A mentalidade revolucionária em um fragmento

 

“Ele [o soberano ou “legislador”] que ousa empreender a realização das instituições do povo deve sentir-se capaz, por assim dizer, de mudar a natureza humana, de transformar cada indivíduo, que é por si próprio um todo completo e solitário, em parte de uma todo ainda maior do qual ele, de certa maneira, recebe sua vida e seu ser; de alterar a constituição do homem com o propósito de fortalecê-la; e de substituir uma existência parcial e moral por uma existência física e independente que a natureza nos conferiu a todos.”

ROUSSEAU, O Contrato Social

Uma imagem, muitas informações

Veja bem a imagem abaixo:

dilmaaparecida

Ela diz muitas coisas. Desde a presença do Deputado Federal recém-eleito (e excomungado) Gabriel Chalita na missa em Aparecida, no dia da padroeira, ao lado de uma Dilma que se exclui da Igreja por, ao menos, dois motivos. até a absoluta ignorância litúrgica de Dilma, que não sabe o que fazer no momento da proclamação do Evangelho, (que se diz católica desde a época da missa em latim), passando pela absoluta hipocrisia de ambos e outros, presentes e ausentes, fazendo da igreja um lugar de víboras. Quem tiver ouvidos, ouça.

Luiz Felipe Pondé – Vai encarar?

Leitura obrigatória. E ponto.

SOU CONTRA o aborto. Não preciso de religião para viver, não acredito em Papai Noel, sou da elite intelectual, sou PhD, pós-doc., falo línguas estrangeiras, escrevo livros "cabeça" e não tenho medo de cara feia.

Prefiro pensar que a vida pertence a Deus. Já vejo a baba escorrer pelo canto da boca do "habitué" de jantares inteligentes, mas detenha seu "apetite" porque não sou uma presa fácil.
Lembre-se: não sou um beato bobo e o niilismo é meu irmão gêmeo. Temo que você seja mais beato do que eu. Mas não se deve discutir teologia em jantares inteligentes, seria como jogar pérolas aos porcos.

Esse mesmo "habitué" que grita a favor do aborto chora por foquinhas fofinhas, estranha inversão…

Não preciso de argumentos teológicos para ser contra o aborto. Sou contra o aborto porque acho que o feto é uma criança. A prova de que meu argumento é sólido é que os que são a favor do aborto trabalham duro para desumanizar o feto humano e fazer com que não o vejamos como bebês. E não quero uma definição "científica" do início da vida porque, assim que a tivermos, compraremos cremes antirrugas "babyskin" com cartão Visa.

Agora o tema é o "retorno" do aborto. O aborto entrou na moda neste segundo turno. É claro que esse retorno é retórico. Desde Platão, sabe-se que a democracia é um regime para sofistas e retóricos.

A relação entre democracia e marketing já era sabida como essencial desde a Grécia Antiga. Por que o espanto quando os candidatos, sabendo que grande parte da população brasileira é contra o aborto (talvez por razões religiosas vagas, talvez por "afeto moral" vago), se lançam numa batalha pelo espólio do "direito à vida"?

O marketing é uma invenção contemporânea, mas a necessidade dele é intrínseca a qualquer técnica que passe pelo convencimento de uma maioria, desde a mais tenra assembleia de neandertais.

A democracia é, na sua face sombria, um regime da mentira de massa. Quando essa mentira de massa é contra nós, reclamamos.

Não há nada de evidentemente justo em termos morais ou de moralmente "avançado" na legalização do aborto. O que há de evidente em termos morais é a desumanização do feto como processo retórico (exemplo: "Feto não é gente") e a defesa de uma forma avançada de "safe sex": "Quero transar com a "reserva de comportamento legal" a meu favor. Se algo der errado, lavo".

E não me venham com "questão de saúde pública". Esgoto é questão de saúde pública. A defesa do aborto nessas bases é apenas porque o aborto legal é mais barato. Resumindo: "Safe sex, cheap babies". E não me digam que o feto "é da mulher". O feto "é dele mesmo". E não me digam que "todo o mundo avançado já legalizou o aborto", porque esse argumento só serve para quem "ama a moda" e teme a solidão.

Não pretendo desqualificar a angústia de quem vive esse drama. Longe de mim! Mas em vez de gastarmos tanta "energia social" na defesa do aborto, por que não usarmos essa energia para recebermos essas crianças indesejadas?

Vem-me à mente dois exemplos, aparentemente de campos "opostos". Deveríamos aprender com a Igreja Católica e seu esforço de criar redes de recepção dessas crianças, aparando as mães em agonia e seus futuros filhos à beira da morte.

Por outro lado, são tantos os casais gays masculinos (os femininos sofrem menos porque dispõem de "útero próprio") que querem adotar crianças e continuamos a julgá-los, equivocadamente, penso eu, incapazes do exercício do amor familiar.

Sou contra a legalização do aborto porque o considero um homicídio. Muita gente não entende essa implicação lógica quando supõe que seriam razoáveis argumentos como: "A legalização do aborto permite a escolha livre. Se sou contra, não faço. Se minha vizinha for a favor, ela faz".
Agora, substitua a palavra "aborto" pela palavra "homicídio", como fica o argumento? Fica assim: "A legalização do homicídio permite a escolha livre. Se sou contra, não faço. Se minha vizinha for a favor, ela faz".

Quem é a favor do aborto não o é por razões "técnicas", mas por "gosto" ideológico.

