Das origens do banimento da posição religiosa

Se acontecesse um dia chegar o cristianismo a não ser mais digno de amor, então o pensamento dominante dos homens deveria tomar a forma de rejeição e de oposição contra ele; e o anticristo […] inauguraria o seu regime, mesmo que breve, (baseado presumivelmente sobre o medo e o egoísmo). Em seguida, porém, visto que o cristianismo, embora destinado a ser a religião universal, de facto não teria sido ajudado pelo destino a sê-lo, poderia verificar-se, sob o aspecto moral, o fim (perverso) de todas as coisas."

KANT, I. O fim de todas as coisas.

Toda vez que alguém se dispõe a falar ou escrever a partir de uma perspectiva que difere daquela da maioria, consagrada em termos como "politicamente correto", se coloca numa posição que, geralmente, não goza das mesmas prerrogativas das demais posições. Acontece aos montes e acontece bastante com a Igreja no nosso pós-iluminismo brilhante. Como já alertara Henri de Lubac, a palavra "Igreja" (sobretudo ao lado de "Católica) tem atualmente a propriedade de esvaziar qualquer discurso e arrancá-lo de toda a possibilidade de sentido. Não se lê ou escuta um crente com a mesma disponibilidade e abertura intelectual entregues a outros.

O que faço aqui, contudo, não é uma reclamação. É retomar uma críica feita por gente mais capacitada que eu e todos os leitores juntos (reconhecer o saber dos outros é o real sentido de humildade intelectual) e que nada tem de original. A questão básica é do estatuto da razão e da religião após o Iluminismo. A acreditar que Kant seja uma testemunha qualificada sobre a Aufklärung (ou não né.. já que ele era um tanto cristão…) o cerne do projeto iluminista é a conquista da maioridade como autonomia intelectual. Como aponta Kant em seu Resposta à pergunta: o que é o Iluminismo?, tal estatuto só se conquista através da repulsa do domínio intelectual e cognitivo. Kant chega a colocar no rol não só os padres e militares, mas até os médicos que decidem eles sobre a dieta de outros. Mas o que nos interessa é o ponto abaixo:

"Pus o ponto central do Iluminismo, a saída do homem da sua menoridade culpada, sobretudo nas coisas de religião, porque em relação às artes e às ciências os nossos governantes não têm interesse algum em exercer a tutela sobre os seus súbditos; por outro lado, a tutela religiosa, além de ser mais prejudicial, é também a mais desonrosa de todas."

O que ocorre a partir daí já nos é conhecido. Embora fiel aos princípios luteranos (e valdenses, que os precedem) as conclusões derivadas espalharam-se por todo o mundo. Mas a conseqüência principal é que o discurso religioso foi banido para uma esfera absolutamente privada de Razão. Sinal concludente disso é o surgimento da Teologia Liberal que tenta salvar a religião de cair em total desprestígio acomodando-a na esfera da subjetividade como sendo essencialmente um sentimento. Assim, se a religião carece de Razão, ela ainda pode se abrigar na interioridade ou foro íntimo, como queiram, como um sentimento que, por definição, não pode ser interrogado, comparado etc. Os sentimentos e representações têm um único portador o que inviabiliza uma comunhão de objeto, princípio básico para qualquer debate. Então reduz-se a religião ao sentimento religioso e salva-se seu lugar e sua legitimidade. Não é à toa que Schleiermacher acaba por escrever um livro sobre religião "para leitores cultos". A partir de então, a Schleiermacher e sua Teologia Liberal bane os dogmas, isto é, a possibilidade de verdades ou teses religiosas com validade objetiva e hoje toda criança aprende no jardim da infância quão ridículo é crer, por exemplo, que Deus criou o mundo.

É este o solo a partir do qual surgem as críticas da ingerência da posição religiosa (seja ela qual for) em questões públicas. É de tal background teórico que as duas principais teses de tais críticos são derivadas, a saber, (a) a posição religiosa carece sempre e necessariamente de estofo racional já que seu fundamento último é um sentimento que, por sua vez faz com que ela (b) sempre e necessariamente careça de valor objetivo.

 

Estou longe de querer esgotar a questão, mas devemos começar por nos perguntarmos pela legitimidade do descrédito a priori da posição religiosa. Tal legitimidade não é óbvia e é altamente questionável tanto por suas origens quanto por seus resultados.  Continuaremos depois.

