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Acordo Brasil-Vaticano

November 27th, 2008 | Comente | Postado em Educação, Igreja, Imprensa, Opinião

Em breve vamos ter alguns textos por aqui comentando o j? famigerado Acordo entre o Brasil e o Vaticano. Por enquanto, o que se tem ? uma imprensa que vocifera por pura eclesioclastia e certas pessoas que replicam a (falta de) informa??o.

A princ?pio, leia o texto do Acordo entre a Rep?blica Federativa do Brasil e a Santa S?, relativo ao estatuto jur?dico da Igreja Cat?lica no Brasil.

Em breve, mais.


Leia tamb?m
Obama sobre religi?o e pol?tica ou Sobre Ser e Parecer
Pecados Capitais da imprensa
Ahn, os jornalistas

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Santa Catarina de Alexandria, ora pro nobis

November 25th, 2008 | Comente | Postado em Igreja, Links

Hoje, 25 de novembro, a Igreja celebra a memória de Santa Catarina de Alexandria, padroeira daqueles que se dedicam ao estudo da filosofia.

Leia sobre a vida de Santa Catarina na Legenda Áurea (em inglês). E, em português, aqui.

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Thomas Merton e a “espiritualidade” da liberta??o

November 23rd, 2008 | 3 Comentários | Postado em Igreja, Livros, Opinião

Abaixo, uma resenha recebida de um grande amigo. Comentem!

* * *

H? algumas semanas por um desses belos acasos da vida, caiu literalmente em minhas m?os o livro “M?stica e compaix?o, Teologia do segmento de Jesus em Thomas Merton”, de Get?lio Ant?nio Bertelli, edi??es Paulinas (tinha de ser) . Pois bem caros amigos gostaria de j? ter escrito antes sobre o mesmo, mas os trabalhos dos ?ltimos dias me impediram, e como diz o velho ditado primeiro o trabalho depois a divers?o.
Vamos ao livro. Embora no titulo apare?am as palavras m?stica e segmento de Jesus, a tese principal do autor ? provar por A+B que o monge Trapista da Abadia americana de Gethsemani Thomas Merton (nascido em Prades, Fran?a a 31 de Janeiro de 1915 e falecido em Banguecoque, Tail?ndia a 10 de Dezembro de 1968) ? o grande precursor do que o autor chama de espiritualidade da liberta??o, entenda-se ?teologia? da liberta??o. Bom para n?o ser injusto gostaria de parabenizar o autor pelo belo eufemismo, nunca imaginaria que existisse alguma espiritualidade na dita ?teologia?.

Mas o que me chamou mais a aten??o no referido livro, al?m da prolixidade (o livro poderia ser reduzido ? metade e n?o haveria o m?nimo problema de continuidade) foi a j? referida tese. O autor parte das seguintes premissas:

a) Thomas Merton se posicionou fortemente e incisivamente contra a guerra fria, a corrida armamentista, o perigo eminente de um holocausto nuclear, e a guerra do Vietn?;

b) Thomas Merton se correspondeu com l?deres pacifistas;

c) T. Merton tinha um grande apre?o pela America latina; e finalmente

d) Merton foi lido e influenciou eminentes ?pensadores? latino-americanos como frei Beto; portanto o pobre monge ? o pai da crian?a que dizer da ?teologia? da liberta??o.

Bom para corroborar o que escrevi eis a apresenta??o do livro retirado do site da editora:

O objetivo desta obra ? mostrar Thomas Merton, um dos maiores m?sticos do s?culo XX, como um dos precursores da espiritualidade da paz na Am?rica do Norte e da teologia da liberta??o latino-americana… Pois ainda hoje, em plena era espacial, ecol?gica e nuclear, o centro do universo continua a ser o cora??o humano, feito para o Transcendente. A teologia do seguimento de Jesus em Merton tem profundas bases b?blicas, interpretadas numa dimens?o libertadora, ecum?nica e inter-religiosa. Por isso, ela ? capaz de embasar a espiritualidade da liberta??o latino-americana: uma espiritualidade de resist?ncia prof?tica diante das for?as desumanizadoras e opressoras do mundo globalizado excludente; uma espiritualidade da solidariedade, que se coloca ao lado das v?timas em seu sofrimento e se engaja na utopia de minimizar a fome e a mis?ria no mundo, at? tornar-se utopia…

