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Comentários acerca de H. U. von Balthasar

September 1st, 2010 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja, Livros

Lendo o excelente blog do Angueth, resolvi fazer uma sugestão de leitura neste post. Minha sugestão foi rechaçada a partir de algumas acusações ao autor. Assim, reproduzo abaixo meus dois comentários. Note-se apenas que o último deles, por exceder o tamanho permitido para comentários, só vai publicado aqui. Contudo, acho interessante postá-los também aqui já que, o que me incomodou ali, ultrapassa a figura em questão – von Balthasar – mas a meu ver atinge uma certa postura intelectual que julgo ser um tanto desonesta, mesmo por parte de alguns católicos sérios.

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Prezado Angueth.

A resposta, claríssima, é excelente. Mas permita-me uma sugestão. Creio que uma das melhores obras sobre o papado – não sobre sua história, mas sobre seu conceito – é "The Office of Peter and the Structure of the Church", do H. Urs von Balthasar. Há uma edição primorosa da "ignatius press".

Grande abraço.

 

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Caríssimo Angueth.

Sei que não é o seu caso. Leio regularmente seu blog e penso conhecer suas posições e sua seriedade. Mas tenho um certo fastio em ver, no meio católico sério, gente desprezando teses, livros e pensadores com a rapidez de uma canetada. Geralmente tal rapidez anda pari passu com uma tal aversão a livros que chega a dar pena. Basta dizer que a imensa maioria que usa o vocábulo "modernista" – reitero, não penso ser o seu caso, Angueth – não compreendeu 1/16 avos das teses filosóficas e teológicas da Pascendi Dominici Gregis.

O livro de Balthasar sobre o papado chega a ser precioso. De uma erudição e de tal força argumentativa que desancaria grande parte dos nossos "tradicionalistas" em sua pretensas capacidades intelectuais. No livro, o autor deriva o papado do prólogo do Evangelho de São João, ou seja, da própria Encarnação do Lógos, e analisa minuciosamente todas as formas históricas de oposição, seja ao primado de Pedro, seja à sua sucessão. De fato, não conheço nenhum estudo tão agudo sobre o tema.

Prezado Guilherme. Teses controversas pululam mesmo nos grandes. Claro que nas suas extensas leituras de Balthasar você deve ter se deparado com algumas. Bem, pode ser constrangedor saber que elas estão também em Orígenes, Justino, Tomás de Aquino etc. Utilizar um arremedo de conceito – já que não é claro, na maioria das vezes, nem para quem o emprega -, não resolve o problema.

Tudo isso sem falar do problema hermenêutico de quem crê incensar o papa Bento XVI sem ter lido uma linha dos "modernistas" (quase "leprosos") von Balthasar e de Lubac, cujos pensamentos são praticamente condições de possibilidade do entendimento de sua teologia. É sempre lamentável.

Por fim, prezado Angueth, perdoe-me se meu comentário soa mal educado ou irritadiço. Mas é que de fato me assusta ver que, por aí, se esconde ignorância com aquele desprezo intelectual que só vem dos que nem entenderam o problema.
Grande abraço.

 

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Prezados.

Prometi a mim mesmo que não iria comentar mais neste post, mas a resposta do Gederson, que me pareceu bastante séria e que instiga à conversa, me fez mudar de ideia.

Infelizmente, não é possível tratar aqui de todos os pontos aventados por você Gederson. Vou me ater àquele que penso ser central e, como adendo, citarei, ao final, um trecho do livro que indiquei. Devo notar que não tenho procuração para defender Balthasar e nem é meu intento. Apenas penso, como disse em minha resposta anterior, que ele é, como tantos outros, quando não-lido, mal-lido.

1. Sobre o estatuto da Teologia de Balthasar:

O termo que você utiliza, e que por vezes é utilizado a fim de fazer referência à “Nouvelle Theologie”, “antropoteologia”, se origina, penso eu, de uma dupla má compreensão filosófica:

1.1. Não consigo compreender o sentido último deste termo. Se “antropoteologia” significa, como você diz Gederson, “uma leitura das Sagradas Escrituras e da história da salvação em chave estética” e, por “estético” você compreende algo “vazio” e contrário à “ética, política, escatologia…”, há um problema sério de compreensão do termo “estético” (que faz com que você o associe a Nietzsche!!!) que, por sua vez, impede a correta compreensão do que diz Balthasar. As pessoas que têm tal compreensão do termo “estética” desconhecem a tradição filosófica: o Belo e o Bem são um e o mesmo desde Platão, o que culmina, mesmo em Kant – um diluidor – na unidade entre ética e estética. Não se pode fazer confusão com o sentido de “estético” próprio ao Romantismo alemão desfigurado, que tornou-se para nós algo como a práxis de um dândi.

Balthasar utiliza o termo “estético” num sentido muito próximo ao sentido grego de “aísthesis”, ou sensação. As “aístheta”, ou os dados sensíveis se dão a partir dos “phainomena”, das “coisas que aparecem”. Com isso, Balthasar quer dizer que sua teologia se inicia a partir do fato bruto que Deus se manifesta. Mas não acredite em mim. Veja o que diz o próprio Balthasar:

Desse modo, pode-se construir, sobretudo uma teologia aesthetique (Gloria): Deus aparece. Ele aparece para Abraão, para Moisés, para Isaías e, finalmente, em Jesus Cristo. Uma questão teológica: como nós distinguimos sua aparição, sua epifania dentre centenas de outros fenômenos no mundo? Como nós distinguimos o verdadeiro e único Deus vivo de Israel dos ídolos que o cercam e de todas as tentativas filosóficas e teológicas de alcançá-lo? Como nós percebemos a incomparável gloria de Deus na vida, na Cruz, na Ressurreição de Cristo, a glória diferente de toda a glória deste mundo? [Balthasar, Communio, inverno de 1998]

Não há portanto um estetismo. Não há experiência estética subjetiva. Parte-se de uma das verdades mais cabais do judaísmo e do cristianismo, a saber, que Yaweh é um Deus que se dá a conhecer, se manifesta, se mostra.