 

PS: Creio não precisa reafirmar que com isso não estou querendo dizer que não deva haver separação política entre a Igreja e o Estado. Estaria indo contra a própria posição da Igreja Católica. O problema, como se pode ver, é bem outro.

10 comentários Das origens do banimento da posição religiosa

  1. Sblargh

    Existe também o problema cultural (o preconceito, eu diria) que se originou no simples fato de que muitos pensadores modernos tinham um projeto de se livrar do pensamento medieval e além dos argumentos e razões pra isso, convinha também a história de que a filosofia medieval estava comprometida demais com a fé para ser racional de fato.
    A noção de que a idade média era uma era de trevas surgiu no renascimento, afinal de coisas, quando nem existia lá uma ciência muito definida para se colocar como razão que se opõe a fé (mesmo porque a maioria dos cientistas eram cristãos); mas existia um monte de disputas de poder com a Igreja.
    =
    Então, se as coisas são de fato como colocam suas posições (a) e (b), eu tenho a concordar que isso é mera ignorância, embora há de se admitir que, nesse mundo intelectual, o cristão pode sentir a necessidade de ter um espaço “fora da razão” onde ele possa se abrigar que é pra simplesmente ele não ter que abdicar da fé por não ter argumentos para justificá-la.
    Acho que o religioso pode, ao menos, se confortar no fato de que não importa como esteja o clima intelectual, ele ao menos tem um foro íntimo onde sua fé pode sobreviver. (não é a melhor das situações, mas quantas outras teorias não aceitas pela academia tem o mesmo privilégio?)

    O problema aqui, é, eu concordo inteiramente com a frase:
    “Tal legitimidade não é óbvia e é altamente questionável tanto por suas origens quanto por seus resultados”. Mas eu também concordaria com algo do tipo “a legitimidade racional da religião não é óbvia e é altamente questionável tanto por suas origens quanto por seus resultados”.

    Aí como ficamos?
    Bom, ficamos no debate. Qualquer dos lados que queira se afirmar não pode gozar de crédito automático.
    A religião não pode ser excluída da academia, mas não pode se esperar que ela tenha o lugar privilegiado que tem no resto da sociedade.
    Não acho que você defenda o criacionismo (pelo menos não essas versões que dizem que a terra tem 4000 anos de idade), mas qualquer um que queira colocar Deus numa aula de ciências, tem que satisfazer as mesmas condições (sejam elas quais forem) que os outros tópicos lá obedecem.

    Em outro exemplo, se quiser utilizar Deus como padrão de moral universal, não cabe a ninguém ridicularizar de antemão essa postura, mas é preciso, tanto para o teísta quanto para o ateu, demonstrarem, por razão e não por sentimento (já que é esse o problema), que suas respectivas morais são, de algum modo, melhor.

    Não vejo problema algum em adotar uma postura racional em relação a fé e defendê-la de acordo com a razão, desde que se compreenda que, com isso, você aceita que fé se discute e que pode, a qualquer momento, ser negada e tomada como inválida.

  2. Marcelo

    Caro Gabriel,

    vou fugir um pouco do assunto do post.

    Sou leitor freqüente do seu blog. Porém, vez ou outra, quando tento acessá-lo, não consigo. Foi o que ocorreu, por exemplo, no último fim de semana. Ok, você avisou que houve mudança de servidor, o que explica o problema.

    Porém, em outra ocasião, eu estava na casa dos meus pais e tentei entrar no site. Não houve jeito. Acusava um erro estranho, como se eu não estivesse autorização para vizualizar o conteúdo da página. Esqueci o número do erro que aparecia no lugar da página. Mas, vale dizer que, na mesma época, consegui, já na minha casa, acessar o site normalmente. Ou seja, é como se, devido a algum tipo de configuração do computador pessoal de quem tenta acessar, não fosse possível entrar no site.

    Como costumo repassar o link de seus posts para a minha lista de contatos no email, chamo a atenção para esses pequenos probleminhas, que impossibilitam o acesso aos textos.

    Outra coisa: tentei recuperar o texto “A falácia do Vernáculo” e percebi que os caracteres especiais não estão sendo reconhecidos pelo sistema do site. Todos estão substituídos por “?”

    Faço essas observações apenas para contribuir com melhorias.

    Um grande abraço, e continue com o “bom combate”.