N?o ? preciso entender muito de l?gica para perceber que tais premissas n?o se sustentam por si s?. A primeira ? na minha opini?o a mais interessante de todas. Para o autor o posicionamento de Merton frente ? guerra e viol?ncia parece ser algo in?dito na hist?ria do cristianismo, ser? que por acaso a passagem evang?lica bem aventurados os que promovem a paz n?o lhe diz algo? Ser? que diversos outros crist?os n?o se posicionaram contra a insanidade das guerras em todos os tempos? Seriam todos ent?o adeptos da dita ala libert?ria, ent?o que tal incluirmos tamb?m o Papa Bento XV, pois afinal de conta seu posicionamento frente aos horrores da primeira grande guerra n?o ? digno de nota?

Quando li a segunda premissa tive vontade de deletar todos os meus emails (h? muito tempo que n?o escrevo cartas) afinal posso ser acusado de algo somente por ter me correspondido com algu?m. Mas vamos ao caso, Merton realmente se correspondeu com centenas de pessoas dentro e fora dos Estados Unidos, mesmo antes de seus manifestos contra a guerra ele j? era um autor de renome, seus livros sobre espiritualidade j? gozavam de ampla divulga??o. Seu epistol?rio versava sobre os mais diversos temas: dire??o espiritual, filosofia, teologia, literatura e claro as suas preocupa??es com os rumos que estavam tomando a pol?tica internacional; entre seus correspondestes estavam desde amigos, professores universit?rios, outros religiosos cat?licos, e at? alguns lideres pol?ticos. Portanto partindo da premissa de nosso autor podemos afirmar tamb?m que Merton foi precursor de outras infinidades de segmentos sejam espirituais, filos?ficos, liter?rios e at? pol?ticos; quem sabe n?o descobrimos que ele est? por tr?s do pensamento do rec?m eleito presidente americano.

Pela terceira passarei bem r?pido. De fato Merton tinha um grande apre?o pela cultura latino-americana (assim como eu tenho pela grega, mas nem por isso sou o pai da filosofia) e at? pensou em realizar funda??es mon?sticas por essas bandas; vejam seu intuito era eminentemente mission?rio, como sempre foi, ali?s, o dos monges beneditinos que em diferentes ?pocas e lugares sempre se lan?aram a fundar novos mosteiros para que o louvor divino fosse celebrado em todo o orbe.

Por fim, e j? ? realmente hora de findar esse texto, vamos ? ?ltima premissa. Essa ? realmente o que chamamos de uma for?ada daquelas. Quando se diz na literatura que algum autor influenciou outro, n?o se diz que o primeiro tem total responsabilidade sobre o que o segundo porventura venha a concluir; se assim o ? ent?o podemos afirmar que Dostoievsky ? o verdadeiro pai da psican?lise, pois segundo o pr?prio Sigmund Freud a leitura de Dostoievsky foi muito importante para sua teoria psicanal?tica. Por?m ? l?gico afirmar que o autor russo n?o tem o controle da a??o empreendida pelo m?dico austr?aco sobre a sua obra liter?ria. Portanto se certos elementos ditos cat?licos leram as obras de Merton em chave libertadora, qual a responsabilidade de Merton aqui? Se os mesmos elementos leram toda a sagrada escritura com as lentes do marxismo e propalaram esse veneno por todo o continente, que dir? a obra do nosso pobre monge trapista.

Mas se temos que reconhecer um ?talento? na turba dita libert?ria ? o de converter por meio de uma tosca (para n?o dizer criminosa) hermen?utica qualquer autor (falecido de prefer?ncia, por raz?es ?bvias) em suposto adepto da causa.


?.


Leia tamb?m
Teologia e Fundamento
Bento XVI sobre a Justifica??o
Sobre homilias her?ticas

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Sexta de Livros (chegando no domingo)

November 23rd, 2008 | Comente | Postado em Links, Livros

Car?ssimos. A correria est? grande. Mas aqui est? mais uma sexta.

Do nov?ssimo arquivo da Life no Google

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Bento XVI sobre a Justifica??o

November 20th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Igreja, Links
Na audi?ncia desta ?ltima quarta-feira, dia 19 de novembro, o papa Bento XVI se dedicou a explicitar a quest?o da Justifica??o. Abaixo, o texto na ?ntegra.

