Sobre Obrigatoriedade da Filosofia – II

Dando continuidade ao artigo do meu amigo Francisco, aqui vai a segunda parte:

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No breve exame a respeito das expectativas pedag?gicas que inspiram e justificam a Obrigatoriedade do Ensino de Filosofia, constatou-se, escondido nas entranhas das id?ias, a prolifera??o de uma peculiar vis?o degenerativa de mundo. A ing?nua manifesta??o de uma mera opini?o a respeito de algumas id?ias, evidentemente, n?o d? conta de perceber qual o manancial filos?fico que alimenta e gerencia as condi??es de sentido pr?prias dessas id?ias.
? primeira vista, de fato, deve causar certa estranheza pensar como que algu?m hoje, ou em qualquer momento da hist?ria, se op?e ? id?ia de “filosofia como pr?tica de cidadania”. Afinal de contas, qualquer estudante minimamente atento aos seus manuais de filosofia sabe da rela??o entre o tema do nascimento da filosofia com a origem da polis (cidade-estado) grega. E s? esse fato, abundantemente constatados nos livros de hist?ria, j? bastaria pra justificar uma poss?vel rela??o entre filosofia e pol?tica ou, desculpe a redund?ncia, filosofia e cidadania. E se quisermos ir mais longe, da rela??o entre educa??o e pol?tica.
No entanto, os problemas n?o s?o assim t?o simples e, como vimos, as frases de efeito n?o s?o de forma alguma id?neas. N?o dizem na maioria das vezes o que deveriam exatamente dizer. Pelo contr?rio, escondem atr?s de si profundos mecanismos de desarticula??o de sentido alicer?ados e inspirados por concep??es filos?ficas j? completamente ultrapassadas e contestadas na suas estruturas l?gica e ontol?gica, bem como – caso algu?m duvide da capacidade dessas articula??es – testadas e fracassadas por suas experi?ncias hist?ricas. Dizer atualmente, por exemplo, “a filosofia como pr?tica da cidadania” n?o tem nada a ver com a concep??o de filosofia formulada, por exemplo, em sua origem, e menos ainda tem a ver com as concep??es de pol?tica, cidadania e, conseq?entemente, educa??o. Hoje, essas concep??es, est?o fundadas em pressupostos filos?ficos que requer um exame mais atento, no entanto, o problema ? que esses pressupostos est?o todos eles camuflados por uma verdadeira pandemia de cultura ideol?gica que impossibilita e impede qualquer aproxima??o de seus reais fundamentos; examinar cuidadosamente a l?gica e a estrutura m?nima da realidade dos seus princ?pios ? uma tarefa arrisca justamente porque se corre o risco de ser engolido pelo poder de desarticula??o de sua l?gica degenerativa e ser contaminado pelo seu pr?prio veneno.
De qualquer maneira, n?o ? dif?cil constatar, o primeiro resultado da analise ideol?gica que est? por tr?s da frase “a filosofia como pr?tica de cidadania” ? uma tese muito difundida nos nossos dias – conseq??ncia de uma s?rie de quest?es relacionadas ? hist?ria das id?ias cujas ra?zes profundas est?o no in?cio do s?c. XIX e o epicentro o s?c. XX, que n?o cabe aqui um estudo exaustivo – e aparentemente muito simples, que diz: “todos os homens s?o fil?sofos”; cujos seus fundamentos ainda mais distantes amparam-se numa outra id?ia, n?o t?o simples assim, de que “o homem ? um sujeito de autonomia cuja raiz, desse enraizamento, ? o pr?prio homem”, ou seja, de “que o homem ?, para o homem, o ser supremo”; nesse sentido, a ?nica finalidade da pedagogia deve necessariamente ser a do desenvolvimento dessa autonomia e da consci?ncia cr?tica. Tanto ? verdade, que uma das t?picas frases de efeito de grande notoriedade nos c?rculos do botequim intelectual ? “a filosofia desenvolve a consci?ncia cr?tica”. Essas teses foram amplamente incorporadas e difundidas por sistemas pedag?gicos cuja fun??o era a doutrina??o cultural. At? porque s? poderiam mesmo se configurar como doutrina??o cultural j? que se examinadas a fundo n?o d?o conta de uma an?lise rigorosa. De qualquer maneira, foi a partir dessas teses que se engendrou todo um arsenal degenerativo de edemas cognitivos a partir do qual se reduziu qualquer empreendimento filos?fico a uma pr?xis pol?tica, restando n?o s? ? filosofia, mas a toda e qualquer forma de empreendimento intelectual, de educa??o e forma??o humana uma dimens?o n?o mais aberta, que busca compreender, a partir de uma concep??o forte e genu?na, o sentido da miser?vel finitude humana, pelo contr?rio uma educa??o radicalmente fechada em si mesma e enraizada na historicidade do pr?prio homem e da natureza configurada numa rela??o meramente material e est?pida.
