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Sobre a regulamentação do ofício de Filósofo–opiniões preliminares

Desde 18/10/2011 tramita no Congresso o projeto de lei 2533/2011 que pretende regular o ofício de Filósofo no país. Antes de mais nada, leia a íntegra do projeto aqui. Hoje, a ANPOF publicou uma nota de repúdio ao projeto, vinculada a um abaixo-assinado contrário do mesmo. Abaixo, vão algumas opiniões pessoais compiladas de algumas conversas com amigos durante o dia:

 

1) Não se segue logicamente de uma regulamentação, a doutrinação ideológica. O medo recorrente – o qual também compartilho – que tal regulamentação afunile ou mesmo determine orientações ideológicas ou políticas não é absolutamente infundado. Mas tal doutrinação não decorre necessariamente de uma regulamentação básica e não pode ser arrolado como argumento contrário;

2) Sou um entusiasta do liberalismo econômico. mas o mercado não é tudo. Pedir uma formação básica para o exercício de uma função é tão somente garantir que haja um mínimo de exposição de um sujeito a determinado treinamento. Por si, isso não é nada absurdo e pode ser saudável.

3) O assombro inicial quanto a uma regulamentação deve-se ao fato de que, em grande parte, há um pressuposto não explicitado na questão, a saber, de que para exercer uma profissão ligada à Filosofia não é necessário nenhum treinamento ou conhecimento metodológico, ou mesmo nenhum conteúdo a ser assimilado previamente; como diria Millôr, livre pensar é só pensar. Como constranger o pensamento a regras feias, bobas e chatas esta atividade que está presente a todo instante em cada boteco de Centro Acadêmico ou a cada rodinha de amigos falando do jogo do fim de semana? O fato é que, tanto Filosofia, como Física, Química ou Matemática, exigem um background básico se se quiser passar além do mero diletantismo. E isso é uma informação nova para muita gente…

Ainda: há uma confusão entre o necessário e o suficiente. É óbvio que, para ser professor de filosofia ou filósofo, não é suficiente ser graduado em Filosofia.  Aqui, vale o comentário da nota da ANPOF:

 

Cursos de filosofia formam professores de filosofia, que podem ou não ser filósofos. Assim também, cursos de literatura formam professores de literaratura, que podem ou não ser literatos. Finalmente, há filósofos e literatos sem titulação acadêmica.

Contudo, para ser professor, creio ser necessário.

4) Mas vamos a outra questão. Eu recebo uma bolsa de pesquisa da CAPES (órgão do Governo Federal e, portanto, dinheiro público) para minhas pesquisas de doutorado em Filosofia. Se Filosofia é algo absolutamente livre e desimpedido, por que não conceder tais bolsas a qualquer um que julgue por si mesmo fazer filosofia? São ou não são necessários critérios?

5) Por fim, a estupidez do projeto não está numa possível boa regulamentação. Vejamos:

Ele dispõe que é a Academia Brasileira de Filosofia que será o órgão representativo da Filosofia no país. Ora, tal Academia conferiu prêmios a Pelé e Ronaldinho Gaúcho(!). O órgão é, obviamente, uma piada. Novamente, creio que aqui a ANPOF acerta:

Acima de tudo, causa-nos estranheza a prerrogativa que o projeto pretende dar à Academia Brasileira de Filosofia, que qualifica como filósofos João Avelange e Carlos Alberto Torres, capitão da seleção de futebol de 1970. Trata-se de uma associação absolutamente inexpressiva no que concerne aos estudos, projetos de pesquisa e ensino da filosofia em nível universitário. A despeito disso, o referido projeto quer transformar essa entidade na representante da filosofia e da “língua filosófica” nacionais” (artigo 7).

 

O projeto ainda prevê ainda que órgãos públicos tenham filósofos em seus quadros, o que é, claramente, um meio para empregar cupinchas ou companheiros aqui e ali. Obviamente escandaloso.

