escolha de valores&quot; implica num &quot;mercado de valores&quot;.    <br />Todo mundo se acha &quot;progressista&quot;, &quot;emancipado&quot;, &quot;ético&quot;, adora dizer que gosta de mudanças morais, mas contanto que o mundo caiba em sua salinha de TV. O relativismo só serve para se achar índio fofinho.</p>
<p align="justify">Quer deixar alguém com vergonha: mande ele ou ela elencar a lista de &quot;valores&quot; que julga certa (não vale coisas do tipo &quot;não matarás&quot; porque essa ideia é de Moisés&#8230;). Ninguém é repressor, mas todo mundo tem seu chicotinho à mão. O moralismo barato nunca esteve tanto em voga. Falando mal da propaganda me sinto como um agente do bem enfrentando os demônios do mundo. Mas todo mundo quer que a economia gire, o dinheiro circule e venha parar em suas mãos. Para isso acontecer, tem de ter consumo. Ah, como é difícil esse mundo de gente grande.    <br />Ouvi dizer que umas 200 leis andam por aí querendo controlar a propaganda. Ouvi também falar de uma lei que obriga a ter, nas fotos, algo como &quot;esta foto não é real&quot; a fim de libertar as meninas da beleza &quot;artificial&quot;. Alguém pode me explicar o que vem a ser a &quot;beleza natural&quot;?</p>
<p align="justify">Ninguém pode controlar o modo como se &quot;forma&quot; o padrão de beleza sem se tornar um fascista. Pois bem, aí está o photoshop ético. Ridículo, como aliás todo esse furor legislativo. A ideia de uma propaganda &quot;construtiva&quot; em termos de &quot;valores&quot; é de inspiração fascista. Quem vai dizer quais são os &quot;valores construtivos&quot;?</p>
<p align="justify">Se tomarmos por evidência o que as pessoas falam, todas têm ótimos &quot;valores&quot;, ninguém corrompe ninguém, ninguém trai ninguém, ninguém mente para ninguém, todo mundo ensina aos filhos o bem. Veja a pesquisa recente publicada no caderno Mais! desta Folha (dia 4 passado): segundo a pesquisa, nós vivemos numa Escandinávia, todo mundo é muito ético.    <br />Aliás, sobre essa bobagem da Escandinávia ser vista como modelo ético, recomendo a leitura do romance do dinamarquês Christian Junguersen &quot;A Exceção&quot; (ed. Intrínseca). Nesse maravilhoso livro, um grupo de mulheres que trabalham num centro em Copenhague de combate e investigação de genocídios (olha só: elas são do bem!) se põe a perseguir e destruir uma delas, apenas porque as outras pensam que ela é suburbana, careta e tem uma família &quot;Doriana&quot;.</p>
<p align="justify">Ninguém fala a verdade quando é perguntado sobre &quot;valores&quot;. Óbvio que não: seria como ficar nu em público. A tendência a projetar uma autoimagem de gigante ético é tão normal quanto cobrir as partes íntimas do corpo. É mais ou menos como se perguntar: é verdade que sua mãe é amante do vizinho? Ela é, mas você não vai contar.</p>
<p align="justify">Por exemplo, uma reunião de pais numa escola é um desfile de pessoas que são absolutamente seguras quanto aos &quot;valores&quot; que passam para os filhos. Mentira. Pura piada. Quando muito, os pais veem os filhos à noite. Só não terceirizam os filhos quem não tem dinheiro ou mulheres sem inquietações profissionais ou libertárias, ou seja, as &quot;coitadas&quot; que as outras acham que são &quot;apenas mães&quot;.</p>
<p align="justify">Se dependesse desses &quot;santos&quot;, o mundo já estaria salvo só de ouvi-los cantar o hino aos &quot;valores de seus filhos&quot;. A vida cotidiana se dá aos pedaços, aos trancos e barrancos, com fragmentos de consciência e a custa de muito esforço. Ninguém sabe com certeza o que está fazendo, quando está fazendo, em meio a tudo que faz ao mesmo tempo, o tempo todo.    <br />Enfim, suspeito que esse papo de &quot;valores&quot; serve para evitarmos falar de coisas mais sérias.</p>
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