Apresentação – Depois de Hegel

Publico abaixo o texto na íntegra da apresentação à minha tradução do livro de Frederick Beiser, Depois de Hegel – a filosofia alemã de 1840 a 1900, pela editora Unisinos (2017). Você também pode ler a Introdução do livro aqui.

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Um dos traços peculiares da filosofia é, diferentemente do que acontece às ciências naturais, sua singular relação para com a própria história. Se é verdade que a filosofia compartilha com as ciências o fato de possuir como seu momento central a fixação e o tratamento de problemas – quer seja pela explicitação, pela apresentação de soluções, pela depuração de suas formulações ou, ainda, pela descoberta de que tais problemas escondem questões que lhes são ainda mais fundamentais –, é igualmente verdadeiro que a filosofia trava contato ou, ainda, usufrui de sua história de um modo distinto daquele das ciências. É claro que, salvo para uma concepção ingênua, a ciência não pode abster-se completamente do elemento histórico; como poderia fazê-lo, se a comparação entre hipóteses, a obtenção e a propagação de resultados ou mesmo a experimentação e a observação são fenômenos que se desenrolam incontornavelmente num horizonte histórico?

Contudo, no que diz respeito à filosofia, recorrer à sua história também não significa, em absoluto, simplesmente remontar a fatos ou personagens passados que, justamente por isso, tornaram-se ultrapassados ou obsoletos. Em primeiro lugar porque a história da filosofia que interessa ao filósofo que a ela se inclina nunca é tão somente história, entendida como certa coleção de fatos, personagens, obras, eventos e as interações estritamente factuais entre esses, organizados de maneira mais ou menos sistemática; embora tal coisa possa ser feita, ela possui para o filósofo apenas uma importância colateral, anedótica ou, no máximo, auxiliar. A história da filosofia que se pretende fecunda ao filosofar preocupa-se com algo que poderíamos chamar, grosso modo, de análise doutrinária ou conceitual. Tal análise tem como foco a identificação e a com- preensão de estruturas que correspondem àquilo que acima chamamos de tratamento dos problemas – que se desdobram, por vezes, em mais de uma daquelas direções – e que visa, antes de tudo, a reconstrução dasteses e dos argumentos em vista de verificar quão coerentes e cogentes elas são como enfrentamento dos problemas aos quais se endereçam. Do mesmo modo, nessa perspectiva a interação entre filósofos ou movimentos é sempre iluminada pelo enfrentamento dos modos e estratégias diversos de atacar um ou mais problemas. Como se pode ver, tal trabalho analítico não é, portanto, puramente o recontar de uma história, senão que é a identificação, a compreensão e explicitação de uma dinâmica teorética e argumentativa. Sob esse aspecto, acusar a história da filosofia, assim entendida, de ser pouco filosófica faz tanto sentido quanto declarar que a ciência é a-histórica sob todos os seus ângulos.

Se o que dissemos acima está correto, o livro que o leitor tem em mãos é um excelente exemplo dessa modalidade de história da filosofia como reconstrução ativa e pulsante de problemas e argumentos que ain- da se mostram urgentemente atuais aos filósofos contemporâneos. Em primeiro lugar porque o período ao qual Beiser aqui se dedica é particu- larmente efervescente. O declínio do idealismo de Hegel é o ponto de partida escolhido por Beiser para mostrar a emergência de uma enorme gama de problemas que ultrapassaria os limites do século XIX e atravessaria também o século XX. Ademais, o leitor familiarizado com questões filosóficas e metafilosóficas contemporâneas encontrará no relato de Beiser os antecedentes de muitas delas, como o problema do estatuto da filosofia frente às ciências naturais ou da convergência entre filosofia e fisiologia no tratamento de questões de filosofia da linguagem ou da mente. Tais conexões entre os problemas e as teses dos diversos participantes do debate filosófico alemão apresentados por Beiser ficam ainda mais evidentes por conta da estrutura lógica na qual o livro se articula. Em vez de optar por uma narrativa cronológica ou, ainda, a partir da exposição sistemática das posições de cada um dos filósofos que tomaram parte nos debates mais prementes da filosofia alemã da segunda metade do sé- culo XIX, o autor opta por organizar a reconstrução da filosofia daquele período tendo como eixos centrais as principais controvérsias ocorridas no período. É a partir da exposição das grandes questões que Beiser lança mão da apresentação das teses e posições filosóficas que, então, podem ser compreendidas e avaliadas como respostas mais ou menos adequa- das aos problemas. A tarefa de aferição da sofisticação e da validade dos argumentos e soluções dos diversos pensadores que tomaram parte nos debates é facilitada ainda por comentários breves, mas precisos, do autor acerca das vantagens e desvantagens de cada posição.