  3. Gabriel Ferreira

    Caríssimo Marcelo.
    É um prazer ver um novo leitor comentando. Comente sempre! Quanto aos problemas de acesso, espero que eles tenham sido resolvidos agora. Infelizmente, todos os posts antigos (isso não aconteceu aos novos) estão com os problemas nos caracteres acentuados, mas já estamos verificando.

    Muito obrigado pelos avisos e pelos comentários.

    Um abraço.

  4. G. Ferreira

    Caríssimo Rodrigo.

    Eu também concordo contigo. Não se trata de negar a legitimidade da crítica a priori e, junto com ela, a possibilidade da crítica. É o próprio S. Pedro que nos convoca a estarmos prontos a dar razão da nossa fé (Pd. 3,15). O problema é o quanto se vedam os caminhos para a postura religiosa de maneira completamente arbitrária.
    Um abraço.

  5. G. Ferreira

    Rodrigo, só um adendo. Relendo o seu comentário me surgiu o seguinte: De fato, se alguém quiser colocar Deus na aula de ciência deve estar disposto a entrar no debate e oferecer um legítimo “lógos”. Mas será que os que apresentam Darwin o fazem? O Evolucionismo, mesmo em suas versões mais toscas próprias ao senso-comum tem estatuto de superdogma. Quero ver um professor de biologia ou ciências dando aos alunos a oportunidade de ler e refletir, por exemplo, este fragmento do Leibniz que ataca o problema de fundo:

    “E assim, por mais que possamos retroceder aos estados anteriores, jamais encontraremos nesses estados uma razão (ratio) completa para o porquê de existir qualquer mundo e por que ele é do modo que é.”

    Leibniz, em “Sobre a Origem fundamental das coisas” (1697)

  6. francisco

    Caro Gabriel.

    Completanto Leibniz com o próprio Leibniz, gostaria de ver na aula o professor darwnista, cientista, evolucionista, livre-pensador etc responder:

    “Por que há algo e não nada?” ou na versão mais pop de heidegger: “por que existe o ente e não antes o nada?”.

    Talvez o professor dê aquele amargo sorriso frouxo no tom de superioridade que lhe é típico e diz: “sua pergunta não tem sentido aqui” ou “desse assunto conversaremos um outro dia” ou ainda, se ele for mais arrogante, “porque sim, uai!”.

    Forte Abraço
    Francisco

  7. Sblargh

    Gabriel, a função do darwinismo na aula de ciência não é explicar a origem da matéria ou “porque existe algo ao invés de não existir nada”. A função do darwinismo é explicar como que organismos realizam mutações e se adaptam ao ambiente, dado que a terra tem tantos anos, tal ambiente, passou por tais transformações, etc.

    O problema de design inteligente é que ele não acrescenta em nada a essa discussão e o problema maior é que nem se sabe como acrescentaria mesmo partindo do pressuposto que é uma hipótese verdadeira.
    Então as mutações não são aleatórias, mas são um desígnio inteligente. Que diferença isso faz num laboratório?

    “sua pergunta não tem sentido aqui” não é problema de superioridade (acompanhado ou não por sorriso frouxo). É um problema de método. A biologia avança ao eliminar certas questões da mesa.
    É aquela coisa básica de manual de filosofia da ciência. Quando o físico quer saber a velocidade de um objeto, ele não pergunta se o objeto é vermelho ou amarelo. Agora, se um aluno pergunta se o objeto é vermelho ou amarelo e o professor diz “não importa, a velocidade é a mesma em ambos os casos” ele vai estar sendo arrogante?

    Não é a toa que nós estudamos Leibniz e Heidegger e não os biólogos. Essas perguntas dizem respeito a nós e podem muito bem estar em aulas de filosofia, até devem, agora, gastar aula de biologia falando de tema que não tem nada a ver com o modo como os corpos sofrem mutações é tão sem propósito quanto eu gastar uma aula de filosofia falando sobre a diferença entre uma ameba e um protozoário.