Dois motivos pelos quais um católico não pode votar em Dilma Rousseff

 

Já disse inúmeras vezes que José Serra (PSDB) está anos-luz de ser um candidato ideal. Contudo, até agora (e se aparecer eu, de bom grado, condeno também) não vi nada que obste tanto a um católico quanto o que vai abaixo. Primeiro, veja o que diz a Igreja:

SOBRE O ABORTO:

a) Começo pelo próprio Código de Direito Canônico:

TÍTULO VI

DOS DELITOS CONTRA A VIDA E A LIBERDADE DO

HOMEM

Cân. 1398 – Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae.

 

b) Catecismo da Igreja Católica

cf. cânones 2268-2283 e 2321-2326:

"O aborto directo, querido como fim ou como meio, e também a cooperação nele, crime que leva consigo a pena de excomunhão, porque o ser humano, desde a sua concepção, deve ser, em modo absoluto, respeitado e protegido totalmente;"

c) Declaração sobre o Aborto provocado, de 28 de junho de 1974, ratificado pelo Papa Paulo VI

É inteiro dedicado ao tema, dispensa maiores explicitações.

d) Didaché:

A Didaché é citada por Eusébio de Cesaréia. É do século I!!!

« Tu não matarás, mediante o aborto, o fruto do seio; e não farás perecer a criança já nascida » V, 2.

e) Tertuliano (séc. II)

« É um homicídio antecipado impedir alguém de nascer; pouco importa que se arranque a alma já nascida, ou que se faça desaparecer aquela que está ainda para nascer. É já um homem aquele que o virá a ser » Apologeticum, IX, 8: P.L. I, 371-372; em Corp. Christ. I, p. 103, 1. 31-36.

f) Santo Agostinho – (séc. IV)

« Por vezes esta crueldade libidinosa, ou esta libidinagem cruel vão até ao ponto de arranjarem venenos que tornam as pessoas estéreis. E se o resultado desejado não é alcançado desse modo, a mãe extingue a vida e expele o feto que estava nas suas entranhas; de tal maneira que o filho morre antes de ter vivido; de sorte que, se o filho já vivia no seio materno, ele é matado antes de nascer » De nuptiis et concupiscentiis, c. 15

g) Papa Estevão V (séc. IX)

« É homicida aquele que fizer perecer, mediante o aborto, o que tinha sido concebido »

citado pelo Decreto de Graciano, Concordantia discordantium canonum, C, 2, q. 5, c. 20.

h) São Tomás de Aquino(séc. XIII)

S. Tomás é um caso interessante. É sempre arrolado como ponto de "incoerência" em relação a esse assunto. Remeta-se ao Comentário sobre as Sentenças, livro IV, d. 31, onde S. Tomás assevera que o aborto voluntário é peccatum mortale (infelizmente, não achei o texto em português). O mesmo se dá na Suma Teológica, onde se pode ler “que o que fere a mulher grávida faz algo ilícito, e, por esta razão, se disso resulta a morte da mulher ou do feto animado, não se desculpa do crime de homicídio, sobretudo, quando a morte segue certamente a esta ação violenta” [S.Theo., II-II, q. 64, a.8, ad.2].

i) Papa Sisto V – (séc XVI)

Condenou o aborto severamente em sua Constituição Effraenatum, de 1588.

j) Pio XII – (séc. XX)

Além do papa Pio XI, seu sucessor Pio XII também empenhou-se duramente na refutação do aborto:

« Até ao momento em que um homem não se tornar culpado, a sua vida é intocável; e por isso é ilícito todo e qualquer acto que tenda directamente para destruí-la, quer essa destruição seja intentada como fim, ou somente como meio para o fim, quer se trate de uma vida no seu estado embrionário ou já no seu desenvolvimento pleno ou, ainda, prestes a chegar ao seu termo » Discurso dirigido à União Italiana Médico-Biológica « São Lucas, em 12 de Novembro de 1944.

 

E, de quebra, a famigerada passagem da Quadragesimo Anno, de Pio XI, sobre a “relação” entre Socialismo e Catolicismo:

E se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos Pontífices nunca negaram, funda-se contudo numa própria concepção da sociedade humana, diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios : ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista.

 

Agora veja:

 

 

Pronto. Não há o que discutir. Se você é católico, há dois motivos que impedem que você vote na candidata do PT. Simples assim.

A Candeia sob o Alqueire ou Sobre pastores ociosos

 

(Aqui vão dois posts em um. Estão juntos pois devem ser lidos um à luz do outro)

 

 

“Não há ninguém que, depois de ter acendido uma candeia, a cubra com um vaso ou a coloque sob uma cama; mas a põe sobre o candeeiro a fim de que aqueles que entrem veja a luz; porque não há nada de secreto que não deva ser descoberto, nem nada de oculto que não deva ser conhecido e manifestar-se publicamente.”

Lc. 8, 16-17

Não é de hoje que digo, seja no blog ou pessoalmente, que a Igreja do Brasil “representada”, ao menos publicamente, pela CNBB peca gravemente. E não sou eu quem julgo, mas o próprio Senhor. São os bispos do Brasil – claro que não em sua totalidade, mas seguramente em sua maioria – que se colocam contra o Evangelho em algumas das questões mais prementes do nosso tempo. Foi-se o glorioso tempo no qual padres e bispos eram a fina flor da ciência e da filosofia. Hoje, o clero brasileiro se faz sentir cantando ou por sua lamentável omissão que, na prática, faz com que nós, católicos, nos sintamos como ovelhas sem pastor: aqueles que são obrigados à cura das almas estão abrindo mão de seus deveres mais essenciais.