Estes são pontos claramente ridículos e inaceitáveis. Mas creio que um debate sobre uma regulamentação mínima para algumas atividades não está encerrado.

Lançamento Dicta 8

Como ansiosamente esperado, aí está a Dicta & Contradicta n. 8.

 

 

 

Saiba mais sobre o lançamento heterodoxo aqui

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Agenda acadêmica

Caríssimos,

 

Estou um pouco longe do blog mas é por dois bons motivos. Estou trabalhando nos textos que apresentarei em dois eventos dos quais terei imenso prazer em participar.

 

O primeiro deles é o XIV Colóquio de Filosofia da Unisinos, evento em comemoração aos 10 anos do PPG de Filosofia da UNISINOS. Aí apresentarei a comunicação intitulada: “VERDADE E DECISÃO: SOBRE A RELAÇÃO ENTRE VERDADE OBJETIVA E DECISÃO SUBJETIVA (A PARTIR DE KIERKEGAARD)

No dia 9/11 embarco para Teresina, PI, onde participarei da XII Jornada Internacional de Estudos de Kierkegaard apresentando o texto intitulado “SOBRE UMA EXISTENTIEL-VIDENSKAB: O CONCEITO DE INTER-ESSE NO PÓS-ESCRITO” e coordenarei uma mesa.

 

Ambos os trabalhos estão diretamente ligados à minha pesquisa de doutorado e expõem, ainda em estado imperfeito, já alguns resultados.

 

Em breve, mais novidades e mudanças no site.

Não,

“Não, não tenho em mim todos os sonhos do mundo, como dizia aquele poetinha da periferia do mundo. Tenho apenas uma vala fétida, infectada e doente. Nela jazem projeções miseravelmente falsas, num grau que supera qualquer fabular. Aristóteles se riria se elas fossem chamadas ao menos verossímeis. Aí onde você vê um sol fulgurante há apenas um fastio do tamanho de uma vida num escritório. O único aspecto lapidar a lembrar é o que se assemelha à morte. E tudo é longe e cansa. Toda possibilidade de salvação é uma promessa irrealisável. E me detenho tão somente porque não sou mais capaz de encontrar palavras mais dilacerantes. A verdadeira poesia encontra sua realização num calar-se.”

Marc Soitraeil, Sob a Égide de Tártaro

Comentário aos posts do Reinaldo

Reinaldo Azevedo, que é certamente está entre os melhores jornalistas do país, comentou aqui e aqui sobre o estúpido projeto do secretário da educação de São Paulo, Herman Voorwald, que pretende diminuir a carga de português e de matemática para incluir aulas de filosofia e sociologia. Comentei uma ou duas coisas, que reproduzo abaixo, e que acho importante serem ditas:

  1. Caríssimo Rei, vou por tópicos:

    1. Sem dúvida, diminuir a carga horária de português e matemática é uma afronta, sobretudo num estado – e num país – em que as universidades estão sendo obrigadas a dar aulas de reforço, vejam vocês, de português e matemática, para que seus alunos consigam acompanhar o curso que escolheram;

    2. Tenho pavor de ouvir que a filosofia tem como finalidade “despertar espírito crítico”. Que defende tal tese está veiculando uma tolice da qual nem se dá conta. Ou “a” finalidade do estudo da literatura é melhorar a escrita? Ou a das Artes Plásticas é, por excelência, aprender técnicas? A filosofia, como a literatura e as artes plásticas, não têm seus fins primários em si mesmas? Dizer que os estudantes precisam de filosofia para que tenham o tal do espírito crítico é, eo ipso, instrumentalizar a filosofia. O que nos leva a outro ponto;

    3. Também penso que precisamos de mais engenheiros que filósofos. E digo isso concordando não com o Tio Rei, mas com Platão. Ou é coisa diferente o que está dito na “República”? Mas justamente por isso não posso concordar com você, Reinaldo, quando fala no outro post que já temos filósofos e sociólogos demais. “De facto”, temos 10? Você sabe, não temos nem o suficiente! Quiçá sobressalentes! Acho sim que conhecer filosofia – por si mesma, por conta de uma existência que ao menos flerte com a contemplação intelectual – é algo importante para os jovens e para o país. Nunca em detrimento das demais disciplinas, como quer o secretário.

