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Sobre Dawkins e delírios…

February 29th, 2008 | 7 Comentários | Postado em Igreja, Livros, Opinião

Por esses dias, andei dando uma olhada novamente do livro de Richard Dawkins, The God Delusion, bem como lendo algumas coisas relacionadas por aí. Chega a ser enervante a complacência com o livro. Ergo:

1. O tratamento dado por Dawkins no capítulo 3, sobre as provas filosóficas da existência de Deus, chega ser ridículo. A começar pela linguagem que o autor utiliza ao tratar, por exemplo, do argumento de Santo Anselmo, no Proslogion. O autor diz:

“Let me translate this infantile argument into the appropriate language, which is the language of the playground.” (p. 80)

Vejamos: será que de fato a linguagem infantil do playground é a mais apropriada para lidar com um argumentos tratado rigorosamente por filósofos como Descartes, Kant ou Hegel? Prefiro apostar que não. Para além disso, sou terminantemente obrigado a discordar do prof. Idelber Avelar que, em um post sobre o livro, diz que Dawkins não pode ser acusado de não conhecer a fundo as “sutilezas” da argumentação dado que, de certo modo, a priori, ela é falsa ou, como comenta Avelar, que tal acusação seria análoga àquela que exigiria que um autor que se propusesse a refutar a astrologia, tomasse profundo conhecimento de sutilezas de posturas astrológicas contrárias. Entretanto, há aqui no argumento de Avelar (e talvez entre também no rol de falácias de Dawkins) uma pequena falácia: de fato, dado que as diversas tentativas de se provar a existência de Deus pela raz?o, sobretudo com argumentos a priori, caem em erro, questionar pelo conhecimento das finezas dos diversos argumentos que procuram provar a exist?ncia de Deus não é absolutamente relevante. Entretanto, falta aqui um termo médio: não está dado de antemão que tais tentativas são falsas. O objetivo do capítulo de Dawkins é, justamente, provar o erro e a inconclusividade presentes nos argumentos para a existência de Deus (S. Tomás, S. Anselmo etc.). é assim que ele descreve, no final do capítulo anterior, o próximo movimento de seu texto:

“But first, before proceeding with my main reason for actively disbelieving in God’s existence, I have a responsibility to dispose of the positive arguments for belief that have been offered through history.” (p. 73, destaque meu)

Assim, não é possível apelar para o fato de que os argumentos s?o inconclusivos para justificar a ignorância de Dawkins sobre eles. Em outras palavras, o autor só poderia prescindir de conhecer a fundo os argumentos se não fosse sua empreitada provar, exatamente, que são falsos.

2. Por falar em Kant, Dawkins saca o alemão da manga como aquele que viu o truque escondido no argumento anselmiano. Não quero me estender sobre a argumentação de Kant sobre o argumento ontológico na Crítica da Razão Pura, o que exigiria todo um preâmbulo sobre o projeto kantiano da Crítica, bem como explicitar todo o périplo do debate sobre os conceitos de essência e existência. Apenas quero manifestar que Dawkins tamb?m parece não conhecer o movimento da argumentação de Kant. Ele simplesmente diz que “existência” não é uma perfeição sem apoiar a análise na negação kantiana de que “existência” é um predicado real e, portanto, ele só diz algo sobre a posição (positio) do objeto e pede para ir além disso, uma intuição sensível que, por definição, é impossível no caso de Deus. Ora, a refutação de Kant advém de sua concepção de “existência” que está longe de ser unívoca na história da filosofia. Basta dizer que depois dele, Hegel retoma o uso do argumento a partir de pressupostos distintos dos de Kant. Assim, a apropriação que Dawkins faz de Kant não diz nada, já que nem explicita os seus pressupostos (coisa que alguém como Kant jamais deixaria de fazer).

3. Uma última palavra sobre o movimento argumentativo geral do livro: será que apontar inúmeros problemas das religiões (como explicitamente Dawkins faz em 6 dos 10 capítulos) é um bom argumento para se mostrar que Deus é um delírio? Mas como já lembrava Kierkegaard, Mundus vult decipi (o mundo quer ser enganado).

Baixe o livro de Dawkins aqui (em inglês).

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Colet?nea Monty Python

February 25th, 2008 | 1 Comentário | Postado em Blogs, Filmes

Uma colet?nea com mais de cem “epifanias” do grupo ingl?s, incluindo cenas cl?ssicas de Holy Grail, Life of Brian e The meaning of life.

