O que significa pensar no papel de um filósofo na história da filosofia?

Um dos objetivos das minhas últimas pesquisas tem sido a reavaliação do que se poderia denominar grosso modo o papel e as contribuições de Kierkegaard para o panorama mais geral da filosofia da segunda metade do XIX e dos séculos XX e XXI. Contudo, aquele grosso modo acima esconde precisamente uma das maiores dificuldades em levar tal tarefa a cabo, a saber, o que significa, mais claramente, aferir ou fixar o papel ou o conjunto de contribuições de um determinado filósofo no interior da história da filosofia? Há duas grandes perspectivas para responder a essa questão:

1. Fixar o “mapa de influências”: um dos sentidos mais evidentes de “papel” ou “lugar” de um filósofo na história da filosofia pode ser expresso pela ideia da fixação do mapa de influências de um dado filósofo. Tal “mapa” deve ser composto tanto pelo feixe de filósofos e problemas que, de fato, o influenciaram, como pelo feixe de filósofos e problemas influenciados por ele. Sob esse sentido, o que está em foco são os feixes historicamente evidentes, tanto no que diz respeito a filósofos que leram ou, ao menos, sofreram qualquer espécie de “emanação” da produção de um outro, quanto a problemas que, de fato, tiveram seus status quæstionis realmente modificados. Ainda nessa perspectiva, esse mapa pode comportar influências e modificações tanto diretas quando indiretas.

Em tomando o próprio Kierkegaard como exemplo, de fato Hegel influenciou o filósofo dinamarquês; este não apenas recepcionou parte dos problemas legados por aquele no Zeitgeist, quanto foi de fato lido e sua obra foi objeto de estudo por parte de Kierkegaard. Do ponto de vista do mapa que consideramos agora, em relação ao lugar de Kierkegaard na história da filosofia, Hegel mostra-se, portanto, como um dos fios ou nós daquele feixe. Se olharmos agora para a parte do mapa que sucede a Kierkegaard, Heidegger é, igualmente, um dos nós. Com isso queremos expressar que, de fato, Kierkegaard alterou o estado da questão de certos problemas que interessaram a Sartre, bem como aquele foi lido e teve sua obra – ou parte dela, isso é irrelevante – tomada como objeto de estudo mais ou menos aprofundado, o que é igualmente irrelevante). A título de apontar como poderíamos continuar a explicitar tal rede, agora a partir da ideia de influências indiretas, Kant entra no feixe de influências sofridas por Kierkegaard e filósofos mais ou menos influenciados por Heidegger poderiam entrar no feixe de pensadores na linha de “ação” de Kierkegaard. Note-se que, como é evidente, é muito mais fácil determinar de maneira mais clara o feixe que antecede do que os feixes sucedentes. Isso porque é evidentemente possível ser influenciado por partes, temas, problemas ou aspectos de um filósofo que não guardam relação alguma para com o filósofo que temos em mente. Por exemplo, alguém influenciado especificamente pelas considerações de Heidegger acerca da linguagem poética e seu papel como alternativa à linguagem proposicional ao desvelar o ser dificilmente pode se dizer, por isso, na linha de influência de Kierkegaard.

O sentido que expus acima parece ser mesmo o mais evidente quando somos chamados a pensar sobre o papel ou lugar de um filósofo na perspectiva da história da filosofia; ainda, tal sentido parece mesmo esgotar o que podemos entender por aquelas expressões. No entanto, é possível apontar mais um sentido que, a meu ver, não apenas oferece uma outra alternativa, mas apresenta um caminho mais fértil para a avaliação e a compreensão do papel e do lugar de um filósofo ou filosofia no panorama da história dos problemas filosóficos da qual nós somos, inexoravelmente, partes e momentos.

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