* * *

Queridos irm?os e irm?s:

No caminho que estamos percorrendo sob a guia de S?o Paulo, queremos agora deter-nos em um tema que est? no centro das controversas do s?culo da Reforma: a quest?o da justifica??o. Como um homem chega a ser justo aos olhos de Deus? Quando Paulo encontrou o ressuscitado no caminho de Damasco, era um homem realizado: irrepreens?vel quanto ? justi?a derivada da Lei (cf.?Fil 3, 6), superava muitos de seus conterr?neos na observ?ncia das prescri??es mosaicas e era zeloso em conservar as tradi??es de seus pais (cf.?G?l 1, 14). A ilumina??o de Damasco mudou radicalmente sua exist?ncia: come?ou a considerar todos os seus m?ritos, conquistas de uma carreira religiosa integr?ssima, como??lixo? frente ? sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo (cf. Flp 3, 8). A?Carta aos Filipenses nos oferece um testemunho comovente da passagem de Paulo de uma justi?a fundada na Lei e conseguida com a observ?ncia das obras prescritas a uma justi?a baseada na f? em Cristo: havia compreendido que o que at? agora lhe havia parecido um lucro, na verdade frente a Deus era uma perda, e havia decidido por isso apostar toda sua exist?ncia em Jesus Cristo (cf.?Flp 3, 7). O tesouro escondido no campo e a p?rola preciosa, em cuja posse investe todo o demais, j? n?o eram as obras da Lei, mas Jesus Cristo, seu Senhor.

A rela??o entre Paulo e o Ressuscitado chegou a ser t?o profunda que o impulsionou a afirmar que Cristo n?o era somente sua vida, mas seu viver, at? tal ponto que, para poder alcan??-lo, inclusive a morte era um lucro (cf.?Flp 1, 21). N?o ? que ele desprezasse a vida, mas que havia compreendido que para ele o viver j? n?o tinha outro objetivo e, portanto, j? n?o tinha outro desejo que alcan?ar Cristo, como em uma competi??o atl?tica, para estar sempre com Ele: o Ressuscitado se havia convertido no princ?pio e no fim da sua exist?ncia, no motivo e na meta da sua corrida. S? a preocupa??o pelo crescimento na f? daqueles aos que havia evangelizado e a solicitude por todas as Igrejas que havia fundado (cf.?2 Cor 11, 28) o induziam a desacelerar a corrida rumo ao seu ?nico Senhor, para esperar os disc?pulos, para que pudessem correr com ele. Se na anterior observ?ncia da Lei n?o tinha nada que reprovar-se desde o ponto de vista da integridade moral, uma vez alcan?ado por Cristo, preferia n?o julgar a si mesmo (cf.?1 Cor 4, 3-4), mas se limitava a correr para conquistar Aquele por quem havia sido conquistado (cf.?Flp 3, 12).

Por causa desta experi?ncia pessoal da rela??o com Jesus, Paulo coloca no centro de seu Evangelho uma irreduz?vel oposi??o entre dois percursos alternativos para a justi?a: um constru?do sobre as obras da Lei, o outro fundado sobre a gra?a da f? em Cristo. A alternativa entre a justi?a pelas obras da Lei e a justi?a pela f? em Cristo se converte assim em um dos temas dominantes de suas cartas: ?N?s, judeus de nascen?a, e n?o pecadores dentre os pag?os,?sabemos, contudo, que ningu?m se justifica pela pr?tica da lei, mas somente pela f? em Jesus Cristo. Tamb?m n?s cremos em Jesus Cristo, e tiramos assim a nossa justifica??o da f? em Cristo, e n?o pela pr?tica da lei. Pois, pela pr?tica da lei, nenhum homem ser? justificado? (G?l 2, 15-16). E ele reafirma aos crist?os de Roma que ?com efeito, todos pecaram e todos est?o privados da gl?ria de Deus),?e s?o justificados gratuitamente por sua gra?a; tal ? a obra da reden??o, realizada em Jesus Cristo? (Rm 3, 23-24). E acrescenta: ?Pensemos que o homem ? justificado pela f?, independentemente das obras da Lei? (ibid 28). Lutero traduziu esta passagem como ?justificados s? pela f??. Voltarei sobre isto ao final da catequese. Antes devemos esclarecer o que ? esta ?Lei? da qual fomos liberados e o que s?o essas ?obras da Lei? que n?o justificam. A opini?o ? que se repetir? na hist?ria ? segundo a qual se tratava da lei moral, e que a liberdade crist? consistia, portanto, na liberta??o da ?tica, j? existia na comunidade de Corinto. Assim, em Corinto circulava a palavra ?panta mou estin? (tudo me ? l?cito). ? ?bvio que esta interpreta??o ? err?nea: a liberdade crist? n?o ? libertinagem, a liberta??o da qual S?o Paulo fala n?o ? libertar-se de fazer o bem.