Este aspecto nos leva a um segundo aspecto da falta de sentido absoluto do termo “antropoteologia”.

 

1.2. Simplesmente não é possível uma teologia que não passe pelo “ánthropos” (homem). Nem os arroubos de êxtase, no qual há uma espécie de “visão direta”, dos maiores místicos, se são narrados, escritos, contados, escapam à presença do homem, já que tornam-se conhecidos a partir dele, passam por seu “lógos”. Desse modo, é absolutamente impossível uma teologia que não seja, de certo modo, “antropoteologia”. Como dizia, esse vocábulo é, ele sim, vazio de sentido como crítica.

Parece haver um desconhecimento profundo, por parte de quem empreende este tipo de crítica, de uma divisão metodológica que já está em Aristóteles e da qual o próprio São Tomás é legatário: o conhecimento a partir daquilo que é “primeiro para nós” (próteron prós hemãs) e aquilo que é “primeiro por natureza”(próteron prós physei). É o que subjaz à asserção de S. Tomás quando nega a possibilidade de conhecimento “evidente” (analítico, diríamos hoje) da existência de Deus. Por isso, devemos partir daquilo que está mais próximo de nós, a criação. Veja-se também em “O ente e a essência” do mesmo S. Tomás a admoestação para que partamos daquilo que nos é mais fácil de ser conhecido a fim de, posteriormente, chegar àquilo que nos está mais distante (muito embora seja o primeiro “por natureza”, ou na ordem da realidade).

O que faz Balthasar em sua “Estética” é tão somente partir daquilo que “é primeiro para nós”, do modo como Deus se manifesta. Prova disso é o que diz o próprio Balthasar sobre o movimento epistemológico no sentido inverso, que ocupa outra parte de sua obra, e parte agora do dado revelado como que “de cima para baixo”. Mais uma vez, é Balthasar quem o diz:

Pode-se terminar com uma logique (uma teo-lógica) [assim como iniciamos com uma estética]. Como Deus pode fazer a si mesmo compreensível ao homem, como pode a Palavra infinita expressar a si mesma em um mundo finito sem perder seu sentido? Este é o problema das duas naturezas de Jesus Cristo. E como o espírito limitado do homem pode apreender o sentido ilimitado da Palavra de Deus? Este é o problema do Espírito Santo. [Balthasar, Communio, inverno de 1998]

Agora, o mais importante de tudo isso: é impressionante que seja necessária uma justificativa metodológica que chegue no fulcro da atividade epistêmica a fim de debelar um preconceito bobo proveniente, geralmente, daqueles que nutrem uma profunda aversão a livros e que despedem obras sem as ler. Como já disse no comentário anterior, teses escandalosas estão presentes nos grandes doutores (quer pior do que as bobagens de um genial Duns Scotus?). Mas não é intelectualmente honesto ignorar em bloco um pensamento ignorando que possa haver grandiosas qualidades ali, tão somente por fazerem parte de tal bloco. Apenas pra continuar no exemplo, embora Duns Scotus inclua Deus e as criaturas no mesmo gênero, não é ele fundamental para a compreensão da Imaculada Conceição?

Por fim, termino minha participação por aqui com uma citação do livro a que fiz referência. O texto é bem indicativo sobre Balthasar ter pensado ao largo do magistério da Igreja, como diz Gederson:

Why write this book? The intention is to show that there is a deep-seated anti-Roman attitude within the Catholic Church. (…)

The transfer of Christ’s pastoral ministry to Peter cannot be expurgated from the Gospel, without prejudice, of course, to the ministerial power derived from Christ that belonged to the other apostles and to their sucessors in the episcopate. (…) This authority cannot be called into question by any sort of ‘democratizing’ supplementary structures but at most can be relegated to the shadows through obliviousness or conniving on the part of confused or cowardly Catholics. These powers are not done away with thereby, nor can they be replaced by a primacy of honor, however cleverly devised, or by a democratically acknowledged presidency.

Em Cristo.

G.







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Catequese de Bento XVI sobre S. Pio X

August 18th, 2010 | Comente | Postado em Igreja

Reproduzo abaixo a catequese proferida na audiência de hoje pela manhã (na tradução do excelente Fratres In Unum), de S.S o papa Bento XVI sobre São Pio X, grande papa e santo de minha devoção.

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Queridos irmãos e irmãs!spx

Hoje gostaria de me concentrar na figura do meu predecessor São Pio X, cuja memória litúrgica  comemora-se no próximo sábado [ndr: no calendário tradicional comemora-se em 3 de setembro], destacando algumas características que podem ser úteis aos pastores e os fiéis do nosso tempo.

Giuseppe Sarto, assim se chamava, nasceu em Riese (Treviso), em 1835, de uma família de camponeses e, depois de estudar no Seminário de Pádua, foi ordenado sacerdote aos 23 anos. No começo, foi vice-pároco em Tombolo, depois pároco em Salzano, posteriormente cônego da catedral de Treviso, com o cargo de chanceler episcopal e diretor espiritual do Seminário diocesano. Naqueles anos de rica e generosa experiência pastoral, o futuro Pontífice mostrou aquele amor a Cristo e à Igreja, aquela humildade e simplicidade e aquela grande caridade para com os mais necessitados, que foram características de toda a sua vida. Em 1884, foi nomeado bispo de Mântua e, em 1893, Patriarca de Veneza. Em 04 de agosto de 1903 foi eleito Papa, ministério que aceitou com hesitação, porque não se considerava digno de um dever tão alto.

O pontificado de S. Pio X deixou uma marca indelével na história da Igreja e foi caracterizado por um notável esforço de reforma, resumido no lema Instaurare omnia in Christo, “renovar todas as coisas em Cristo”.