    Abraço.

Dois livros – Lançamentos

 

Caríssimos,

Nestes dias ocorreram dois lançamentos de livros que desejo indicar-lhes:

 

estudosneokantianosO primeiro é o Estudos Neokantianos (Editora Loyola), do professor do departamento de Filosofia da PUC-SP, Dr. Mário Ariel González Porta, do qual tive o prazer e o privilégio de fazer a revisão técnica. O livro é uma coletânea de artigos sobre a filosofia neokantiana, período fundamental para a filosofia contemporânea, e que é extremamente carente de bibliografia no país. O autor é um dos maiores conhecedores da área. Bibliografia fundamental para quem estuda filosofia moderna e contemporânea.

 

 

 

 

conceitodeangustiaO segundo é, na verdade, uma nova edição, agora em formato de bolso, de O conceito de angústia (Editora Vozes), de S. Kierkegaard. A nova edição tem, neste formato, preço mais acessível e nova capa. A tradução, extremamente cuidadosa, foi feita a partir do original dinamarquês pelo maior conhecedor de Kierkegaard do país, Prof. Dr. Álvaro Valls (UNISINOS). É um livro incontornável de uma bibliografia sobre Filosofia Moderna e sobre Filosofias da Existência e, certamente, uma das obras-primas do filósofo dinamarquês.

 

 

Compre os livros a partir deste link.

O que o senso comum pensa da Filosofia?*

hello-nietzscheDia desses, estava eu na casa de uns amigos quando chega uma moça, conhecida também, e junta-se a nós. Ela exibia um olhar cansado e triste. Como eu insistisse em lhe perguntar o porquê da expressão desanimada, a moça abriu-se contando-nos seus lamúrios amorosos. Um tanto compadecido, dei lá um ou dois pitacos sobre o assunto. Aparentemente feliz com o que eu lhe dissera, “elogiou”:

Por isso que é bom conversar com um filósofo. Eles sabem dessas coisas!

A historieta – verdadeira – acima, serve de boa introdução a uma resposta à pergunta do título. A experiência geral aponta que, se no que diz respeito aos afazeres de um médico, um advogado ou um engenheiro, o senso comum ao menos tem palpites mais próximos da verdade, no caso de alguém que se dedica profissionalmente à Filosofia (um “filósofo”, nos dizeres da moça), os resultados são sofríveis.

É importante distinguir aqui que não estou fazendo referência ao trabalho de docência que, na maioria das vezes, acompanha tais profissionais.Seria fácil respoder: o profissional da Filosofia que é professor, leciona. A pergunta mais explícita seria talvez “O que o senso comum pensa ser o conteúdo da filosofia?” Do comentário da minha vizinha podemos deprender uma tese que, simultaneamente, acerta e falha terrivelmente. Embutida no elogio está a afirmação subreptícia de que aquele que se dedica à Filosofia pensa sobre “coisas da vida" que, na maior parte dos casos, não estão contidas nos conjuntos “coisas da vida” com os quais se preocupam a Medicina, o Direito ou a Engenharia. De certo modo, aliada à primeira tese, está uma afirmação que poderíamos chamar de metodológica: o conjunto “coisas da vida” sobre o qual a Filosofia se debruça contém “assuntos” que, por não se reduzirem aos das outras áreas do saber, também não possui a mesma metodologia. Assim, o profissional da Filosofia seria algúém que fala sobre um determinado número de “coisas da vida” que são não-científicas, isto é, não tangíveis, não observáveis em si (não em seus efeitos), não propriamente quantificáveis ou mensuráveis.