Mas o que significa, portanto, a Lei da qual fomos libertos e o que n?o salva? Para S?o Paulo, como para todos os seus contempor?neos, a palavra Lei significava a Tor? em sua totalidade, ou seja, os cinco livros de Mois?s. A Tor? implicava, na interpreta??o farisaica, que Paulo havia estudado e feito sua, um conjunto de comportamentos que iam desde o n?cleo ?tico at? as observ?ncias rituais e culturais que determinavam substancialmente a identidade do homem justo. Particularmente a circuncis?o, a observ?ncia do alimento puro e geralmente a pureza ritual, as regras sobre a observ?ncia do s?bado, etc., comportamentos que aparecem com freq??ncia nos debates entre Jesus e seus contempor?neos. Todas estas observ?ncias que expressam uma identidade social, cultural e religiosa, haviam chegado a ser singularmente importantes no tempo da cultura helen?stica, come?ando desde o s?culo III a.C. Esta cultura, que se havia convertido na cultura universal de ent?o, era uma cultura aparentemente racional, um cultura polite?sta aparentemente tolerante, que exercia uma forte press?o de uniformidade cultural e amea?ava assim a identidade de Israel, que estava politicamente obrigado a entrar nesta identidade comum da cultura helen?stica com a conseguinte perda de sua pr?pria identidade, perdendo assim tamb?m a preciosa heran?a da f? de seus pais, a f? no ?nico Deus e nas promessas de Deus.

Contra esta press?o cultural, que amea?ava n?o s? a identidade israelense, mas tamb?m ? f? no ?nico Deus e em suas promessas, era necess?rio criar um muro de diferencia??o, um escudo de defesa que protegesse a preciosa heran?a da f?; este muro consistia precisamente nas observ?ncias e prescri??es judaicas. Paulo, que havia aprendido estas observ?ncias precisamente em sua fun??o defensiva do dom de Deus, da heran?a da f? em um ?nico Deus, via esta identidade amea?ada pela liberdade dos crist?os: por isso os perseguia. No momento de seu encontro com o Ressuscitado, ele entendeu que com a ressurrei??o de Cristo a situa??o havia mudado radicalmente. Com Cristo, o Deus de Israel, o ?nico Deus verdadeiro se convertia no Deus de todos os povos. O muro ? assim diz a?Carta aos Ef?sios ? entre Israel e os pag?os j? n?o era necess?rio: ? Cristo quem nos protege contra o polite?smo e todos os seus desvios; ? Cristo quem nos une com e no ?nico Deus; ? Cristo quem garante nossa verdadeira identidade na diversidade das culturas, ? Ele o que nos torna justos. Ser justo quer dizer simplesmente estar com Cristo e em Cristo. E isso basta. J? n?o s?o necess?rias outras observ?ncias. Por isso a express?o??solo fide? de Lutero ? certa se n?o se op?e ? f?, ? caridade, ao amor. A f? ? olhar para Cristo, confiar-se a Cristo, unir-se a Cristo, conformar-se com Cristo, com a sua vida. E a forma, a vida de Cristo, ? o amor; portanto, crer ? conformar-se com Cristo e entrar em seu amor. Por isso S?o Paulo, na?Carta aos G?latas, na qual sobretudo desenvolveu sua doutrina sobre a justifica??o, fala da f? que age por meio da caridade (cf.?G?l 5, 14).

Paulo sabe que no duplo amor a Deus e ao pr?ximo est? presente e cumprida toda a Lei. Assim, na comunh?o com Cristo, na f? que cria a caridade, toda a Lei se realiza. Somos justos quando entramos em comunh?o com Cristo, que ? amor. Veremos o mesmo no Evangelho do pr?ximo domingo, solenidade de Cristo Rei. ? o Evangelho do juiz cujo ?nico crit?rio ? o amor. O que pede ? s? isso: tu me visitaste quando estava enfermo? Quando estava na pris?o? Tu me deste de comer quando tinha fome, ou me vestiste quando estava nu? E, assim, a justi?a se decide na caridade. Portanto, ao t?rmino deste Evangelho, podemos dizer: s? amor, s? caridade. Mas n?o h? contradi??o entre este Evangelho e S?o Paulo. ? a mesma vis?o, segundo a qual a comunh?o com Cristo, a f? em Cristo cria a caridade. E a caridade ? a realiza??o da comunh?o com Cristo. Assim, se estamos unidos a Ele somos justos, e n?o h? outra forma.