Suas intervenções, de fato, envolviam os diversos âmbitos eclesiais. Desde o início,  dedicou-se à reorganização da Cúria Romana; em seguida, deu início aos trabalhos de redação do Código de Direito Canônico, promulgado pelo seu sucessor, Bento XV. Promoveu, posteriormente, a revisão dos estudos e do “processo” de formação dos futuros sacerdotes, fundando também vários seminários regionais, equipados com boas bibliotecas e professores preparados.

Outra área importante foi a de formação doutrinal do Povo de Deus.  Ainda nos anos em que era pároco tinha redigido um catecismo e durante o episcopado em Mântua trabalhou a fim de que se alcançasse um catecismo único, se não universal, ao menos italiano.

Como autêntico pastor, havia compreendido que a situação da época, até pelo fenômeno da emigração, tornava necessária um catecismo ao qual todos os fiéis pudessem se referir, independentemente do local e das circunstâncias de vida. Como Pontífice, preparou um texto da doutrina cristã para a diocese de Roma que se difundiu por toda a Itália e mundo. Este Catecismo chamado “de Pio X” foi, para muitos, um guia seguro no aprendizado das verdades da fé em linguagem simples, clara e precisa, e pela eficácia expositiva.

Dedicou considerável atenção à reforma da liturgia, especialmente da música sacra, para conduzir os fiéis a uma vida de oração mais profunda e a participação mais plena nos sacramentos.

No Motu Proprio Tra le sollecitudini (1903, primeiro ano de seu pontificado), afirma que o verdadeiro espírito cristão tem a sua primeira e indispensável fonte na participação ativa nos santos mistérios e na oração pública e solene da Igreja (cf. ASS 36 [ 1903], 531). Por isso, recomendou a aproximação freqüentemente dos sacramentos, favorecendo a freqüência diária, bem preparada, à Sagrada Comunhão e antecipando oportunamente a primeira Comunhão das crianças em torno dos sete anos de idade, “quando a criança começa a raciocinar” (cfr. S. Congr. de Sacramentis, Decretum Quam singulari : AAS 2[1910], 582).

Fiel à missão de confirmar os irmãos na fé, São Pio X, diante de algumas tendências que se manifestaram no âmbito teológico no final do século XIX e início do século XX, intervém decisivamente condenando o “Modernismo”, para defender os fiéis de concepções errôneas e promover um aprofundamento científico da Revelação em consonância com a Tradição da Igreja. Em 07 de maio de 1909, com a Carta Apostólica Vinea electa, fundou o Pontifício Instituto Bíblico. Os últimos meses de sua vida foram marcados pelo fulgor da guerra. O apelo aos católicos do mundo, lançado em 02 de agosto de 1914 para expressar “a amarga dor” da hora presente, era o grito de sofrimento do pai que vê os filhos se enfileirarem uns contra os outros. Morreu pouco tempo depois, em 20 de agosto, e sua fama de santidade começou a se espalhar rapidamente entre o povo cristão.

Queridos irmãos e irmãs, São Pio X nos ensina a todos que na base da nossa atividade apostólica, nos vários campos em que atuamos, deve sempre haver uma íntima união pessoal com Cristo, a cultivar e crescer dia após dia. Este é o núcleo de todo o seu ensinamento, todo o seu empenho pastoral. Somente se estivermos apaixonados pelo Senhor seremos capazes de levar os homens a Deus e abrir a eles o Seu amor misericordioso, e, assim, abrir o mundo à misericórdia de Deus.

Saudação em língua portuguesa:

A minha saudação a todos os peregrínos víndos do Brasil, de Portugal e demais países lusófonos, com uma bênção particular pára os alúnos do Seminário do Verbo Divino, de Tortoséndo: na vossa formação, empenhái-vos em seguír o exemplo dos grándes pastores como São Pio X, sendo sempre humildes e fiéis servidores da Verdade. Que Deus vos abençoe!







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Artigo Pastoreando – 13

August 2nd, 2010 | Comente | Postado em Igreja

Continuando com a série de sucintas explicitações sobre os doze artigos do Credo, para o jornal da Paróquia Jesus Bom-Pastor da Diocese de Santo André, São Paulo.

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Creio no Espírito Santo

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Ao professarmos nossa fé no oitavo artigo, temos como finalidade primeira manifestarmos nossa crença na Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Mas não só. Expressamos nossa crença em todos os Seus atributos e em todas as Suas ações na criação. Cremos que o Espírito Santo é Deus com o Pai e o Filho porque dEles procede. O ensinamento da Santa Igreja nos ajuda vislumbrar um pouco mais deste mistério, fazendo-nos ver que o Santo Espírito é o Amor Eterno entre o Pai e o Filho. Desse modo, o Espírito não só é eterno como as outras duas Pessoas da Trindade, mas o é porque é consubstancial a Elas, ou seja, procede do íntimo da relação entre as duas primeiras Pessoas da Trindade sendo então da mesma natureza, portanto, sendo Deus mesmo.

O Santo Espírito, conforme dizemos no Símbolo Niceno-Constantinopolitano, é o doador e animador da vida pois é Deus mesmo que procede do Pai e do Filho, e portanto, com Estes, deve ser igualmente adorado e glorificado. É também o Espírito Santo quem move os profetas e os escritores sagrados, fazendo-os ver a realidade segundo os “olhos” de Deus, assim como infunde o Amor e a presença de Deus na liturgia e na vida da Igreja como um todo.

Como nos ensina ainda S. Tomás de Aquino, há cinco grandes benefícios que nos vêm pelo Espírito Santo. É a Terceira Pessoa da Trindade que, por ser a processão eterna do Amor de Deus, nos limpa de nossos pecados, ilumina nosso intelecto, nos assiste em nossas tentações e nos impele à obediência aos mandamentos, fortalece nossa fé na Vida Eterna e nos aconselha em nossas dúvidas e tribulações, mostrando-nos a Santíssima Vontade de Deus.

