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Questões sobre a catolicidade

May 29th, 2007 | 3 Comentários | Postado em Igreja, Imprensa

Em entrevista ao UOL News e post no seu blog, o professor Roberto Romano, da Unicamp, fala sobre vários aspectos da Igreja e de sua muito particular concepção do catolicismo hodierno. Dentre muitos, quero destacar o fim do post do professor Romano que, a meu ver, incorre em deslizes de compreensão ao dizer que a Igreja direciona suas forças apenas a questões morais, excluindo outras dimensões, como a política:

A religião católica resume pelo menos 10 mil anos de cultura humana. Os problemas que ela tentou encaminhar e resolver ao longo da história são dos mais amplos, há uma dimensão muito universal, se perdoam a tautologia, do catolicismo. A partir do momento que João Paulo 2° e agora o cardeal Ratzinger reduzem a dimensão ampla e complexa do catolicismo à mera questão moral, temos um encolhimento da experiência espiritual e cultural da religião.

O excerto acima, do texto do Prof. Romano, ilustra com perfeição a visão vulgar – ou pseudo-intelectual, que dá no mesmo – sobre a Igreja em questões de moral e, portanto, também de política. O que ocorre é que há um desconhecimento obstinado do que a Igreja Católica tem como pressuposto às suas considerações sobre a práxis humana.

O prezado professor talvez tenha confundido a Igreja Católica com aquelas que dela se separaram quando da Reforma (e suas conseqüências), estas sim, com explícita orientação moralizante. Ao contrário, a Igreja Católica não deixa nunca de apoiar seu éthos próprio em sua cosmovisão a partir do Cristo como Novo Adão que capitula em si toda a Criação.

Assim, se no Cristo são feitas novas todas coisas (Ap. 21,5), os homens assimilados a Ele devem agir diferente, inseridos num novo registro de significação, no qual a pertença à Igreja, como desenrolar histórico do Advento, se destaca. Só a partir desse ponto pode-se adentrar no que poderíamos chamar de Teologia Moral ou ensinamento moral da Igreja. Ou então, que o Professor aponte algum pronunciamento de ordem moral que não se mostre a íntima conexão deste com o que aqui chamo de cosmovisão do cristianismo.Vê-se, portanto, que não há sentido em dizer que a Igreja esteja reduzindo seu campo semântico por insistir em questões de moral; antes, ela atualiza – no sentido filosófico de presentificar -, a cada pronunciamento sobre a ação humana, todo o estofo soteriológico de sua Teologia. É isso o que sempre aparece nos escritos da Igreja e nos escritos do então Cardeal Ratzinger (que em outro trecho o Professor diz conhecer há tempos…).

O que tem sido, isso sim, alvo do Magistério (veja-se, por exemplo, a emblemática Dominus Iesus) é justamente o esvaziamento metafísico da mensagem do Cristo que gera moralismos que não se sustentam por si pois desvinculados da catolicidade, que não diz respeito só à missão da Igreja, mas que é também de significado, posto que o Filho de Deus feito homem reconfigura a Criação toda inteira.







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De costas para o futuro …em direção ao Eterno

May 14th, 2007 | 10 Comentários | Postado em Igreja, Imprensa, Opinião

Um dos maiores teólogos do século XX, Hans Urs von Balthasar, no prefácio da obra The Drama of Atheism Humanism, do não menos brilhante Henri de Lubac, escreve que no registro da modernidade, toda sentença que contenha a palavra “Deus” é automaticamente desprovida de valor, ou seja, que tal palavra esvazia qualquer pretensão de sentido para espíritos modernos. Hoje, poderíamos dizer que não só a palavra “Deus”, mas as palavras “Igreja Católica” estão fadadas ao mesmo destino. Parece impossível a priori que um discurso que se pretenda carregado de sentido, fale da Igreja como algo sério e que possa legitimamente representar uma forma válida (ainda hoje) de leitura do mundo.

