Sobre as dúvidas: Jó, Abraão e Maria*

A dúvida não é, como desejara Descartes, o fundamento e o motor inalienável da Filosofia. Ou ela é muito menos, ou muito mais do que isso. Ninguém começa a pensar a sério por uma dúvida qualquer. Mas, no entanto, uma dúvida séria paralisa todo e qualquer pensamento, porque ela talvez seja um dos estados mais genuínos da alma, posto que não se pode duvidar um pouco ou pela metade. Assim, ou ultrapassamos a dúvida ou ela nos trespassa.

E eis diante de nós o fundo da vida. Porque se a tarefa da existência consiste em esculpir seu sentido, o mais temível ataque é exatamente o da dúvida que, como um vórtice, drena e esvazia subitamente aquilo que nos esmeramos por preencher. Não é, portanto, à toa que as Escrituras estão repletas deste estado de alma que constitui tanto a grandeza quanto a brutalidade da experiência existencial. E do mesmo modo que elas nos mostram sua presença sempre tremulante, exibem todas as faces da angústia pela dúvida. Que Jó e Abraão sejam paradigmas do experimentar aniquilador do vazio da dúvida é tão somente sinal de que, além da dor lancinante advinda das questões mais cotidianas, o que realmente fere naquilo em nossa alma que desejaríamos deixar para sempre intocado é a dúvida que tem como objeto o único candidato plausível ao sentido último e inabalável “que é aquilo a que chamamos Deus”, para usarmos a expressão despretensiosamente cortante dos medievais (que faz Deus entrar no silogismo como alguém entra na própria casa: sem avisar e como se nunca tivesse saído).

Há bibliotecas escritas sobre Jó e Abraão, mas também sobre as aporias de Salomão e Davi, Moisés e Jonas e Pedro. Convém, então, em não cair no ridículo de repisar estas coisas muito sérias apenas para sofrer uma vez mais com elas. Ainda assim, parece haver algo que deve ser capturado novamente, não para responder ou para acalmar, mas pra desvelar uma vez mais isso que talvez só na Eternidade, quando “conheceremos como somos conhecidos” (1 Cor. 13,12), compreenderemos.

Jó, Abraão e todos os outros são sempre lembrados como os que esperaram em Deus e foram saciados. Mas que bobagem falar da espera se não for a partir das lentes que distorcem horrivelmente o mundo e a vida. Se não pensarmos que Jó duvidou em seu íntimo, suas chagas e suas desgraças são apenas uma antessala incômoda que precede a glória que já se conhece com certeza. Se Abraão não fosse excruciado pelo temor de perder o filho da promessa, poderíamos bem vê-lo brincando com a faca com a qual deveria matar Isaac, ou mesmo torturando o menino. E o que dizer de Maria, irmã de Lázaro? Que Deus seja o conforto pela projeção de todos os nossos desejos, é algo que desde Feuerbach ficou barato dizer. Mas que esse conforto desapareça mesmo quando se pensa estar realmente diante dele, como Marta e Maria pensavam que era o que se passava quando estavam diante de Jesus e, mesmo assim, seu irmão Lázaro já estava morto há três dias, isso é como sentir a alma abandonar o corpo. E quantas vezes nos sentimos assim? Não foi o abandono que o próprio Jesus gritou na cruz? Não é por acaso que  “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt. 27, 46) é o último grito do Senhor. Porque também é o nosso último grito. É o nosso grito último.

Não se pode ficar indiferente à Maria, irmã de Lázaro, que expressa a confiança mais autêntica ao mesmo tempo em que aponta para Jesus a dúvida mais penetrante: “Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo, 11, 32). Mas ele morreu e é isso que Maria lança a Deus com todo o peso da inconformidade humana frente à falta de clareza da vida. Como antes, Marta também manifestara sua perplexidade ao Cristo: ao dizer que sabia que todos ressuscitariam no último dia (Jo 11, 24), Marta quis também dizer: mas por que ele está morto agora?

Guardando-me novamente do ridículo, agora em querer responder ou consolar, só posso dizer que ali talvez esteja, junto com o grito na cruz, uma das maiores provas da divindade de Jesus, a saber, ele chora (Jo, 11, 35). Se ele tivesse sorrido à Marta e Maria e, num estalar de dedos Lázaro aparecesse diante deles, isso seria um prodígio, mas Jesus não seria Deus. Se ele dissesse as mais belas palavras para acalmá-las, ele seria um poeta, mas nada além disso. Se Nietzsche disse que só creria em um Deus que soubesse dançar, nós devemos dizer que só é possível crer num Deus que chora. E deve-se parar por aqui. Ir além disso é tolice ou presunção.

Pois o choro despedaçador da dúvida é mesmo o choro do vazio e do abismo. E o paradoxo consiste em que mesmo a dúvida sobre a existência de Deus ou se ele nos escuta e nos ama, é o espaço aberto no qual Deus entra, como quem entra na própria casa sem ter de avisar e como se nunca tivesse saído. Quando se duvida se Deus está a nos escutar é porque Ele está falando.

*Para a voz de Deus sussurrando nos meus ouvidos.

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