Saiba mais sobre o grupo aqui.

Link pescado no QL.

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Blogs e excel?ncia

February 25th, 2008 | Comente | Postado em Blogs, Geral, Opinião

Hoje, o projeto de uma comunidade de blogs comemora um ano. ? o Interney Blogs.

Para al?m dos merecidos parab?ns, algumas coisas devem ser ditas:

1. Em tempos de tolice generalizada, iniciativas que visem formar uma comunidade de excel?ncia ou, como diz o pai da crian?a -congregar alguns dos melhores blogueiros brasileiros – ? uma iniciativa louv?vel. O que quero dizer por “excel?ncia” n?o ? o sentido comum, mas o propriamente grego, se se pode dizer assim: n?o exatamente ser o melhor de todos, mas o melhor poss?vel dentro de suas condi??es. Agrupar blogs t?o diferentes mas bons em suas “vertentes blogu?sticas” ? uma id?ia que deveria ser repetida em outras esferas. O que aconteceria se nos esfor??ssemos para reunir nossos melhores pensamentos, sentimentos e a??es?

2. Pouco – ou nada, pra ser mais sincero – interessa o fato de que alguns s?o probloggers. N?o h? nenhum mal em capitalizar qualidades, sobretudo em se tratando de boas qualidades intelectuais (caso contr?rio n?o seria professor…rs)

3. Empreitadas dessa natureza s?o ?timas em se tratando de uma associa??o de pessoas para estimular e amparar bons escritores e gente talentosa. Que sirva de exemplo para o nascimento de outros grupos (veja alguns exemplos no post acima do Inagaki). ? com esse tipo de atitude que a blogosfera vai se afastar dos clich?s pejorativos de serem di?rios de adolescentes ou escritos por primatas irracionais…

Abra?os a todos os componentes da ?gora do Interney.

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Crimes e Pecados… et plus

February 18th, 2008 | 2 Comentários | Postado em Filmes, Opinião

N?o tenho o menor problema em admitir: sou um f? inveterado de Woody Allen. Podem falar o que for: que ele ? ped?filo, imoral, fuj?o, canastr?o e (insira seu improp?rio aqui). Mas ao lado de Bergman – de quem Allen ? f? e por vezes procura explicitamente imitar – e Kieslowski, Allan Stewart K?nigsberg ? respons?vel por alguns dos momentos mais maravilhosos que passei ? frente das telas (grandes ou pequenas). Mas quero hoje relembrar uma das p?rolas de Allen: Crimes e Pecados. (Clique na capa para ler a ficha do filme).

crimesepecados

J? ? lugar comum falar sobre a dosagem meticulosa de humor, cr?tica e reflex?o com a qual Allen impregna seus filmes. Mas neste, tal alquimia atinge um grau ?mpar de lirismo. A hist?ria e o t?tulo fazem, obviamente, refer?ncia ao cl?ssico de Dostoi?vski. Mas o filme n?o se esgota em ser uma tentaiva de filmagem da obra-prima do escritor russo. O roteiro que levanta problemas ?ticos ? brilhantemente recheado das falas extempor?neas do professor de filosofia que ? objeto do document?rio feito pelo personagem de Allen.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=db4EFh1dQFM&feature=related]

O filme ?, sem d?vida, um componente daquela categoria dos que devem sem vistos, mesmo se voc? tenha preenchido a lacuna acima com alguma boa cr?tica.

Filmografia completa de Woody Allen

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Como me tornei est?pido

February 18th, 2008 | 6 Comentários | Postado em Livros, Opinião

est?pido

“Porque no ac?mulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e quem aumenta a ci?ncia, aumenta a dor”(Eclesiastes, 1,18). ? esse o mote que Antoine, um erudito cujos conhecimentos sempre interminados, que vagam da biologia ? metaf?sica, passando por seus s?lidos conhecimentos de… aramaico, arroga para sua nova empreitada: tornar-se est?pido.

Martin Page constr?i um personagem memor?vel. Antoine ? um curioso, que tem uma rela??o visceral com o conhecimento, para al?m da vida acad?mica regular ? qual, obviamente, n?o se adapta. Dos in?meros cursos que come?ou, s? conseguiu coletar “peda?os de diplomas”, t?o somente por se interessar por tantas e distintas coisas. Mas Antoine n?o ? somente um fl?neur das ci?ncias. ? portador de uma consci?ncia aguda, “que corre maratonas todos os dias”, e aqui come?am seus problemas.