Peçamos então, humildemente, que o desça sobre nós o Espírito Santo, fonte do Amor e da Misericórdia de Deus posto que, como nos alerta São Paulo, “ninguém pode dizer ‘Jesus é Senhor’ a não ser no Espírito Santo.” (1Cor 12,3).

Um abraço.

Gabriel Ferreira







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Um excerto sobre Razão e Fé – S. Tomás de Aquino

July 23rd, 2010 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja

Tenho lido uma enxurrada de bobagens ultimamente. Sobretudo em blogs católicos que se autodenominam “conservadores”. A coisa só piora quando se adentra na filosofia; geralmente são tomados por uma arrogância medonha. Transcrevo abaixo um pequeno trecho do brilhante De rationibus fidei, de São Tomás de Aquino, que me faz voltar à justa medida da reflexão sobre o assunto.

 

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CAP. 2 – Como disputar com os infiéis

Sobre este assunto, eu te aconselho primeiramente, que quando disputares contra os infiéis, não tentes provar a fé por meio de razões necessárias, isto rebaixa, com efeito, a sua sublimidade, porque a verdade da fé não excede somente a mente dos homens mas igualmente aquela dos anjos; ao contrário nós cremos nos artigos da fé como revelados por Deus mesmo. Ora, o que procede da verdade suprema não pode ser falso e nenhuma razão necessária pode agir contra o que não é falso. Assim como nossa fé não possa ser provada por razões necessárias porque ela excede as possibilidades da razão humana, ela também, graças à sua verdade, não pode ser invalidada pornenhuma razão necessária.

É por isso que a intenção do argumentador cristão deve visar não provar a fé, mas defendê-la. Eis a razão pela qual o bem-aventurado Pedro não diz “estejam sempre prontos a provar” mas “a dar satisfação” [da fé – 1Pd. 3,15], isto é, a mostrar pela razão que o que confessa a fé católica não é falso.”

 

Tradução minha, a partir do texto bilíngue latim-francês







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Catequeses de Bento XVI sobre S. Tomás de Aquino

June 17th, 2010 | Comente | Postado em Filosofia, Igreja

Como de costume, S. S. o papa Bento XVI utiliza suas audiências gerais para excelentes catequeses. Reproduzimos abaixo o texto de duas catequeses sobre o Aquinate (de 02/06 e de 16/06, respectivamente, sendo esta última uma pequena conclusão). Excelente leitura.

 

São Tomás de Aquino

Estimados irmãos e irmãs! sao_tomas_de_aquino

Depois de algumas catequeses a propósito do sacerdócio e das minhas últimas viagens, hoje  voltemos ao nosso tema principal, ou seja, à meditação sobre alguns dos grandes pensadores da Idade Média. Ultimamente, tínhamos reflectido sobre a grande figura de São Boaventura, franciscano, e agora gostaria de falar daquele ao qual a Igreja chama o Doctor communis: isto é, São Tomás de Aquino. O meu venerado Predecessor, Papa João Paulo II, na sua Encíclica Fides et ratio recordava que São Tomás "foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo do modo recto de fazer teologia" (n. 43). Não surpreende que, depois de Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, São Tomás seja citado mais do que todos os outros, por sessenta e uma vezes! Ele foi denominado também o Doctor Angelicus, talvez pelas suas virtudes, de modo particular pela sublimidade do pensamento e pureza da vida.

Tomás nasceu entre os anos de 1224 e 1225, no castelo que a sua família, nobre e abastada, possuía em Roccasecca, nos arredores de Aquino, perto da célebre abadia de Montecassino, aonde tinha sido enviado pelos seus pais para receber os primeiros elementos da sua instrução. Alguns anos mais tarde transferiu-se para a capital do Reino da Sicília, Nápoles, onde Frederico II tinha fundado uma prestigiosa Universidade. Nela ensinava-se, sem os limites em vigor alhures, o pensamento do filósofo grego Aristóteles, no qual o jovem Tomás foi introduzido, e de quem intuiu imediatamente o grande valor. Mas sobretudo, nesses anos transcorridos em Nápoles, nasceu a sua vocação dominicana. Com efeito, Tomás sentiu-se atraído pelo ideal do Oriente, fundado não muitos anos antes de São Domingos. Todavia, quando vestiu o hábito dominicano, a sua família opôs-se a esta escolha, e ele foi obrigado a deixar o convento e a transcorrer um pouco de tempo com a família.

Em 1245, já de maior idade, pôde retomar o seu caminho de resposta ao chamamento de Deus. Foi enviado a Paris, para estudar teologia sob a guia de outro santo, Alberto Magno, sobre o qual falei recentemente. Alberto e Tomás estreitaram uma amizade verdadeira e profunda, e aprenderam a estimar-se e a respeitar-se um ao outro, a tal ponto que Alberto quis que o seu discípulo o seguisse também até Colónia, onde ele tinha sido convidado pelos Superiores da Ordem para fundar uma Casa de estudos teológicos. Então, Tomás entrou em contacto com todas as obras de Aristóteles e dos seus comentadores árabes, que Alberto ilustrava e explicava.

Naquele período, a cultura do mundo latino tinha sido profundamente estimulada pelo encontro com as obras de Aristóteles, que permaneceram desconhecidas por muito tempo. Tratava-se de escritos sobre a natureza do conhecimento, as ciências naturais, a metafísica, a alma e a ética, ricos de informações e de intuições que pareciam válidas e convincentes. Era toda uma visão completa do mundo, desenvolvida sem e antes de Cristo, com a mera razão, e parecia impor-se à razão como "a" própria visão; por conseguinte, ver e conhecer esta filosofia era para os jovens um fascínio incrível. Muitos acolheram com entusiasmo, aliás com entusiasmo acrítico, esta enorme bagagem do saber antigo, que parecia poder renovar vantajosamente a cultura, abrir horizontes totalmente novos. Porém, outros temiam que o pensamento pagão de Aristóteles estivesse em oposição à fé cristã e rejeitavam estudá-lo. Encontraram-se duas culturas: a cultura pré-cristã de Aristóteles, com a sua racionalidade radical, e a cultura clássica cristã. Determinados ambientes eram impelidos à rejeição de Aristóteles também pela apresentação que se fizera deste filósofo por parte dos comentadores árabes Avicena e Averroes. Com efeito, foram eles que transmitiram ao mundo latino a filosofia aristotélica. Por exemplo, estes comentadores tinham ensinado que os homens não dispõem de uma inteligência pessoal, mas que só existe um único intelecto universal, uma só substância espiritual, comum a todos, que age em todos como "única": portanto, uma despersonalização do homem. Outro ponto questionável, veiculado pelos comentadores árabes era aquele segundo o qual o mundo é eterno, como Deus. Compreensivelmente, desencadearam-se disputas infinitas nos mundos universitário e eclesiástico. A filosofia aristotélica ia-se difundindo até entre as pessoas simples.