Assim, o dizer do “filósofo” (não apenas o profissional, mas aqueles todos legados a nós pela tradição ocidental), faz afirmações muito próximas de opiniões mais ou menos abalizadas sobre um universo de coisas que não conseguimos delimitar ao certo, mas sabemos com certeza que não está contido nos conjuntos de coisas de outras áreas. Como uma abordagem mais “profunda” sobre os relacionamentos amorosos…

Todos estes desdobramentos, como disse acima, acertam no que menos vêem e erram onde pensam mais acertar:

1. A percepção de que a Filosofia presta certos “serviços” ou certa “ajuda” em determinado tópicos está correta. Mas seria mais correto explicitar o que aqui está oculto. A filosofia, como a Medicina, Engenharia, Direito ou Informática, também está envolvida com “problemas” ou “questões que demandam clarificação e/ou reposta”;

2. O conjunto de coisas com as quais a Filosofia se preocupa não pode mesmo, em sua maioria, ser reduzido aos conjuntos de outras áreas do saber. Isto por vários motivos, entre eles, que a Filosofia está se perguntando, na maioria das vezes, sobre os problemas mais fundamentais, ou seja, que estão no fundamento, mais ao fundo (ou mais “profundamente) inclusive das demais disciplinas;

3. Isto se materializa no que chamei acima de questão metodológica. Agora deve ficar óbvio que questões ou problemas que são fundamentos daqueles das outras áreas não podem ser analisados – ao menos não inteiramente – pelos métodos derivados das clarificações ou respostas das perguntas que a Filosofia se faz. Ela está em um momento (lógico, não cronológico) anterior aos das “ciências”, por exemplo;

4. Se a filosofia não pode – e nem quer – ajudar diretamente nos problemas amorosos, a ideia de fundo está, por sua vez, um pouco correta. A Filosofia preocupa-se sim, em seu escopo, com as questões ditas “existenciais”. Dito de outro modo, a Filosofia tem sim, como problema, a pergunta pelo SENTIDO, em suas mais diversas expressões (qual o sentido das proposições “A estrela da manhã é a primeira a aparecer” e “Vênus é o primeiro corpo celeste (para além do Sol) a ser visto no céu”. Têm elas o mesmo sentido, já que “Estrela da manhã” refere-se a “Vênus”? (Frege) ou “Qual o sentido de viver uma existência que se sabe finita? (Kierkegaard)) . Jamais um experimento de laboratório terá, como resultado, o significado e o impacto deste mesmo experimento na vida das pessoas e na história do mundo. Jamais um experimento com clonagem ou células-tronco fornecerá o JUÍZO DE VALOR (ou seja, se ele é bom ou ruim) acerca do que fazer com seus resultados. Isto é, por exemplo, um problema próprio da Filosofia (no caso, da reflexão filosófica sobre as ciências).

5. Mas nada disso significa que a Filosofia é um amontoado de simples “opiniões”. Primeiro porque opinião tem, na grande maioria das vezes, uma grande parcela do GOSTO do dono da opinião. Admitiríamos como verdade algo que um cientista dissesse, baseado simplesmente no seu GOSTO? Ou lhe pediríamos provas, argumentos, indícios? Com a Filosofia – que, em uma palavra, CRIOU o método científico – não acontece diferentes. O que os filósofos dizem DEVE ser visto como a tentativa de clarear um pouco um problema ou, se possível, resolvê-lo. uma terceira opção é mostrar que havia um problema onde achávamos que não havia (cf. o excelente livro de Mário Porta, A filosofia a partir de seus problemas). Desse modo, os filósofos também não admitem uma tese apresentada apenas como uma mera opinião. Ele deve conter argumentos que a sustentem.

