Para estudar Filosofia – 4

E. Hopper - Excursion Into Philosophy

Nesta semana, no quarto post da série de dicas (leia o primeiro, o segundo e o terceiro) tenho o imenso prazer de publicar a contribuição do meu amigo-irmão Francisco Razzo. Além de sua atividade online que exerce uma enorme influência em quase todos os cantos onde se discute seriamente filosofia e política na internet brasileira, Francisco é graduado (Faculdade de São Bento) e Mestre em Filosofia (com dissertação sobre Willian James, PUC-SP), professor de Filosofia e está preparando um livro sobre Filosofia e Política a sair em breve – pelo qual ansiosamente esperamos – pela Record.

Mais uma vez, espero que os posts estejam sendo úteis. Leiam, aproveitem, compartilhem e deixem seu feedback

* * *

Três dicas essenciais para o iniciante nos estudos da filosofia:

1. Procure entender a natureza de um texto filosófico. Há basicamente três tipos de textos em filosofia. O texto original. O comentário. E os textos introdutórios a um problema histórico, a um filósofo ou a um período da filosofia. Como um sistema solar, a obra original tem um centro de gravitação e todos os outros textos e livros estão em órbita. O problema de uma obra original é a lei que sustenta esse “sistema”. Todos os comentários críticos, introduções, compêndios e obras históricas são para facilitar o acesso a este problema. Nunca deixe de perguntar qual é o problema de uma obra. Mas não deixe de buscar compreender o desenvolvimento desse problema na história. Histórias da Filosofia têm o objetivo de apresentar o panorama geral dos problemas ao longo do tempo. Por isso, jamais substitua a obra original por uma história da filosofia, mas não deixe de ter em mãos um bom livro de história.

Ler textos filosóficos com rigor não significa um mero capricho de acadêmicos. Significa, antes de tudo, o respeito pelo esforço do filósofo em ser devidamente compreendido. Na academia aprendemos diferentes métodos de leitura e interpretação de texto, entenda a natureza filosófica de cada método. Da graduação ao doutorado, o exercício de leitura e interpretação de textos filosóficos caracterizam-se como o núcleo principal da atividade de um estudante – tratamos o texto como um documento vivo, mas o filósofo não está ali para se defender, por isso devemos respeitá-lo e não poupar esforços para entendê-lo. Nunca atribua a um filósofo algo que ele não disse, nada depõe mais do que isso. O que o filósofo “disse” ou “quis dizer” está dito no texto.

Textos de filosofia são respostas a problemas específicos que perturbaram gerações de homens reais, problemas que foram resolvidos e que podem ser retomados ao longo da história. Desprezar a história da filosofia pode ser um tiro no pé. A obrigação da análise crítica em filosofia é ir diretamente na fonte, ler o texto no original e compreender o que cada conceito significa no contexto histórico e problemático em que a obra foi escrita. Portanto, comece perguntando não por aquilo que motiva psicologicamente um filósofo, mas pela pergunta filosófica que está objetivamente formulada no texto. Embora desperte curiosidade, Kant é o homem que está na Crítica da Razão Pura e não o alemão pontual que caminhava em Königsberg.

2. Jamais tenha pressa de terminar um livro de filosofia. Obras de filosofia são obras difíceis – talvez as mais difíceis de todas. Por isso elas requerem tempo, paciência e um tipo especial de atenção. Cultive o tempo ao invés de tratá-lo como inimigo. Filosofia exige um tipo especial de reflexão, repertório e, principalmente, disposição.

Primeiro: para desfrutar de uma boa leitura, arrume bons dicionários, léxicos e compêndios. Há especialistas que dedicam a vida organizando essas obras. Não se deve ler obras de filosofia sem bons “instrumentos” de leitura em mãos. Tais obras não são bulas de remédio, não são manuais de como “agir” ou resolver “problemas cotidianos”. Segundo: leia com lápis e bloco de notas. Anote tudo, faça esquemas, resumos e crie o seu próprio “índice”. Terceiro: tenha em mente que você precisará fazer no mínimo umas três leituras. Não se trata do romance para ler nas férias. O drama de uma obra clássica é de outra natureza.

A respeito disso, pense pelo menos em três leituras: 1) A primeira leitura deve ser geral. Essa leitura serve para obter uma visão abrangente da obra, isto é, apresentar o “aspecto paisagístico”. 2) A segunda leitura é estrutural. Seu objetivo consiste em fornecer o “esquema arquitetônico” da obra, por isso ela exigirá muito mais esforço do que a primeira. 3) A terceira leitura é conceitual. Você terá uma visão mais consistente dos termos e começará a desfrutar do vocabulário próprio de cada autor.

Na primeira leitura, não se preocupe em obter o entendimento imediato de todos os conceitos. Leia o texto de “cabo a rabo” para ter uma visão do todo. Na segunda, procure encontrar a ordem dos argumentos, não tenha receio de voltar páginas e fazer as anotações. Marque os parágrafos, crie um sistema de referências e notas. Consulte dicionários – não só dicionários de sinônimos, mas os dicionários técnicos de filosofia – e os compêndios (aliás, há dicionários e compêndios exclusivos para cada filósofo ou períodos da história da filosofia). Procure consultar os melhores, e na dúvida pergunte para o seu professor, um especialista no assunto. Tudo isso consome tempo e muita energia. Quando voltar para a terceira leitura, certamente começará a desfrutar de uma “compreensão conceitual” da obra. Mas nunca se deve esquecer: em filosofia não existe “última leitura”, releia sempre.

3. Tire da cabeça a ideia de se tornar um filósofo. Não queira ser um novo Kant ou revolucionar a filosofia como Wittgenstein. Ser modesto nas pretensões é um grande passo para começar a entender filosofia. O contrário deve ser um sintoma de que alguma coisa não vai bem. A filosofia se realiza em comunidade. Não existe diálogo na solidão. A presunçosa crença de ser um gênio autodidata em vias de revolucionar a filosofia é uma das coisas que mais nos afasta do convívio saudável de uma vida dedicada aos estudos dos filósofos. A academia consiste em um rito de passagem importante, com gente série trabalhando e às vezes picaretas, mas ninguém se forma “filósofo” em uma faculdade de filosofia só por obter um diploma. Não despreze, portanto, jamais as dicas dos professores.

2 comentários Para estudar Filosofia – 4

  1. Vitor Hugo

    Meus parabéns pelo blog Gabriel! Em princípio estava me concentrando nas postagens “Para estudar Filosofia” (dicas realmente esclarecedoras e valiosas), mas aos poucos estou lendo os outros textos também.

    Abraço e continue com o ótimo trabalho.

  2. Pingback: A importância da estupidez produtiva na pesquisa científica | Inter-Esse

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