Antes de apontar a questão específica que move este post, cumpre perguntar ainda uma vez pelos motivos pelos quais a Igreja no Brasil é, em sua grande maioria, negligente. É fato que ainda impera por entre os bispos do país – e em grande parte do clero – um pastiche abjeto de valores cristãos desconexos de seu transfundo ontológico e o mais rude comunismo de boteco. É o que convencionou-se chamar de Teologia da Libertação, que não só não merece o nome de “teologia” como ao invés de libertar, escraviza. Para além do óbvio pecado em que incorrem – nunca é demais lembrar o que diz Pio XI na Quadragesimo Anno, sobre ser impossível ser católico e socialista ao mesmo tempo – os bispos do Brasil, por sua omissão nas questões urgentes da vida política, pecam deliberadamente por calarem-se acerca de assuntos em que deveriam ser os primeiros a se manifestarem. É, portanto, de um problema de princípios que sofre a Igreja no Brasil.

A postura da CNBB frente as Eleições do próximo dia 3 é de chorar. De início, a declaração sobre o momento político do Brasil, gerada na 48ª Assembleia está longe de ser o posicionamento que se espera da Igreja. É morna. E se conhece bem o destino dos mornos. Prezados bispos, falar a favor da Ficha Limpa é um imperativo da razão. Não é o suficiente para comprometer-se com o Evangelho.arcebispos-de-curitiba-dilma-rousseff-encontros

Para que se tenha noção do tamanho do pecado, veja a foto ao lado. O arcebispo de Curitiba , Dom Moacyr Vitti recebe com orquídeas a candidada Dilma Rousseff (foto tirada daqui). Também não custa relembrar que o Partido dos Trabalhadores, seu partido, é o autor do PNDH-3 que, entre outras coisas, defende privilégios jurídicos absurdos para homossexuais e se coloca favoravelmente em relação ao aborto. O mesmo PT que suspendeu no ano passado dois de seus membros que se declararam contra a política abortista do partido.

Incorre no mesmo pecado de omissão Dom Demétrio Valentini, da Diocese de Jales, que diz disparates tais como:

Mas é pior ainda para a religião, seja qual for, pressionar seus adeptos para que votem em determinados candidatos, ou proibir que votem em determinados outros, em nome de convicções religiosas. A religião que não é capaz de incentivar a liberdade de consciência dos seus seguidores, que se retire de campo. Pois a religião não pode se tornar aliada da dominação das consciências.

(…) Portanto, cada um é livre de votar em quem quiser. Se quiser votar na Marina, vote! Se quiser votar no Serra, vote! Se quiser votar na Dilma, vote! E se quiser votar em qualquer um dos outros candidatos, vote! Mas vote livremente, levado pela decisão a que chegou por sua própria consciência.

Sem falar no caso absurdo em que a CNBB retirou de seu site o artigo de D. Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo de Guarulhos que, muito justamente condenou o voto de católicos na candidata Dilma Rousseff por sua clara posição a favor do aborto. Deve-se fazer uma menção honrosa à Regional Sul 1 da CNBB, presidida pelo bispo da diocese de Santo Ándré, D. Nelson Westrupp (que já cometeu diversos erros mas que, aqui, acerta ainda que timidamente), que soltou um pronunciamento alertando os fiéis para alguns princípios que devem pautar a escolha dos candidatos.

Ainda assim, salvo a posição de D. Luiz Gonzaga, os bispos do Brasil estão muito aquém do que se deveria esperar dos pastores. São como candeias sob o alqueire que não iluminam nada, e mergulham os fiéis nas trevas da ignorância, do desgoverno e do pecado. Não orientar claramente o povo é abrir mão do múnus de ensinar, essencial aos bispos. Se isso não é pecar contra o ministério, eu não sei mais de nada.

 

*     *     *

Agora contraponha o que disse acima, sobre os bispos do Brasil, com o que vai abaixo. Não sem antes porém dizer que não concordo com inúmeras posições e atitudes do Pr. Silas Malafaia. A começar por sua obstinação na não-pertença à única Igreja do Cristo. Mas no que diz respeito à clareza e a positividade de sua manifestação, o pastor está anos-luz à frente do clero brasileiro. Chega a dar certa inveja de seus fiéis, que podem contar com tal firmeza.

 

 

Não deixe de ler a carta que Malafaia recebeu de certos membros do PT, bem como sua resposta, da qual reproduzo um trecho:

Lamento dizer, mas a verdade absoluta é que os princípios cristãos são inegociáveis para nós. Quanto a isto, o PT está do outro lado.

Não deixe de ler também a carta aberta na qual o pastor justifica porque não votará em Marina Silva, não obstante seja integrante de sua igreja, a Assembleia de Deus. Aqui, Reinaldo Azevedo, da Veja, faz um apanhado geral da história.

 

Ahn, como ia ser bom ouvir isso da boca do Secretário Geral da CNBB…

Artigo Pastoreando – 14

Abaixo, mais um texto para o jornal da Paróquia Jesus Bom Pastor, tecendo algumas breves explicações acerca do nono artigo do Símbolo Apostólico.

 

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Creio na Santa Igreja Católica; na Comunhão dos Santos

peterpoperubensO nono artigo do Símbolo dos Apóstolos afirma nossa fé na Igreja de Cristo e, portanto, em sua  unidade indissolúvel e transcendental. Não é por acaso que este artigo sucede aquele no qual professamos nossa fé no Espírito Santo: assim como a alma vivifica e sustém o corpo, é o Santo Espírito que move a Igreja e a santifica.