6. Por fim, a nossa amiga ficaria surpresa ao saber que, entre as perguntas feitas pela filosofia, estão algumas como: Como é possível que conheçamos (coisas do mundo)? O que é, realmente, conhecer? O que é um conhecimento verdadeiro? Como devemos agir? Todas as nossas ações têm o mesmo valor e o mesmo sentido? O que é um valor? O que é o bem? Por que existem coisas ao invés de não existir nada? Por que chamamos pelo mesmo nome (por exemplo, “Homens” ou “Cadeiras”) indivíduos diferentes (eu, o Jonas e o Bruno ou a cadeira da minha casa e a cadeira do café da biblioteca)? Por que chamamos pelo mesmo nome coisas que mudam ao longo do tempo (Fernando bebê e Fernando com 18 anos)? O que é o tempo? O que é o espaço? O que é um número? Qual o fundamento da matemática? E da física? O que é a inteligência? Em que sentido dizemos que computadores são ‘inteligentes’? Perceba-se que, sem as respostas a algumas destas perguntas, as ciências simplesmente não existiriam.

Ou talvez, se um dia ela se interessasse por ler isto aqui, a moça com problemas amorosos não mais se surpreenderia. Mas talvez não existiria este post.

 

* Este post retira um pouco de sua motivação das perguntas e do interesse de Fernando A. Vicente, Rafael Dorneles, Bruno Duarte e Jonas Giehl.

O amor cristão

 

“O que Sócrates fala do amor ao feio é propriamente a doutrina cristã do amor ao próximo. O feio, com efeito, é o objeto da reflexão, portanto da ética, enquanto o belo é o objeto imediato, por isso aquele que todos nós queremos amar com o maior prazer. – Neste sentido, ‘o próximo’ é ‘o feio’.”

KIERKEGAARD, Papirer, VIII A, 189

O iluminado que desconhece a Luz–mais umas bobagens de Zizek

O excelente site da editoria de Ética e Religião da Australian Broadcast Corporation publicou, por esses dias, o texto do filósofo Slavoj Zizek que vai abaixo. Não resisto a fazer um comentário, longo, chato e necessário, parte a parte (em azul e negrito).

THE ONLY CHURCH THAT ILLUMINATES IS A BURNING CHURCH

A sentença utilizada como título, que será creditada a outro mais adiante no texto, já exibe o élan que move Zizek. O termo “radicalismo” – que por si não é bom nem ruim – utilizado já no primeiro parágrafo como explicitamente nocivo, justificar-se-ia quando se trata de queimar igrejas?

Why is theology emerging again as a point of reference for radical politics? It is emerging not in order to supply a divine "big other," guaranteeing the final success of our endeavours, but, on the contrary, as a token of our radical freedom, with no big other to rely on.

A Teologia não está emergindo novamente como ponto de referência tão somente porque, em primeiro lugar, ela jamais deixou de sê-lo. Vista abstratamente, a Teologia é uma cosmovisão tanto quanto o é – ou deseja ser – o marxismo ou o liberalismo. Desse modo, sua presença no debate político é, per se, justificada. O caso é que a pergunta tal como colocada, aliada ao adjetivo “radical” tomado pejorativamente, já veicula o que deveria provar, a saber, que é indesejável ter uma cosmovisão teológica como ponto de vista para a leitura, inclusive, da realidade política. E o fato de que ela parte de axiomas e pressupostos que não são compatilhados por todos não pode ser indicado como defeito a não ser sob o prejuízo da democracia que está alicerçada, justamente, no debate entre diferentes.

 

Fyodor Dostoevsky was aware of how God gives us freedom and responsibility – he is not a benevolent master steering us to safety, but one who reminds us that we are wholly unto ourselves.

