Bento XVI sobre a Justifica??o

Na audi?ncia desta ?ltima quarta-feira, dia 19 de novembro, o papa Bento XVI se dedicou a explicitar a quest?o da Justifica??o. Abaixo, o texto na ?ntegra.

* * *

Queridos irm?os e irm?s:

No caminho que estamos percorrendo sob a guia de S?o Paulo, queremos agora deter-nos em um tema que est? no centro das controversas do s?culo da Reforma: a quest?o da justifica??o. Como um homem chega a ser justo aos olhos de Deus? Quando Paulo encontrou o ressuscitado no caminho de Damasco, era um homem realizado: irrepreens?vel quanto ? justi?a derivada da Lei (cf.?Fil 3, 6), superava muitos de seus conterr?neos na observ?ncia das prescri??es mosaicas e era zeloso em conservar as tradi??es de seus pais (cf.?G?l 1, 14). A ilumina??o de Damasco mudou radicalmente sua exist?ncia: come?ou a considerar todos os seus m?ritos, conquistas de uma carreira religiosa integr?ssima, como??lixo? frente ? sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo (cf. Flp 3, 8). A?Carta aos Filipenses nos oferece um testemunho comovente da passagem de Paulo de uma justi?a fundada na Lei e conseguida com a observ?ncia das obras prescritas a uma justi?a baseada na f? em Cristo: havia compreendido que o que at? agora lhe havia parecido um lucro, na verdade frente a Deus era uma perda, e havia decidido por isso apostar toda sua exist?ncia em Jesus Cristo (cf.?Flp 3, 7). O tesouro escondido no campo e a p?rola preciosa, em cuja posse investe todo o demais, j? n?o eram as obras da Lei, mas Jesus Cristo, seu Senhor.

A rela??o entre Paulo e o Ressuscitado chegou a ser t?o profunda que o impulsionou a afirmar que Cristo n?o era somente sua vida, mas seu viver, at? tal ponto que, para poder alcan??-lo, inclusive a morte era um lucro (cf.?Flp 1, 21). N?o ? que ele desprezasse a vida, mas que havia compreendido que para ele o viver j? n?o tinha outro objetivo e, portanto, j? n?o tinha outro desejo que alcan?ar Cristo, como em uma competi??o atl?tica, para estar sempre com Ele: o Ressuscitado se havia convertido no princ?pio e no fim da sua exist?ncia, no motivo e na meta da sua corrida. S? a preocupa??o pelo crescimento na f? daqueles aos que havia evangelizado e a solicitude por todas as Igrejas que havia fundado (cf.?2 Cor 11, 28) o induziam a desacelerar a corrida rumo ao seu ?nico Senhor, para esperar os disc?pulos, para que pudessem correr com ele. Se na anterior observ?ncia da Lei n?o tinha nada que reprovar-se desde o ponto de vista da integridade moral, uma vez alcan?ado por Cristo, preferia n?o julgar a si mesmo (cf.?1 Cor 4, 3-4), mas se limitava a correr para conquistar Aquele por quem havia sido conquistado (cf.?Flp 3, 12).

Por causa desta experi?ncia pessoal da rela??o com Jesus, Paulo coloca no centro de seu Evangelho uma irreduz?vel oposi??o entre dois percursos alternativos para a justi?a: um constru?do sobre as obras da Lei, o outro fundado sobre a gra?a da f? em Cristo. A alternativa entre a justi?a pelas obras da Lei e a justi?a pela f? em Cristo se converte assim em um dos temas dominantes de suas cartas: ?N?s, judeus de nascen?a, e n?o pecadores dentre os pag?os,?sabemos, contudo, que ningu?m se justifica pela pr?tica da lei, mas somente pela f? em Jesus Cristo. Tamb?m n?s cremos em Jesus Cristo, e tiramos assim a nossa justifica??o da f? em Cristo, e n?o pela pr?tica da lei. Pois, pela pr?tica da lei, nenhum homem ser? justificado? (G?l 2, 15-16). E ele reafirma aos crist?os de Roma que ?com efeito, todos pecaram e todos est?o privados da gl?ria de Deus),?e s?o justificados gratuitamente por sua gra?a; tal ? a obra da reden??o, realizada em Jesus Cristo? (Rm 3, 23-24). E acrescenta: ?Pensemos que o homem ? justificado pela f?, independentemente das obras da Lei? (ibid 28). Lutero traduziu esta passagem como ?justificados s? pela f??. Voltarei sobre isto ao final da catequese. Antes devemos esclarecer o que ? esta ?Lei? da qual fomos liberados e o que s?o essas ?obras da Lei? que n?o justificam. A opini?o ? que se repetir? na hist?ria ? segundo a qual se tratava da lei moral, e que a liberdade crist? consistia, portanto, na liberta??o da ?tica, j? existia na comunidade de Corinto. Assim, em Corinto circulava a palavra ?panta mou estin? (tudo me ? l?cito). ? ?bvio que esta interpreta??o ? err?nea: a liberdade crist? n?o ? libertinagem, a liberta??o da qual S?o Paulo fala n?o ? libertar-se de fazer o bem.