A palavra “Igreja” vem do grego “ekklesía”, que quer significa “assembleia reunida para determinado fim”. Assim, somos Igreja na medida em que estamos todos reunidos e orientados para o Senhor, pois somos o corpo do qual Cristo é a cabeça (cf. I Cor. 12, 12-14). Ao professarmos nossa fé na Igreja Católica, verdadeira igreja do Cristo, externamos nossa fé nos seus quatro atributos essenciais, a saber, ela é Una, Santa, Católica e Apostólica, como afirmamos também no Símbolo Niceno-Constantinopolitano.

A Igreja é Una: dela foi dito “só uma é minha pomba, minha perfeita (…) única para quem a concebeu” (Cân. 6, 9). Como nos ensina S. Tomás, a unidade da Igreja se dá a partir de três fontes: a Unidade de Fé, pois há um só Senhor, uma só fé e um só batismo (cf. Ef. 4,5); Unidade de Esperança, pois estamos todos unidos na esperança da Salvação: “Há um só corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados” (Ef. 4,4); por fim, a Igreja é Una por força da Unidade de Caridade, pois nela somos todos irmãos, filhos adotivos de Deus. A unidade no Cristo faz com que cresçamos todos e que todos façamos seu Corpo crescer “construindo-se no amor, graças à atuação devida de cada membro.” (Ef. 4, 16). A Igreja é também Santa, pois Santa é sua Cabeça, Jesus Cristo, santos são muitos de seus membros, santas são sua Fé e sua Lei, santos são seus Sacramentos e, por fim, porque é dela que emana toda a santidade no mundo. Ela é também “Católica”, palavra que vem do grego e significa “universal”, pois abrange todos os fieis em todos os lugares, tempos, condições e é a Ela que todos nós somos chamados a pertencer. Por fim, a verdadeira Igreja do Cristo é Apostólica pois, como nos ensina S. Pio X, ela remonta sem interrupção até aos Apóstolos, porque crê e ensina tudo o que estes creram e ensinaram e porque é guiada e governada pelos legítimos sucessores dos Apóstolos e, de modo particular, pelo papa que é o sucessor de São Pedro, a quem o próprio Jesus Cristo prometeu que estaria sempre presente em Sua Igreja firmada sobre a confissão de fé do apóstolo, e contra a qual as portas do inferno jamais prevalecerão (cf. Mt. 16, 16 e seguintes).

Por força de todas estas características da verdadeira Igreja do Senhor, somos chamados também a professarmos nossa fé na Comunhão dos Santos que é a íntima união que existe entre todos os membros do Corpo Místico do Cristo, sejam estes membros os que ainda peregrinam nesta terra, sejam aqueles que já nos precederam na fé e que já se encontram na presença de Deus ou no Purgatório. Assim, todos os bens da igreja – tais como os merecimentos infinitos de Cristo, os merecimentos superabundantes de Maria Santíssima e dos Santos, os frutos de todas as boas obras que a Igreja realiza, bem como as orações e frutos da Santa Missa – são comuns a todos estes membros.

Rezemos então para que possamos pertencer cada vez mais dignamente à Igreja, Corpo do Senhor e que possamos, conforme nos diz S. Cipriano (séc. III), compreender que “não pode ter a Deus por Pai, quem não tem a Igreja por mãe”.

Um abraço.

Gabriel Ferreira

A Igreja está a serviço de Outro

Não posso deixar de registrar aqui uma das respostas de S. S o papa Bento XVI em recente entrevista concedida durante o voo ao Reino Unido. É verdadeiramente disto que precisamos.

 

papainglaterra

O papa Bento XVI na Abadia de Westminster

Pergunta: O Reino Unido, como muitos outros países ocidentais, é considerado um país secular, com um forte movimento de ateísmo também com motivações culturais. No entanto, também há sinais de que a fé religiosa, sobretudo em Jesus Cristo, ainda está viva em nível pessoal. O que isso pode significar para católicos e anglicanos? Pode-se fazer algo para mostrar a Igreja como instituição mais credível e atrativa para todos?

Bento XVI: Diria que uma Igreja que busca sobretudo ser atrativa, estaria já em um caminho equivocado. Porque a Igreja não trabalha para si, não trabalha para aumentar os próprios números, o próprio poder. A Igreja está a serviço de Outro, serve não para si mesma, para ser um corpo forte, mas para tornar acessível o anúncio de Jesus Cristo, as grandes verdades, as grandes forças de amor e reconciliação que apareceram nessa figura e que vêm sempre da presença de Jesus Cristo. Nesse sentido, a Igreja não busca o próprio atrativo, mas deve ser transparente para Jesus Cristo. E, na medida em que não é para si mesma, como corpo forte e poderoso no mundo, mas se faz simplesmente voz de Outro, converte-se realmente em transparência para a grande figura de Cristo e as grandes verdades que trouxe à humanidade. A força do amor, neste momento, escuta, aceita. A Igreja não deve se considerar a si mesma, mas ajudar a considerar a Outro, e ela mesma tem de ver e falar de Outro e por Outro. Neste sentido, também me parece que anglicanos e católicos têm o mesmo dever, a mesma direção a tomar. Se anglicanos e católicos veem ambos que não servem para si mesmos, mas sim que são instrumentos para Cristo, amigos do Esposo como diz São João, se ambos seguem a prioridade de Cristo e não de si mesmos, então caminham juntos. Porque então a prioridade de Cristo os une e já não são mais concorrentes, cada um buscando o maior número, mas estão juntos no compromisso pela verdade de Cristo que entra neste mundo e, deste modo, encontram-se também reciprocamente em um verdadeiro e fecundo ecumenismo.