Dostoiévski, se vivo estivesse, teria um dos seus recorrentes ataques epiléticos motivado aqui pela raiva extrema. Se há algo que o Deus cristão – portanto, o Deus de Dostoiévski, como bom cristão ortodoxo – aponta desde o início dos tempos é que a única coisa que irremediavelmente levará o homem à perdição é que ele deposite em si mesmo, “completamente”, suas esperanças; que se regozije em “estar por si mesmo”. De Santo Agostinho a Joseph Ratzinger, passando por São Tomás de Aquino e, especialmente, por Pascal e Kierkegaard, não há um só pensador cristão ou teólogo que não tenha frisado esta verdade fundamental da Revelação. Zizek não só dá mostras de seu ódio desmesurado a qualquer pensamento de matriz teológica, mas exibe seu mais completo desconhecimento do assunto sobre o qual fala (aliás, dos dois: teologia e Dostoiévski). Ao contrário do que pensa a turba imbecil, o pecado original consiste não na “mordida da maçã” (pasmem, Dawkins e demais beócios), mas na subversão da óbvia verdade que consiste no reconhecimento que não extraímos ou derivamos nossa existência de nós mesmos – o que Rahner e, primeiro, Schleiermacher, chamam de “criaturidade”. Desse modo, é claro que a concepção cristã – e ouso dizer, qualquer teologia um pouco sofisticada – é obrigada a conceber Deus como um “senhor benevolente dirigindo-nos para a salvação”. Caso contrário, somos entes insuficientes fadados ao fracasso.

 

The God that we get here is rather like the God from the old Bolshevik joke about a communist propagandist who, after his death, finds himself in hell, where he quickly convinces the guards to let him leave and go to heaven.

When the devil notices his absence, he pays a visit to God, demanding that He return to hell what belongs to Satan. However, as soon as he addresses God as "My Lord!" God interrupts him: "First, I am not ‘Lord’, but a comrade. Second, are you crazy, talking to fictions? I don’t exist! And third, be short – otherwise, I’ll miss my party cell meeting!"

This is the kind of God an authentic left needs: a God who wholly "became man" – a comrade among us, crucified together with two social outcasts – and who not only "doesn’t exist" but also himself knows this, accepting his erasure, entirely passing over into the love that binds members of the Holy Ghost (the party, the emancipatory collective).

Vou abster-me de comentar mais um patente desconhecimento de Zizek acerca do sentido último da Encarnação e ficar só no problema emergente do texto. Para além da piadinha ruim, surge uma pergunta óbvia: Deus que a esquerda precisa??? A “esquerda”  não precisa de Deus pelo simples fato de que confia em si mesma. De qualquer maneira, é especialmente curioso notar a proximidade entre a concepção de Zizek e aquela da assim chamada “Teologia da Libertação”, que nem é teologia e nem liberta. Mas há aqui outro aspecto a ser ressaltado: Zizek gosta de um Deus que “não existe” porque tal existência vai contra a infinita plasticidade do homem, pressuposto (claramente falso) de toda mentalidade revolucionária.

 

Catholicism is often designated as a compromise between "pure" Christianity and paganism – but what, then, is Christianity at the level of its notion? Protestantism? No. One should take a further step here: the only Christianity at the level of its notion, which draws all the consequences from its basic event – the death of God – is atheism.

Perceba a transição injustificada “teologia” > “Deus” > “Catolicismo/Cristianismo”. A estultice de Zizek não conhece limites. A questão pelo “cristianismo puro” contém tantos problemas que é melhor deixar pra lá. Mas nenhum destes inumeráveis problemas é tão ruim quanto os pressupostos que movem o questionamento em si. De Nietzsche (filósofo e pensador colossal, que se diga) a Zizek, passando obviamente por Lutero, a questão pela manipulação ou destruição do Cristianismo em seu estado virginal por seus “intérpretes” ou “propagadores” esquece que o próprio Cristo (oh!) sabia ser essencialmente histórico. E sabia, como disse Chesterton, que confiava em insuficientes, fracos, ignorantes e pecadores renitentes, ou seja, em homens comuns, como eu e você. A pergunta por um Cristiansimo puro ignora que ele só existe em fusão com a história, mas que não se reduz a ela. Prova da estupidez de Zizek é que ele “deixa de fora” o fato fundamental do Cristianismo, a saber, a Ressurreição, que mostra justamente que a história, o pecado, a fraqueza, a insuficiência e a morte não são a última palavra quando se fala de Cristianismo (inclusive o “puro”…)

 

The Spanish anarchist Buenaventura Durutti said: "The only church that illuminates is a burning church." He was right, though not in the anti-clerical sense his remark was intended to have. Religion only arrives at its truth through its self-cancellation.