O personagem ? cr?tico, ?cido – o que garante um humor fino e extremamente bem calibrado do livro – e odeia o mundo das burocracias, obriga??es desprazerosas e da ignor?ncia contumaz. Entretanto, descobre-se, por isso mesmo, doente. Sofre da patologia daqueles que pensam demais e que, como diz o s?bio livro da Sabedoria, t?m sua dor de viver aumentada em propor??o direta ? sua lucidez. Contudo, a condu??o de Page n?o desemboca numa lamenta??o dolorosa ou uma depress?o que arrasta o leitor. Com o humor sofisticado a que j? aludimos, o autor mostra a decis?o de Antoine diante desse quadro irrepar?vel: abdicar de sua consci?ncia e intelig?ncia e tornar-se retumbantemente est?pido.
Acompanhar o p?riplo do personagem, suas t?cnicas singulares – como tornar-se quase um en?logo visando ser simplesmente um alco?latra – e seu empenho em se metamorfosear em um imbecil ? o grande convite do autor que, com um desenrolar curios?ssimo faz de “Como me tornei est?pido” um livro que consegue a proeza de ser ir?nico, sofisticado e ingenuamente belo.

COMO ME TORNEI EST?PIDO
Autor: Martin Page
Tradu??o: Carlos Noug?
ISBN: 85-3251837-0
P?ginas: 160
Formato : 12×18
Editora: Rocco

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World Press Photo

February 8th, 2008 | Comente | Postado em Geral

A World Press Photo divulgou o resultado de sua escolhas das melhores fotos jornal?sticas do ano de 2007.

wpp2008

A foto de Tim Hetherington para a revista Vanity Fair ganhou o pr?mio como a melhor do ano.

Acesse a galeria com todas as fotos aqui.







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Rapidinhas

February 8th, 2008 | Comente | Postado em Geral

Eu at? li o “O Globo” pelo Google Reader, mas s? prestei aten??o pelo post do Inagaki (que por sua vez viu no Butuca Ligada). J? na quarta-feira, o presidente de honra da Beija-Flor – campe? do carnaval do rio -, Aniz Abra?o David, o An?sio, passeou pelas ruas de Nil?polis em carro dos bombeiros.

Como se n?o bastasse, o jornal noticia agora que a Guarda Municipal de Nil?polis faz a guarda pessoal do sujeito. S? o disparate de um servi?o p?blico fazer seguran?a de um indiv?duo, fazendo inclusive controle do entra-e-sai na quadra da escola, o cidad?o em quest?o ? bicheiro e um dos presos pela Opera??o Hurricane da Pol?cia Federal, que s? goza de liberdade por um habeas corpus daqueles que conhecemos…

Mas a? atentemos para algumas conex?es: o prefeito do munic?pio de Nil?polis ? irm?o de An?sio, cuja fam?lia conta com secret?rios, deputados e otras cositas mas. Pelo visto, a imoralidade no carnaval t? longe de ficar s? por conta dos tapa-sexos.







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“Teologia” moderna

February 8th, 2008 | 5 Comentários | Postado em Geral, Igreja, Opinião

Muitas vezes ouvimos incautos dizerem que a Igreja ? antiquada ou retr?grada ou (ponha aqui o seu improp?rio). Na maioria das vezes, o que falta ? a percep??o de que se trata, na verdade, de coer?ncia, fator que h? muito anda esquecido nos discursos por a?…

O te?logo Vito Mancuso publicou em 2007 sua mais recente obra, L?anima e il suo destino, com pref?cio do cardeal Carlo Maria Martini – co-autor, com Umberto Eco, do interessant?ssimo Em que cr?em os que n?o cr?em.

O fato ? que, como noticia o site Chiesa (onde voc? tamb?m pode ver a resenha de Bruno Forte sobre o livro), a obra que j? conta com 80.000 exemplares vendidos e tem sido considerado uma p?rola da teologia moderna est? recheada de erros doutrinais graves e de um forte pendor para a gnose. Como simplesmente aceitar um livro de teologia que se pretenda crist?, que nega o aspecto salv?fico do Cristo ou, mesmo, o pecado?

Ningu?m ? obrigado a concordar com a Igreja, mas, querer que ela concorde com todos n?o ?, tamb?m, correto.

Depois a Igreja que ? considerada turrona…

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February 8th, 2008 | 6 Comentários | Postado em Geral, Igreja, Opinião

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O te?logo Vito Mancuso publicou em 2007 sua mais recente obra, L?anima e il suo destino, com pref?cio do cardeal Carlo Maria Martini – co-autor, com Umberto Eco, do interessant?ssimo Em que cr?em os que n?o cr?em.