Como se pode depreender já do exame do sumário, o propósito de Depois de Hegel não é fornecer uma exposição exaustiva da totalidade de questões filosóficas da segunda metade do XIX, bem como de todas as suas respectivas respostas. E como poderia sê-lo?1

Em tal sentido, cabe ao menos observar duas significativas ausências nesse conjunto de problemas, a saber, a questão lógica (die logische Frage) e a querela em torno ao psicologismo, questões essas que, por sua vez, não só estão intimamente relacionadas entre si, mas que apre- sentam vínculos significativos ou essenciais com algumas das questões abordadas, como a discussão em torno ao destino da filosofia e o Materialismusstreit. Talvez, a ausência da querela em torno ao psicologismo não seja casual pelo fato de que ela, diferentemente do Materialismusstreit ou do Pessimismusstreit, não se efetua entre partidos definidos desde o co- meço, mas redefine de modo permanente suas linhas demarcatórias por um lado e, por outro, não tem percurso linear, tal que se a pudesse seguir através de uma sequência única de objeções e respostas. Por essas duas razões, o extenso número de informações a ser dominado e organizado tivesse exigido, por si mesmo, uma volumosa monografia. No entanto, os inegáveis méritos deste livro encontram-se em dois pontos que esta apresentação não pode deixar de apontar.

Em primeiro lugar, a apresentação da filosofia alemã da segunda metade do século XIX feita aqui por Frederick Beiser expande considera- velmente o rol de problemas e filósofos que figuram na imagem padrão que emerge das exposições mais usuais daquele período. Controvérsias como a do materialismo ou do historicismo, assim como os nomes de Trendelenburg, Fries, Büchner, Hartmann, Ranke, Taubert ou Lotze dificilmente são trazidos ao primeiro plano pelos relatos da história da filosofia do XIX. Diretamente conectado a esse, outro aspecto mais geral, mas não menos fundamental, desta obra que convém ressaltar é o questionamento de segunda ordem sobre nossas opções e nosso olhar para a história da filosofia. Por uma série de fatores que não podemos perseguir aqui, nem sempre somos conscientes de que nossos recortesou perspectivas têm como pressuposto não tematizado a distinção entre filósofos “maiores” e “menores”, “principais” e “secundários”. Isso não constituiria um problema per se não fosse o fato de que os critérios que balizam tais pressupostos raramente são refletidos. Dito de outro modo, na maioria das vezes as razões pelas quais opta-se pela inclusão ou exclu- são deste ou daquele filósofo em certo panorama sobre a filosofia de um determinado período nem sempre fazem justiça à dinâmica interna real dos problemas, querelas e respostas. Por que, ao tratarmos da filosofia da segunda metade do século XIX, geralmente incluímos Kierkegaard, Marx e Nietzsche, mas deixamos de fora Trendelenburg, Lotze e os neokantia- nos? E, ainda, por que aqueles são interpretados sem qualquer relação com estes? Some-se a isso o fato de que a obra seminal de Löwith so- bre o mesmo período, publicada originalmente em 1941 e descrita pelo próprio Beiser como tendo sido fundamental à compreensão-padrão da filosofia da segunda metade do século XIX – ainda que deixe uma imensidão de temas e filósofos sem o devido tratamento -, só ganhou uma edição brasileira em 2014, a importância da contribuição deste livro para o cenário nacional, não obstante ele mesmo deixar algumas importantes lacunas, não pode ser subestimada.

Portanto, o segundo mérito de “Depois de Hegel” ultrapassa seu próprio objeto e coloca em xeque nossa própria visão acerca da filosofia, de sua compreensão e de sua escrita. Julgamos então que tornar esses dois elementos disponíveis ao estudioso brasileiro justifica plenamente a tradução deste volume.

O tradutor gostaria ainda de agradecer, pelo interesse na obra e na publicação de sua tradução, ao Prof. Dr. Pe. Marcelo Fernandes de Aquino, que mantém aguçado seu páthos filosófico não obstante suas numerosas atribuições como reitor.

Agosto de 2017

Prof. Dr. Gabriel Ferreira Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS

Prof. Dr. Mario Porta Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP

1 O autor não deixa de perseguir outros temas e tópicos relacionados em outras de suas obras. Veja-se principalmente German Idealism: The Struggle against Subjectivism, 1781-1801 (2008); The German Historicist Tradition (2011); Late German Idealism: Trendelenburg and Lotze (2013); The Genesis of Neo-Kantianism – 1796-1880 (2014). Consulte-se também a bibliografia fornecida pelo próprio autor ao final deste volume.

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