In "The Intellectual Beast Is Dangerous," Bertolt Brecht asserts: "A beast is something strong, terrible, devastating; the word emits a barbarous sound." Surprisingly, he writes: "The key question, in fact, is this: how can we become beasts, beasts in such a sense that the fascists will fear for their domination?"

São Tomás de Aquino e São Irineu de Lion disseram: “Quem não crer em Jesus Cristo será condenado”. E? Oferecer citações de um “anarquista” e de um “comunista” (ou seja, não-cristãos) é fornecer matéria de discussão ou argumento? E por que a religião só chega a sua verdade por meio de sua auto-aniquilação? Esta última frase é tão de efeito – e tão sem efeito argumentativo – quanto as anteriores.

 

It is thus clear that, for Brecht, this question designates a positive task, not the usual lament on how Germans, such a highly cultured people, could have turned into the Nazi beasts. "We have to understand that goodness must also be able to injure – to injure savagery." It is only against this background that we can formulate the gap that separates oriental wisdom from Christian emancipatory logic.

The oriental or Buddhist logic accepts the primordial void or chaos as the ultimate reality and, paradoxically, for this very reason, prefers organic social order with each element in its proper place. At the very core of Christianity, there is a vastly different project: that of a destructive negativity, which does not end in a chaotic void but reverts (and organises itself) into a new order, imposing it on to reality.

Neste ponto, devo dizer, sou levado não só a duvidar da inteligência, mas do caráter e, até mesmo, da sanidade de Zizek. Dois pontos são importantes aqui:

(a) Se Zizek, ao invés de escrever bobagens, estudasse, ele saberia que, desde Platão, uma “ordem social com cada elemento em seu próprio lugar”  só pode ser fruto de uma cosmovisão que contemple, por sua vez, uma disposição hierárquica também no universo como um todo. Era só ler a República. Contudo, se ele não gosta de ler essas coisas antigas e ultrapassadas, era só “olhar” para qualquer igreja cristã, para não falar da Igreja Católica. Se há uma coisa que o Cristianismo legou ao século é o dado incontornável que as coisas devem ter o seu lugar. Só ignorando completamente qualquer vírgula do que assunto que fala é que Zizek pode predicar “negatividade destrutiva” ao Cristianismo que pasmem novamente, define-se exatamente pelo seu caráter eternamente criador, fazendo e refazendo novas todas as coisas.

(b) Se Zizek, ao invés de escrever bobagens, estudasse, ele saberia que do caos sozinho não surge ordem alguma. Mas há aqui, novamente, aquele cacoete típico de sua visão deturpada do real. Ele adoraria que o universo fosse caótico para, em nome da visão iluminada que tem acerca de como seria o mundo ideal, ele o ordenasse segundo seu torpe prazer. Por isso a insistência num Deus que “não exista” e num “caos ou vazio primordial”: para que ele – Zizek – o preencha. Talvez seja por isso que ele tem tanto problema com a ideia de uma “imposição” de uma ordem; se não for ele a impô-la, não pode ser mais ninguém.

O que se segue é uma tentativa de derivar desta caracterização bizarra do que seja o cristianismo um tipo de visão que mostra a identidade profunda entre o comunismo e o cristianismo em sua mais depurada expressão. Ou seja, o amor cristão é subsumido pelo magnânimo projeto de um mundo onde todos são igualmente irmãos sem um pai.

Confesso que já me cansou. Paro por aqui.