Aparentemente essas no??es nada t?m de problem?ticas e parece n?o ferir o bom senso cr?tico pedag?gico. Qual seria o problema de formar no aluno uma “consci?ncia cr?tica”? Qual seria o problema de fazer do empreendimento pedag?gico e filos?fico uma pr?xis pol?tica ou uma pr?tica da liberdade? Nenhum! A n?o ser o simples fato de esses conceitos fazerem parte de um fundo ideol?gico que reduz completamente o homem e a natureza a uma realidade pueril e burra. S?o doutrinas que reduzem tudo ao meramente humano e material. Num gesto de retrocesso m?tico de universaliza??o, tudo ? condicionado e determinado por rela??es materiais, a sociedade humana uma mera apar?ncia dessa realidade cega, o homem apenas uma pe?a da engrenagem social cuja tomada de consci?ncia cr?tica ? justamente descobrir-se para a manuten??o da sua condi??o coletiva. Assim como o desenrolar cego da natureza, tudo ? joguete de for?as cegas, no caso da sociedade humana de conflitos entre oprimidos e opressores, um jogo fechado na arquitetura de sistemas econ?micos e interesses pol?ticos. O homem precisa se descobrir criticamente como produtor dessa realidade. Uma realidade social constru?da justamente pela a??o do homem livre. Caso n?o seja livre ele ? condicionado pela realidade opressora e nada mais! As nuances dessa disputa hoje s?o tantas, os matizes do espectro que configuram essas rela??es s?o t?o complexos que ? praticamente impercept?vel, ou melhor, imposs?vel compreender que o que est? por tr?s das id?ias como a de “educa??o”, “liberdade”, “consci?ncia cr?tica”, “senso cr?tico”, “pol?tica”, “justi?a social”, “cidadania”, “filosofia” etc ?, justamente, uma tentativa brutal de reduzir a realidade, isto ?, a degenera??o moral e cognitiva como vulgariza??o sect?ria de desarticula??o do real.
Nesse sentido, por exemplo, o aluno n?o ? mais algu?m que sabe ou est? em busca de saber, ou que se descobre no ato de se imortalizar – athanatizein – como ess?ncia da vida filos?fica, fundamental, por exemplo, em Plat?o ou Arist?teles, mas se v? debilitado em algu?m que faz e est? simplesmente fadado ao ter de aprender a fazer, segundo a no??o de pr?xis vinculada a um universo ideol?gico! Avaliado meramente por possuir algumas meras habilidades, limitadas a sua voca??o individual em detrimento de um m?sero projeto de ser quem ele quiser, evidentemente, desde que n?o seja contr?rio ao que ? politicamente aceito e correto para a manuten??o dessa estupidez, o aluno torna-se o joguete, o parafuso cego de um arsenal mec?nico de meras opini?es. Ali?s, se acharem que estou inventando isso por ser “elite conservadora” ou um lun?tico “reacion?rio” ? s? ler a justificativa do projeto de lei sobre o papel social da filosofia: (http://www.camara.gov.br/sileg/integras/153903.doc) “a Filosofia tem no atual contexto pol?tico do fortalecimento das institui??es democr?ticas do pa?s um dos pap?is mais relevantes neste projeto, qual seja, o de contribuir para uma forma??o e fundamenta??o da opini?o p?blica brasileira”. Como nesse esquizofr?nico panorama das opini?es o homem ? raiz de si mesmo, tudo o que se fala, toda opini?o que se emite, toda e qualquer escolha tem valor efetivo no mercado das id?ias. O auto-estabelecimento da supremacia do homem definitivamente derrubou qualquer par?metro que n?o sua loucura. Na constrangedora inoc?ncia por liberdade de express?o a “Filosofia como pr?tica da cidadania” torna-se a desgastada e insuper?vel forma de educa??o como mera fun??o pol?tica de contribuir com a opini?o p?blica, ou seja, retroalimentar essa barb?rie epist?mica. Onde todos s?o fil?sofos, j? n?o h? mais lugar para Filosofia. Onde tudo ? verdade, a mentira tamb?m reina e o her?ico Barrab?s concebe sua Justi?a na alegria e no direito de agora ser livre.

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