 

A partir daqui.

Enfim, um bispo corajoso – o fim das palmas na liturgia

Por vezes alguns bispos nos fazem ter orgulho do episcopado nacional. Em artigo recente no site da Arquidiocese de Niterói, D. Roberto Francisco Ferrería Paz justifica a proibição das palmas na celebração da Santa Missa. É um gesto de retidão e respeito à liturgia. Reproduzo o texto abaixo:

 

*   *   *

 

Por que restringir o uso de bater palmas na missa?

 

Primeiramente porque não existe o gesto litúrgico de bater palmas, a única referência que a CNBB autoriza como facultativo é no rito de ordenação depois de ser aceito o candidato, que como podemos apreciar não é um contexto celebrativo.

Porque não se adequa a teologia da Missa que conforme a Carta Apostólica Domenica Caena de João Paulo II do 24/02/1980, exige respeito a sacralidade e sacrificialidade do mistério eucarístico: “0 mistério eucarístico disjunto da própria natureza sacrifical e sacramental deixa simplesmente de ser tal”. Superando as visões secularistas que reduzem a eucaristia a uma ceia fraterna ou uma festa profana. Nossa Senhora e São João ao pé da cruz no Calvário, certamente não estavam batendo palmas.

Porque bater palmas é um gesto que dispersa e distrai das finalidades da missa gerando um clima emocional que faz passar a assembléia de povo sacerdotal orante a massa de torcedores, inviabilizando o recolhimento interior.

Porque o gesto de bater palmas olvida e esquece duas importantes observações do então Cardeal Joseph Raztinger sobre os desvios da Iiturgia : “A liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A liturgia não vive de surpresas simpáticas, de invenções cativantes, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério do Sagrado. Muitos pensaram e disseram que a Iiturgia deve ser feita por toda comunidade para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento. Desse modo, porém , terminou por dispersar o propium litúrgico que não deriva daquilo que nós fazemos, mas, do fato que acontece. Algo que nós todos juntos não podemos, de modo algum, fazer. Na liturgia age uma força, um poder que nem mesmo a Igreja inteira pode atribuir-se : o que nela se manifesta e o absolutamente Outro que, através da comunidade chega até nós. Isto é, surgiu a impressão de que só haveria uma participação ativa onde houvesse uma atividade externa verificável : discursos, palavras, cantos, homilias, leituras, apertos de mão …. Mas ficou no esquecimento que o Concílio inclui na actuosa participatio também o silêncio, que permite uma participação realmente profunda, pessoal, possibilitando a escuta interior da Palavra do Senhor. Ora desse silêncio , em certos ritos, não sobrou nenhum vestígio".

Finalmente porque sendo a Iiturgia um Bem de todos, temos o direito a encontrarmos a Deus nela, o direito a uma celebração harmoniosa, equilibrada e sóbria que nos revele a beleza eterna do Deus Santo, superando tentativas de reduzi-Ia a banalidade e a mediocridade de eventos de auditório.

+ Dom Roberto Francisco Ferrería Paz
Bispo Auxiliar de Niterói

(Via Ignem In Terram)

cummings aggiornamento

 

não sei dizer o que há em ti, vida, que fecha e abre; tudo em mim não compreende porque és só espera.

Marc Soitraeil, Sob a égide de Tártaro

Leibniz – Sobre a origem fundamental das coisas

Esta entrevista publicada hoje, trouxe-me à memória o texto de Leibniz que reproduzo abaixo e que, de fato, dispensa apresentações.

*   *   *

De rerum originatione radicali
Gottfried Wilhelm Leibniz
( 23.nov.1697)

 

leibniz Além do mundo, isto é, além do agregado das coisas finitas, existe alguma Unidade dominante que o rege e que está para aquele mundo não só como a alma para mim mesmo, ou melhor, como eu para o meu corpo, mas também em um sentido mais elevado. Pois a Unidade que domina o universo não apenas rege o mundo, mas também o constrói ou faz; ela é superior ao mundo e, por assim dizer, extramundana. Por conseguinte, ela é a razão fundamental das coisas. Com efeito, não podemos achar em qualquer das coisas singulares, ou mesmo em agregados completos e nas séries de coisas, uma razão suficiente pela qual existam. Suponhamos que um livro sobre os elementos de geometria tenha perpetuamente existido, uma cópia sendo feita de uma outra. É óbvio que, embora possamos explicar uma presente cópia como sendo uma reprodução de um livro anterior, do qual foi copiado, isso nunca nos levará a uma razão completa (para a existência de tal livro), não importando quantos livros consideremos, visto que sempre teremos curiosidade de saber o porquê da existência perpétua de tais livros, o porquê de tais livros terem sido escritos e por que o foram desta forma e não de outra. O que é verdadeiro para esses livros também o é para os diferentes estados do mundo, pois o estado que segue é, de certo modo, copiado do estado precedente, embora em conformidade com certas leis de mudança. E assim, por mais que possamos retroceder aos estados anteriores, jamais encontraremos nesses estados uma razão (ratio) completa para o porquê de existir qualquer mundo e por que ele é do modo que é.

