A Política como Ciência Primeira

Definitivamente, a política é a metafísica dos papajordaniaincapazes de contemplação, no sentido grego da palavra. Para alguns a última esfera de explicação do real ou, dito de outro modo, a ciência das causas primeiras de tudo aquilo que é, para certas pessoas, a política.

As reações ao discurso do papa numa mesquita na Jordânia se deram, em alguns blogs, com adjetivos como “palhaço” e “cara-de-pau”. É no mínimo curioso acusar o alguém que professa publicamente que a realidade última das coisas não é a humana e, portanto, não pode ser política, de ser, justamente, estritamente político. Há aí algo de uma projeção da limitação cognitiva e contemplativa dos que fazem esse discurso, sobre os ombros do papa. Exatamente o papa que opta por discursos que causam pavores e reações exacerbadas, algo totalmente contrário a qualquer tentativa de manipulação política (ou seria uma nova tática de angariar apoios, concessões e pactos políticos através do despertar do ódio?).

O que ocorre é que o papa e seus críticos partem de pressupostos diferentes e, obviamente, chegam em respostas e conclusões irreconciliáveis. Mas só o papa sabe disso.

4 comentários A Política como Ciência Primeira

  1. Marcelo

    Gabriel,

    Li o discurso do Papa e, por mais que procurasse, não consegui encontrar nada de escadaloso no texto. Por que atacar as palavras do Papa se elas só se fundamentam em pricípios bons e só podem frutificar em ações justas para cristãos e não-cristãos? As pessoas que fazem acusações ao Papa por puro prazer de exercitar seus ódios ou manias não devem ser levadas a sério num debate. São ignorantes por vontade própria. Que fiquem em seus mundinhos sem cores, alimentando seus masoquismos espirituais e suas frustrações generalizadas.

    Abraços.

  2. Gabriel Ferreira

    Caríssimo Marcelo.

    Bom encontrar seus comentários por aqui, novamente. De fato, o discurso do papa é, como sempre, realmente brilhante. Contudo, as críticas que vi por aí vão no sentido de que ele próprio, Bento XVI, usa a religião para fins de manobras ideológicas e políticas. Por isso creio que o ponto fundamental está em compreender que os críticos têm uma falha crônica de não conseguirem avançar para além das operações políticas e, por conta disso, reconduzem todo discurso a essa dimensão, mesmo à força. Penso também que este é um problema sistêmico na modernidade, a saber, substituir toda e qualquer tese por um humanismo radical que vê na ação humana a última instância de sentido no mundo.

    Grande abraço.

  3. Marcelo

    Agora, entendi. Ora, neste caso, fica difícil imaginar algum discurso que não possa ser chamado de “político”. Como você disse, é a tendência de restringir tudo à realidade utilitarista da sociedade moderna: se algo não for útil a algum fim ou interesse material, então esse algo não existe.

  4. Carlo

    Vai aqui um ponto de vista de alguém que não leu os discursos do Papa – mas, que também não leu as críticas feitas a ele, então uma posição razoavelmente imparcial… ou ignorante?… hummm… que seja… Minha opinião e pronto:

    Concordo que há talvez um interesse maior do Papa em seus discursos, visto que a fé que move os seus atos não pode ser comparada aos motivos que leva qualquer político a discursar. Se queremos compreender um discurso do Papa, precisamos antes de qualquer coisa pensarmos como ele, no sentido de compreender a sua razão pessoal, e não olharmos como simples incrédulos e preconceituosos para com qualquer ato provindo da Igreja Católica (o que é realmente muito comum). Aliás, gostaria um dia de fazer um exercício conferindo a diferença das reações a um discurso do Papa e a um do Dalai Lama… Os resultados seriam discrepantes, com certeza…

    Porém…

    Também temos de tomar cuidado ao julgar os atos do Papa simplesmente pela ótica de sua fé. O Papa é – uma vez inserido na sociedade – uma personalidade pública no topo de uma instituição. Ele tem obrigações para com a sua fé tal qual para com a sua instituição (em níveis e proporções diferentes, obviamente). Há os seus interesses particulares e o interesse da instituição que ele representa, portanto há sim um olhar político em paralelo para os seus atos.
    A discórdia talvez se instale quanto a essa opinião pela diferença na compreensão conceitual de “Política”. Há um caráter pejorativo erroneamente instalado no senso comum quando se diz que alguém está fazendo “política”.
    Há certamente conceituações muito mais aprofundadas, mas, visto a dimensão que este comentário deve tomar, vamos nos contentar com a definição do Houaiss: “Prática ou profissão de conduzir negócios políticos; Modo de agir de uma pessoa ou entidade; Habilidade no agir e no tratar, tendo em vista a obtenção de algo; Diplomacia”.

    O Papa/Igreja Católica não seria uma pessoa/entidade agindo e tratando, tendo em vista a obtenção de algo? Seja angariar fiéis, promover a paz, melhorar a opinião sobre a igreja em certos lugares… Dizer que a Igreja não age visando a obtenção de algo é o mesmo que dizer que ela é uma entidade sem finalidade. Ela tendo uma finalidade (ou várias) e querendo atingí-la, visto que está inserida em uma sociedade, não resta outra alternativa senão se render a atos políticos também.

    A questão é: Sobre essa ótica, qual o problema?

    Um abração!

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