O fato ? que, como noticia o site Chiesa (onde voc? tamb?m pode ver a resenha de Bruno Forte sobre o livro), a obra que j? conta com 80.000 exemplares vendidos e tem sido considerado uma p?rola da teologia moderna est? recheada de erros doutrinais graves e de um forte pendor para a gnose. Como simplesmente aceitar um livro de teologia que se pretenda crist?, que nega o aspecto salv?fico do Cristo ou, mesmo, o pecado?

Ningu?m ? obrigado a concordar com a Igreja, mas, querer que ela concorde com todos n?o ?, tamb?m, correto.

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February 5th, 2008 | 5 Comentários | Postado em Geral, Igreja, Imprensa, Opinião

No ?mpeto voraz de apontar problemas na Igreja Cat?lica, a Folha de S. Paulo noticiou os dados da ?ltima pesquisa de n?meros de religiosos, publicada da ?ltima edi??o do L’Osservatore Romano. Entretanto, a not?cia ? t?o mal escrita e t?o tendenciosa que chega a dar raiva. Abaixo o texto tal qual publicado:

N?mero de ordenados cat?licos cai 9% em 2006, diz Vaticano
da Efe, no Vaticano

Atualizada ?s 12h13

O n?mero de ordenados da Igreja Cat?lica caiu em 2006, segundo dados publicados na ?ltima edi??o do jornal “L’Osservatore Romano”, do Vaticano. Segundo os dados, a queda corresponde a uma diminui??o de 7.230 religiosos em todo o mundo.

O Vaticano havia divulgado mais cedo no mesmo jornal um n?mero maior ( 94.790) de ordenados que desistiram da vida religiosa, mas retificou a informa??o depois.

Os n?mero foram fornecidos pelo Escrit?rio Central de Estat?stica da Igreja Cat?lica. No mundo existem atualmente 945.210 religiosos ordenados, entre 136.171 sacerdotes, 532 di?conos permanentes, 55.107 religiosos n?o-sacerdotes e 753.400 mulheres ordenadas.

Segundo a publica??o, no continente africano h? 11.348 ordenados e 60.708 religiosas, considerando apenas os sacerdotes.

Na ?sia, s?o registrados 21.154 sacerdotes e 155.854 mulheres religiosas, na Europa 52.290 sacerdotes e 315.981 religiosas, no continente americano 42.318 sacerdotes e 211.159 religiosas e na Oceania 2.061 sacerdotes e 9.698 religiosas.

Clero

O Vaticano realizou em janeiro um congresso sobre o C?digo de Direito Can?nico, por ocasi?o do 25? anivers?rio de sua promulga??o, que tinha como um de seus objetivos refletir sobre o conjunto de normas jur?dicas que governam a Igreja Cat?lica.

Segundo o presidente do Pontif?cio Conselho para os Textos Legislativos, Francesco Coccopalmerio, um dos objetivos do congresso era localizar os pontos que necessitam de reformas na igreja.

Dias depois, o papa Bento 16 fez nova convoca??o em prol da unidade dos crist?os e disse que as fragilidades do homem e o pecado impedem a plena comunh?o dos seguidores de Cristo.

Obviamente, notifiquei os erros. Veja abaixo:

“A not?cia sobre estat?sticas da Igreja Cat?lica cont?m tantos erros que tal n?mero compromete o m?nimo entendimento das informa??es. A come?ar pelo t?tulo: n?o ? poss?vel saber se a queda do n?mero se refere a qual cen?rio (queda no n?mero de NOVOS ordenados, queda no n?mero TOTAL de ordenados ou, ainda, se o termo “ordenados” se refere aos que receberam o sacramento da ordem ou os pertencentes a alguma ordem religiosa). O termo “ordenados”, no l?xico cat?lico, diz respeito apenas a ministros que receberam o sacramento da ordem em algum de seus m?nus (di?conos, presb?teros e ep?scopos). Assim, torna-se imposs?vel que haja uma estat?stica sobre o n?mero de mulheres ordenadas, como diz explicitamente a not?cia. Favor verificar os erros acima apontados j? que, num jornal com a envergadura da FSP, a sanha por apontar problemas na Igreja n?o pode se sobrepor ? corre??o estil?stica e intelectual.”

Vamos esperar uma resposta…

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