Apontamentos sobre o Ateísmo – O único ateísmo respeitável

 

Por conta dos últimos posts e das discussões que tenho travado ultimamente, tenho pensado mais detidamente sobre o ateísmo como posição intelectual. Vou ignorar solenemente o ateísmo como posição moral já que, em geral, quem arroga o ateísmo como pressuposto ético simplesmente quer advogar a favor  da anomia, o que cai bem a adolescentes (com 15, 30 ou mesmo 60 anos).

Como já me referi em outro post, há um pressuposto absolutamente incômodo na posição ateísta que deseja assumir o papel de último guardião da racionalidade. O que esta posição não compreende é que, ao dizer que é a última instância da razão, só faz trabalhar duramente contra ela. Explico: caso a razão seja reduzida exclusivamente ao seu aspecto técnico e instrumental – próprio do cálculo científico –, ela simplesmente deia de ser a razão humana em toda sua miríade de expressões. Basta dizer que vivenciamos um momento histórico inaudito no qual atividades estritamente racionais, como a Filosofia e a Teologia estão absolutamente banidas do domínio do “racional”. Com isso, Platão, Aristóteles, Duns Scoto e Tomás de Aquino, caso fossem vivos hoje, seriam chamados de irracionais. Experimente dizer com Aristóteles, por exemplo, que a atividade do lógos, por excelência, é contemplar os primeiros princípios ou ainda que a Ética, embora não possa exigir o mesmo nível de demonstração da Matemática é plenamente racional em seu périplo investigativo. Você será sumariamente banido de qualquer conversa agradável de salão e as pessoas passaram a não lhe convidar para colóquios em cafés ou nos quais se serve queijo e vinho.

Desejo acrescentar mais um outro ponto. Quem se diz ateu por ser cético não pode, justamente por isso, adotar a posição da defesa ferrenha do cientificismo. Assuma seu ceticismo e o seu corolário que é um estado de epoché, ou suspensão de juízo que, se coerente, deve impregnar inclusive a pesquisa científica, como o fez o bom e velho Hume. Se a dedução a partir dos primeiros princípios é suspeita, quanto mais o serão as induções feitas nos laboratórios (um dia você aprenderá que isto tudo é hábito, portanto, do domínio da psicologia (xiii…)).

Sendo assim, sou tentado a respeitar, em suma, apenas um certo tipo de ateísmo que podemos chamar de niilista ou existencial. Se sua posição parte da fratura ao invés da composição “harmoniosa” das teorias científicas, ou da experiêcia da diferença ao invés daquela da unidade. Se sua crítica tem fundamento num páthos trágico que padece do drama próprio em ser humano, falho, corruptível e mau, orgulhoso, preguiçoso, invejoso e vil, eu posso pensar ser possível entabular consigo uma conversa (racional) séria. Porque só a partir daí que você será capaz de entender o fundo do poço no qual o homem se encontra, ponto de partida da antropologia cristã que entende o homem como criatura que se recusa a ser o que é afastando-se de Deus, sem escondê-lo atrás da falsa esperança que de alguma atividade exclusivamente humana possa se depreender uma resposta realmente satisfatória. E pode então perceber que passa a se mover no terreno da legítima Teologia. e Filosofia da Religião. Não aquela que se combate em best-sellers, mas aquela que diz, realmente, algo ao coração e à razão humana.

4 comentários Apontamentos sobre o Ateísmo – O único ateísmo respeitável

  1. Mariana

    Além da qualidade argumentativa, que texto bonito! Chega quase (quase!) a ser um ateísmo admirável esse… Não posso deixar de pensar em Pascal. Talvez esteja aí a minha resposta: é pra esse homem que ele fala. E esse ennui, que tal homem sente e que o faz concluir pelo abandono e pela miséria, pode ser o mesmo que o leva a reconhecer sua insuficiência como abertura ao Sobrenatural, fonte de sentido e única possibilidade de organicidade para sua disjunção ‘natural’. Como diria ‘meu’ filósofo, “A verdadeira natureza do homem, seu verdadeiro bem e a verdadeira virtude, e a verdadeira religião são coisas cujo conhecimento é inseparável” (L 393/B 442).

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