Na escola de Alberto Magno, Tomás de Aquino desempenhou um trabalho de importância fundamental para a história da filosofia e da teologia, diria para a história da cultura: estudou profundamente Aristóteles e os seus intérpretes, encontrando novas traduções latinas dos textos originais em grego. Assim, não se apoiava mais unicamente nos comentadores árabes, mas podia ler pessoalmente os textos originais, e comentou uma boa parte das obras aristotélicas, distinguindo nelas aquilo que era válido daquilo que era duvidoso, ou que devia ser totalmente rejeitado, demonstrando a consonância com os dados da Revelação cristã e utilizando ampla e perspicazmente o pensamento aristotélico na exposição dos escritos teológicos que ele mesmo compôs. Em última análise, Tomás de Aquino mostrou que entre fé cristã e razão subsiste uma harmonia natural. E foi esta a grande obra de Tomás, que naquele momento de desencontro entre duas culturas – naquele momento em que parecia que a fé devia render-se perante a razão – demonstrou que elas caminham a par e passo, que quanto parecia ser razão não compatível com a fé não era razão; e aquilo que parecia ser fé não era tal, enquanto se opunha à verdadeira racionalidade; deste modo, ele criou uma nova síntese, que veio a formar a cultura dos séculos seguintes.

Em virtude das suas excelentes qualidades intelectuais, Tomás foi chamado novamente a Paris como professor de teologia na cátedra dominicana. Ali começou também a sua produção literária, que continuou até à morte, e que contém algo de prodigioso: comentários à Sagrada Escritura, porque o professor de teologia era sobretudo intérprete da Sagrada Escritura, comentários aos escritos de Aristóteles, obras sistemáticas imponentes, entre as quais sobressai a Summa Theologiae, tratados e discursos sobre vários argumentos. Na composição dos seus escritos, era coadjuvado por alguns secretários, entre os quais o irmão dominicano Reginaldo de Piperno, que o acompanhou fielmente e com o qual o ligava uma amizade fraterna e sincera, caracterizada por uma grande confidência e confiança. Trata-se de uma característica dos santos: cultivam a amizade, porque ela é uma das manifestações mais nobres do coração humano, e contém em si algo de divino, como o próprio Tomás explicou em algumas quaestiones da Summa Theologiae, onde escreve: "A caridade é principalmente a amizade do homem com Deus, e com os seres que Lhe pertencem" (II, q. 23, a.1).

Não permaneceu prolongada e estavelmente em Paris. Em 1259 participou no Capítulo Geral dos Dominicanos em Valenciennes, onde foi membro de uma comissão que estabeleceu o programa de estudos na Ordem. Depois, de 1261 a 1265, Tomás esteve em Orvieto. O Pontífice Urbano IV, que nutria uma grande estima por ele, comissionou-lhe a composição dos textos litúrgicos para a festa do Corpus Christi, que celebramos amanhã, instituída a seguir ao milagre eucarístico de Bolsena. Tomás tinha uma alma requintadamente eucarística. Os lindos hinos que a liturgia da Igreja entoa, para celebrar o mistério da presença real do Corpo e do Sangue do Senhor na Eucaristia são atribuídos à sua fé e à sua sabedoria teológica. De 1265 a 1268 Tomás residiu em Roma onde, provavelmente, dirigia um Studium, ou seja uma Casa de estudos da Ordem, e onde começou a escrever a sua Summa Theologiae (cf. Jean-Pierre Torrell, Tommaso d’Aquino. L’uomo e il teologo, Casale Monf., 1994, págs. 118-184).

Em 1269 foi chamado novamente a Paris, para um segundo ciclo de ensino. Os estudantes – pode-se compreender – entusiasmavam-se com as suas lições. Um dos seus ex-alunos declarou que uma enorme multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, a tal ponto que as salas tinham dificuldades em contê-los e, com um apontamento pessoal, acrescentava que "ouvi-lo era para ele uma profunda felicidade". A interpretação de Aristóteles formulada por Tomás não era aceite por todos, mas até os seus adversários no campo académico, como Gofredo de Fontaines, por exemplo, admitiam que a doutrina de frei Tomás era superior a outras pela sua utilidade e valor, e servia como correctivo para aquelas de todos os outros doutores. Talvez também para o subtrair dos intensos debates em curso, os Superiores enviaram-no novamente a Nápoles, para permanecer à disposição do rei Carlos I, que tencionava reorganizar os estudos universitários.

Além do estudo e do ensino, Tomás dedicou-se inclusive à pregação pública. E também o povo ia ouvi-lo de bom grado. Diria que é verdadeiramente uma grande graça, quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. Por outro lado, o ministério da pregação ajuda os próprios estudiosos de teologia a ter um sadio realismo pastoral, e enriquece a sua investigação com estímulos intensos.

