C. S. Lewis sobre o amor a Deus

C. S. LewisNão é de hoje que admiro a leveza e a pujança dos ensaios de C. S. Lewis (ainda escreverei algo sobre The problem of pain, provavelmente o melhor livro que já li sobre teodiceia). Como na maioria dos casos, o livro todo é uma pérola e é realmente difícil selecionar fragmentos aqui e ali que façam justiça à grandeza da obra inteira. Ao mesmo tempo, os ensaios têm a singular e paradoxal característica de serem compostos de trechos que se bastam a si mesmos (como acontece aos livros de G. K. Chesterton). O que vai a seguir é um deles; dois parágrafos que contêm mais profundidade teológica do que a maioria do que se publica sob o nome de Teologia atualmente.

Mas, em terceiro lugar, chegamos a um ponto muito mais importante. Todo cristão concordaria que a saúde espiritual do indivíduo é exatamente proporcional ao seu amor por Deus. Entretanto, o amor humano por Deus, pela própria natureza do mesmo, deve ser sempre em grande parte, e com freqüência inteiramente, um amor-Necessidade. Isto se evidencia quando pedimos perdão de nossos pecados ou apoio nas tribulações. Mas, de modo geral, fica talvez mais manifesto em nossa crescente percepção (pois deveria mesmo crescer) que nosso ser inteiro pela sua própria natureza é uma enorme necessidade; incompleto, preparatório, vazio, mas atravancado, clamando por Ele que pode desatar coisas que agora estão atadas e atar aquelas que ainda se acham soltas. Não estou dizendo que o homem jamais possa dar a Deus qualquer outra coisa além do puro amor-Necessidade. As almas exaltadas podem falar-nos de um alcance além desse. Mas, segundo penso, elas seriam também as primeiras a nos dizer que essas alturas deixariam de ser verdadeiras Graças, tornando-se ilusões neoplatônicas ou finalmente diabólicas, no momento em que o indivíduo ousasse pensar que poderia viver delas e dai por diante abandonasse o elemento da necessidade. “O mais elevado”, diz a Imitação, “não permanece sem o mais humilde”. Quão ousada e tola seria a criatura que se aproximasse de seu Criador, gabando-se: “Não sou um mendigo. Eu o amo desinteressadamente. Os que chegam mais perto de um amor-Doação por Deus, no momento seguinte, ou nesse mesmo momento, irão bater no peito como o publicano e depositar sua indigência diante do único e verdadeiro Doador. E Deus quer isso. Ele se dirige ao nosso amor-Necessidade: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados”, ou no Velho Testamento: “Abre a tua boca e eu a encherei”.

Assim sendo, o amor-Necessidade, o maior de todos, ou coincide ou pelo menos constitui um ingrediente principal na condição espiritual mais elevada, mais sadia e mais realista do indivíduo. Segue-se um corolário muitíssimo estranho. O homem se aproxima mais de Deus quando, num certo sentido, ele se assemelha menos a Deus. Pois que diferença pode ser maior do que aquela que existe entre plenitude e necessidade, soberania e humildade, justiça e penitência, poder ilimitado e pedido de ajuda? Este paradoxo me espantou quando me defrontei pela primeira vez com ele; também destroçou todas as minhas tentativas anteriores de escrever sobre o amor. Quando nós o enfrentamos, algo semelhante parece resultar.

C. S. Lewis, Os quatro amores.

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