Novamente, a eclesioclastia e a revolta do fraco contra o forte

Entre as várias tentativas de explicar e entender o que move a agenda eclesioclasta contemporânea, penso ser fundamental retomar o cerne daquilo que impulsiona a oposição à Igreja desde os tempos mais remotos e passando pelos períodos áureos de oposição à Igreja de Cristo, a saber, a revolta do fraco contra o forte. E poucos souberam tão bem localizar e explicitar tal dinâmica quanto Nietzsche que, agudamente, reconhece um dos momentos de eclosão de tal movimento já na Reforma Protestante:

"Mas a coisa mais estranha é que aqueles que mais desejam reter e preservar o cristianismo são os que mais fizeram para destruí-lo (…) A reforma luterana, em toda a sua extensão e amplitude, foi a indignação do simples contra o complexo; para falar prudentemente, foi uma falta de refinamento, honestamente um engano.

(…)Lutero era fatalmente limitado, superficial e imprudente. Ele confundiu, atrapalhou, deu os Livros Sagrados na mão de qualquer um – o que significa dá-los na mão dos filólogos, que são os destruidores de toda crença baseada em livros. Ele demoliu o conceito de "igreja" por repudiar a fé na inspiração dos concílios; para que o conceito de "igreja" permaneça vigoroso como é, ele pressupõe que o Espírito inspirador que fundou a igreja permaneça vivo nela, construindo-a, continue ainda a fazer nela sua morada de descanso. (…) Lutero destruiu um ideal que ele não sabia como alcançar (…) De fato, ele não sabia o que estava fazendo."

NIETZSCHE, F. A Gaia ciência (traduzido da edição americana)

 

Não é de hoje que vemos a agenda eclesioclasta do mundo moderno, cujo porta-voz, arauto e profeta é a mídia (esta última grande instância de sentido da atualidade, ao lado da ciência e da tecnologia). Já no século passado H. U. von Balthasar, um dos maiores teólogos do século XX dizia que, para fazer com que as pessoas não lhe ouvissem mais, bastava citar "Deus" ou "Igreja" na conversa, e todo discurso se esvaziaria de sentido instantaneamente. O que ocorre hoje é a manifestação explícita da "revolta do fraco contra o forte", "do superficial contra o profundo" já presente na heresia de Lutero. O mundo (e seus profetas) odeiam a Igreja porque não a podem alcançar. Aqueles mesmos criminosos que abusam de crianças não o fazem em acordo com o que ensina a Mãe Igreja, mas o fazem contra ela. Estes são os primeiros a empreenderem uma dinâmica de destruição daquilo que não sabem como efetivar. A modernidade odeia a Igreja porque, como já previra Hegel, quis abandonar os valores do passado sem saber bem o que colocar no lugar. E nunca antes na história do pensamento ocidental a mudança histérica de paradigmas foi vista como uma qualidade e não um defeito. E se chega ao ponto de adorar o vazio à grandiosidade…

G. Ferreira

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