Os últimos meses da vida terrena de Tomás permanecem circundados por uma atmosfera particular, diria misteriosa. Em Dezembro de 1273 ele chamou o seu amigo e secretário Reginaldo para lhe comunicar a decisão de interromper todos os trabalhos porque, durante a celebração da Missa, tinha compreendido, a seguir a uma revelação sobrenatural, que tudo aquilo que tinha escrito até então era apenas "um monte de palha". É um episódio misterioso, que nos ajuda a compreender não só a humildade pessoal de Tomás, mas também o facto de que tudo o que conseguimos pensar e dizer sobre a fé, por mais elevado e puro que seja, é infinitamente ultrapassado pela grandeza e pela beleza de Deus, que nos será revelada plenamente no Paraíso. Alguns meses depois, cada vez mais absorvido numa meditação reflexiva, Tomás faleceu enquanto viajava para Lião, aonde ia para participar no Concílio Ecuménico proclamado pelo Papa Gregório X. Veio a falecer na Abadia cisterciense de Fossanova, depois de ter recebido o Viático com sentimentos de grande piedade.

A vida e o ensinamento de São Tomás de Aquino poder-se-iam resumir num episódio transmitido pelos antigos biógrafos. Enquanto o Santo, como fazia habitualmente, estava em oração diante do Crucifixo, de manhã cedo na Capela de São Nicolau em Nápoles, Domingos de Caserta, o sacristão da igreja, ouviu um diálogo. Tomás perguntava, preocupado, se aquilo que tinha escrito sobre os mistérios da fé cristã era correcto. E o Crucificado respondeu-lhe:"Tu falaste bem de mim, Tomás. Qual será a tua recompensa?". E a resposta que Tomás deu é aquela que também nós, amigos e discípulos de Jesus, sempre gostaríamos de lhe dizer: "Nada mais do que Tu, Senhor!" (Ibid., pág. 320).

 

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São Tomás de Aquino (2)

Queridos irmãos e irmãs,

A confiança que São Tomás de Aquino deposita nos dois instrumentos do nosso conhecimento – a fé e a razão –, assenta na convicção de que ambas provêm da mesma e única fonte da verdade, o Verbo divino, que age tanto no âmbito da criação como no da redenção. Este acordo fundamental entre razão humana e fé cristã transparece ainda noutro princípio basilar do seu pensamento: a Graça divina não anula, mas supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Esta, com o pecado, não ficou totalmente corrompida, mas apenas ferida e debilitada. Com a Graça, a natureza é curada, fortalecida e ajudada a alcançar a felicidade, que é o anseio natural de toda a pessoa humana. São Tomás propõe-nos um conceito amplo da razão humana, porque não se limita aos espaços da chamada razão empírico-científica, mas abre-se a todo o ser e às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano.







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Orações básicas da Igreja em Latim

June 14th, 2010 | 1 Comentário | Postado em Igreja

Para uma simples questão de referência, para os eventuais visitantes ou mesmo para meus alunos, seguem abaixo as orações básicas da Igreja, em latim.

missale-romanum

Sinal da Cruz

IN nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

Glória (doxologia menor)

GLORIA Patri, et Filio, et Spiritui Sancto. Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum. Amen.

Pai-Nosso

PATER NOSTER, qui es in caelis, sanctificetur nomen tuum. Adveniat regnum tuum. Fiat voluntas tua, sicut in caelo et in terra. Panem nostrum quotidianum da nobis hodie, et dimitte nobis debita nostra sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Et ne nos inducas in tentationem, sed libera nos a malo. Amen.

Ave-Maria

AVE MARIA, gratia plena, Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Iesus. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc, et in hora mortis nostrae. Amen.

Credo Apostólico

CREDO in Deum Patrem omnipotentem, Creatorem caeli et terrae. Et in Iesum Christum, Filium eius unicum, Dominum nostrum, qui conceptus est de Spiritu Sancto, natus ex Maria Virgine, passus sub Pontio Pilato, crucifixus, mortuus, et sepultus, descendit ad inferos, tertia die resurrexit a mortuis, ascendit ad caelos, sedet ad dexteram Dei Patris omnipotentis, inde venturus est iudicare vivos et mortuos. Credo in Spiritum Sanctum, sanctam Ecclesiam catholicam, sanctorum communionem, remissionem peccatorum, carnis resurrectionem, vitam aeternam. Amen.

Oração penitencial (Confiteor)

CONFITEOR Deo omnipotenti, beatae Mariae semper Virgini, beato Michaeli Archangelo, beato Ioanni Baptistae, sanctis Apostolis Petro et Paulo, et omnibus Sanctis, quia peccavi nimis cogitatione, verbo et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Ideo precor beatam Mariam semper Virginem, beatum Michaelem Archangelum, beatum Ioannem Baptistam, sanctos Apostolos Petrum et Paulum, et omnes Sanctos, orare pro me ad Dominum Deum nostrum. Amen.

 

Para demais orações da Igreja em latim, consulte o excelente Latin Prayers (em inglês)







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Não me escondas a Tua face no dia da minha angústia

April 28th, 2010 | Comente | Postado em Igreja

 

Salmo 102.

 

1. Prece de um infeliz que, desfalecido, faz a sua lamentação diante de Javé.

2. Javé, ouve a minha prece, que o meu grito chegue a Ti!

3. Não me escondas a tua face, no dia da minha angústia. Inclina o teu ouvido para mim, e no dia em que eu Te invoco, responde-me depressa!

4. Porque os meus dias esvaem-se como o fumo, e os meus ossos ardem como braseiro.

5. Pisado como relva, o meu coração seca, e até me esqueço de comer o meu pão.

6. Por causa da violência do meu grito, os ossos já se colam à minha pele.

7. Estou como o pelicano do deserto, como o mocho das ruínas.

8. Fico acordado, gemendo, como ave solitária no telhado.

9. Os meus inimigos ultrajam-me todo o dia e amaldiçoam-me, furiosos contra mim.

10. Eu como cinza em vez de pão, e com a minha bebida misturo lágrimas,

11. por causa da tua cólera e do teu furor, pois me elevaste e me lançaste ao chão.