Eu certamente admito que tu possas imaginar que o mundo é eterno. Todavia, desde que assumas nada além de uma sucessão de estados e desde que nenhuma razão suficiente para o mundo pode ser encontrada em qualquer um deles (de fato, assumindo tantos quantos queiras não encontrarás de modo algum a razão), é evidente que esta deve ser encontrada em outra parte. Pois nas coisas eternas, mesmo se não há causa, devemos mesmo assim conceber uma razão que nas coisas imutáveis é a própria necessidade ou essência em si, enquanto que nas coisas mutáveis (se, a priori, nós imaginássemos que são eternas), a razão seria a força superior de certas inclinações, como veremos em breve, onde as razões não se tornam necessárias (no sentido de uma necessidade absoluta ou metafísica, onde o contrário implica uma contradição), mas inclinam. Disto se conclui que mesmo se assumirmos a eternidade do mundo, nós não podemos evitar a necessidade de admitir a razão fundamental e extramundana das coisas, que é Deus.

Portanto, as razões para o mundo encontram-se ocultas em algo extramundano, distinto da sucessão de estados ou da série de coisas cujo agregado constitui o mundo. E assim, nós devemos passar da necessidade física ou hipotética, que determina as coisas posteriores do mundo pelas anteriores, para alguma coisa que seja de necessidade absoluta ou metafísica, algo para o qual a razão não pode ser dada. Pois o mundo presente é física ou hipoteticamente necessário, mas não absoluta ou metafisicamente. Isto é, dado que ele foi uma vez tal e qual, segue-se que as coisas no futuro manifestar-se-ão do mesmo modo. Portanto, desde que a raiz fundamental deve estar em algo que é de necessidade metafísica e desde que a razão para algo existente deve vir de algo que realmente existe, segue-se que deve existir um Ser único de necessidade metafísica, isto é, deve existir um ser cuja essência é a existência, e, portanto, deve existir algo diverso da pluralidade das coisas, que difere do mundo, que admitimos e demonstramos não ser de necessidade metafísica.

Além disso, para explicarmos um pouco mais distintamente como verdades temporais, contingentes ou físicas originam-se das verdades eternas, essenciais ou metafísicas devemos primeiro admitir que desde que algo existe, em vez de nada, há uma certa exigência de existência ou, por assim dizer, uma pretensão à existência nas coisas possíveis ou na possibilidade ou essência nela mesma; em uma palavra, que a essência tende por si mesma à existência. Donde segue-se daí que todos os possíveis, isto é, todas as coisas que expressam essência ou realidade possível, tendem com igual direito a existência em proporção à quantidade de essência ou realidade ou grau de perfeição que elas contêm, pois a perfeição nada mais é do que a quantidade de essência.

Disto se compreende que das infinitas combinações de possibilidades e séries possíveis, aquela que existe é aquela através da qual o máximo de essência ou possibilidade é levado a existir. Sempre vigora nas coisas um princípio de orientação de acordo com que se deve buscar o máximo ou o mínimo; isto é, que se produza o máximo efeito com o mínimo de gasto, por assim dizer. E no caso atual, o tempo e o lugar ou, em uma palavra, a receptividade ou capacidade do mundo pode ser considerada como o custo ou como o terreno sobre o qual se construa o mais agradável dos edifícios e a variedade das formas do mundo correspondam à comodidade do edifício e ao número e refinamento dos quartos. E a situação é semelhante àquela de determinados jogos nos quais todas as posições sobre o tabuleiro devem ser preenchidas conforme certas regras e onde, no final, obstruídos certos espaços, tu serás forçado a deixar mais posições vazias do que poderias ou desejarias, a menos que utilizes de algum ardil. Há, contudo, um certo procedimento através do qual se pode mais facilmente preencher o tabuleiro. Assim da mesma maneira que, por exemplo, se supusermos que nos peçam para construir um triângulo, sem que nos seja dada qualquer orientação, haveremos de produzir um triângulo eqüilátero; ou se supusermos que vamos de um ponto a outro sem qualquer orientação prévia quanto à trajetória, acabaremos por escolher aquela mais fácil, isto é, a mais curta; da mesma forma, dizíamos, assumindo que em algum tempo o ser prevaleça sobre o não-ser; ou que haja uma razão pela qual alguma coisa exista em vez do nada; ou que se deva passar da possibilidade para o ato, embora sem nenhuma outra determinação, segue-se que existiria tanta possibilidade quanto poderia existir, dada a capacidade do tempo ou do espaço (isto é, da ordem possível das existências); em resumo, assemelha-se a azulejos assentados a fim de, em determinada área, conter o maior número possível deles.

Disto já podemos compreender maravilhosamente como uma espécie de Matemática Divina ou Mecanismo Metafísico é utilizada na criação das coisas e como a determinação de um máximo encontra lugar. O caso é semelhante àquele da geometria, onde o ângulo reto é eminentemente distinto de todos os demais ângulos; ou como o caso de um líquido colocado com outro de tipo diferente que toma, então, uma forma mais propícia a conter o máximo, ou seja, a da esfera; ou sobretudo, como o caso da mecânica comum onde da luta recíproca de muitos corpos pesados finalmente surge um movimento através do qual resulta, no total, a maior descida. Pois, exatamente como todos os possíveis tendem com igual direito para a existência em proporção às suas realidades, igualmente todos os corpos pesados tendem com igual direito a descer em proporção aos seus pesos; e tal como neste caso resulta um movimento que contém a maior descida de corpos pesados quanto possível, naquele outro dá origem a um mundo no qual o maior número de possíveis é produzido.