É a partir desse pano de fundo, uma eclesioclastia reinante, que a esmagadora maioria de comentários da imprensa (grande e pequena) sobre a vinda do Papa ao Brasil se forma. Num primeiro momento, só interessam as informações pífias sobre o seu cardápio ou sobre os protocolos do Vaticano, como elementos excêntricos que despertam curiosidade e repulsa. Posteriormente, com um desejo de interpretação “profunda” dos fatos, a mídia se volta para estatísticas (números de católicos no país, quantos dos que se dizem católicos acolhem as falas do Papa etc.), historietas (da infância “nazista” do pontífice, de seu papel como Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé que seria um eufemismo para o Tribunal da Santa Inquisição ou então basta ver capas e capas de revistas desvelando toda a história secreta do Vaticano e da Igreja Católica que é tão secreta e obscura que qualquer trabalhinho de imprensa semanal coloca à luz). E assim se constrói o imaginário e se “enforma” a população para a recepção do Santo Padre (para não falar de alguns teólogos que, carregados de ranços, por ora vociferam contra e por ora o adulam…).

Para além daquilo que é obviamente problemático ao se adotar simplesmente esse tipo de discurso para se falar de qualquer assunto, há uma terceira esfera de “análise” do evento Bento XVI que pulula em alguns meios de comunicação que se pretendem mais sofisticados: a que versa sobre a validade das idéias de Ratzinger e da Igreja (sem terem lido uma linha sequer do que ele escreveu). Assumo como exemplo a matéria principal da revista Carta Capital da última semana cuja capa exibe, sobre um fundo negro e vazio, a foto de Bento XVI de costas e aparentemente cabisbaixo com o grande título “De costas para o futuro”. Escolho tal matéria porque ela sintetiza todos os pontos acima apontados (contêm estatísticas, historietas e discurso sobre a validade das idéias da Igreja). O ponto alto da matéria está, a meu ver, já em sua primeira página:

Em termos práticos, levando-se em conta os objetivos do Vaticano, o que a realidade mostrará a Bento XVI é que são questionáveis os resultados da moderna ‘contra-reforma’ que ele mesmo gerenciou ao longo de quase três décadas.

O que a Igreja gostaria que a “realidade” entendesse, é que “futuro” por si só, não tem significado algum, e que este futuro que hoje nos é anunciado a partir de um presente egocêntrico, tende a ser fantasmagórico. Se como diz o então cardeal Ratzinger no documento Dominus Iesus, a Igreja nasce do mandato de Jesus Cristo de batizar todas as nações em nome da Trindade e “ensinar-lhes a cumprir tudo quanto vos mandei” (Mt 28, 20), a “realidade” à qual a Igreja deve voltar-se é aquela divina, não importando a que ela dê as costas. Independentemente de se concordar com ela ou não, o que está em jogo aqui é uma coerência interna – bem há muito esquecido em nossos tempos esquizofrênicos e contraditórios – cujos pressupostos a própria Igreja não se enxerga no direito de tocar, posto que ela é apenas depositum fidei, depósito da fé e não sua proprietária.

Afastar-se da mera temporalidade é para a Igreja, gesto de Amor pela humanidade que se manifesta na tentativa de voltar a ela com o intuito de conformá-la ao Eterno – ou qual seria o sentido de “venha a nós o Vosso Reino”? – ao invés de simplesmente concordar com ela de forma displicente. É querer elevar, de fato, o homem à sua maturidade perante Deus, superando a condição da qual fala São Paulo, que tão bem diagnostica nossa contemporaneidade: “para que não sejamos mais crianças, joguetes da ondas, agitados por todo vento de doutrina, presos pela artimanha dos homens e da sua astúcia que nos induz ao erro.” (Ef. 4, 14).

Ora, não foi essa mesma a citação-chave feita por Ratzinger na missa de início do conclave?

 

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Abaixo, alguns links relevantes:

Biografia de Bento XVI no site do Vaticano (em português)
Biografia de Bento XVI na Wikipedia (em português)
Lista Bibliográfica exaustiva e Reviews de livros de Bento XVI (em inglês)
Página da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé
Site Oficial da Visita do Papa ao Brasil







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