12. Os meus dias são como a sombra que se expande, e eu vou secando como a relva.

13. Tu, porém, Javé, permaneces para sempre, e a tua lembrança passa de geração em geração!

14. Levanta-Te, tem pena de Sião, pois é tempo de teres piedade dela. Sim, chegou a hora,

15. porque os teus servos amam as suas pedras, compadecidos da sua ruína.

16. As nações temerão o teu Nome, e os reis da Terra a tua glória.

17. Quando Javé reconstruir Sião, e aparecer com a sua glória;

18. quando Se voltar para a prece do indefeso, e não desprezar a sua prece,

19. fique isto escrito para as gerações futuras, e um povo recriado louvará a Deus:

20. Javé inclinou-Se do seu alto santuário e do Céu contemplou a Terra,

21. para ouvir o gemido dos prisioneiros e libertar os condenados à morte;

22. para proclamar em Sião o nome de Javé, e em Jerusalém o seu louvor,

23. quando se reunirem povos e reinos para servir a Javé.

24. Ele esgotou a minha força no caminho, encurtou os meus dias.

25. Então eu disse: «Meu Deus, não me arrebates na metade dos meus dias». Os teus anos duram gerações e gerações.

26. No princípio, Tu firmaste a Terra, e o Céu é obra das tuas mãos.

27. Eles perecerão, mas Tu permaneces. Ficarão gastos como roupa, serão como veste que se muda.

28. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais se acabarão.

29. Os filhos dos teus servos viverão seguros, e a sua descendência manter-se-á na tua presença.







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Artigo Pastoreando – 12

April 27th, 2010 | 3 Comentários | Postado em Igreja

De onde há de vir a julgar os vivos e os mortos

O sétimo artigo do Credo expressa, por fim, os últimos atributos do Cristo dos quais damos testemunho de fé. Ensina-nos a Mãe Igreja que Nosso Senhor tem três funções ou ofícios fundamentais, a saber, ser nosso Redentor, nosso Protetor e nosso Juiz. Nos artigos precedentes, contemplamos e compreendemos como por meio de Sua gloriosa Paixão, Morte e Ressurreição Ele nos traz a Salvação bem como, subindo ao Céu, no protege e advoga por nós. Assim, no presente artigo, professamos que Jesus Cristo é o Justo Juiz que julgará toda a humanidade.

 

Giotto, Juízo Final

Há dois aspectos fundamentais que devemos compreender ao professarmos este artigo. O primeiro deles é sobre a segunda vinda do Senhor. Na plenitude dos tempos, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade veio para nos redimir e nos trazer a Salvação. No fim dos tempos, ou como nos diz as Escrituras, no “Dia do Senhor” (cf. 1 Tes. 5,2) Ele virá uma segunda vez para nos julgar. É o próprio Senhor quem nos diz que ninguém conhece o dia (cf. Mt. 24,36), por isso devemos estar preparados e juntos dEle. O segundo ponto é o julgamento em si mesmo, que também podemos compreender em dois momentos. Mas o que devemos entender pelo epíteto de “Juiz”?

Cremos que, após a nossa morte, cada um de nós se apresenta diante do Senhor que, com misericordiosa justiça, escrutinizará toda nossa existência, nossos atos, pensamentos, palavras e omissões. Para além do juízo individual, que chamamos de particular, cremos também no julgamento último de toda a humanidade. Mas por que, ao lado do juízo particular, a Igreja ensina o juízo geral?

Se o Cristo é o Redentor da humanidade e inaugura a nova Criação, sua missão se plenifica na completa reconfiguração de toda a humanidade. Assim, nós mesmos, como indivíduos, só podemos encontrar nossa plenitude na plenitude da nova Criação, da Jerusalém Celeste, completada pela Segunda vinda gloriosa. Do mesmo modo, mesmo as consequências de nossas ações continuam reverberando no mundo – através de nossos atos, exemplos e influências sobre os outros – mesmo após a nossa morte. Assim, tudo isto só encontra seu fim no término do mundo, no fim dos tempos em que todo o gênero humano será julgado, sendo reservada aos justos a visão beatífica de Deus e, aos condenados, sua privação eterna.

Peçamos portanto a Deus que possamos ganhar Sua misericórdia e que nunca nos afastemos das boa obras, da penitência, da esmola e da caridade, verdadeiros remédios, como nos diz S. Tomás, para nos prepararmos para a presença diante do Senhor, Justo Juiz.

Um abraço.

Gabriel Ferreira







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Novamente, a eclesioclastia e a revolta do fraco contra o forte

April 26th, 2010 | 1 Comentário | Postado em Igreja, Imprensa, Opinião

Entre as várias tentativas de explicar e entender o que move a agenda eclesioclasta contemporânea, penso ser fundamental retomar o cerne daquilo que impulsiona a oposição à Igreja desde os tempos mais remotos e passando pelos períodos áureos de oposição à Igreja de Cristo, a saber, a revolta do fraco contra o forte. E poucos souberam tão bem localizar e explicitar tal dinâmica quanto Nietzsche que, agudamente, reconhece um dos momentos de eclosão de tal movimento já na Reforma Protestante:

"Mas a coisa mais estranha é que aqueles que mais desejam reter e preservar o cristianismo são os que mais fizeram para destruí-lo (…) A reforma luterana, em toda a sua extensão e amplitude, foi a indignação do simples contra o complexo; para falar prudentemente, foi uma falta de refinamento, honestamente um engano.

(…)Lutero era fatalmente limitado, superficial e imprudente. Ele confundiu, atrapalhou, deu os Livros Sagrados na mão de qualquer um – o que significa dá-los na mão dos filólogos, que são os destruidores de toda crença baseada em livros. Ele demoliu o conceito de "igreja" por repudiar a fé na inspiração dos concílios; para que o conceito de "igreja" permaneça vigoroso como é, ele pressupõe que o Espírito inspirador que fundou a igreja permaneça vivo nela, construindo-a, continue ainda a fazer nela sua morada de descanso. (…) Lutero destruiu um ideal que ele não sabia como alcançar (…) De fato, ele não sabia o que estava fazendo."