No final, podemos s? rezar ao Senhor para que nos ajude a crer. Crer realmente; crer se converte, assim, em vida, unidade com Cristo, transforma??o de nossa vida. E transformados pelo seu amor, pelo amor a Deus e ao pr?ximo, podemos ser realmente justos aos olhos de Deus.

[Tradu??o: ?lison Santos. Revis?o: Aline Banchieri

? Copyright 2008 - Libreria Editrice Vaticana]

* * *

Leia tamb?m a Declara??o conjunta sobre a doutrina da Justifica??o, assinada pela Igreja e pelos luteranos.

Veja tamb?m
Quest?es sobre a catolicidade
Teologia e Fundamento
“Teologia” moderna

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Obama sobre religião e política ou Sobre Ser e Parecer

November 18th, 2008 | 5 Comentários | Postado em Filosofia, Igreja, Opinião, Vídeos

Por favor, sigam o pequeno roteiro abaixo:

1. Veja o vídeo. É um trecho do discurso de Barack Obama proferido em 28/06/2006 no qual o semi-deus Obama fala sobre religião e secularismo:

2. Leia dois discursos: este e este.

Caso você ainda não veja alguns problemas básicos, continue lendo.

2.1. Em linhas gerais, o vídeo mostra o então senador Obama como apologeta de um certo tipo de secularismo. Este certo tipo de "secularismo" pode ser subsumido àquele apresentado por Charles Taylor em seu colossal A secular age, como o banimento de Deus ou de valores que se referem à religiões da esfera pública por causa de tal referência.

Para defendê-lo, o novo presidente desenha o seguinte "argumento":

a) Seu país não é (se já foi algum dia) mais exclusivamente cristão. Possui uma multiplicidade incontável de crenças religiosas (inclusive a des-crença);

b) contudo, caso pudéssemos restringir a população a cristãos, ainda assim o recurso ao universo epistêmico da religião (se é que ele existe), nos seria vedado, para dele derivar quaisquer elementos para políticas e discussões públicas. Dito de outro modo, não poderíamos fazer referência à religião (no caso, cristã) para nos pautarmos publicamente (leia-se fazer política) já que

c) há uma multiplicidade de "cristianismos" ou denominações;

c’) há uma diversidade de ensinamentos bíblicos patentemente conflitantes e anti-éticos.

c”) Seguem-se exemplos:
- do Levítico, que aceita a escravidão e proíbe o consumo de frutos do mar;
- do Deuteronômio, que exorta o apedrejamento do filho infiel;
- dos Evangelhos, que têm no Sermão da Montanha seu ápice, cuja radicalidade é inatingível.

- o que leva a

d) a democracia exige que os que crêem "traduzam suas preocupações em valores universais, ao invés de valores específicos de cada religião";

e) o que os submete à discussão "e sejam influenciáveis pela razão";

f) caminho vedado aos que têm fé porque:

f’) política é "persuasão" e "negociação"; é "a arte do possível";

f”) "a religião não permite negociar"; é "a arte do impossível".

Assim conclui Obama pela exclusão do discurso cujo fundamento é religioso da dimensão dita pública.

***

Vamos pontualmente:

1. O centro do argumento, que se erige a partir de "c", está sobre um pressuposto escondido mas de fácil veiculação e aceitação entre nossos contemporâneos. Talvez por isso ele passe tão despercebido e goza de tamanha inquestionabilidade, a saber, os cânones da teologia liberal, tanto em suas vertentes mais originárias quanto em sua degringolação moderna.