For this reason, Christianity is anti-wisdom: wisdom tells us that our efforts are in vain, that everything ends in chaos, while Christianity madly insists on the impossible. Love, especially a Christian one, is definitely not wise. This is why Paul said: "I will destroy the wisdom of the wise" ("Sapientiam sapientum perdam," as his saying is usually known in Latin).

We should take the term "wisdom" literally here: it is wisdom (in the sense of "realistic" acceptance of the way things are) that Paul is challenging, not knowledge as such. With regard to social order, this means that the authentic Christian tradition rejects the wisdom that the hierarchic order is our fate, that all attempts to mess with it and create another egalitarian order have to end up in destructive horror.

Agape as political love means that unconditional, egalitarian love for one’s neighbour can serve as the foundation for a new order. The form of appearance of this love is what we might also call the idea of communism: the urge to realise an egalitarian social order of solidarity.

Love is the force of this universal link that, in an emancipatory collective, connects people directly, in their singularity, bypassing their particular positions in a social hierarchy.

Indeed, Dostoevsky was right when he wrote: "The socialist who is a Christian is more to be dreaded than a socialist who is an atheist" – yes, dreaded by his or her enemies.

It was St Paul who provided a surprisingly relevant definition of the emancipatory struggle: "For our struggle is not against flesh and blood, but against leaders, against authorities, against the world rulers [kosmokratoras] of this darkness, against the spiritual wickedness in the heavens" (Ephesians 6:12).

Or, translated into today’s language: "Our struggle is not against concrete, corrupted individuals, but against those in power in general, against their authority, against the global order and the ideological mystification that sustains it."

One should resolutely reject the liberal-victimist ideology that reduces politics to avoiding the worst, to renouncing all positive projects and pursuing the least bad option.

As Arthur Feldmann, a Viennese-Jewish writer, bitterly noted, the price we usually pay for survival is our life.

Slavoj Zizek is the International Director of the Birkbeck Institute for the Humanities, University of London, and one of the world’s most influential public intellectuals. His most recent book is Living in the End Times (Verso, 2010).

Slavoj Zizek é diretor de um instituto do qual, como se vê, deve-se passar longe professor de uma universidade que acaba de cair no meu conceito. E faz o mesmo com os conceitos de “intelectual” e de “mundo”. Se bem que deste último, não ando esperando mesmo muita coisa.

“Grandes linhas” da história da filosofia

 

Em uma recente resenha no suplemento literário do The Times, Anthony Kenny, autor de diversos livros brilhantes sobre uma gama bastante grande de filósofos e períodos, todos tratados com competência e clareza e, recentemente, autor de uma excelente história da filosofia, traça um “voo panorâmico” sobre a história da filosofia. Obviamente o trecho está pontuado de diversas ironias. O curioso é que conheço pessoas que defendem concepções opostas e que corroborariam as “grandes linhas” abaixo. Deliciem-se:

 

[P]hilosophy was started in the ancient world by Plato and Aristotle, who were not bad philosophers considering how long ago they lived. Once the Western world became Christian, however, philosophy went into hibernation for many centuries, and saw as its only task to write footnotes to Aristotle. Some of the scholastic philosophers of the Middle Ages were clever chaps, but they wasted their talents on logical quibbles and pettifogging distinctions. It was only when Aristotle’s metaphysics was thrown over in the Renaissance that philosophy got into its stride again, and renewed its connection with scientific inquiry. Descartes showed that the way to understand the material universe was to treat it as a conglomeration of purposeless material objects operating according to blind laws: there was no need for Aristotle’s final causes. While Descartes was a rationalist, a succession of philosophers writing in English, from Hobbes to Hume, showed that it was sensory experience, not reason, that was the basis of all our knowledge. Kant and his German Idealist followers introduced a degree of obfuscation into philosophy, from which Continental philosophy has never totally recovered. But in Britain and America in the twentieth century, philosophy re-emerged into the daylight with the logical empiricism of brilliant minds like A.J. Ayer.

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