NIETZSCHE, F. A Gaia ciência (traduzido da edição americana)

 

Não é de hoje que vemos a agenda eclesioclasta do mundo moderno, cujo porta-voz, arauto e profeta é a mídia (esta última grande instância de sentido da atualidade, ao lado da ciência e da tecnologia). Já no século passado H. U. von Balthasar, um dos maiores teólogos do século XX dizia que, para fazer com que as pessoas não lhe ouvissem mais, bastava citar "Deus" ou "Igreja" na conversa, e todo discurso se esvaziaria de sentido instantaneamente. O que ocorre hoje é a manifestação explícita da "revolta do fraco contra o forte", "do superficial contra o profundo" já presente na heresia de Lutero. O mundo (e seus profetas) odeiam a Igreja porque não a podem alcançar. Aqueles mesmos criminosos que abusam de crianças não o fazem em acordo com o que ensina a Mãe Igreja, mas o fazem contra ela. Estes são os primeiros a empreenderem uma dinâmica de destruição daquilo que não sabem como efetivar. A modernidade odeia a Igreja porque, como já previra Hegel, quis abandonar os valores do passado sem saber bem o que colocar no lugar. E nunca antes na história do pensamento ocidental a mudança histérica de paradigmas foi vista como uma qualidade e não um defeito. E se chega ao ponto de adorar o vazio à grandiosidade…







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Luiz Felipe Pondé – Sade de Batina?

April 26th, 2010 | 1 Comentário | Postado em Igreja, Imprensa

PEDOFILIA ESTÁ na moda. Os "odiadores" da Igreja Católica estão em êxtase. Sempre digo que o único preconceito considerado "científico" nos jantares inteligentes é o preconceito contra a Igreja Católica.

Em jantares assim, você conta como seu pastor alemão é gostoso, como você despreza o conservadorismo dos heterossexuais, como sua alimentação é balanceada e…, é claro, como despreza a Igreja Católica, que, segundo você, é responsável pelo mercado negro de escravos sexuais (não de "escravas", é claro!), de armas e de órgãos. Reconhece-se um "odiador" da igreja pela baba que escorre pelo canto da boca cada vez que tem a chance de cuspir nela.

Nem adianta me acusar de católico reacionário porque nem católico sou. Lamento desmantelar a visão de mundo dos superficiais. Sou defensor de Bento 16? Sim, porque ele é um grande intelectual que faz diagnósticos corajosos sobre alguns males modernos. E também por outro motivo (este é segredo!): porque todo mundo parece concordar que ele não é legal.

O historiador judeu Johan Huizinga, no seu excelente "The Waning of the Middles Ages" (outono da Idade Média), narra de forma impressionante os processos de condenação e execução de hereges no final da Idade Média. Tais eventos eram um "programa de domingo" para o povo, como sempre, ansioso por manifestar seu ódio por alguém que não pode se defender. Levavam suas crianças e juntos faziam piquenique e cuspiam nos hereges.

É claro que muita gente acha chique ter sido queimada na Idade Média. Aliás, o número de gente que faz "regressão de vidas passadas" e descobre que foi queimada na Idade Média faz da Inquisição a instituição mais produtiva da história.

Segundo Huizinga, o povo cuspia nos hereges, xingava os hereges, jogava tomate neles e tinha absoluta certeza de que eles faziam sexo com o demônio e com as criancinhas.
Mas o que essa gente chique-cabeça não sabe é que o herege era uma figura mais próxima da imagem que temos hoje desses padres tarados do que figuras por quem sentiríamos alguma misericórdia.

Vejam: quando se trata de ódio de massa, pouco importa quem é inocente ou não, contanto que possamos cuspir na cara do acusado. Num caso como esse, basta a suspeita e o acusado já é culpado.

Quando leio as manifestações iradas dessa gente em êxtase porque existem padres que gostam de transar com meninos, sempre imagino como essa gente gostaria de poder gritar em praça pública: "Joga pedra na Geni!". Sempre suspeito que o que move a "indignação pública" é mais a chance de odiar (no caso, os padres tarados) do que de amar (no caso, a justiça) porque ninguém ama tão rápido assim, mas odeia na velocidade da luz. Acho inclusive que, no fundo, rezam (ironia…) para que o número de vítimas dos padres tarados aumente a cada dia. Dessa forma seu preconceito "científico" contra a Igreja Católica estará supostamente comprovado.
Sem dúvida é hora de a Igreja Católica cuidar disso. E ela o fará, porque se trata de uma grande instituição com uma história enorme de prestação de serviço à humanidade, apesar de seus erros evidentes -afinal, é humana como todos nós. Sabemos que, hoje em dia, muita gente entra na igreja sem uma seleção cuidadosa, inclusive porque ser padre ou freira hoje não é "um bom negócio" como já foi no passado.

O problema de como lidar com a pedofilia na Igreja Católica é mais um exemplo na longa lista de dificuldades que a igreja (uma instituição antiga e medieval) tem com o Estado laico moderno. O regime moral de penitência e busca de arrependimento que organiza a relação entre crime e castigo na Igreja Católica é nulo para a justiça do Estado moderno, que é cego à lógica do arrependimento.

Por isso, a necessidade de que esses padres sejam trazidos ao tribunal do Estado, como criminosos. Claro que a possibilidade de ganhar grana pode ajudar no acúmulo das denúncias. Tudo tem seu preço, ao contrário do que os hipócritas gostam de afirmar nos púlpitos. Mas, confesso, fico com uma curiosidade. O que diriam os apaixonados leitores de Sade ou Foucault sobre esses pedófilos (padres ou não, apesar de ser mais "gostoso" xingar os padres)? Seria a pedofilia uma forma de transgressão legítima contra as normas de opressão social sobre os corpos? Humm… Por que se calam nessa hora? Por que Sade e Foucault não poderiam fazer sexo revolucionário de batina?







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