O caminho é simples: o Iluminismo – e com ele toda a modernidade e seus derivados – coloca em cheque a validade epistêmica dos dizeres da religião. Isso equivale a dizer que mesmo a possível objetividade das verdades de fé é absolutamente excluída. Some-se a isso o sucesso tecnicista da ciência a partir do século XIX (cf. Adorno e Horkheimer). Resta à teologia e ao pensamento sobre a religião que não quer encampar uma disputa racionalmente séria, recuar e postular, como Schleiermacher, que a fonte da religião não é de fato, objetiva – como um conjunto de teses às quais se deve aderir – mas um sentimento interior, subjetivo, uma intuição interna que é, neste caso, o da extrema dependência para com uma alteridade. É sintomático que o subtítulo do principal livro de Schleiermacher sobre o assunto – Sobre a Religião – seja "para seus cultos desprezadores". Está então consumado que o domínio da religião é o da interioridade e da subjetividade oposta ao domínio do que é culto.

A religião é então o espaço do sentimento e da anti-racionalidade, registro cujo posse é de exclusividade da ciência (natural, mais especificamente). Mesmo a filosofia virou uma coleção de citações e opiniões sem real pretensão objetiva. Pretensão obviamente proibida também à teologia.

É só a partir desse ponto de vista que Obama pode dizer o que diz. Entretanto, o que acontece é que nada disso é óbvio e ao abrigo de críticas graves.

2. A "exegese" bíblica de Obama chega a ofender. Lê as Escrituras como quem lê o jornal matutino, sem se atentar para a hermenêutica. Homens como Spinoza, o próprio Schleiermacher, Paul Ricoeur ou H-G. Gadamer ficariam corados ao ver um presidente de tamanho porte lendo as Escrituras – com textos que datam de muitos milênios atrás – com tamanha ignorância exegética. É extremamente curioso como ninguém pensa poder prescindir de conhecimentos circundantes para uma correta leitura da Odisséia, mas acha óbvio ler a Bíblia ipsis literis.

3. As citações de Obama em "d" e "e" são pérolas. O pressuposto da teologia liberal fica explícito aqui. As opiniões do domínio da religião só dizem respeito ao foro íntimo e, assim, carecem necessariamente de objetividade e universalidade, sobretudo porque não se submetem à razão.

O senhor Obama está convidado a explicitar o que entender por "razão". É o que as ciências pós-iluministas praticam hoje, na quals a razão se identifica e se reduz completamente ao seu caráter matematizante do mundo (sem se dar conta que desde Kant a própria matemática já não é mais parâmetro de rigor, clareza e distinção)? É simplesmente aquela razão instrumental que se reduz à técnica e expulsa a contemplação e a reflexão em si (= theorêin, em grego), já provada por Aristóteles como, essa sim, a dimensão mais fina e aguçada da razão, para além da qual nos é realmente impossível chegar? Ou então negar que Agostinho, Tomás de Aquino, Duns Scotus, Suárez, Pascal, Descartes, Kant e tantos outros são racionais?

Obama também fala de "valores universais" sem perceber que o faz no mais religioso dos sentidos. Só quem é absolutamente crente consegue crer em "valores universais" por pensar que eles estão para além do desenvolvimento histórico, alojados numa instância superior e transcendente, como em Deus. Os Dez Mandamentos são para o crente "valores universais". A compaixão e a ética para o não-crente "estritamente racional" (em sentido estrito) são construtos que muito bem podem ser vistos como estando a serviço de determinadas classes ou interesses (uma breve espiada na Genealogia da moral, de Nietzsche, já bastaria).

Sobre o banimento da religião da esfera publica, só posso citar um trecho de um dos discursos linkados acima:

Aqui gostaria, brevemente apenas, de relevar que John Rawls, embora negando às doutrinas religiosas compreensivas o carácter da razão "pública", todavia vê na sua razão "não pública" pelo menos uma razão que não poderia, em nome de uma racionalidade secularizadamente insensível, ser simplesmente desconhecida por aqueles que a defendem. Para além do mais, ele vê um critério desta razoabilidade no facto de tais doutrinas derivarem de uma tradição responsável e motivada, tendo sido durante um longo período desenvolvidas argumentações suficientemente boas em defesa da respectiva doutrina. Nesta afirmação, parece-me importante o reconhecimento de que a experiência e a demonstração ao longo das gerações a base histórica da sabedoria humana constituem também um sinal da sua razoabilidade e do seu significado duradouro. Diante duma razão não histórica que procura autoconstruir-se somente numa racionalidade não histórica, a sabedoria da humanidade como tal a sabedoria das grandes tradições religiosas deve ser valorizada como realidade que não se pode impunemente lançar para o cesto da história das ideias.