    No mais, chamar de superdogma uma pesquisa científica é algo estranho. Se um biólogo realmente precisar, ele vai te trazer todos os dados e evidências que foram e são coletados nos inúmeros centros de pesquisa afora.
    =
    Eu me entristeço de perceber que o mundo avança cada vez mais em uma direção que a explicação material é a única que interessa às pessoas ou à noção de que explicar o big bang ou explicar a evolução encerra questões como as que vocês dois colocaram. Um desenvolvimento da ciência e da técnica certamente deveria ser acompanhado por um desenvolvimento da metafísica e da reflexão filosófica.
    Dito isso, não muda o fato que nós, pesquisadores acadêmicos, sabemos muito bem. Que pesquisas avançam porque nos especializamos.
    Especialização funciona. Uma pessoa na sua vida cotidiana deveria se interessar por todas as áreas do conhecimento humano, mas um pesquisador ou um professor é um especialista e dizer que uma pergunta fora da área de especialidade dele não tem sentido é uma humildade necessária e não uma fuga de uma questão considerada menos importante.

  8. francisco razzo

    Caro Rodrigo.
    De fato concordo com você: é uma questão de método! Claro que estou a par disso e tenho certeza que o Gabriel também. E também concordo sobre o “especialização funciona”, é verdade, eu não levaria o fraco coração da minha mãe para um “metafísco”.

    A gente sabe que é uma questão de método, o problema é outro no ensaio do Gabriel: o problema é banir a posição da Igreja e da religião como um todo de toda possibiliade de discussão séria. Não tenho dúvida que na aula de biologia deva-se tratar de “biologia” e não há diferença mesmo em explicar pela teoria da Evolução ou pelo Intelligent Design (que a Igreja não partilha nos moldes em que é por aí apresentado). Odeio a idéia de que na falta de uma explicação melhor se coloque Deus!

    depois retorno

    Francisco

  9. Francisco Razzo

    Caro Rodrigo, relendo seu comentário, gostei mais ainda do que você falou:

    “Um desenvolvimento da ciência e da técnica certamente deveria ser acompanhado por um desenvolvimento da metafísica e da reflexão filosófica.”

    —-

    Mas eu volto a repetir: o problema não é nem a questão de acreditar ou não em Deus, o problema é que o cristianismo católico está banido de qualquer possibilidade de discussão séria. O que é um lamentável equivoco, pra não dizer falta de vergonha na cara! Já comentei aqui uma vez: as pessoas se surpreendem quando descobrem que sou confessadamente Católico e que vivo como tal. Como pode um professor de filosofia ser Católico? Como pode um homem de ciência, hoje, ser católico?

    Primeiro recomendo: antes de fazer qualquer julgamento a respeito do que significa “Ser Católico” leia integralmente o Catecismo (sobretudo o Catecismo Romano – o do Concílio de Trento). Leu? Ótimo! Agora estude um pouco dos grandes documentos do Magistério, isso inclui o que cada documento representa e quais seus objetivos dentro e fora do seu contexto histórico – acopanhado, claro, da pequena nota biográfica de um Papa ou de informações a respeito do Conselho Pontifício que o escreveu. Ah, não tem saco pra ler essas coisa? Bom! Aí fica difícil discutir com seriedade! Mas se leu, boa, agora é hora de UMA BOA história da Igreja, História do Cristianismo e da História do Ocidente, incluindo História da Filosofia e estudos de Ética Filosófica e Metafísica. Depois disso a parte Teológica, começando com as cartas de São Paulo, um bom livro sobre Patrística e um bom livro sobre Idade Média ajudam as pétalas cairem dos olhos e enterrar os preconceitos… Mas pergunta: quem está disposto a tal empreendimento intelectual?

    No brasil? hehe – não é de se estranhar a quantidade de besteiras que vão diariamente se somando em torno de opiniões e mais opiniões sobre assuntos que a maioria das pessoas não faz a menor idéia do que seja. No reino das opiniões é luxo ser estúpido!

    Deixo aqui um dos bons livros sobre história do cristianismo.

    “Afinal, o cristianismo, identificando verdade com fé, deve ensinar – e, ADEQUADAMENTE COMPREENDIDO, de fato o faz – que qualquer interferência à verdade é imoral. Um cristão com fé nada tem a temer dos fatos; um historiador cristão que estabelece limites para o seu campo de investigação, em qualquer ponto que seja, está admitindo os limites de sua fé. E, naturalmente, também destruindo a natureza da sua religião, qual seja uma revelação progressiva da verdade. Por conseguinte, um cristão, a meu ver, não deve ser impedido, nem no mais leve grau, de seguir o fio da verdade; com efeito, é, positivamente, fadado a segui-la. De fato, ele deve ser mais livre que o não-cristão, comprometido por princípio com sua própria rejeição”.

    P.Johnson

    Abraços
    Francisco Razzo

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