A Candeia sob o Alqueire ou Sobre pastores ociosos

 

(Aqui vão dois posts em um. Estão juntos pois devem ser lidos um à luz do outro)

 

 

“Não há ninguém que, depois de ter acendido uma candeia, a cubra com um vaso ou a coloque sob uma cama; mas a põe sobre o candeeiro a fim de que aqueles que entrem veja a luz; porque não há nada de secreto que não deva ser descoberto, nem nada de oculto que não deva ser conhecido e manifestar-se publicamente.”

Lc. 8, 16-17

Não é de hoje que digo, seja no blog ou pessoalmente, que a Igreja do Brasil “representada”, ao menos publicamente, pela CNBB peca gravemente. E não sou eu quem julgo, mas o próprio Senhor. São os bispos do Brasil – claro que não em sua totalidade, mas seguramente em sua maioria – que se colocam contra o Evangelho em algumas das questões mais prementes do nosso tempo. Foi-se o glorioso tempo no qual padres e bispos eram a fina flor da ciência e da filosofia. Hoje, o clero brasileiro se faz sentir cantando ou por sua lamentável omissão que, na prática, faz com que nós, católicos, nos sintamos como ovelhas sem pastor: aqueles que são obrigados à cura das almas estão abrindo mão de seus deveres mais essenciais.

Antes de apontar a questão específica que move este post, cumpre perguntar ainda uma vez pelos motivos pelos quais a Igreja no Brasil é, em sua grande maioria, negligente. É fato que ainda impera por entre os bispos do país – e em grande parte do clero – um pastiche abjeto de valores cristãos desconexos de seu transfundo ontológico e o mais rude comunismo de boteco. É o que convencionou-se chamar de Teologia da Libertação, que não só não merece o nome de “teologia” como ao invés de libertar, escraviza. Para além do óbvio pecado em que incorrem – nunca é demais lembrar o que diz Pio XI na Quadragesimo Anno, sobre ser impossível ser católico e socialista ao mesmo tempo – os bispos do Brasil, por sua omissão nas questões urgentes da vida política, pecam deliberadamente por calarem-se acerca de assuntos em que deveriam ser os primeiros a se manifestarem. É, portanto, de um problema de princípios que sofre a Igreja no Brasil.

A postura da CNBB frente as Eleições do próximo dia 3 é de chorar. De início, a declaração sobre o momento político do Brasil, gerada na 48ª Assembleia está longe de ser o posicionamento que se espera da Igreja. É morna. E se conhece bem o destino dos mornos. Prezados bispos, falar a favor da Ficha Limpa é um imperativo da razão. Não é o suficiente para comprometer-se com o Evangelho.arcebispos-de-curitiba-dilma-rousseff-encontros

Para que se tenha noção do tamanho do pecado, veja a foto ao lado. O arcebispo de Curitiba , Dom Moacyr Vitti recebe com orquídeas a candidada Dilma Rousseff (foto tirada daqui). Também não custa relembrar que o Partido dos Trabalhadores, seu partido, é o autor do PNDH-3 que, entre outras coisas, defende privilégios jurídicos absurdos para homossexuais e se coloca favoravelmente em relação ao aborto. O mesmo PT que suspendeu no ano passado dois de seus membros que se declararam contra a política abortista do partido.

Incorre no mesmo pecado de omissão Dom Demétrio Valentini, da Diocese de Jales, que diz disparates tais como:

Mas é pior ainda para a religião, seja qual for, pressionar seus adeptos para que votem em determinados candidatos, ou proibir que votem em determinados outros, em nome de convicções religiosas. A religião que não é capaz de incentivar a liberdade de consciência dos seus seguidores, que se retire de campo. Pois a religião não pode se tornar aliada da dominação das consciências.

(…) Portanto, cada um é livre de votar em quem quiser. Se quiser votar na Marina, vote! Se quiser votar no Serra, vote! Se quiser votar na Dilma, vote! E se quiser votar em qualquer um dos outros candidatos, vote! Mas vote livremente, levado pela decisão a que chegou por sua própria consciência.