Voltemos à pergunta inicial. O Papa fala como representante de uma comunidade crente, na qual, durante os séculos da sua existência, amadureceu uma determinada sabedoria da vida; fala como representante de uma comunidade que guarda em si um tesouro de conhecimento e de experiência ética, que se revela importante para toda a humanidade: neste sentido, fala como representante de uma razão ética.

A religiosidade participa da vida pública muito antes de coisas como a "democracia". Nem mesmo Rawls, crítico da ingerência religiosa na esfera pública, consegue fugir ao paradoxo de querer excluir uma razão não-pública que é uma das maiores expressões dos paradigmas da razão pública. Quem, de fato, é "não influenciável pela razão"?

4. Por fim, o senhor presidente fala do que realmente conhece, a política. Segundo ele, seu cerne é a persuasão, o convencimento e a negociação…

Ahn.. vamos deixar falar quem conhece:

 

Sócrates – Então, prossigamos, e consideremos o seguinte: não dizes por vezes que alguém aprendeu alguma coisa?

Górgias – Sim.

Sócrates – E também que acreditou em algo?

Górgias – Perfeitamente.

Sócrates – E és de parecer que ter aprendido e ter crido sejam a mesma coisa que conhecimento e crença? Ou são diferentes?

Górgias – A meu ver, Sócrates, são diferentes.

Sócrates – É certo o que dizes. Tens a prova no seguinte: Se alguém te perguntasse: Górgias, há crença falsa e crença verdadeira? responderias afirmativamente, segundo penso.

Górgias – Sim.

Sócrates -E conhecimento, há também falso e verdadeiro?

Górgias – De forma alguma.

Sócrates – O que prova que saber e crer são diferentes.

Górgias – É certo.

Sócrates – Apesar disso, tanto os que aprendem como os que crêem ficam igualmente persuadidos.

Górgias – Exato.

Sócrates – Podemos, então, admitir duas espécies de persuasão: uma, que é a fonte da crença, sem conhecimento, e a outra só do conhecimento?

Górgias – Perfeitamente.

Sócrates – De qual dessas persuasões se vale a retórica nos tribunais e nas demais assembléias, relativamente ao justo e ao injusto? Da que é fonte de crença sem conhecimento, ou da que é fonte só de conhecimento?

Górgias – Evidentemente, Sócrates, da que dá origem à crença.

Sócrates – Então, ao que parece, a retórica é obreira da persuasão que promove a crença, não o conhecimento, relativo ao justo e ao injusto?

Górgias – Exato.

Sócrates – Sendo assim, o orador não instrui os tribunais e as demais assembléias a respeito do justo e do injusto, mas apenas lhes desperta a crença nisso. Em tão curto prazo não lhe fora possível instruir tamanha multidão sobre assunto dessa magnitude.

Górgias – Não, de fato.

 

E ainda acusaram Sócrates de impiedade…







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Sexta de Livros

November 14th, 2008 | Comente | Postado em Livros

Manuscritos e iluminuras.

O Corsair tem centenas de imagens de manuscritos medievais e da renascen?a, do acervo da Morgan Library. Vale dar uma olhada aqui tamb?m.

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Deus n?o ? cat?lico???

November 12th, 2008 | Comente | Postado em Igreja, Opinião

Leiam a mat?ria do Chiesa.com sobre o ?ltimo livro do Cardeal Carlo Maria Martini. Na mesma p?gina h? o precioso artigo do professor da Universidade de Floren?a, Pietro De Marco.

Ainda n?o li o livro do Cardeal Martini, que foi lan?ado em outubro passado. Vou procurar saber algumas coisas mais para comentar com mais propriedade. Por enquanto leiam l?.

Leia tamb?m
De costas para o futuro …em dire??o ao Eterno
A Ci?ncia torna a cren?a em Deus obsoleta?
O ?nibus ate?sta ou O comboio dos que aproveitam a vida

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Sexta de Livros (chegando no s?bado)

November 8th, 2008 | Comente | Postado em Sem categoria

Car?ssimos.
Estive fora toda a semana e vou voltando aos poucos ?s postagens. Mas a? est?.

Muro da Kansas City Downtown Library:

Veja a foto em tamanho maior aqui. E outras fotos aqui.

Visto l? no QL.

Mais Sextas de Livros na tag Livros.







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