Mas o que significa, portanto, a Lei da qual fomos libertos e o que n?o salva? Para S?o Paulo, como para todos os seus contempor?neos, a palavra Lei significava a Tor? em sua totalidade, ou seja, os cinco livros de Mois?s. A Tor? implicava, na interpreta??o farisaica, que Paulo havia estudado e feito sua, um conjunto de comportamentos que iam desde o n?cleo ?tico at? as observ?ncias rituais e culturais que determinavam substancialmente a identidade do homem justo. Particularmente a circuncis?o, a observ?ncia do alimento puro e geralmente a pureza ritual, as regras sobre a observ?ncia do s?bado, etc., comportamentos que aparecem com freq??ncia nos debates entre Jesus e seus contempor?neos. Todas estas observ?ncias que expressam uma identidade social, cultural e religiosa, haviam chegado a ser singularmente importantes no tempo da cultura helen?stica, come?ando desde o s?culo III a.C. Esta cultura, que se havia convertido na cultura universal de ent?o, era uma cultura aparentemente racional, um cultura polite?sta aparentemente tolerante, que exercia uma forte press?o de uniformidade cultural e amea?ava assim a identidade de Israel, que estava politicamente obrigado a entrar nesta identidade comum da cultura helen?stica com a conseguinte perda de sua pr?pria identidade, perdendo assim tamb?m a preciosa heran?a da f? de seus pais, a f? no ?nico Deus e nas promessas de Deus.

Contra esta press?o cultural, que amea?ava n?o s? a identidade israelense, mas tamb?m ? f? no ?nico Deus e em suas promessas, era necess?rio criar um muro de diferencia??o, um escudo de defesa que protegesse a preciosa heran?a da f?; este muro consistia precisamente nas observ?ncias e prescri??es judaicas. Paulo, que havia aprendido estas observ?ncias precisamente em sua fun??o defensiva do dom de Deus, da heran?a da f? em um ?nico Deus, via esta identidade amea?ada pela liberdade dos crist?os: por isso os perseguia. No momento de seu encontro com o Ressuscitado, ele entendeu que com a ressurrei??o de Cristo a situa??o havia mudado radicalmente. Com Cristo, o Deus de Israel, o ?nico Deus verdadeiro se convertia no Deus de todos os povos. O muro ? assim diz a?Carta aos Ef?sios ? entre Israel e os pag?os j? n?o era necess?rio: ? Cristo quem nos protege contra o polite?smo e todos os seus desvios; ? Cristo quem nos une com e no ?nico Deus; ? Cristo quem garante nossa verdadeira identidade na diversidade das culturas, ? Ele o que nos torna justos. Ser justo quer dizer simplesmente estar com Cristo e em Cristo. E isso basta. J? n?o s?o necess?rias outras observ?ncias. Por isso a express?o??solo fide? de Lutero ? certa se n?o se op?e ? f?, ? caridade, ao amor. A f? ? olhar para Cristo, confiar-se a Cristo, unir-se a Cristo, conformar-se com Cristo, com a sua vida. E a forma, a vida de Cristo, ? o amor; portanto, crer ? conformar-se com Cristo e entrar em seu amor. Por isso S?o Paulo, na?Carta aos G?latas, na qual sobretudo desenvolveu sua doutrina sobre a justifica??o, fala da f? que age por meio da caridade (cf.?G?l 5, 14).

Paulo sabe que no duplo amor a Deus e ao pr?ximo est? presente e cumprida toda a Lei. Assim, na comunh?o com Cristo, na f? que cria a caridade, toda a Lei se realiza. Somos justos quando entramos em comunh?o com Cristo, que ? amor. Veremos o mesmo no Evangelho do pr?ximo domingo, solenidade de Cristo Rei. ? o Evangelho do juiz cujo ?nico crit?rio ? o amor. O que pede ? s? isso: tu me visitaste quando estava enfermo? Quando estava na pris?o? Tu me deste de comer quando tinha fome, ou me vestiste quando estava nu? E, assim, a justi?a se decide na caridade. Portanto, ao t?rmino deste Evangelho, podemos dizer: s? amor, s? caridade. Mas n?o h? contradi??o entre este Evangelho e S?o Paulo. ? a mesma vis?o, segundo a qual a comunh?o com Cristo, a f? em Cristo cria a caridade. E a caridade ? a realiza??o da comunh?o com Cristo. Assim, se estamos unidos a Ele somos justos, e n?o h? outra forma.

No final, podemos s? rezar ao Senhor para que nos ajude a crer. Crer realmente; crer se converte, assim, em vida, unidade com Cristo, transforma??o de nossa vida. E transformados pelo seu amor, pelo amor a Deus e ao pr?ximo, podemos ser realmente justos aos olhos de Deus.

[Tradu??o: ?lison Santos. Revis?o: Aline Banchieri

? Copyright 2008 – Libreria Editrice Vaticana]

* * *

Leia tamb?m a Declara??o conjunta sobre a doutrina da Justifica??o, assinada pela Igreja e pelos luteranos.

Veja tamb?m
Quest?es sobre a catolicidade
Teologia e Fundamento
“Teologia” moderna

Categorias do Technorati , , ,

2 comentários Bento XVI sobre a Justifica??o

  1. Pingback: Thomas Merton e a “espiritualidade” da liberta??o | Inter-Esse

  2. Pingback: Dignitas Personae | Inter-Esse

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.