De fato, agora temos a necessidade física derivada da necessidade metafísica. Pois mesmo que o mundo não seja metafisicamente necessário, no sentido de que seu contrário implique contradição ou absurdidade lógica, ele é, todavia, fisicamente necessário ou determinado, no sentido de que seu contrário implica imperfeição ou absurdidade moral. E exatamente como a possibilidade é o princípio (principium) da essência, da mesma maneira a perfeição ou grau de essência (através do qual o maior número de coisas são compossíveis) é o princípio da existência. Daí está óbvio que o Autor do mundo é livre, ainda que tudo faça de modo determinado, já que Ele atua conforme um princípio de sabedoria ou perfeição. Na verdade, a indiferença provém da ignorância e o mais sábio é aquele que mais está determinado a fazer aquilo que é mais perfeito.

Mas, tu dizes, essa comparação entre um certo mecanismo de metafísica determinante e o mecanismo físico de corpos pesados, embora pareça elegante, é defeituosa na medida em que os corpos pesados, que tendem para baixo, realmente existem, enquanto as possibilidades ou essências, antes ou fora da existência são imaginárias ou ficcionais e, portanto, não se pode buscar nelas uma razão de existir. Eu respondo que nem essas essências nem as assim denominadas verdades eternas a elas pertinentes são fictícias. Pelo contrário, elas existem em um certo reino das idéias, por assim dizer, ou seja, no próprio Deus, a fonte de toda essência e da existência de todo o resto. A própria existência da atual série das coisas demonstra que, ao que parece, não falamos sem base. Desde que a razão para as coisas deve ser buscada nas necessidades metafísicas ou nas verdades eternas, já que (como mostrei acima) não pode ser encontrada na série de coisas; e já que as coisas existentes não podem derivar de nenhuma outra coisa exceto de coisas existentes, como acima observei, então, é necessário que as verdades eternas tenham suas existências em algum sujeito absoluta e metafisicamente necessário, isto é, em Deus, através de quem aquelas coisas, que de outra maneira seriam imaginárias, são realizadas (para utilizar uma expressão bárbara, porém representativa).

De fato, observamos que tudo no mundo acontece de acordo com leis das verdades eternas, leis que não são meramente geométricas, mas também metafísicas, isto é, não apenas em conformidade com necessidades materiais, mas também em conformidade com razões formais. Isto é verdade não somente em termos muito gerais, como na explicação (ratio) que acabei de dar sobre o porquê do mundo existir ao invés do nada e por que ele existe desse modo ao invés de qualquer outro (explicação que certamente deve ser deduzida da tendência dos possíveis para existir), mas também, descendo aos casos particulares, observamos o modo maravilhoso pelo qual leis metafísicas de causa, potência e ação têm seu lugar na totalidade da natureza e observamos que essas leis metafísicas prevalecem sobre as leis puramente geométricas da matéria. Como eu próprio descobri para meu assombro, na explicação das leis do movimento isto é verdade a tal ponto que fui finalmente forçado a abandonar a lei da composição geométrica das forças (conatus), que certa vez defendera na minha juventude quando era então mais materialista, como já expliquei mais longamente alhures.

E assim, a razão fundamental para a realidade não só das essências mas também das existências repousa em um Ser único que deve, necessariamente, ser maior, superior e anterior ao mundo, pois através d’Ele não apenas as coisas existentes que formam o mundo, como também todos os possíveis, têm suas realidades. Porém, isso só pode ser procurado em uma única fonte, em virtude da interconexão de todas essas coisas. Ademais, é evidente que dessa fonte as coisas existentes brotam e se produzem continuamente, por ela tendo sido produzidas, uma vez que não se torna claro por que um estado de mundo mais do que um outro, ontem mais do que hoje, deveria dela brotar. Também é óbvio como Deus atua não apenas fisicamente, mas também de forma livre, e como Ele é não apenas a causa eficiente das coisas, mas a causa final, e como n’Ele temos não apenas a razão para a grandeza ou poder do mecanismo do universo como já constituído, mas também a razão da bondade ou sabedoria ao constituí-lo.

E para que não pensem que estou aqui confundindo perfeição moral ou bondade com perfeição metafísica ou grandeza e que, admitindo a última, negue a primeira, deve-se compreender, do já exposto, que não somente o mundo é fisicamente (ou se preferires, metafisicamente) mais perfeito, isto é, que as séries de coisas que têm sido trazidas à existência são aquelas nas quais há, de fato, a maior quantidade de realidade, mas também que o mundo é moralmente perfeito, desde que a perfeição moral é perfeição física, para as próprias mentes. Disto resulta que o mundo não apenas é a mais admirável máquina, mas também, na medida em que é feito de mentes, a melhor república, através da qual se dá às mentes a maior possibilidade de felicidade ou alegria, em que consiste sua perfeição física.

Mas, tu perguntas, não experimentamos exatamente o oposto no mundo? Pois o pior dos males freqüentemente acontece aos muito bons e aos inocentes (tanto entre os animais, como entre os seres humanos), que são feridos e mortos, até mesmo torturados. No fim, o mundo parece mais um caos confuso do que uma coisa ordenada por alguma suprema sabedoria, especialmente se notarmos a conduta do gênero humano. Confesso que, à primeira vista, isso parece desta forma, mas uma análise mais profunda das coisas nos impõe a opinião oposta. Destas considerações que apresentei é óbvio, a priori, que tudo, mesmo as mentes, está na sua maior perfeição.