Sem falar no caso absurdo em que a CNBB retirou de seu site o artigo de D. Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo de Guarulhos que, muito justamente condenou o voto de católicos na candidata Dilma Rousseff por sua clara posição a favor do aborto. Deve-se fazer uma menção honrosa à Regional Sul 1 da CNBB, presidida pelo bispo da diocese de Santo Ándré, D. Nelson Westrupp (que já cometeu diversos erros mas que, aqui, acerta ainda que timidamente), que soltou um pronunciamento alertando os fiéis para alguns princípios que devem pautar a escolha dos candidatos.

Ainda assim, salvo a posição de D. Luiz Gonzaga, os bispos do Brasil estão muito aquém do que se deveria esperar dos pastores. São como candeias sob o alqueire que não iluminam nada, e mergulham os fiéis nas trevas da ignorância, do desgoverno e do pecado. Não orientar claramente o povo é abrir mão do múnus de ensinar, essencial aos bispos. Se isso não é pecar contra o ministério, eu não sei mais de nada.

 

*     *     *

Agora contraponha o que disse acima, sobre os bispos do Brasil, com o que vai abaixo. Não sem antes porém dizer que não concordo com inúmeras posições e atitudes do Pr. Silas Malafaia. A começar por sua obstinação na não-pertença à única Igreja do Cristo. Mas no que diz respeito à clareza e a positividade de sua manifestação, o pastor está anos-luz à frente do clero brasileiro. Chega a dar certa inveja de seus fiéis, que podem contar com tal firmeza.

 

 

Não deixe de ler a carta que Malafaia recebeu de certos membros do PT, bem como sua resposta, da qual reproduzo um trecho:

Lamento dizer, mas a verdade absoluta é que os princípios cristãos são inegociáveis para nós. Quanto a isto, o PT está do outro lado.

Não deixe de ler também a carta aberta na qual o pastor justifica porque não votará em Marina Silva, não obstante seja integrante de sua igreja, a Assembleia de Deus. Aqui, Reinaldo Azevedo, da Veja, faz um apanhado geral da história.

 

Ahn, como ia ser bom ouvir isso da boca do Secretário Geral da CNBB…

4 comentários A Candeia sob o Alqueire ou Sobre pastores ociosos

  1. francisco razzo

    Querido Gabriel

    Muito oportuna e corajosa suas reflexões. A CNBB, pelo contrário, motivo de vergonha para todo Cristão comprometido verdadeiramente com a Fé no Cristo e na Sua Santa Igreja.

    Essa ideia de “vote livremente, levado pela decisão a que chegou por sua própria consciência” faltou ser completada, pelo próprio Bisto, por “vote livremente, levado pela decisão a que chegou por sua própria consciência de cristão“.

    Abraços
    Francisco

  2. Ramon Maia

    Prezado Gabriel:

    gostaria de comprimentá-lo pelo site. Ele me foi indicado por uma amiga em comum, Daniela Spinelli. Sou colega dela de doutorado na Unicamp.

    Fui vocacionado jesuíta por um ano. Agora busco me aproximar das tradições monacais e dos temas dos Padres do Deserto e da Oração do Coração, além de a Suma do Aquinate figurar como desafio permanente à vida intelectual do cristão convidado a estudá-la.

    Um abraço,

    Ramon Maia

  3. G. Ferreira

    Caríssimo Ramon.

    Fico duplamente feliz por sua visita: primeiro, muito me felicita você ter chegado até aqui pela Dani. Enquanto eu fazia o mestrado em filosofia na PUC-SP nós fomos contemporâneos e, infelizmente, perdemos o contato. Assim, peço que você transmita a ela um grande abraço. Dito isto, devo agradecê-lo pelo elogio e só posso pedir que continue visitando, comentando e divulgando.

    Grande abraço.
    G.

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