Questões sobre a catolicidade

Em entrevista ao UOL News e post no seu blog, o professor Roberto Romano, da Unicamp, fala sobre vários aspectos da Igreja e de sua muito particular concepção do catolicismo hodierno. Dentre muitos, quero destacar o fim do post do professor Romano que, a meu ver, incorre em deslizes de compreensão ao dizer que a Igreja direciona suas forças apenas a questões morais, excluindo outras dimensões, como a política:

A religião católica resume pelo menos 10 mil anos de cultura humana. Os problemas que ela tentou encaminhar e resolver ao longo da história são dos mais amplos, há uma dimensão muito universal, se perdoam a tautologia, do catolicismo. A partir do momento que João Paulo 2° e agora o cardeal Ratzinger reduzem a dimensão ampla e complexa do catolicismo à mera questão moral, temos um encolhimento da experiência espiritual e cultural da religião.

O excerto acima, do texto do Prof. Romano, ilustra com perfeição a visão vulgar – ou pseudo-intelectual, que dá no mesmo – sobre a Igreja em questões de moral e, portanto, também de política. O que ocorre é que há um desconhecimento obstinado do que a Igreja Católica tem como pressuposto às suas considerações sobre a práxis humana.

O prezado professor talvez tenha confundido a Igreja Católica com aquelas que dela se separaram quando da Reforma (e suas conseqüências), estas sim, com explícita orientação moralizante. Ao contrário, a Igreja Católica não deixa nunca de apoiar seu éthos próprio em sua cosmovisão a partir do Cristo como Novo Adão que capitula em si toda a Criação.

Assim, se no Cristo são feitas novas todas coisas (Ap. 21,5), os homens assimilados a Ele devem agir diferente, inseridos num novo registro de significação, no qual a pertença à Igreja, como desenrolar histórico do Advento, se destaca. Só a partir desse ponto pode-se adentrar no que poderíamos chamar de Teologia Moral ou ensinamento moral da Igreja. Ou então, que o Professor aponte algum pronunciamento de ordem moral que não se mostre a íntima conexão deste com o que aqui chamo de cosmovisão do cristianismo.Vê-se, portanto, que não há sentido em dizer que a Igreja esteja reduzindo seu campo semântico por insistir em questões de moral; antes, ela atualiza – no sentido filosófico de presentificar -, a cada pronunciamento sobre a ação humana, todo o estofo soteriológico de sua Teologia. É isso o que sempre aparece nos escritos da Igreja e nos escritos do então Cardeal Ratzinger (que em outro trecho o Professor diz conhecer há tempos…).

O que tem sido, isso sim, alvo do Magistério (veja-se, por exemplo, a emblemática Dominus Iesus) é justamente o esvaziamento metafísico da mensagem do Cristo que gera moralismos que não se sustentam por si pois desvinculados da catolicidade, que não diz respeito só à missão da Igreja, mas que é também de significado, posto que o Filho de Deus feito homem reconfigura a Criação toda inteira.

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