E, de fato, é injusto formar um juízo a menos que se tenha examinado inteiramente a lei, como dizem os jurisconsultos. Conhecemos apenas uma pequena parte da eternidade que se estende sem medida, pois curta é a memória de muitos milhares de anos que a história nos concede. E, todavia, de tal escassa experiência precipitadamente formamos juízos a respeito do imenso e do eterno, como pessoas nascidas e criadas na prisão ou, se preferires, nas minas subterrâneas de sal da Sarmatia, pessoas que pensam não haver outra luz no mundo senão a luz obscurecida de suas tochas, luz certamente não suficiente para guiar seus passos. Olha para um belo quadro; cobre-o exceto por uma pequena parte. Então, como parecerá ele senão como uma combinação confusa de cores sem encanto e sem arte; na verdade, por mais próximo que o examinemos terá ele essa aparência. Mas tão logo a cobertura seja retirada e possas ver toda a tela de um local adequado, compreenderás que aquilo que parecia manchas acidentais sobre a tela, fora feito com completa arte pelo autor da obra. E o que os olhos descobrem na pintura, os ouvidos descobrem na música. De fato, os mais ilustres mestres da composição muito freqüentemente mesclam dissonâncias com consonâncias a fim de excitar o ouvinte e penetrar-lhe, por assim dizer, de modo que ansioso com o que vai acontecer, o ouvinte sinta o maior prazer quando a ordem for restaurada, exatamente como nos alegramos com pequenos perigos e desventuras, graças ao sentimento ou manifestação de nossa potência ou felicidade; ou como nos deleitamos no espetáculo de trapezistas ou no salto entre espadas devido à habilidade de nos estimular o pavor; ou como, quando por brincadeira, levantamos crianças ao alto como se fôssemos arremessá-las (também por essa razão, quando Christian, rei da Dinamarca, ainda uma criança envolta em faixas, foi carregado por um macaco até a beira do telhado, todos se sentiram aflitos, mas logo em seguida riram quando o animal, como que sorrindo, o colocou seguramente no berço). Por esse princípio, é insípido sempre comer alimentos doces; para excitar o paladar deve-se misturar sabores acres, ácidos e até amargos. Quem não provou coisas amargas, não mereceu as doces nem tampouco as apreciará. O prazer não deriva da uniformidade, pois essa traz futuramente desgosto e nos torna idiotas, não alegres: esse princípio é a lei da alegria.

Mas o que dissemos acerca da parte, ou seja, que pode estar perturbada sem deixar de haver harmonia no todo, não deveria ser entendido como se não houvesse razão nas partes, ou como se fosse suficiente para o mundo inteiro ser perfeito em sua classe mesmo se a raça humana fosse miserável, não prestasse atenção à Justiça no universo, ou não nos assegurasse, como certas pessoas de juízo pobre acreditam a respeito da totalidade das coisas. Pois se deve compreender que, assim como na melhor república constituída cuida-se para que cada indivíduo obtenha, tanto quanto possível, o que lhe é ótimo, o universo seria insuficientemente perfeito a menos que levasse em conta os indivíduos tanto quanto poderia ser feito consistentemente preservando a harmonia do universo. É impossível nessa questão achar um modelo melhor que a própria lei da justiça que manda que cada um participe da perfeição do universo e de sua própria felicidade em proporção a sua própria virtude e na medida que sua vontade tem contribuído para o bem comum. Isso exclui o que denominamos a caridade e o amor de Deus no que consiste toda força e poder da religião cristã, segundo o juízo dos sábios teólogos. Nem parece admirável o fato de que tanto se atribua às mentes no universo, desde que refletem a imagem do Supremo Criador e a Ele se referem não só como máquinas em relação aos seus construtores (como fazem as outras coisas), mas também como cidadãos em relação ao príncipe. Igualmente, essas mentes são destinadas a perdurar tanto tempo quanto o próprio universo, de certa maneira, exprimindo e concentrando em si mesmas o todo de modo que se pode afirmar que são partes totais.

Também devemos sustentar que as aflições, especialmente as dos bons, guiam-nos ao bem maior. Isso é verdadeiro não apenas na Teologia, mas também fisicamente (physice), desde que um grão atirado na terra deve sofrer antes de produzir frutos. E em geral pode-se afirmar que aflições que são temporariamente más são boas quanto aos seus efeitos, uma vez que se constituem em atalhos para uma maior perfeição. Assim é nas coisas físicas onde líquidos que fermentam mais lentamente também demoram a melhorar, mas aqueles em que há uma perturbação mais violenta, mais depressa são melhorados, pois eliminam (impure) partes com mais força. E isso é o que tu denominarias de recuo a fim de saltar para frente com maior força (recuar para melhor saltar). Essas considerações devem ser não somente agradáveis e consoladoras, mas também verdadeiras. E penso que no universo nada é mais verdadeiro do que a felicidade, nem mais feliz ou doce do que a verdade.

Em acréscimo às belezas e perfeições da totalidade das obras divinas, devemos também reconhecer um certo progresso constante e ilimitado em todo o universo, de modo a seguir sempre rumo a um maior desenvolvimento (cultus), exatamente como uma grande parte do nosso mundo está agora cultivado (cultura) e assim tornar-se-á mais e mais. E embora certas coisas regressem a seus estados selvagens originais e outros sejam destruídos e sepultados, devemos, todavia, entender isso do mesmo modo como interpretamos, a pouco, a aflição. De fato, essa destruição e sepultamento nos conduzirão à obtenção de algo melhor, de modo que, em certa medida, lucremos com a perda.

E quanto à objeção de que se assim fosse, então o mundo deveria, há muito tempo, ser um paraíso a resposta é: ainda que muitas substâncias já tenham alcançado uma grande perfeição, todavia, em razão da infinita divisibilidade do contínuo, há sempre partes adormecidas no abismo das coisas a serem despertadas e promovidas a maiores e melhores coisas, ou, em resumo, a um cultivo melhor. Assim, o progresso nunca chega a um fim.

 

Fonte: Leibniz Brasil

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